O ANANÁS DE S. MIGUEL
A forma de produção tradicional
Pelo Regente-Agrícola Luís Manuel Agnelo Borges (1952)

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Estudo Botânico
O ananás (Ananassa sativus, Lindl.) é originário da América do Sul. Pertence à família das Bromeliácias. É uma planta vivaz, que se propaga pela rebentação da toca, do caule ou da coroa. Consideram-se três grupos de ananases: Rainha, Cayena e de Espanha, sendo conhecidas muitas variedades, entre outras a Carlota Rothchild, Black Jamaica, Montserrat, Old Glob, Globo Russo, Providencia, Pyramides, Otaiti, etc, interessando neste trabalho a Smooth-Cayenne ou Key-Pine, que produz frutos grandes, saborosos, sumarentos, de polpa amarela, atingindo pesos excepcionais.

Foi esta a variedade escolhida e introduzida em S. Miguel, com os melhores resultados, se bem que as características actuais dos frutos sejam totalmente diferentes dos da variedade donde provieram, por terem sofrido mutações de adaptação ao meio artificial, criado pelas estufas, constituindo por assim dizer, sem faltar à verdade, uma variedade regional de características individuais, na constituição, sabor e aroma.

A variedade Smooth-Cayenne tem a raiz fasciculada, medianamente curta; caule erecto, cilíndrico, provido de folhas francamente aderentes pelo pecíolo e ligeiramente embainhadas, com cerca de 0m,50 a 0m,70 de comprimento, de cor verde azulada baça, espessas, rígidas e côncavas, quase desprovidas de espinhos. A inflorescência é uma espiga, com flores azuladas, encimada por um tufo de folhas denominado coroa. O fruto é uma cerose, formada pelo conjunto das bagas da espiga e das brácteas, tornadas carnudas e suculentas.

Notas sobre a introdução e desenvolvimento do ananás em S. Miguel

Foi há cerca de 100 anos, que surgiu a feliz idéia de cultivar Ananases em estufas, na Ilha de S. Miguel. Até então era desconhecido para nós, o «rei da fruta» eleito pela Natureza que tão bem o soube coroar.

Por Outubro de 1848, foi escrito no jornal «O Agricultor Micaelense» (primeiro jornal agrícola, escrito em língua portuguesa), um artigo sobre o ananás, supondo-se ter sido feito por António Feliciano de Castilho, que nessa época era o redactor.

Com frases lisonjeiras como: — «Hino perfumado da terra ao seu Criador», «tem o diadema porque o não pode enjeitar», «tem seduções, que atraem, porque lhas dêo, quem dá tudo», e ainda estoutras convencedoras «limitamo-nos a lembrar a conveniência, que o lavrador poderia encontrar em cultivá-lo; não só para o mercado de sua terra, mas para o dalém mar», «há segundo nos consta exemplos de se já ter creado, e oferecido às bafagens-quentes do sul, frutear»... «dos creados em estufas não falemos; esses se não igualarem os da América pouquíssimo àquem lhes ficarão», — estava assim feita a propaganda do ananás.

Acontece que, por esses tempos, começou a aparecer nos laranjais a terrível «gomose», que gradual e progressivamente os foi dizimando. O orgulho dos micaelenses, as «St’Michael’s Oranges», desapareciam apesar dos esforços da Sociedade Promotora de Agricultura Micaelense (primeira Sociedade Agrícola, que se fundou em território português).

A decadência dos nossos laranjais era acentuada, aliada ao desânimo dos cultivadores, devido à concorrência dos laranjais de Valência.


 

Os micaelenses, com coragem procuraram então atenuar a crise provocada por este desastre, fazendo tentativas de novas culturas, como a do chá que vingou, a do tabaco, que facilmente se adaptou, e finalmente, feitas as experiências necessárias, vingou também o ananás, que veio substituir com vantagens nítidas, as exportações da laranja. Sirva-nos de exemplo a força de vontade e iniciativa dos homens de tempera de há um século, que tão grande prestígio souberam dar à nossa Terra, além da lição de espírito associativo... que tanta falta faz actualmente.

Fizeram-se as primeiras estufas e os ananases começaram por ser cultivados em vasos. Dentro das variedades cultivadas, a que melhor produziu e mais facilmente se adaptou, foi a Smooth-Cayenne. Não seria justo omitir, na história do «ananás micaelense», o nome do inteligente industrial, Senhor José Bensaúde, a quem cabe a honra de ter sido o primeiro cultivador de ananases.

A pouco e pouco os micaelenses foram estudando a cultura, fazendo constantes experiências, seguindo inteligentemente o que melhor lhes aconselhava a prática.

A 12 de Novembro de 1864, fazia-se a primeira exportação, com magníficos resultados. O entusiasmo pela cultura cresceu e foram construídas as primeiras estufas, destinadas à cultura do ananás para exportação, ficando assim formado o núcleo, donde irradiaram todas as estufas, que a seguir se foram construindo.

Em Janeiro de 1874, o «Gardener’s Chronicle», diz: «a cultura do ananás na Ilha de S. Miguel tem tomado grande incremento; a última colheita realizou interesses de consideração nos mercados ingleses, sendo a sua qualidade reconhecidamente superior à dos frutos de produção estrangeira».

Em Abril do mesmo ano, o Senhor Ernesto do Canto, sócio da Sociedade Promotora de Agricultura Micaelense, convida numa palestra, os sócios e cultivadores ilustrados, a estudarem a cultura e a comunicarem as suas observações, para serem devidamente comparadas, e se deduzir delas, as regras práticas duma cultura aperfeiçoada, sobretudo no que dizia respeito ao solo, humidade, ar atmosférico, calor e luz.

Esta proposta teve o melhor acolhimento, porque o jornal «O Cultivador» cujo proprietário e redactor era o ilustre Senhor Guilherme Read Cabral, proporcionou a publicação de valiosos artigos sobre ananases, de carácter técnico e estatístico.

Em 15 de Julho seguinte, Manuel Botelho Gusmão, escreve sobre estufas, terra, plantação, tratamento e frutificação sob o título de Guia do Cultivador de Ananases na Ilha de S. Miguel, numa publicação do n.° 19 do mesmo jornal.

Em Setembro, o horticultor belga, Francisco José Gabriel, expõe novas teorias técnicas, sobre a cultura forçada.
Em 1875 estavam construídas estufas para 40.000 ananases, em determinadas regiões de S. Miguel, principalmente na área Sul, pois chegaram à conclusão que na parte Norte, só nos sítios mais soalheiros, o ananás produzia regularmente e na maior parte dos casos, apenas vegetava, onde se conclui que a cultura do ananás, para maior felicidade nossa, constitui um monopólio, de certas regiões da Ilha de S. Miguel.

