feijãoQuando guardados há muito tempo (anos mesmo) ou simplesmente mal acondicionados, os feijões podem demorar tempo a mais a cozer. Mas há soluções.

A menos aconselhável é a adição de bicabornato de sódio -- meia colher de chá por cada quilo --, porque faz o feijão perder a Tiamina, uma vitamina do complexo B. O bicabornato de sódio tem uma ação de deterioração da pectina contida no feijão. Funciona, no entanto.

Mas o método mais saudável passa por demolhar o feijão como de costume (no mínimo 8 horas), cozê-lo, congelar, descongelar e depois terminar a cozedura. Se não houver tempo, fervê-lo durante 2 minutos, deixar de molho durante 1 hora, cozê-lo e só então congelá-lo. A congelação e posterior descongelação quebra as paredes das células sem que haja perda de vitaminas.

Cozer em panela de pressão também funciona, se bem que seja necessário mais tempo que o feijão novo.

Se estes métodos não funcionarem devido à extrema idade do feijão, não vale a pena deitá-lo fora: pode sempre moê-lo e transformá-lo em farinha,que pode ser adicionada a diferentes pratos. 

 

 


Carreiro da Costa, 1957

tinturariaRemonta aos primeiros decénios de vida insular, a prática dos vários processos de tinturaria caseira, servida por elementos vegetais. Tais processos encontram-se de tal modo ligados à tecnologia rural da tecelagem nos Açores, que o estudo desta não ficará completo sem a enumeração daqueles. São muitas as plantas, existentes no Arquipélago dos Açores, que têm sido usadas na tinturaria popular.

Uma das mais antigas, que se conhecem é sem dúvida, a planta do pastel (Isatis Tinctoria, Lin.). A exploração desta planta constituiu uma das principais fontes de riqueza dos Açores, durante, aproximadamente, os dois primeiros séculos de vida insular.

Todo o arquipélago, por essa época, vivia quase exclusivamente para tal cultura e para a do trigo. E não só para a cultura do pastel; sim, também para a subsequente indústria, promovendo, o mesmo pastel, depois de granado e exportado, a vinda de muito dinheiro para estas terras. O produto final do pastel dava um azul muito fino e sólido, apreciadíssimo na Flandres.

Igualmente usada na tinturaria, logo no século XV, era, nos Açores, a urzela (Rocella Tinctoria, Ach.) — líquen que dá com muita abundância nas rochas açorianas. O seu comércio era do mesmo modo muito importante. Ainda no século XIX, conforme poderemos depreender dos livros do Cap. Boid, dos irmãos Bullar’s e de vários cientistas como Drouet e Morelet, a busca da urzela, nas várias ilhas dos Açores, e a sua exportação para a Inglaterra, eram actividades sobremodo rendosas.

A urzela dava um castanho muito apreciado e era tida como coisa de muito valor para os estrangeiros. Noutros tempos, como ainda agora nos nossos dias, a sua colheita era muito arriscada e fazia-se com o auxílio de cordas, por meio das quais os homens desciam as perigosas rochas, a pique, situadas à beira-mar das nossas ilhas.

Mas não eram só estas duas espécies que se aplicavam outrora na tinturaria popular, nos Açores. Havia, por exemplo, também a ruiva ou ruivinha (Rúbia Tinctorum, Lin.) que dava o vermelho. Supomos que se trata da mesma planta a que se refere o famoso Dr. Monetarius quando este, no seu “Itinerarium sive peregrinatio”, escreve que os açorianos tiram também «o maior proveito do azarcão — planta que dá tinta vermelha, isto é, o Waid com que se tingem os panos». O sumagre era importado, noutros tempos, do Continente, especialmente de Lamego.

Feito este ligeiro preâmbulo, tão somente para se ajuizar da antiguidade e da importância económica que tiveram certas plantas tintureiras nos Açores, passaremos agora a referir o modo como nalgumas ilhas — sobretudo em S. Miguel e na Terceira — se tem obtido as mais variadas cores, por meio da chamada tinturaria vegetal, recorrendo para tal não só a alguns apontamentos colhidos por nós, directamente, como ainda aos elementos contidos em trabalhos dos falecidos etnógrafos Dr. Luís Bernardo Leite de Athayde (Etnografia Artística, P. Delgada, 1918), Dr. Luís da Silva Ribeiro (in Açoriana, vol. I, Angra, 1935) e também o investigador terceirense P.e Inocêncio Enes (in Boletim do I. H. da I. Terceira, vol. IX, Angra, 1951). Passaremos a referir os vários processos de coloração indicando as cores por ordem alfabética, para melhor ordenação dos elementos.

