Freguesia de Nordeste

População: 1600

Actividades económicas: Agro-pecuária, comércio, serviços e indústria (construção civil)

Festas e Romarias: S. Jorge (bienal no 3.º domingo de Julho), Corpo de Deus (bienal no 3.º domingo de Julho), Divino Espírito Santo e Nossa Senhora da Luz (2.º domingo de Julho)

Património: Igreja matriz, Igreja de N. Sra. da Luz, Ermidas de N. Sra. da Nazaré, N. Sra. do Rosário e da Mãe de Deus, Farol do Arnel e Viaduto dos Sete Arcos

Outros Locais: Ponta da Madrugada, Ponta do Sossego, Praia do Lombo Gordo, Parque Florestal, Parque de Campismo, Piscina da Boca da Ribeira ou Foz da Ribeira do Guilherme, Porto de Pesca, Casa do Trabalho e Museu Etnográfico

Gastronomia: Capão, fervedouro, molho de fígado, inhame, massa sovada, chouriço e morcela de vinha-d'alhos

Artesanato: Rendas, bordados, trajes regionais, mantas de trapos e coberturas de lã

Colectividades: Eco-Edificante (Filarmónica), União Desportiva de Nordeste, Associação Humanitária, Bombeiros Voluntários de Nordeste e Corpo Nacional de Escutas

Orago: S. Jorge

DESCRITIVO HISTÓRICO


A vila do Nordeste é uma das mais antigas dos Açores. Situada na Lomba, chamada antigamente de Salvador Afonso, localiza-se à beira-mar, junto de um pequeno porto, em uma enseada desabrigada. Confina com os concelhos de Ribeira Grande e Povoação e é atravessada por diversas ribeiras e grotas. Muitas destas não têm no entanto carácter permanente.

Por carta de 18 de Julho de 1514, D. Manuel I elevou a vila a Lomba de Salvador Afonso que, até essa altura, era um simples lugarejo pertencente ao concelho de Vila Franca do Campo. Concedeu-lhe este monarca os foros e regalias de vila por moto próprio, pelo desejo de “a ella prover de maneira que se faça como sempre o serviço de Deus e o nosso.” Nessa carta régia, deu-lhe o rei como concelho a área que abrange o território que se estende desde a Ribeira da Mulher até o Terrachão de Água Retorta.

Deste modo, a Vila do Nordeste foi a quarta vila da ilha de S. Miguel, logo a seguir a Vila Franca (1472?), Ponta Delgada (1491) e Ribeira Grande (1507). Somente após a sua elevação a vila, foram criadas as vilas de Água de Pau (1515), Lagoa (1522), Capelas e Povoação, ambas em 1839.

O aumento demográfico, a religiosidade popular, a abastança de alguns dos moradores do Nordeste e a categoria do lugar, fizeram com que, logo no século XVI, a vila possuísse a igreja matriz de S. Jorge, a ermida da Mãe de Deus, a ermida do Rosário e a ermida da Nazaré. No século seguinte surgiu a capela S. Sebastião e, em 1642, o convento dos Capuchos.

No século XIX, mais precisamente em 1820, o Nordeste viu a sua área duplicada com a inclusão das localidades compreendidas entre a Fenais da Ajuda e Lombas da Povoação. Contudo, em 1839, perdeu a Povoação, Faial, Água Retorta, Achadinha e Fenais da Ajuda que passaram a constituir, juntamente com as Furnas, o novo concelho da Povoação. Deste modo, viu-se este concelho transformado dois meses antes da Revolução Liberal de 1820, quer porque o seu território foi duplicado pela anexação de alguns lugares que, anteriormente, haviam pertencido ao concelho de Vila Franca, quer pela anexação do futuro concelho da Povoação ao Nordeste, que não trouxe quaisquer benefícios para este último. Pelo contrário, se a máquina administrativa já era deficiente, ainda mais emperrada se tornou.

Os anos de 1831 e 1832 traduziram-se para os Açores numa série de reformas que iniciaram o desmantelar das estruturas do Antigo Regime, na medida em que, até 1820, a situação que se vivia neste concelho era praticamente a mesma que se vivera ao longo do século XVIII, isto é, sobrevinham as antigas estruturas económicas, político-administrativas e sociais.

Saiu da pena de Mouzinho da Silveira uma série de medidas administrativas que iriam mudar a situação das ilhas e do continente. Leis como a revogação dos bens da coroa, o imposto de sisa, a transformação das instituições e a abolição dos dízimos, particularmente esta última, contribuíram para o aumento da produção.

Por decreto de 17 de Maio de 1832, suprimiu-se o Convento de S. Sebastião que existia na Vila do Nordeste desde meados do século XVII e cuja construção se havia iniciado em 1643, sobre as ruínas de uma ermida de invocação a S. Sebastião.

Em 1839, no quadro do Setembrismo, emancipou-se a Povoação, sendo elevada a município com os lugares da Povoação, Achadinha, Fenais da Ajuda, Faial da Terra, Água Retorta, Ribeira Quente e Furnas.

Também o declínio do Nordeste e de outras vilas rurais de S. Miguel se ficou a dever à ascensão de Ponta Delgada que adquiriu importância, não tanto pela supremacia do seu sector primário, mas graças ao seu comércio, erguendo-se muito acima da sua rival - Vila Franca.

Assim, o século XIX marcou um padrão entre a vida arcaica que existiu, aninhada na colina, e o século XX, cujas marcas são visíveis.