Relação das estufas para ananases existentes na Ilha de S. Miguel em 1933
Concelho de Ponta Delgada
Freguesia da Matriz 12
Freguesia de S. José 91
Freguesia S. Pedro 312
Arredores
Freguesia de S. Roque 764
Freguesia Fajã de Baixo 910
Freguesia Fajã de Cima 129
Freguesia dos Arrifes 48
Freguesia das Capelas 71
Freguesia de S. Vicente 27
Concelho da Lagoa 158
Concelho de Vila Franca do Campo
Freguesia de S. Miguel 500
Freguesia S. Pedro 90
Freguesia Ponta Garça 120
Concelho da Ribeira Grande 16
TOTAL 3.258

Por esta altura, quando o Senhor Manuel Botelho de Gusmão procedia a experiências sobre o calor artificial, cedido por fornos situados por baixo das próprias estufas, verificou com grande desgosto que uma das abóbadas, mal construída, rachara, deixando passar o fumo para uma estufa. Bendito acaso que tão bons resultados deu: a frutificação, que tão irregularmente se dava, nessa estufa defumada verificou-se ao mesmo tempo em todas as plantas. Estava descoberto o fumo,
A partir desta descoberta, como é óbvio, a cultura do ananás tomou um carácter de tal forma industrial, como nenhuma actualmente possui.
Em 1913, exportavam-se ananases para a Inglaterra, Alemanha e Rússia, principalmente. Nesse ano a exportação foi de 184.100 malotes; 1.463 quartos (meias caixas) e 116 grades, (contendo cada grade 1 ou 2 ananases, excepcionalmente belos, num vaso com a sua planta) com cerca de 2.000.000 de ananases, que produziram a bonita soma de 200.000 libras.
Em 1914-18, deu-se a primeira crise de exportação, por causa da Grande Guerra, normalizando-se tudo anos depois. Em 1925, no «Boletim Agrícola» e Económico da Sociedade Corretora, L.da, é publicado um artigo sobre a actuação do fumo.
Segundo consta, foram os Drs. Lee Kingth, William Cooker e F. Denny que, estudando o assunto, chegaram à conclusão que a acção do fumo era devida à etilena proveniente das combustões incompletas, actuando quando em pequena dose, pela propriedade de acelerar os processos vitais das plantas, entre os quais, a respiração e assimilação. Dessa aceleração de funções, resulta um avanço na floração, na frutificação e até no amadurecimento dos frutos.
Entre as duas Grandes Guerras, a cultura atingiu o auge. Em 1933, faz-se a concentração de venda dos nossos ananases em Londres, Hamburgo e Berlim. A exportação total de 1 de Janeiro de 1920 até 31 de Dezembro de 1933, foi de 1.728.381 caixas.
Rebenta a segunda Guerra Mundial e com ela, os micaelenses atravessaram uma nova crise, mais séria que as outras, pela paralização duma actividade que atingiu toda a gente. Sua Magestade, o rei da fruta, chegou a ser vendido nos ceirões de burro a $50. Muitos cultivadores pobres arruinaram-se por completo, ora vendendo as estufas por uma miséria, ora arrancando os vidros e armação de madeira, para cultivarem ao ar livre outras culturas com restos de terra já exausta. Estufeiros, leiveiros, jornaleiros, carroceiros, pedreiros, carpinteiros, pintores, etc, todos gente que vivia das estufas, atravessaram também a sua crise de desemprego. Os cultivadores médios cultivaram sem renovar a terra, ou renovando muito pouco, sem contudo conservarem o madeirame e as ferragens. Assim se foram perdendo muitas estufas e arruinando muitos cultivadores, porque as exportações eram apenas limitadas ao Continente.



A guerra acabou, mas a crise prolongou-se até que perto de dois anos depois, começaram as exportações para Londres, com magníficos preços. Todos os cultivadores que suportaram a crise e principalmente aqueles que, com um esforço énorme, conseguiram cultivar as suas estufas... apanharam o golpe de misericórdia. A Inglaterra, encontrando-se numa terrível situação económica, proibiu as importações de produtos de luxo. Daí o prolongamento da crise por mais algum tempo e a necessidade de se criarem novos mercados, como efectivamente aconteceu.
Actualmente exportamos para os mercados de Lisboa, Madeira, outras ilhas do Arquipélago, Bélgica, França, América, Suíça, Holanda, Inglaterra, Alemanha, Suécia, Itália e Irlanda.
Finalmente, para completarmos esta curta resenha histórica, apresentamos os resultados estatísticos de exportação de ananases de 1949 e 1950 e um gráfico geral de exportação do ananás e seu valor nos anos de 1926 a 1950,
Em 1951, sabemos que a exportação aumentou para 1.313.152 ananases e criaram-se os novos mercados da Suécia, Tânger e Irlanda.

Estufas
São construções envidraçadas, destinadas a culturas forçadas, proporcionando um clima artificial, capaz de ser regulado, segundo as conveniências necessárias, e tanto quanto possível idênticas ao habitat da cultura.
Não nos vamos ocupar dos materiais de construção, dimensões, sistemas de canalização (baseados no princípio dos vasos comunicantes), alicerces, muros, passeios de serviço, depósitos interiores, depósitos exteriores, coberturas, etc, porque não achamos interesse em pormenorizar a parte de construções propriamente dita, além de que são altamente conhecidas e estudadas no nosso meio.

Mercados Ananases Valores Médias
Alemanha 119.48 2.163.393$56 18$40
Bélgica 19.59 330.784$00 16$88
América 3.9 73.089$18 18$78
França 85.82 1.169.456$20 13$62
Holanda 8.91 130.770$20 14$67
Londres 560.57 7.443.601$90 13$27
Itália 6.69 144.240$00 21$55
Suíça 16.38 249.087$00 15$20
Madeira 16.42 249.530$60 15$19
Ilhas dos Açores 790 13.125$01 16$61
Lisboa 169.94 2.330.210$51 13$71
Mantimentos 3.26 22.217$70 6$81
Refugo 22.04 94.457$30 5$39
Totais 1.033.804 14.413.963$76 13$94

No entanto, nunca é demais acentuar que devemos procurar construí-las em terreno pobre, com o mínimo valor cultural, de preferência pedregosos, para que se dê o aconselhável escoamento das águas de rega, tanto quanto possível planos, em região de pouca altitude e expostas ao Sul, onde se não verifique a existência de árvores próximas, ou qualquer outro obstáculo aos raios solares que possam projectar a sombra nas estufas.

No que respeita à orientação, as estufas devem ter, no seu maior comprimento, a direcção norte-sul, para que com a trajectória este-oeste, o sol possa fazer actuar a sua acção principalmente calorífica, durante todo o dia.

Enumerados estes princípios fundamentais, vejamos como podemos regular o meio ambiente dentro duma estufa.

Temperatura — Pode ser regulada com a maior ou menor abertura dos albóios, pela caiação nos vidros, graduando a opacidade dos mesmos, evitando ou provocando uma insolação intensa durante o dia; pelas regas, que conduzem ao arrefecimento geral, tanto no terreno como no ambiente, devido à evaporação.

Luz — Só a caiação nos vidros pode influir na regulação da luz, como já dissemos, pela graduação de opacidade, evidentemente, e a graduação de opacidade é função da preparação da cal a empregar, com maior ou menor fluidez.

Humidade — São as regas o principal factor de regulação, sendo no entanto importante que sejam efectuadas por forma a não prejudicar a fermentação dos componentes do terreno, e só em determinadas épocas do ciclo vegetativo da planta.
Ar atmosférico — regulado pelo arejamento, cedido pela abertura dos albóios e portas.