AMARELO — De um modo geral, em todas as ilhas açorianas, esta cor é obtida com o auxílio da flor de uma erva espontânea, anual, que vegeta nos caminhos, nas pastagens e, principalmente, nas restevas do trigo — planta conhecida pelos nomes de lírio dos tintureiros e lírio das searas (Reseda Luteola, Lin.).

As fervuras obedecem aos mesmos preceitos estabelecidos para a obtenção do vermelho (vid. adiante), com algumas diferenças de região para região. Assim, na zona leste de S. Miguel, esta cor é conseguida não propriamente com a flor daquele lírio mas com troços da planta, picados. No vale das Furnas, as flores são metidas na água quando está já a ferver.

Quando, de novo, a água levantar fervura, põe-se a lã, já cardada, a qual ferve até tomar cor. Seguidamente, retira-se a lã da panela e põe-se a escorrer. Uma operação complementar para a fixação da cor, consiste em colocar-se a lã, depois de escorrida, num alguidar com água coada ou “sanrada” onde se tenha dissolvido pedra-hume. A lã, aí mergulhada é imediatamente abafada até que a água arrefeça.

Dão o nome de água coada ou sanrada àquela que se ferve, tendo dentro uma boneca de pano com cinza.


Na ilha Terceira conhecem-se as seguintes variantes:
a) Ferve-se uma quarta de alqueire (3,3 litros) da flor do lírio por cada libra de lã a tingir e que se mergulha num litro do cozimento, enquanto se ferve noutra panela meia quarta de cinza de faia (Myrica Faia, Dry.) ou giesta (Sparteum Junceum, Lin) com pedra-hume — para meter a lã, depois de molhada no cozimento de lírio, feito o que se lava em água limpa e se põe a secar (L. Ribeiro).
b) «Ferve-se a flor do lírio durante cerca de quatro horas até a água ficar amarela; coa-se, torna-se a levar ao lume com pequena porção de pedra-hume. Quando está a ferver, mete-se a lã no líquido e continua-se a ferver durante duas horas. Faz-se água de barrela com bastante cinza, coa-se por um pano bem tapado e mete-se, na água da barrela, a lã ; depois de retirada da tinta, abafa-se e deixa-se estar fora do lume por espaço de uma hora; tira-se então a lã e lava-se em água limpa. Para tingir cada libra de lã é preciso um alqueire de flor» (P.e Inocêncio Enes).

AMARELO CLARO Em todas as ilhas este amarelo é obtido por meio de cascas de cebola secas (Allium Cepa, Lin.). Fervem-se a cascas, conjuntamente com a lã, durante o espaço de duas horas, variando a porção das mesmas cascas, segundo o amarelo mais ou menos carregado que se deseja.

AMARELO OCRE — Esta tonalidade de amarelo, quase castanho, é obtido com a urzela a que acima nos referimos. Em S. Miguel, sobretudo na região da Bretanha, machucam o líquen num tacho com água e pedra hume, fervendo-se depois a lã nesse cozimento. O tempo desta fervura varia consoante a tonalidade que se pretende conseguir.

Se se quiser uma tonalidade escura, deverá ferver com uma porção de fuligem de chaminé metida numa boneca de pano. Na ilha Terceira, freguesia dos Altares, «deita-se a lã em água fria com a urzela e põe-se ao lume. Enquanto se pode aguentar o calor, vai esfregando à mão a lã com a urzela.

Depois de estar a ferver, observa-se a tinta e tira-se do lume quando tem a cor desejada, porque quanto mais ferve mais escura fica. Não se adiciona pedra hume nem se usa barrela. Para cada libra de lã, é preciso um alqueire de urzela» (P.e Inocêncio Enes).

AZUL — Para conseguirem esta cor, os açorianos recorrem a uma droga importada, certamente porque o pastel desapareceu dos campos destas ilhas. Essa droga é o anil ou pedra azul da loja — como também lhe chamam.

Em S. Miguel, o azul é obtido, preparando-se previamente um líquido formado por urina em decomposição, por um pouco de aguardente e pelo referido anil. Aí se mergulha a lã por cerca de quinze dias. Passado este tempo, a lã é arejada, repetindo-se, porém, esse banho quatro ou cinco vezes.

