O alcance económico da sericicultura, como indústria caseira, era entrevisto por Jaime Hintze na referida comunicação da seguinte maneira:

«A sericicultura, é uma indústria caseira, o que tem demonstrado várias tentativas infrutíferas quando se desejou industrializar a educação do bicho da seda. Até isso convém, pois espalha-se a cultura por toda a parte, indo a remuneração a todos os recantos da ilha.

Seria ela uma forma de contrabalançar a falta de emigração que se vem notando na Ilha de São Miguel, em face do crescimento constante da sua população. Não esqueçamos que só São Miguel tem aproximadamente e a multiplicar-se sempre, cerca de metade da população das nove ilhas.bicho de seda

Outro aspecto da questão e que importa à economia, à moral e até à saúde pública, é o facto de a sericicultura ser indústria perfeitatamente caseira.

Assim, há serviços, como recolha de folhas e tantos outros, que são leves e nada anti-higiénicos, a que até as crianças se podem dedicar, sem inconvenientes, antes sim com ajuda para a economia pobre dos pais. 

As mulheres podem também, até sem abandonarem o lar, dar o seu valioso e numeroso concurso para a produção do sirgo e dos casulos, sem ficarem sujeitas à insalubridade das grandes fábricas e aos perigos morais a que se expõem em tais fábricas, tudo tão digno de condenação dos tratadistas modernos de economia, que sejam moral e humanitariamente mais bem orientados.»

Mas a solução que Jaime Hindze propunha para o problema serícícola micaelense estava integrada num conjunto de organismos técnicos que ele idealizava ver criado no distrito de Ponta Delgada, nos capítulos da agricultura e da pecuária, que compreendia serviços laboratoriais e campos de experiências devidamente apetrechados, divisão da ilha de S. Miguel em zonas de exploração perfeitamente distintas e realização de uma série de estudos tendentes à colocação dos produtos obtidos.

Era um conjunto de realizações de tal maneira amplo que jamais poderá ser objecto de tratamento, dado o muito que antes do mais se precisa fazer nos referidos capítulos agrícola e pecuário e, muito particularmente, no tocante às indústrias caseiras, algumas das quais, pelo seu cunho tradicional, terão de ser reconduzidas ao seu primitivo desenvolvimento.

No entanto, pelo que sabemos da questão sericícola, propriamente dita, enquadrada no plano geral do fomento agro-pecuário do arquipélago, a Junta Geral do Distrito Autónomo de Ponta Delgada no desejo de ver o problema encaminhar-se para o campo da prática, vem estabelecendo desde há anos a esta parte alguns viveiros de amoreiras, a cargo da respectiva Estação Agrária e promovendo a plantação destas nas estradas e demais recintos onde a técnica e o turismo o tem aconselhado.

Estas medidas só por si já muito ajudariam a resolver o problema, mas aquele corpo administrativo, consciente ainda do alcance económico da sericicultura, ainda agora, de acordo com a Direcção Geral dos Serviços Agrícolas, acaba de prever uma série de trabalhos relativos ao seu estudo definitivo, sob o ponto de vista técnico e prático, atribuindo tal especialidade ao Posto Agrícola da Ribeira Grande, em vésperas de conclusão, e em cujo conjunto de construções foi edificada uma sirgaria com todos os requisitos que a técnica moderna mais recomenda.

Campo de estudo e de acção, por parte dos técnicos que tiverem a seu cargo a direcção daquele posto agrícola, cujo funcionamento deve iniciar-se por todo o ano de 1946 e, simultaneamente, local de observação e de consulta, por parte de quem deseje cuidar da cultura do bicho da seda, entre nós, a sirgaria do Posto Agrícola da Ribeira Grande é, certamente, o primeiro passo que mais directamente dá um corpo administrativo insular no sentido da solução mais adequada para o problema de sericicultura nos Açores. ,


Nos Açores temos nota da existência das duas espécies: a Morus nigra, L, que é boa sobretudo para o consumo dos frutos, de sabor mais acentuado e maiores; e a “Amoreira branca”, Morus alba, L, a preferida para o bicho-da-seda. Encontram-se em muitas estradas de praticamente todas a ilhas. Embora existam várias espécies comerciais de bichos da seda, Bombyx mori é o mais utilizado e estudado.

De acordo com os textos de Confúcio, a descoberta da produção de seda data de cerca de 2700 aC , embora os registos arqueológicos apontem para o período Yangshao (5000-3000 aC). A sericicultura é uma das indústrias caseiras mais importantes em países como a China, Japão, Índia, Coréia, Brasil, Rússia, Itália e França. A China e a Índia são os dois principais produtores, responsáveis por cerca de 60% da produção mundial.

As larvas de bicho da seda são alimentadas pelas folhas da amoreira. Durante 40 dias comem sem parar e após a quarta metamorfose sobem por um galho e tecem os casulos de seda, feitos com fios de muitos metros de comprimento em redor do seu corpo fazendo movimentos geométricos em forma de número 8 até que todo o líquido que forma o fio termine. Isso passa-se no espaço de três dias. Depois, num período de três semanas, nasce uma borboleta branca.

Para se obter os fios de seda é preciso mergulhar os casulos em água quente para amolecê-los e retirar deles uma espécie de goma que os faz ficar presos uns aos outros. Uma vez encontradas as pontas dos fios, os casulos são desenrolados e fiados numa roda formando meadas, que depois são lavadas em água quente, batidas e purificadas com determinados tipos de ácidos. Este processo é repetido diversas vezes e depois a seda é seca e as meadas são penteadas, a fim de se obter fios macios para posterior tecelagem, que pode ser de seda pura ou misturada com outros tipos de fibras, como o algodão.

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