É claro que estes quatro factores principais, estão intimamente ligados e, da concordância entre eles, aliada às camas quentes que compõem o terreno, resulta a formação do clima artificial que pretendemos obter.

 


 

Técnica cultural

A—Selecção Na boa orientação duma cultura, para vermos coroado de êxito o nosso trabalho metódico, temos, em primeiro lugar, que proceder a uma selecção rigorosa da planta, por forma a assegurar uma produção homogénea e garantida até certo ponto, no que respeita ao tamanho, forma e rusticidade. Para isso, durante o ciclo vegetativo da cultura anterior, devem ser assinaladas, antes da colheita, todas as plantas que mostraram:

1.° — melhor desenvolvimento vegetativo;

2.° — melhor produção de fruto;

3.° — maior resistência às doenças.

Depois da colheita total, são arrancadas as plantas não assinaladas, para evitar misturas, procedendo-se seguidamente à limpeza das tocas seleccionadas, limpeza esta que consiste em tirar as folhas do caule, raízes velhas e corte da parte terminal, na altura em que o diâmetro diminui. Terminada a primeira selecção e limpeza, as tocas dão entrada no estufim (alfobre destinado ao brolhamento).ananas 1

B — Brolhamento Em todas, ou pelo menos quase todas as explorações da cultura de ananases, há uma estufa mais pequena, denominada estufim, servindo de alfobre e viveiro.

O espaço ocupado pelo brolhamento é relativamente pequeno (alfobre propriamente dito), servindo o restante espaço do estufim, para transplantar a maior compasso, como adiante faremos referência, o plantio que se vai formando gradualmente. Nesta parte (viveiro), o terreno vai sendo preparado à medida das necessidades.

Explorações há que, pela sua importância, requerem para o brolhamento todo o estufim, sacrificando uma ou mais estufas de produção, para a criação do plantio.

1 — Preparação do terreno  A composição do terreno de estufa é totalmente vegetal, sendo preparada por diferentes camadas, a saber:

1ª camada – constituída por ramada de incenso (Pittosporum undulatum, Hort.), vulgarmente chamada lenha de ramada, de fácil decomposição, devendo ser disposta uniformemente;

2ª camada – formada pela monda, composta por diferentes detritos vegetais, como: silvas, ervas, folhagens, caruma de pinheiro, fetos, etc.;

3ª camada – terra sobrante da última cultura;

4ª camada – composta por matos húmidos, que segundo a terminologia vulgar são conhecidos por leiva, em placas com terra agregada, proveniente das regiões virgens onde a charrua ainda não penetrou. Na composição da leiva, os principais elementos são: o musgão (Sphagnum compactum, Mitten.), o queiró (Calluna vulgaris, Salisb.), a urze (Érica Azorica, Hochst.) e muitos outros de vegetação espontânea de menos importância;

5* camada – terra sobrante da última cultura.

Há quem aplique serradura de madeira, entre a 4ª e a 5ª camadas, quando se fazem os aterros no Inverno, com o fim de isolar as camadas subjacentes, mantendo assim o calor proveniente da fermentação dos componentes do terreno.

A cama é formada vão por vão, isto é, entre o espaço que vai de ferro a ferro de suporte das tacaniças, ou sejam 2 metros de terrenos preparados de cada vez. A percentagem dos componentes, costuma ser preparada tendo por base o material necessário a empregar por vão, multiplicada pelo número de vãos de estufa.

Podemos considerar como média, a seguinte composição vegetal:

40 molhos de lenha de ramada por vão
1/2 carroça de monda por vão
12 cestos de leiva (1/2 cesto p/planta)
Esta composição, varia principalmente com a época de plantação e com a idade do plantio, no caso de plantação definitiva.

 


 

2— Plantação das tocas  São usados 3 tipos de plantações de tocas, sendo difícil sob o ponto de vista técnico e económico, escolher o melhor. Um dos tipos consiste em plantar as tocas seguidas, em linhas paralelas, com um ligeiro intervalo entre-linhas, para facilitar os trabalhos culturais indispensáveis.

Outro tipo, em tudo parecido com o primeiro, consiste em plantar as tocas em linhas, em que estas se sobrepõem pelas extremidades, ficando paralelas entre si e oblíquas em relação às linhas, economizando terreno.

O terceiro tipo usado, consiste na plantação das tocas em quincôncio, com pouco compasso, o que ocupa muito espaço, por pequeno que seja o compasso a adoptar. Este processo, tem o inconveniente de dificultar as mondas.

Quaisquer dos tipos descritos são usados, porém o segundo tipo é o mais frequente, com justificável preferência, pela economia de terreno, além de que os resultados obtidos são praticamente os mesmos. É interessante observar, como trabalham o estufeiro e seus ajudantes, parecendo ter os movimentos articulados e inteligentemente combinados, efectuando todos os serviços com uma rapidez incalculável, originada por muitos anos de prática.

3 — Trabalhos culturais  Depois da plantação das tocas, tem fundamental importância a regulação da temperatura do terreno e do ar atmosférico dentro da estufa.

A qualquer temperatura, não ultrapassando certos limites, as tocas poderão brolhar; no entanto para que o brolho venha forte, precisa de muito calor, o que provoca uma intensa multiplicação celular. Note-se, porém, que a temperatura exagerada, pode provocar a queima das raizes, o que às vezes acontece, acabando o brolho por morrer. Os estufeiros denominam “cozidas” as tocas nestas condições.

Em conclusão: no primeiro mês após a plantação, a temperatura deve manter-se à volta dos 30º C. Logo que se verifique o brolhamento, eleva-se gradualmente até aos 38ºC, que se mantêm durante os 5 meses restantes.

De uma maneira geral, o estufeiro experimentado, consegue dar-lhe a temperatura necessária, observando a reacção das plantas e servindo-se apenas duma cana, que espeta no terreno; todos os dias de manhã, à tarde e à noite, puxa-a, tateando-a na parte enterrada, sentindo através dela o calor do terreno em plena fermentação com libertação de calor. Com estas indicações, regula a temperatura, de acordo com as impressões fornecidas pelo seu rústico termómetro.

Seja-nos permitido dizer, em abono da verdade, que embora a técnica cultural ananaseira seja relativamente perfeita, já era tempo de estarem rigorosamente estudados os agentes de regulação dos 4 principais factores (temperatura, luz, humidade e ar atmosférico), e aplicados, até mesmo vulgarizados, os instrumentos respectivos de precisão. Caminharíamos, assim, para um campo mais científico, evitando erros dos estufeiros menos experientes, que frequentemente não sabem justificar as causas atribuidas aos seus fracassos.

Aparte da regulação de temperatura do terreno e do ambiente, que movimentam as regas, as caiações e a abertura dos albóios, os restantes cuidados culturais resumem-se às mondas, que devem ser frequentes, por forma a que o brolho cresça desafogadamente, e sem competidores nos princípios alimentares.

 


 

C — Criação do plantio  Depois do brolho crescer durante 6 meses, alimentado pela toca-mãe, são escolhidos pelo melhor desenvolvimento que tomaram os dois ou três maiores, continuando assim a selecção nas diferentes fases da cultura. Nesta altura, são desmamados (desligados da toca-mãe), para serem transplantados a maior compasso e criarem raizes próprias, passando a denominar-se plantio, até à plantação definitiva.