Decorridos, finalmente, outros quinze dias, lava-se e seca-se. «Ao fim de dez dias, dá-se ar e é preciso que ninguém de fora a veja para evitar o mau olhado, e só se deve mexer com ela passados cinco dias da lua nova» (Luís Bernardo).

Na ilha Terceira, para se tingir a lã por meio do anil, mete-se a lã de infusão em urina nos tintureiros (bacias da noite), secando-se seguidamente no forno. (Luís Ribeiro).

BEJE — Para obtenção desta cor, usam, na Terceira, a casca do pinheiro (Pinus Marítima), recorrendo-se ao mesmo processo da aplicação da urzela para o amarelo-ocre. A panela, porém, terá que ser de lata ou de ferro esmaltado (P.e Inocêncio Enes).

CAFÉ — A cor com esta tonalidade é obtida na ilha de S. Miguel preparando-se, antes do mais uma porção de água, com cascas de raiz de sabugueiro (Sambuscus niger, Lin.) ou ginja pisada (Prunus Cesarus, Lin.).

Nessa água colocam-se depois a lã, o algodão ou o linho que se pretende corar. Essa imersão dura nove dias, durante os quais se deve mexer bem. Caso se deseje abreviar o tingimento, pode ferver-se durante uma hora. Na Terceira, a cor de café com leite, é obtida com a casca de cebola fervida em chá preto.

CASTANHO — Para esta cor, recorre-se, como se viu à urzela. No entanto, na ilha de S. Miguel, emprega-se o cozimento de cascas de faia ou de castanheiro, (Castanea Sativa, Mill.) enquanto na Terceira, se utiliza também o cozimento de folhas de nogueira (Juglans régia, Lin.) com sal.

Nesta mesma ilha usam, para um castanho mais claro a casca da nogueira ou do sanguinho (Rhamus Satifolia, L’Herit) e, ainda, a folha do tabaco. Quanto a este último processo, «ferve-se a folha do tabaco com a lã, na razão de 250 gramas por libra desta, durante o tempo preciso para tomar a cor desejada, pois quanto mais ferve mais escura se torna».

CINZENTO — Tanto em S. Miguel como na Terceira, obtêm-no com cascas de eucalipto (Eucaliptus Globulus, Labill.), para o cinzento mais claro, e com cascas de cedro (Juniperus brevifolia, Lin.,) para o mais escuro ou avermelhado, fervendo-se as cascas durante quatro a cinco horas. Coada essa água, põe-se a mesma de novo a ferver com a lã, cerca uma hora.

PRETO — Em S. Miguel são conhecidos dois processos de obtenção de preto. O primeiro consiste no modo de obtenção do azul, empregando-se porém, a lã escura em vez de branca. O segundo resume-se no seguinte: «Deitam-se as vagens de favas de molho, durante um dia, em água fria; depois essas cascas vão a ferver durante duas horas; terminada a fervura são tiradas da água. A esta adiciona-se um pouco de sal, capa-rosa e verdete. Segue-se nova fervura e só então se junta a lã das ovelhas (lã escura), que ferve até ficar bem preta. Finalmente, seca-se ao sol» (Luís Bernardo).

Na ilha Terceira, o preto tem sido obtido, desde sempre, por vários modos e por meio não só das vagens de fava (Vicia Faba, Lin.), mas ainda com a casca da faia e os olhos da silva (Rubus Ulmifolius, Lin.) e da amoreira (Morus Nigra, Lin.) e o trigo queimado (Luís Ribeiro).

O emprego das cascas da faia consiste em deitarem-se estas «de molho durante dois dias, findos os quais se fervem cerca de oito horas; coa-se e põe-se de novo ao lume. Quando ferve a segunda vez, deita-se pedra-hume e capa-rosa e deixa-se ferver meia hora. Mete-se depois a lã na tinta e ferve-se duas horas» (P.e Inocêncio Enes).

VERDE — Na ilha de S. Miguel obtêm, no geral, a cor verde pondo a lã já tinta de azul no banho como se fosse para conseguir o amarelo. Da combinação do azul com o amarelo resulta naturalmente o verde. Todavia, na ilha Terceira empregam a casca da nogueira (para o caso do verde-seco) e a rama da urze (Érica Azorica, Hochst.).