Se, até finais do século XIX, este concelho não possuía um único troço de estrada digno desse nome, em finais do mesmo século, procedeu-se à reparação e conservação de estradas, reconstruiu-se o cais e varadouro da Vila do Nordeste (1875), reparou-se o porto da Achada, inaugurou-se o Farol do Nordeste (1876), o primeiro dos Açores, inauguraram--se pontes e encanou-se água para fontenários. Até essa altura, os povoados pertencentes ao concelho, estavam ligados aos concelhos vizinhos da Ribeira Grande e de Povoação, pela “antiga estrada” que, em certos casos, não passava de um atalho e, noutros, não servia as necessidades da região: ora muito inclinada, ora muito estreita, era uma autêntica vereda. Em viagens de pequeno alcance, pessoas e cargas transportavam-se em carros de bois e, para distâncias maiores, era o macho ou o burro, o meio de transporte mais usado. Nas localidades que possuíam portos, como Achada e Vila, era utilizado o barco.

Segundo vários historiadores, o topónimo deste concelho do Nordeste, terá derivado do facto de se situar no ponto cardeal que tem o seu nome.

Gaspar Frutuoso refere que é “assim chamado por ter o rosto a este vento, de modo que o seu contrário vento desta ponta é o nordeste, junto do Morro Alto que, de vinte a trinta léguas do mar, primeiro se vê aos navegantes que vêm do Oriente..

Apesar do solo fértil deste concelho, o seu povoamento foi difícil devido ao acidentado do terreno. Não obstante, os primeiros frutos desta terra foram o trigo, cereal de exportação, de que o continente carecia, e o pastel.

Além da agricultura e da pesca, uma outra actividade de grande significado económico, ocupava os primeiros colonos – a criação de gado. Contudo, o desenvolvimento económico que se observara na ilha no início do século XVI, quebrou-se para nunca mais se recuperar.

Ao iniciar-se o século XIX, a agricultura continuava a ser a base da economia nordestense apesar de ser o sector económico que mais permaneceu agarrado às antigas estruturas. Desta forma, a agricultura deste período, caracterizava-se pela difusão em larga escala do milho e da batata, sendo, por isso, uma agricultura, sobretudo, de subsistência, com pequenos índices de exportação. Os excedentes do trigo, milho, batata, fava e tremoço, eram exportados para pagar a renda aos senhorios. Por tal motivo, e porque o aumento demográfico assim o exigia, a propriedade fraccionou-se muito, com o objectivo de aproveitar todos os espaços disponíveis.

Não obstante, da fraccionação excessiva da propriedade, do acidentado do terreno e da falta de capitais, logo, da ausência de maquinaria, de instrumentos inovadores e de adubos químicos, o atraso na agricultura manteve-se. Assim, nos finais do século XIX, predominava a cultura do milho, cujos excedentes eram exportados, imediatamente seguido pelo trigo e pelo linho, hoje desaparecido destes campos, mas que, nesta altura, desempenhava um papel fundamental juntamente com a lã, no vestuário. Uma outra cultura que sobressaía era a da fava.

A pecuária melhorou sensivelmente devido ao crescente aproveitamento da enorme área maninha, nela pastando vacas, bois, porcos e cabras.

O comércio, em virtude da quase inexistência de vias de comunicação e do péssimo estado do porto, era insignificante. Por seu turno, a indústria que existia, continuava a ser exclusivamente de carácter artesanal.

Era, pois, esta a situação nordestense: a agricultura deficitária que esteve na origem dos grandes surtos emigratórios, o isolamento, as deficientes vias de comunicação que encareciam os produtos importados e o deficiente poder aquisitivo das populações.

Todos estes factores resultaram numa capacidade de auto-suficiência destas gentes, que produziam quase tudo de que careciam. Não é por acaso que o artesanato é, ainda, aqui mais vivo do que em qualquer outra parte da ilha de S. Miguel. Actualmente, continua-se a produzir nesta freguesia muito trigo, milho e batata.

Muito tem sofrido este concelho com os abalos sísmicos, dos quais são exemplo a erupção que, em 1563, matou gados e destruiu campos, e as convulsões subterrâneas que, em 1848, sacudiram a ilha de S. Miguel, tendo sido este o concelho mais afectado.

Aqui, tal como acontece no extremo oposto da ilha, a pronúncia do português é mais nítida, isto é, menos eivada de desvios, ao que não é alheio o facto de ter sido a ilha de S. Miguel povoada com famílias vindas, essencialmente, da Estremadura, Alto Alentejo e Algarve, ou seja, menos sujeita a influências estrangeiras, como acontece em outras ilhas.

Para uma melhor percepção deste povoação do Nordeste, merece referência a visão que desta Vila teve Maria Lamas quando por cá passou. Ao visitar a Ribeira do Guilherme escreveu: “O panorama da Ribeira do Guilherme, quando se aproxima do mar é, ao mesmo tempo, belo, grandioso e repousante. Mas, reparando nas azenhas que se destacam lá em baixo sobre os pedregulhos cinzentos; vendo o traço caprichoso dos campos que cortam as encostas, e o aproveitamento de cada palmo de terra, onde se diria impossível chegar alguém, compreende-se o esforço heróico do homem para arrancar destes montes o pão de cada dia (...).” Da Ribeira do Tosquiado comenta: “o recorte dos montes, a vegetação exuberante (...), a ribeira a correr na profundeza do vale, tornam o conjunto surpreendente! Já não falo nas hortênsias (...). É sem dúvida uma das maravilhas da Ilha Verde!”.

Nesta Vila do Nordeste sobressai, ainda, o Farol do Arnel, na ponta do mesmo nome, assente numa torre octogonal.

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