1— Preparação do terreno  A preparação do terreno de viveiro é feita pelo mesmo processo da preparação do terreno de alfobre e das estufas de produção, fazendo o possível para que a composição deste, se efectue com as mesmas percentagens. Quando, porventura, a composição tenha de ser diferente, é preferível que os terrenos de alfobre e viveiro sejam menos fortes do que os da plantação definitiva. No entanto, como já dissemos, o ideal será que tenham a mesma composição, bastando o aumento gradual de compasso de plantação, nas 3 fases sucessivas, para que as plantas na última etapa do seu ciclo vegetativo, possam dispor dum maior cubo de terra.

2— Transplantação do brolho  Antes da transplantação, há que proceder ao corte das poucas raízes que o brolho traz depois de desmamado, bem como a parte terminal do colo. Além destes cuidados, deve efectuar-se uma desfolha na base do caule, para que venha a dar-se uma abundante radicação. Esta desfolha, pondo a descoberto os tecidos novos, provoca um afloramento de seiva naquele lugar, que ajuda a desenvolver as inúmeras raízes em formação.

São estes os trabalhos mais importantes na transplantação, que asseguram grandemente o pegamento do brolho. Sendo cuidadosos e conscientemente feitos, podemos contar com 100% dos brolhos pegados, o que vulgarmente acontece. Depois desta preparação, o brolho é disposto sobre a terra, deitado às filas em toda a extensão do terreno a plantar. O compasso adoptado para a criação do plantio, no viveiro, é de 0,m30 x 0,m30, com plantação em quadrado.

3 — Trabalhos culturais  Todos os dias, de tarde, depois de transplantado o brolho, deve regar-se abundantemente o terreno; de tarde, para que a sua acção molhante dure mais, visto que durante o dia, uma grande parte seria anulada pela evaporação.

A caiação nos vidros é indispensável, para que o plantio com as raízes ainda em formação (consequentemente sem possibilidades de se alimentar), não murche.

Todos os dias, o estufeiro terá que regular a temperatura, verificar a humidade da terra e dar-lhe o arejamento preciso. Normalmente, após a transplantação, as regas efectuam-se diariamente durante as primeiras duas semanas. Na terceira semana, bastam 3 dias de regas, até que a terra entre em plena fermentação, sendo depois mais espaçadas. Quanto ao ar atmosférico, nos primeiros dias o estufim deve estar, tanto quanto possível arejado; mais tarde a entrada de ar vai sendo reduzida gradualmente, ao mínimo.

As mondas, devem fazer-se sempre que se verifique necessidade disso, pois o excesso de vegetação e o mau arejamento entre as plantas, ajudado pelo clima artificial quente e húmido, favorece o aparecimento de cochonilhas, que se multiplicam rapidamente produzindo o enfraquecimento geral do plantio. No caso do aparecimento de cochonilhas, é indispensável combatê-las imediatamente, aplicando qualquer calda à base de óleo, ou pelo menos, evitar a propagação no combate à formiga, seu principal difusor. As polvilhações com cal e enxofre, são também aplicadas, mas em pequena doses, para que a libertação de gases, não provoque a asfixia do plantio, que pode florir antes do tempo, perdendo-se, como já tem acontecido.

D — Estufas de produção  Passados 4 meses no terreno de viveiro, o plantio está criado, pronto a sofrer a plantação definitiva, onde é transplantado novamente a maior compasso. Mesmo que a composição do terreno antecedente tenha sido igual, como já tivemos ocasião de mostrar preferência, aumentando o compasso para o dobro, a planta fica com melhores condições de vida, embora com o desenvolvimento se torne mais exigente.

As estufas de produção são destinadas a receber o plantio criado, que passa a ser denominado por planta, onde permanecerá os últimos 12 meses em plantação definitiva, atingindo o fim do seu ciclo vegetativo.

 


 

1— Preparação do terreno  Na preparação do terreno trabalham 4 homens: estufeiro e 3 ajudantes. Despejado o primeiro vão, o estufeiro recebe dos ajudantes os molhos de ramada; desata-os contando em voz alta, e forma a primeira camada, distribuindo bem.

A seguir, os três ajudantes munidos de forcados, trazem a monda, que o estufeiro vai colocando até cobrir toda a lenha de ramada. Vem depois a terra sobrante, que é puxada à pá ou enxada, do vão do lado e estendida sobre as duas primeiras camadas. Desta forma, vão por vão, é feita a distribuição das três primeiras camadas, procedendo-se agora ao calçamento geral das mesmas. Seguidamente, colocam as placas de leiva, segundo as quantidades pré-estabelecidas (geralmente 1/2 cesto por planta), e distribuem nova camada de terra sobrante, ficando assim o aterro completo.

Aterrada a estufa, nivelam o melhor possível o terreno, limpam os passeios e tiram as tampas dos depósitos interiores, que tinham sido colocadas antes da preparação do terreno, que vai ser regado pela primeira vez.

2—Plantação definitiva  Difere da transplantação do brolho, apenas pela idade da planta, pelo compasso e material empregado na plantação. Como no plantio, deve igualmente proceder-se à desfolha na base do caule e cortar todas as raizes, sem contudo cortar a parte terminal do colo. Esta prática tem, como já dissemos, grande importância, pois dá origem a uma radicação fortíssima, capaz de alimentar convenientemente a planta. Depois de preparadas, as plantas são todas distribuídas sobre o terreno, aproximadamente no sítio onde devem ficar, estendidas às linhas e com a mesma direcção.

a) Idade da planta: — A idade da planta varia conforme as conveniências da exploração, geralmente por factores secundários como sejam, por exemplo, a necessidade de preparar uma nova plantação definitiva, na estufa onde estava disposto o plantio (no caso de não haver estufim), ou até mesmo, por haver uma estufa disponível e só ter plantio com pouco tempo de criação, etc, etc....

Nó entanto, numa exploração bem orientada, estes problemas são estudados, por forma que as culturas se sucedam sem interrupção e haja na altura própria a planta necessária e com a devida idade. A planta destinada a uma estufa de produção, deverá ser transplantada definitivamente com cerca de 10 meses de idade, altura em que suporta bem a transplantação.

b) Compasso: — Como se conclui pela descrição que vimos fazendo, o compasso de plantação nas diferentes fases da cultura vem aumentando progressivamente, à maneira que a planta se aproxima do fim do ciclo vegetativo, pois, como é lógico, quanto mais idade tem a planta, mais exigente se torna, sobretudo na última fase, depois do aparecimento das infrutescências, necessitando, por consequência, de melhor alimentação.

Pelas razões apontadas, o plantio que estava colocado ao compasso de 0,m30 x0,m30, passa a gozar do dobro, nas estufas de produção, para satisfazer as exigências da planta, durante os 12 meses que se seguem até à colheita,

Aterrada uma estufa nas condições atrás descritas, a cama vegetal fica com a altura de 0,m60, pelo que ao compasso de 0,m60x 0,m60, cada planta dispõe de 0,m360 para a sua alimentação.

c) Material empregado na plantação definitiva: — Referimo-nos apenas às estacas de plantação, que ocupam um papel imprtante na plantação. Servem para abrir furos na terra esponjosa, facilitando a penetração da planta nos mesmos.