Neste último caso, ferve-se a rama da urze durante quatro horas, coa-se, torna-se a pôr ao lume e, quando está a ferver, mete-se a lã que ferve durante cerca de uma hora. Para cada libra de lã é preciso um alqueire de rama bem calcada» (P.e Inocêncio Enes);

VERMELHO — É a cor mais frequentemente empregada e que goza de grande preferência nos meios rurais micaelenses. Para a sua obtenção, a ruiva ou ruivinha, a que nos referimos, é a planta mais empregada em todos os Açores, certamente porque as suas raízes contêm uma substância particular, chamada alizarina à qual deve as suas propriedades tintureiras, produzindo um vermelho muito sólido.

Em S. Miguel, porém, recorrem também à casca da faia e ainda às cascas das raízes da rapa-língua ou raspa-lingua (Rúbia Peregrina, Lin.). O processo utilizado quanto a estas últimas consiste no seguinte: «as cascas, depois de bem lavadas são pisadas em um gral, cozem juntamente com a lã branca e logo que se note a fervura, tiram-se do lume, vindo então já levemente corada; segue-se, depois uma secagem ao sol.

Procede-se a mais duas cozeduras com a casca da mesma planta e assim se aviva a cor, devendo haver o cuidado de não deixar ferver demasiadamente para que não escureça em excesso. Deita-se, também, erva azedinha (Rvimex Angioscarpus, Murb.) para fixar mais a cor. Por fim, a lã é passada por água» (Luís Bernardo). O vermelho arroxeado, cor do vinho, é obtido na Terceira com um líquen chamado urzelina (Luís Ribeiro).

 

Estes, os mais característicos processos de coloração por meio de elementos vegetais, usados ainda agora nalgumas ilhas açorianas pelas tecedeiras rurais. Deles resultam sempre nos tecidos saídos dos velhos teares, as mais originais combinações, pois que, de uma maneira geral, em todos os trabalhos, as cores casam-se admiravelmente.

São por demais curiosas as mantas utilizadas pelas populações rurais açorianas, cujas barras apresentam por vezes manchas de cores fortes que dizem bem com o restante do pano. As colchas de Água de Pau (S. Miguel) muito conhecidas pelo seu enxadrezado miúdo dão-nos conjuntos dos mais vistosos, umas vezes combinando-se o amarelo com o vermelho, outras o azul ou o vermelho com o branco e outras ainda o preto com o vermelho e o branco.

Do mesmo modo se apresentam as mantas regionais terceirenses, nalguns pormenores, idênticas às de Água de Pau, mas, no geral, semelhantes às de S. Jorge, com desenhos muito originais de estilizações de flores, vasos, estrelas e rosetas. Estas de S. Jorge mostram-se, porém, mais garridas do que as da Terceira.

Muito açorianas pela natureza do tecido e pelo tingimento que lhes dão, costumam ser as estamenhas regionais com que os lavradores e muito boa gente das vilas e cidades fazem os seus fatos. As cores habituais das estamenhas são o castanho, o preto, o cinzento e o azul — todas elas de vários tons.
Igualmente o são os barretes dos pastores (de S. Miguel), em forma de boca de sino — barretes que com a sua grande bola na ponta, e o seu riscado garrido, emprestam ao trajo local uma das mais surpreendentes notas. É uma tradição açoriana que se mantém e perpetua, que resiste ainda às modas vindas de fora.

 

Carreiro da Costa, 1945

De entre os problemas económicos em equação no arquipélago dos Açores, o da sericicultura é dos que mais tem apaixonado aqueles que, no decorrer dos tempos, vêm pugnando pela criação de novas fontes de riqueza para estas ilhas.

O estudioso que se debruçar sobre os livros antigos destas ilhas, verificará que a questão da criação do sirgo (bicho da seda) e da plantação intensiva das amoreiras foi objecto em todos os tempos de grande atenção por parte de quem governava.amoreira

Já no século XVI, na ilha de Santa Maria, havia «terras de pão... com muitas árvores de fruto, figueiras e amoreiras»—(Fructuoso, Saudades da Terra, Liv.° III, 58). No início do século XVII, em Dezembro de 1602, o Corregedor Leornardo da’Cunha; ao proceder em Vila Franca do Campo à sua segunda correição, notou que os vereadores não haviam cumprido «o capítulo da correição passada no particular na plantação das árvores, pelo que mandou aos oficiais da Câmara...