São constituídas por uma pega manual, prependicular à secção tronco-cónica, em madeira, sendo a parte cónica forrada de zinco.

 


 

 

3 —Trabalhos culturais 

a) Regas: — Antes da plantação definitiva, o terreno deve ser regado uma vez, logo a seguir à preparação; no dia seguinte à tarde, é-lhe aplicado a segunda rega’, no terceiro dia, procede-se à plantação e rega-se novamente.

Nos primeiros 15 dias, as regas executam-se diariamente, para que o terreno muito poroso e a princípio com pouco poder de retenção, adquira a necessária humidade e entre em fermentação, com desprendimento de calor.

Uma vez começada a fermentação, as regas aplicam-se mais espaçadamente, bastando 3 vezes por semana, dia sim, dia não, e com maior ou menor quantidade de água, segundo a observação do estufeiro experimentado. Na altura dos fumos, suspendem-se temporariamente as regas, que recomeçam depois da floração, seguindo o mesmo ritmo até à colheita. Estas regas são executadas pelo estufeiro e um ajudante, munidos de regadores com canos compridos, sendo o crivo de ralos substituído por um dispositivo no fim do próprio cano, que espalha um largo e forte jacto de água.

b) Mondas: — Salvo determinados casos em que propositadamente se evitam (a seguir às plantações) quando pretendemos aterrar o plantio, deve o terreno ser mondado, antes que as ervas daninhas produzam sementes. Procedendo assim, depois de germinadas todas as sementes de ervas ruins, estas desaparecem quase totalmente à 3ª monda.

e) Sachas: — Ao mesmo tempo que se efectuam as mondas, o estufeiro e seus ajudantes procedem à sacha, com um pequeno instrumento de dentes, denominado forcado. Geralmente com a aplicação das regas, forma-se à superfície do terreno uma crosta nociva, que é indispensável desfazer, para que o terreno se mantenha esponjoso e possa receber imediatamente a água das regas, sem perdas por deslize. Estas sachas, também ligeiras, acompanham sempre as mondas, efectuando-se ao mesmo tempo e não costumando ser mais que três.

d) Caiação: — Um dos cuidados culturais de grande importância, é a caiação, pelos múltiplos efeitos que dela dependem. As aplicações de cal variam principalmente com a época do ano, empregando-se mais no verão, quando, como é lógico, a incidência solar é muito maior, precisando por isso ser amortecida.

Todas as estufas devem ser caiadas no verão, com uma diluição relativamente basta de cal, e, nos meses de menor calor, com cal mais fluida. Sempre que se planta uma estufa, quer no tempo quente, quer no frio, é indispensável caiá-la, para que a planta não se ressinta do demasiado calor, e só passadas 2 a 3 semanas, segundo a época, o estufeiro, num dia de bastante sol, passa a escova a seco sobre os vidros, para tornar menos espessa a camada de cal.

Nesta altura, a planta já está habituada a temperaturas altas, resistindo bem ao calor, e até mesmo beneficiando dele, pois como nós sabemos, com o calor dá-se uma aceleração de funções vitais nas plantas, que provoca uma abundante multiplicação celular, donde se conclui que o crescimento se torna mais intenso.

Outro objectivo na aplicação da cal, baseado nos mesmos princípios, é o retardar ou adiantar a fruta, o que traz vantagens interessantes na exploração dos ananases, que, como se pode deduzir pela descrição que vimos fazendo, está absolutamente dominada pela técnica do nosso ananaseiro experimentado. Esta prática, diz principalmente respeito à boa oportunidade de exportação. Por exemplo: uma estufa está pronta a exportar em Novembro, mas prevêem-se bons preços, nas exportações do Natal.

 


 

O estufeiro procede a uma forte caiação em Outubro, que provoca o arrefecimento do ambiente. Verifica-se logo um atraso na maturaçâo porque a planta, habituada ao calor, sofre uma limitada paralização celular. Se, pelo contrário, há conveniência em exportar um mês antes, o estufeiro tira toda a cal dos vidros e a maturação dá-se mais cedo, embora com prejuízo do crescimento.

e) Fumo: — Passados 5 meses da plantação, é prática corrente dar fumo à estufa, para que a frutificação se dê ao mesmo tempo. Em nossa opinião, embora que fundamentada a conhecida acção da etilena no que respeita ao amadurecimento dos frutos, interpretamos a frutificação ao mesmo tempo, como reacção da planta a qualquer produto intoxicante, neste caso o fumo, pois sabemos que todo o ser vivo, vegetal ou animal, que sinta comprometida a sua vida, tende a reproduzir-se imediatamente, para deixar assegurada a espécie.

Aliás, já tem acontecido perder-se plantio, devido à falta de arejamento, depois de aplicadas desinfecções com cal e enxofre, em que se libertam gases no ambiente fechado da estufa predispondo este, pela intoxicação, à frutificação ainda em tenra idade. Daí, a impossibilidade de se fazerem desinfecções a gás no interior das estufas, que seriam magníficas câmaras para tal fim.

Não queremos com isto dizer que, entre os produtos intoxicantes que possam ser aplicados, não se deva dar preferência ao fumo, antes pelo contrário, achamos que deve ser ele o preferido, por muitas razões, entre outras, a facilidade de o produzir, o baixo custo e nomeadamente pela acção da etilena proveniente das combustões incompletas, que vai ocupar papel importante no amadurecimento dos frutos. Um mês antes deve arejar-se diariamente a estufa, com abertura média dos alboios; na ante-véspera e véspera, deve regar-se abundantemente.

Aos 5 meses, como já dissemos (depois da plantação definitiva), dá-se-lhe o fumo. Esta prática executa-se depois do Sol posto; o estufeiro fecha toda a estufa, coloca 4 ou 5 latas, distribuídas ao longo do passeio, cheias de material combustível que produza bastante fumo e larga-lhes fogo, enchendo-se a estufa, a pouco e pouco, de fumo. No dia seguinte de manhã, a estufa abre-se, arejando por todo o dia. Durante 5 a 7 dias, conforme a época, repetem-se as mesmas operações.

Dados os primeiros fumos, verifica-se se há necessidade de regar e, segundo a observação, dá-se-lhe uma a duas regas intervaladas, tendo o cuidado de manter a estufa sempre fechada. Passados 8 dias, conforme as plantas se mostram mais ou menos ressentidas, fazem-se mais 2 a 3 aplicações de fumo, nas mesmas condições, para completar a acção dos primeiros. Daí por diante, a estufa deve continuar fechada, até ao aparecimento das infrutescências. Depois da floração, continuam as operações vulgares no ritmo normal.

f) Corte das folhas: — O corte das folhas deve ser muito ligeiro, executando-se apenas nas extremidades destas, por forma a facilitar alguns amanhos culturais, tais como as mondas e sachas e proporcionar um pouco mais de arejamento entre as plantas e luz ao terreno. Esta prática, efectua-se simultaneamente com as mondas e sachas; o estufeiro vai cortando as extremidades das folhas, enquanto que um dos ajudantes monda e o outro sacha. São contra-indicados os cortes de folhas intensos, como temos visto em muitas explorações, pois, como é sabido, são as folhas que elaboram a seiva assimilável, necessária ao crescimento dos frutos.

g) Desladroamento: — Consiste em capar os rebentos que aparecem com frequência no caule e na coroa. Estes rebentos-ladrões, além de não serem precisos, esgotam sensivelmente a planta, roubando-lhe princípios alimentares necessários ao crescimento do fruto. É considerada boa prática, tirar as folhas terminais da coroa, para que esta não cresça exageradamente, destruindo ao mesmo tempo o olho terminal, evitando assim a origem de novas folhas. Esta prática, embora secundária, reveste-se de certa importância, primeiro, pela apresentação do fruto em que a coroa chega a ter por vezes o dobro da altura do fruto, segundo, porque são estes rebentos que, como já foi dito, roubam mais energia à planta.

h) Estaqueamento dos frutos: — Um a dois meses antes da colheita, os frutos devem ser tutorados, para que não tombem, antes de atingir o desenvolvimento completo.

 


 

4 — Cuidados sanitários

Cochonilhas do Ananás — (Pseudococcus bromeliaes). Nomes vulgares — lapinha, piolho do ananás, escama do ananás. Quando o ataque é grande, os prejuízos são consideráveis. As folhas cobrem-se de cochonilhas e, no ponto de contacto com o insecto, morrem os tecidos, originando o definhamento geral da planta. Nos frutos, verifica-se um claro atrofiamento e, nos pontos de aplicação do insecto, ficam cheios de malhas por amadurecer, raquíticos e, consequentemente, sem valor comercial.

Barata americana — (Periplaneta americana). Nomes vulgares — Grande barata americana, barata vermelha. Causa avultados prejuízos, porque roi os olhos terminais das plantas, na altura da frutificação, originando ananases sem coroa, não exportáveis, além de que ficam com má apresentação e sem valor comercial.

Grilo dos Campos — (Acheta campestris).Nome vulgar-—Grilo dos campos. Na altura da maturação, perfuram muitos ananases, predispondo-os ao ataque dos parasitas, de feridas, que provocam a sua completa inutilização.

Fungo do ananás — (Thielaviopsis paradoxa). Nome vulgar — Fungo do ananás, podridão do ananás. Quando as estufas estão fortemente infectadas, acontece por vezes perder-se quase toda a exportação, porque a fruta chega apodrecida aos mercados de consumo.

Colheita 

Passados 11 meses da plantação definitiva, começam os primeiros ananases a pintar, mais intensamente de baixo para cima. Os ananases que amadurecem mais cedo, são os que apareceram antes do fumo; isto acontece quando houve necessidade de comprar plantio, e este veio com diferenças de idade difíceis de distinguir. Desta altura em diante procede-se à colheita, atendendo ao grau de maturação que os diferentes mercados requerem.

Grau de maturação  Os ananases de exportação, que apresentam boas dimensões, devem ser colhidos mais ou menos verdoengos, conforme as distâncias dos mercados que os consomem, por forma a dar-se uma certa margem de maturação, com o fim de evitar o apodrecimento dos ananases mais maduros, que podem contaminar os restantes do mesmo malote.

Os ananases não exportáveis, aqueles que não têm a medida exigida por lei, ou ainda os defeituosos, devem manter-se na estufa, até que se verifique o amadurecimento completo. Pretendemos deste modo, que haja a completa transformação da acidez em açúcar, tornando-os muito saborosos.

B — Corte  O corte da fruta executa-se a 0,m08 do pé, com a faca de estufeiro, sempre muito afiada (o estufeiro, usa habitualmente uma pedra de afiar, na algibeira). Os ananases cortados são dispostos dum e outro lado do passeio de serviço, sobre uma cama de fibra previamente colocada para este fim em todo o comprimento da estufa.

C — Transporte  O transporte para a casa da fruta, faz-se numas canastras especiais, de madeira, forradas de fibra, ou nos próprios malotes, com as tampas pregadas nos lados, a servirem de apoio para o transporte. O estufeiro e ajudantes, munidos de canastras e malotes de transporte, colocam toda a fruta nos tabuleiros de recepção almofadados, da casa da fruta.

D — Casa da fruta  Deve obedecer aos seguintes requisitos:

1.° Ser fresca, para a boa conservação da fruta; 2.º Espaçosa, para que caiba a caixaria necessária a uma exportação; 3.º De pavimento acimentado e elevado em relação ao nível exterior, para facilitar o carregamento da fruta; 4.º Ter prateleiras almofadadas, para a recepção e calibragem; 5.º Um armário e secretária, para arrumação de material e anotações de diversas naturezas; 6.° Material de carpinteiro, para confeccionar a caixaria; 7.º Lugar reservado ao armazenamento dos fardos de fibra.

E — Conservação da fruta  O problema da conservação da fruta, está satisfatoriamente resolvido, com a regularidade dos nossos navios fruteiros, alguns deles construídos especialmente para o transporte de frutas, nomeadamente o ananás. Estes navios, como é óbvio, reúnem todos os requisitos necessários à boa conservação da fruta, além de que tocam propositadamente os portos que a conduzem aos mercados de consumo.

Acondicionamento
O acondicionamento dos ananases de exportação é feito em caixas e meias caixas, contendo cada uma, maior ou menor número de frutos, segundo as dimensões dos mesmos. Os ananases são devidamente embalados em fibra, que os envolve completamente de maneira que estes fiquem defendidos dos choques provocados pelas cargas e descargas dos navios fruteiros.

A — Malotes e Quartos Os malotes, são caixas de madeira, com as seguintes dimensões: 1 metro de comprimento, por 0,m50 de largura e 0,m18 de altura.  São divididos a meio por dois travessões, denominados tolelos, que servem para dar maior resistência à caixa.

Os Quartos, são as meias-caixas, mais altas que os malotes 0,m02, porque são destinados à fruta de maiores dimensões. Antes de se proceder ao encaixotamento da fruta, esta deve ser previamente medida e classificada nos tabuleiros de recepção da casa da fruta, de acordo com as dimensões fornecidas pela Junta Nacional das Frutas. Para isso, o estufeiro usa umas bitolas de madeira com as dimensões precisas.

A fruta costuma ser classificada, não pelas medidas, mas sim pelo número de ananases que cabem num malote, segundo as dimensões da bitola. Por exemplo: os “ananases de catorze” eram, e em nossa opinião deveriam continuar a ser, os exportáveis mais pequenos, querendo esta classificação dizer, que em cada malote, cabem 14 ananases de 0,m13 x 0,m11.

Os “ananases de dez” são os maiores que cabem num malote, ou seja uma embalagem de 10 ananases com a medida de 0,m16 x 0,m14. A fruta com dimensões superiores a 0,m16 x 0,m14, é geralmente embalada em quartos (a não ser que se construam os malotes com a altura dos quartos), chegando a haver fruta com tais dimensões, que não cabem mais que 3 ananases em cada quarto.

B — Fibra A desfibração de madeira é uma indústria complementar da ananaseira, que se está a desenvolver e a aperfeiçoar, graças à iniciativa particular de alguns cultivadores deligentes que, deste modo, contribuem para a boa apresentação das embalagens, no que respeita ao aspecto e extensivamente às boas condições de transporte.