Que nos montes baldios, nos termos desta vila façam plantar pinhais e os façam defender e guardar em maneira que se possam bem criar, e que nos logares que não forem para pinhais façam plantar castanheiros, amoreiras e quaisquer outras árvores que nas ditas terras se poderem criar, como são nogueiras e larangeiras...)»

(Mendonça Dias, A Vila, V. Franca do Campo, 1927, vol. VI, pág.81).

Nos meados do mesmo século, o Estado era de tal modo exigente na plantação de árvores que, sobre a amoreira a que ao tempo chamavam a «rica árvore» tão necessária ao fabrico da seda, chegou a publicar-se um «Regimento para a cultura da seda e criação dos bichos e cultura da amoreira».

Em 1691, o Corregedor de Angra determinava que se continuasse o plantio das amoreiras, segundo a forma indicada nas Ordenações do Reino, mandando ao mesmo tempo que todo o lavrador que possuísse terreno conveniente para este plantio colocasse na terra todos os anos, nos meses de Novembro e Dezembro, doze estacas grossas e que todos os anos as Câmaras procedessem a vistorias por intermédio dos escrivões pedâneos os quais organizariam livros de registos.

Em 1719 e 1720, um tronco de amoreira, na ilha de S. Jorge, valia 2$500 e 3$000— o que era um preço muito apreciável em relação ao pinheiro, que era baratíssimo. No século XVIII poderemos facilmente ajuizar do movimento pró-amoreiras, se compulsarmos as colecções de jornais desse tempo, especialmente «O Agricultor Micaelense» da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense.


 

De entre os açorianos que nos últimos anos muito pugnaram pela solução do problema da sericicultura, destacaremos os nomes do Coronel Linhares de Lima e do falecido Comendador Jaime Hintze, o primeiro como Ministro da Agricultura que promoveu a publicação do decreto n.° 18.604 de 12 de Julho de 1930; o segundo como agricultor e industrial que, na sua conhecida granja da «Gorreana», muito trabalhou em sua vida para que a cultura do sirgo e a indústria da seda se alicerçassem em S. Miguel por forma a constituírem, de futuro, uma importante fonte de receita para a respectiva economia rural.bicho de seda2

A publicação daquele importante diploma, conquanto se destinasse quase exclusivamente ao Continente, não deixou de ter reflexos nos Açores, onde as Juntas Gerais dos respectivos distritos desde logo promoveram a intensificação da cultura da amoreira.

O pequeno relatório que antecede o referido decreto cuja iniciativa se deveu ao Governo de que fazia parte o ilustre picoense Coronel Linhares de Lima, reconhece que sendo a indústria sericícola antiga e tradicional no País, como tal tem sido em diversas ocasiões, relativamente frequentes, objecto das atenções do Estado.

«Nem sempre, porém e completamente cobertas de êxito, por circunstâncias intrínsecas, derivado da própria natureza do seu exercício e, principalmente, talvez pela falta de perseverança e de continuidade nas medidas adoptadas».

«Persiste, no entanto, ainda agora, — diz-se no mesmo relatório — como indústria agrícola doméstica, susceptível, quando bem exercida, de resultados remuneradores para as populações rurais, como pode e deve tornar-se um factor importante para melhoramento da situação económica portuguesa desde que se congreguem e resultem profícuos os esforços tendentes a suster ou, quando muito a diminuir a importação de matéria prima da indústria renascente de fiação e tecelagem da Seda».

No conjunto de medidas preconizadas pelo decreto a que nos reportamos e que bom seria se, em toda a sua extensão, se pusesse em vigor nos Açores, encontram-se várias e importantes disposições:

umas referentes à protecção à cultura da amoreira e à sericicultura; outras fomentando a organização de associações sericicolas;

outras ainda prevendo a protecção oficial à indústria de fiação de sedas;

outras finalmente criando organismos de estudos e de investigação tendentes ao desenvolvimento da sericicultura e da sericitécnica.

Relativamente ao problema circunscrito aos Açores, designadamente à ilha de S. Miguel, cabe-nos evocar o nome já acima mencionado do Comendador Jaime Hintze – micaelense há pouco falecido e que por tanto haver pugnado pela causa agrícola e industrial desta ilha é por nós considerado como um exemplo digno de ser imitado por quantos vêem na agricultura a única e verdadeira fonte de riqueza da ilha de S. Miguel.