A fibra, é constituída por fitas de madeira, estreitas e de fina espessura, fabricadas à máquina e comprimidas em fardos. Antes de aplicada, deve ser esmiuçada, para desfazer os efeitos da compressão do enfardamento e, só depois de devidamente fofa, se procede à embalagem dos frutos.

G — Rótulos  As embalagens, são rotuladas num dos lados menores das caixas. No rótulo, figura a um lado o nome do produtor e a quantidade de ananases; o centro, destina-se a um desenho elucidativo da fruta; no outro lado, a casa exportadora e o mercado a que se destina.

D — Embalagens de luxo  Muito frequentemente são produzidos frutos excepcionalmente grandes e belos. Estes ananases costumam ser aproveitados para embalagens de luxo, dos mais diferentes tipos, conforme os gostos e ainda se se destinam a venda ou a presentes.

E — Sub-produtos  Para o aproveitamento de frutas sem medida, ou morfologicamente defeituosas, a sua transformação em conservas, doces, aguardentes e licores, reveste-se de relativa importância, além de que constitui uma defesa em tempos de crise. Ocorre-nos, para exemplo, a exploração ananaseira do sr. Dr. Augusto R. Arruda, por ser a mais completa e onde o aproveitamento dos sub-produtos não foi descuidado.

Além do notável bom gosto revelado pela disposição, ajardinamento e decoração da exploração, esta possui uma pequena serragem para a preparação de madeiras aplainadas, com as quais são construídas as caixarias e ainda uma pequena fábrica privativa, de conservas e licores, onde estão apresentados em sugestiva exposição, os sub-produtos fabricados.

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A vinha é cultura de antiga tradição no Arquipélago dos Açores, remontando a sua introdução ao início do povoamento. No último quartel do Séc. XVI o cronista Gaspar Frutuoso refere-se à abundância que a cultura assumia em diversos locais e às transacções de vinho que se verificavam (Medeiros, 1994).

A cultura expandiu-se até à maioria das Ilhas, ocupando principalmente áreas junto ao mar e solos pouco evoluídos, zonas que apresentavam melhores condições para o desenvolvimento da cultura.

Admite-se que foram os frades Franciscanos que introduziram a cultura da vinha nestas ilhas. As castas então introduzidas terão sido provenientes do continente, da Madeira e de outras áreas mediterrânicas (Medeiros, 1994).

A crise verificada no século XIX com o aparecimento do oídio, primeiro, e da filoxera e míldio posteriormente, leva à decadência da cultura e à introdução de produtores directos, mantendo-se apenas com significado o cultivo das castas europeias tradicionais nas ilhas do Pico, Terceira e Graciosa.uva 3

O vinho produzido tornou-se famoso e foi largamente exportado, particularmente o licoroso produzido na ilha do Pico, para o Norte da Europa e até para a Rússia. Depois da revolução bolchevique, em 1917, foram encontradas garrafas de vinho Verdelho do Pico armazenadas nas caves dos antigos czares da Rússia.

 

LER TAMBÉM: A Vinha e o Vinho nos Açores - Perspectiva Histórica


 

Os Solos


Localizado na zona de contacto das placas Americana, Europeia e Africana, a sua origem é vulcânica e relativamente recente, apresentando, por isso, solos pouco espessos, constituídos por rochas basálticas, traquites, andesites e formações argilosas. No Pico, o solo destinado à cultura da vinha é constituído por mantos de lava basáltica relativamente recente que dão origem aos chamados terrenos de pedra queimada.

Segundo o grau de degradação temos dois subtipos de solos: ‘os mistérios’, formados por lavas de erupções basálticas ocorridas nos séculos XVI e XVII, nos quais a rocha-mãe apenas começa a ser alterada; e os constituídos por lavas basálticas em ‘crosta de pão’, mais evoluídos que os anteriores e que constam fundamentalmente duma camada de escória vulcânica desagregada.

O primeiro é designado ‘Chão de Lagido’ e o segundo ‘Chão de Biscoito’. Ambos incluem-se nos solos litólicos não húmidos e litossolos, sobre substrato consolidado de basaltos ou rochas afins, correspondente a lavas recentes, associadas a afloramentos rochosos, por vezes com material pedregoso disseminado e manto lávico consolidado à superfície (Decreto-Lei n° 17/94, de 25 de Janeiro).

Como forma de fazer escapar as cepas às agruras dos ventos, depois de desbravado o terreno, erguiam-se paredes paralelas de pedra solta com cerca de um metro de altura no sentido do maior comprimento que formavam as chamadas ‘canadas’ ou ‘tornas’. Estas eram subdivididas em espaços regulares pelos ‘travezes’ ou ‘travessas’. Estes espaços tomam o nome de ‘currais’ (rectângulos de terreno com cerca de 6 / 2,5 metros) e não fora a enorme quantidade de mão de obra que implicam ainda hoje seriam a forma mais sensata de plantar vinhas nos Açores, ficando esta como que enterrada no ‘curral’, que funciona como uma estufa e que a protege dos ventos marítimos (Fotografia 1).

Presentemente as vinhas são plantadas recorrendo a meios menos dispendiosos e mecanizáveis. As novas plantações fazem a terraplanagem do terreno ao qual se segue a sua adubação e posterior colocação de um areão preto ou vermalho designado ‘bagacina’ com espessura compreendida entre os 10 e os 20 centímetros, sendo depois a vinha plantada em bardos e posteriormente aramada.

A bagacina preta permite maior facilidade na implantação do sistema radicular da planta, o aumento da temperatura do solo e facilidade no combate a infestantes (Afonso, 2000).

Na Terceira, os solos vitícolas são litólicos não húmidos e litossolos, sobre substrato consolidado de basaltos ou rochas afins, andesitos e traquitos, em geral correspondente a lavas recentes, frequentemente associados a afloramentos rochosos e por vezes com material pedregoso disseminado (Decreto-Lei n° 17/94, de 25 de Janeiro).

Na Graciosa, os solos são pardo-andicos, normais e pouco espessos, e solos rególicos derivados de rochas basálticas ou de materiais piraclásticos assentes sobre rocha basáltica a pouca profundidade (Decreto-Lei n° 17/94, de 25 de Janeiro).



O Clima


Situados em pleno oceano, os Açores sofrem obviamente a influência de um clima marcadamente marítimo, caracterizado por temperaturas amenas de fraca amplitude térmica diária e anual, pluviosidade elevada e elevadas percentagens de humidade relativa do ar. Neste contexto, não é fácil ciar uvas para o fabrico de vinho no Arquipélago dos Açores, pese embora o facto da vinha localizar-se, essencialmente, a baixa altitude.

Nas zonas de cultura da vinha a temperatura média do mês mais frio do ano (Fevereiro) não desce abaixo dos 11°C nem a temperatura máxima do mês mais quente (Agosto) sobe além dos 26°C, com cerca de 1 800 horas de Sol por ano e uma pluviosidade mensal significativa que no mês menos pluvioso de Julho ronda os 30 litros/ m2 e uma humidade relativa do ar que se mantem durante todo o ano entre os 75% e os 85% (www.climaat.angra.uac.pt). Perante estas condições, a vinha tem que se confinar a locais que natural ou artificialmente possibilitem microclimas mais propícios ao seu cultivo. Por isso, se algo marca fortemente a cultura da vinha nos Açores é o modo tradicional de a conduzir.