A comunicação apresentada por aquele antigo governador do Distrito de Ponta Delgada ao I Congresso Açoriano, realizado em Lisboa no mês de Maio do ano de 1938, é um documento que tem muito interesse já por nos dar uma idéia geral do problema da sericultura quanto ao nosso País, quer por situar o caso micaelense nos índices do mesmo, quer ainda por nos evocar a série de experiências até então levadas a efeito na sua aludida granja, sob a orientação técnica dos Serviços Agronómicos da Junta Geral do Distrito, que só na Gorreana plantou no outono de 1928, duzentas amoreiras da variedade Moretti — o que lhe permitiu chegar a algumas importantes conclusões e propor algumas medidas atinentes ao estudo circunstanciado do problema em causa e sua resolução definitiva.

Ao dissertar sobre o desenvolvimento da amoreira e depois de se haver apoiado no que a tal respeito afirmara o sericicultor Graça da Cruz, quanto ao que se passava em vários países europeus, nomeadamente em Portugal, escrevia Jaime Hintze em 1938:

«Em São Miguel, com um clima e terrenos que para a vegetação, crescimento e desenvolvimento da amoreira são, sem dúvida, privilegiadíssimos e que logram fazer produzir duas e mesmo três colheitas por ano de folhas de amoreira, o incremento de tal cultura será positivamente assombroso. Temos que considerar ainda que a nossa água não é calcárea.

Este pormenor é importante, porque é sabido que a água que contém cal não se presta à extracção do fio do casulo—dificultando e até impossibilitando o desenrolamento do mesmo fio.

É por isso que se emprega água da chuva colhida em depósitos ou distilada, com dispêndio e incómodos consideráveis, nos meios onde só existe água calcárea, que são muitos ou quase todos os que exploram a sericicultura. Ninguém ignora quanto a humidade do clima, o sistema de chuvas, a constituição do terreno e as demais circunstâncias da ilha influirão no desenvolvimento exuberante das plantas que alimentam o bicho da seda.

«Eu mesmo fiz experiência na Gorreana, neste caso simplesmente para ver de quanto era capaz, quanto à cultura da amoreira, o terreno de São Miguel, e obtive três colheitas. A amoreira vegeta de tal forma que poderá facilmente dar quantidades de folhas desde o mês de Abril a Setembro e o bastante para que se possam criar três culturas de sirgo, o que é muito importante. A planta em três anos está já em plena produção».


 

O alcance económico da sericicultura, como indústria caseira, era entrevisto por Jaime Hintze na referida comunicação da seguinte maneira:

«A sericicultura, é uma indústria caseira, o que tem demonstrado várias tentativas infrutíferas quando se desejou industrializar a educação do bicho da seda. Até isso convém, pois espalha-se a cultura por toda a parte, indo a remuneração a todos os recantos da ilha.

Seria ela uma forma de contrabalançar a falta de emigração que se vem notando na Ilha de São Miguel, em face do crescimento constante da sua população. Não esqueçamos que só São Miguel tem aproximadamente e a multiplicar-se sempre, cerca de metade da população das nove ilhas.bicho de seda

Outro aspecto da questão e que importa à economia, à moral e até à saúde pública, é o facto de a sericicultura ser indústria perfeitatamente caseira.

Assim, há serviços, como recolha de folhas e tantos outros, que são leves e nada anti-higiénicos, a que até as crianças se podem dedicar, sem inconvenientes, antes sim com ajuda para a economia pobre dos pais. 

As mulheres podem também, até sem abandonarem o lar, dar o seu valioso e numeroso concurso para a produção do sirgo e dos casulos, sem ficarem sujeitas à insalubridade das grandes fábricas e aos perigos morais a que se expõem em tais fábricas, tudo tão digno de condenação dos tratadistas modernos de economia, que sejam moral e humanitariamente mais bem orientados.»

Mas a solução que Jaime Hindze propunha para o problema serícícola micaelense estava integrada num conjunto de organismos técnicos que ele idealizava ver criado no distrito de Ponta Delgada, nos capítulos da agricultura e da pecuária, que compreendia serviços laboratoriais e campos de experiências devidamente apetrechados, divisão da ilha de S. Miguel em zonas de exploração perfeitamente distintas e realização de uma série de estudos tendentes à colocação dos produtos obtidos.

Era um conjunto de realizações de tal maneira amplo que jamais poderá ser objecto de tratamento, dado o muito que antes do mais se precisa fazer nos referidos capítulos agrícola e pecuário e, muito particularmente, no tocante às indústrias caseiras, algumas das quais, pelo seu cunho tradicional, terão de ser reconduzidas ao seu primitivo desenvolvimento.

No entanto, pelo que sabemos da questão sericícola, propriamente dita, enquadrada no plano geral do fomento agro-pecuário do arquipélago, a Junta Geral do Distrito Autónomo de Ponta Delgada no desejo de ver o problema encaminhar-se para o campo da prática, vem estabelecendo desde há anos a esta parte alguns viveiros de amoreiras, a cargo da respectiva Estação Agrária e promovendo a plantação destas nas estradas e demais recintos onde a técnica e o turismo o tem aconselhado.

Estas medidas só por si já muito ajudariam a resolver o problema, mas aquele corpo administrativo, consciente ainda do alcance económico da sericicultura, ainda agora, de acordo com a Direcção Geral dos Serviços Agrícolas, acaba de prever uma série de trabalhos relativos ao seu estudo definitivo, sob o ponto de vista técnico e prático, atribuindo tal especialidade ao Posto Agrícola da Ribeira Grande, em vésperas de conclusão, e em cujo conjunto de construções foi edificada uma sirgaria com todos os requisitos que a técnica moderna mais recomenda.

Campo de estudo e de acção, por parte dos técnicos que tiverem a seu cargo a direcção daquele posto agrícola, cujo funcionamento deve iniciar-se por todo o ano de 1946 e, simultaneamente, local de observação e de consulta, por parte de quem deseje cuidar da cultura do bicho da seda, entre nós, a sirgaria do Posto Agrícola da Ribeira Grande é, certamente, o primeiro passo que mais directamente dá um corpo administrativo insular no sentido da solução mais adequada para o problema de sericicultura nos Açores. ,


Nos Açores temos nota da existência das duas espécies: a Morus nigra, L, que é boa sobretudo para o consumo dos frutos, de sabor mais acentuado e maiores; e a “Amoreira branca”, Morus alba, L, a preferida para o bicho-da-seda. Encontram-se em muitas estradas de praticamente todas a ilhas. Embora existam várias espécies comerciais de bichos da seda, Bombyx mori é o mais utilizado e estudado.

De acordo com os textos de Confúcio, a descoberta da produção de seda data de cerca de 2700 aC , embora os registos arqueológicos apontem para o período Yangshao (5000-3000 aC). A sericicultura é uma das indústrias caseiras mais importantes em países como a China, Japão, Índia, Coréia, Brasil, Rússia, Itália e França. A China e a Índia são os dois principais produtores, responsáveis por cerca de 60% da produção mundial.

As larvas de bicho da seda são alimentadas pelas folhas da amoreira. Durante 40 dias comem sem parar e após a quarta metamorfose sobem por um galho e tecem os casulos de seda, feitos com fios de muitos metros de comprimento em redor do seu corpo fazendo movimentos geométricos em forma de número 8 até que todo o líquido que forma o fio termine. Isso passa-se no espaço de três dias. Depois, num período de três semanas, nasce uma borboleta branca.

Para se obter os fios de seda é preciso mergulhar os casulos em água quente para amolecê-los e retirar deles uma espécie de goma que os faz ficar presos uns aos outros. Uma vez encontradas as pontas dos fios, os casulos são desenrolados e fiados numa roda formando meadas, que depois são lavadas em água quente, batidas e purificadas com determinados tipos de ácidos. Este processo é repetido diversas vezes e depois a seda é seca e as meadas são penteadas, a fim de se obter fios macios para posterior tecelagem, que pode ser de seda pura ou misturada com outros tipos de fibras, como o algodão.

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Tudo leva a crer que esta paleta de cores começou a ser formada com a visita do escritor Raul Brandão, que esteve nos Açores em 1924 e foi atribuindo a cada ilha uma determinada cor (ou cores).

Compilou as suas impressões no livro "As Ilhas Desconhecidas" e não sei sinceramente se será este livro o verdadeiro fundamento desta já antiga tradição de atribuir uma cor a cada ilha.

Ficamos com as ilhas coloridas desta forma:
 

Amarelo  Santa Maria - ilha amarela - devido às giestas que por lá abundam;
Verde  São Miguel - ilha verde - por causa das pastagens e matas;
Lilás  Terceira - ilha lilás - pelas latadas de lilases;
Branco  Graciosa- ilha branca - pelas suas pedras brancas;
Castanho  São Jorge - ilha castanha - pelas rochas na ponta dos Rosais;
Cinzento  Pico - ilha cinzenta - pela sua montanha;
Azul  Faial - ilha azul - pelas hortênsias azuis;
Rosa  Flores - ilha rosa - devido às azáleas;
Preto  Corvo - ilha preta - pela lava e pelos campos murados

 

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Piteira, Babosa, Agave, Agave americana L.

agaveÉ uma planta muito disseminada nos jardins de algumas ilhas. Não sabemos se o  “Agave azul” (e a sua parente “Marginata”, com folhas às riscas de amarelo e verde) foi introduzido como planta ornamental, uma vez que constitui a base da produção de bebidas muito famosos no México, como o Pulque, Mezcal e Tequila. Nos Açores apenas é utilizada como decorativa. Apenas há uma referência à sua utilização como sebe viva em locais junto ao mar. É invasiva em Santa Maria. Reproduz-se pela separação das pequenas plântulas que se desenvolvem na base da planta-mãe ou que surgem a partir das sementes. O rebentamento da flor, que pode atingir mais de 6 metros de altura, é irregular.

USOS NÃO CORRENTES NOS AÇORES

Se a haste da flor é cortada sem floração, um líquido doce chamado “agua miel” (“água mel”) concentra-se no coração da planta. Esse líquido pode ser fermentado para produzir a bebida ligeiramente alcoólica chamada Pulque.

As folhas também podem produzir fibras, conhecidas como “pit”, que são apropriadas para fazer cordas, esteiras, pano grosso e até utilizadas para o bordado em couro numa técnica conhecida como “piteado”.

O Mezcal e Tequila são diferentes do Pulque por serem destilados. Na região de Tequila, as plantas são chamadas Mezcales, e o produto altamente alcoólico da sua destilação é chamado Mezcal. A Tequila é feita de “Agave tequilana”, que tudo indica ser apenas uma nomenclatura sobretudo baseada no interesse económico de protecção àquela indústria.

O néctar de agave, também chamado de xarope de agave, é comercializado como um substituto do açúcar natural com um baixo índice glicêmico devido ao seu alto teor de frutose.  A seiva é muito ácida e pode ser muito dolorosa se entra em contato com a pele.

A seiva de agaves tem sido muito utilizado na América Central como agente de ligação para vários pós usados como cataplasmas para feridas. A seiva também pode ser tomada internamente no tratamento da diarreia, disenteria. A seiva é anti-séptica, diurética e laxante. Uma infusão da folha cortada é purgante e o sumo das folhas é aplicado a hematomas. 

A seiva tem propriedades desinfectantes e pode ser tomada internamente para verificar o crescimento de bactérias putrefactivas no estômago e intestinos. A água na qual a fibra foi embebida durante um dia pode ser utilizada como desinfectante do couro cabeludo e tónico em caso de queda de cabelo. A goma da raiz e folha é usada no tratamento de dores de dentes. A raiz é utilizada no tratamento de sífilis.

A planta contém saponinas. Um extracto das folhas é usado como sabão. É provável que a raiz seja a melhor fonte de saponinas usadas ​​para fazer sabão. Pique as folhas ou as raízes em pedaços pequenos e em seguida deixe ferver em água para extrair as saponinas.

O excesso de calor pode estragar as saponinas A fibra, muito forte, obtida a partir das folhas é usada para fazer cordas e tecidos grosseiros. Também se pode produzir papel a partir das folhas. Os espinhos das folhas são usados ​​como alfinetes e agulhas.

Para o Pulque: à medida que a planta se aproxima do momento de florir, o centro começa a inchar e alongar à medida que a planta reúne o açúcar armazenado para enviar para a única haste de flor, que pode atingir até 20 metros de altura. Nas plantas destinadas à produção de pulque esse pedúnculo é cortado, deixando uma superfície deprimida 12-18 cm de diâmetro. Neste centro a seiva, conhecida como aguamiel é recolhida. É preciso uma planta atingir os 12 anos para amadurecer o suficiente para produzir a seiva para o pulque.

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