O vento e os sais marítimos que estes arrastam para terra sempre foram os principais inimigos das videiras nestas terras açorianas e desde muito cedo se encontrou forma de os combater. Os típicos ‘currais’ ou ‘curraletas’ (os nomes variam conforme a ilha de origem) são o exemplo vivo do saber antigo açoriano.


 

Produção


De acordo com dados recolhidos junto da Comissão Vitivinícola Regional dos Açores, verifica-se que a produção de vinho de Vitis vinifera L. tem-se mantido desde 1998, embora com oscilações anuais bastante acentuadas, principalmente na ilha do Pico.

A ilha do Pico é a principal produtora de vinho, com uma área total de vinha de 200 ha. Esta área produziu 2 430 hl. na campanha de 2005-2006, mas podemos verificar uma oscilação inter-anual assinalável, que nos leva a considerar que é um problema que deve ser equacionado e resolvido. A inconstância na produção induz a problemas acrescidos no planeamento da produção e da comercialização do vinho.

A segunda área vitícola é a ilha da Graciosa, com cerca de 30 ha de vinha de Vitis vinifera L. A produção de vinho, na campanha de 2005-2006, foi de 142 hl., muito próximo da Terceira, que possui de 15 ha de vinha e que produziu 110 hl. Contudo, a Graciosa teve um pico de produção de 944 hl., na campanha de 2004-2005. Nestas duas regiões, apesar de haver também oscilação na produção, os seus níveis não são tão significativos como no caso do Pico.


 

REGIÕES VITIVINÍCOLAS
A qualidade e o prestígio dos vinhos dos Açores são conhecidos de longa data, facto que levou a que fossem reconhecidas três Indicações de Proveniência Regulamentada (IPR’s): Pico, Graciosa e Biscoitos.
Em todo o arquipélago dos Açores é ainda possível produzir vinho de mesa branco e tinto, com a Indicação Geográfica Vinho Regional Açores.

 

VINHO REGIONAL AÇORES
A legislação vitivinícola permite a produção de vinhos de mesa com a Indicação Geográfica Vinho Regional Açores a partir de 15 castas tintas e 18 castas brancas, desde que produzido de acordo com as condições fixadas na Portaria n° 853/2004 de 19 de Julho.

A análise dos nomes destas castas, torna necessário fazer alguns esclarecimentos, de forma a evitar falsas interpretações destes nomes. Assim, tendo em consideração a Portaria n° 428/2000, de 17 de Julho, que enumera as castas de videira da espécie Vitis vinifera L. aptas à produção de vinho em Portugal, e os estudos de sinonímia já efectuados, permite-nos esclarecer:

Saborinho: É a casta Molar, cultivada na região de Colares. É ainda cultivada na Madeira, sob a designação de Tinta Negra (Tinta Negra Mole), e na região de Pinhel, sob a designação de Rabo de Ovelha Tinto. Estas sinonímias foram detectadas no âmbito de projecto AGRO n° 187 “Aplicação de técnicas de biologia molecular à caracterização de variedades portuguesas de videira”, que caracterizou molecularmente 314 castas referidas na portaria n° 428/ 2000, já citada. Actualmente, estes nomes estão referidos nesta portaria, mas, futuramente, será seleccionado um nome nacional para a casta e os restantes serão eliminados.

As castas Arinto e Terrantez indicadas no Vinho Regional Açores referem-se às denominações das castas tais como são mais conhecidas localmente e como foram referenciadas na legislação das IPR. Contudo, estas designações não se encontram de acordo com a nomenclatura adoptada na portaria que apresenta a lista de castas aptas para produção de vinho a nível nacional. Será deste modo necessário proceder a uma harmonização entre estas dois instrumentos legislativos.

Castas aptas à produção de Vinho Regional Açores
Agronómica Complexa Merlot Sercial (Esgana-Cão)
Aragone (Tinta-Roriz) Fernão-Pires (Maria-Gomes) Moscatel-Graúdo Tália
Arinto (Pederna) Galego-Dourado Pinol-Noir Terrantez
Bical Generosa Riesling Tinta-Barroca
Cabernet-Sauvignon Gewurz Lraminer R Rio-Grande Touri ga-Franca
Cabemet-Franc Gouveio Rufete Touriga-Nacional
Castelão (Periquita) Malvasia Saborinho Verdelho
Chardonnay Malvasia-Fina Seara-Nova Vinhão
  Viosinho

 

IPR PICO

O Decreto-Lei n° 17/94, de 25 de Janeiro, que aprova os Estatutos das Zonas Vitivinícolas dos Biscoitos, Graciosa e Pico, permite a produção, na ilha do Pico, de Vinhos Licorosos de Qualidade Produzidos em Região Determinada (VLQPRD) a partir de 3 castas brancas recomendadas: Verdelho, Arinto e Terrantez. Na realidade, nesta ilha predomina o cultivo das castas regionalmente conhecidas por Arinto (85%), Verdelho (10%) e Terrantez, mas cujos nomes nacionais são Terrantez da Terceira, Verdelho e Terrantez do Pico, respectivamente.


IPR BISCOITOS
O prestigiado vinho licoroso branco Biscoitos é produzido na ilha da Terceira. A designação Biscoitos deve-se ao facto de o solo ser muito pedregoso de cor escura, semelhante ao biscoito que, na época dos descobrimentos, os navegadores utilizavam como pão (o ‘Chão de Biscoito’, já referido). O Decreto-Lei n° 17/94, já citado, permite a produção de VLQPRD’s a partir das mesmas 3 castas brancas recomendadas do IPR Pico: Verdelho, Arinto e Terrantez. Na ilha Terceira predomina a casta Verdelho. Existe ainda algum Arinto (Terrantez da Terceira). Mas não se encontra em cultura a Terrantez do Pico.


IPR GRACIOSA
Na ilha Graciosa produz-se o IPR Graciosa, vinho branco resultante de videiras cultivadas também em ‘currais’, tal como no Pico. A legislação vitivinícola (Decreto-Lei n° 17/94) permite a produção de Vinhos de Qualidade Produzidos em Região Determinada (VQPRD) a partir de 5 castas brancas recomendadas: Verdelho, Arinto, Terrantez, Boal e Fernão Pires.

Na ilha da Graciosa cultiva-se Verdelho, Arinto (Terrantez da Terceira), Terrantez do Pico e Boal (Malvasia Fina). A distribuição das casta Verdelho e Arinto (Terrantez da Terceira) dá-se em função da maior ou menor proximidade do mar. Nas áreas mais próximas ao litoral, onde há o perigo das ressalgas e ventos, é aconselhada a cultura da Arinto por ser uma casta de abrolhamento mais tardio, ficando a Verdelho reservada mais para o interior da ilha, embora aí as condições de maturação sejam menos favoráveis. O que é compensado pela maturação mais precoce da Verdelho.

 


 

CARACTERIZAÇÃO DAS CASTAS TRADICIONAIS

 

Verdelho B
“O primeiro pároco da ilha, o franciscano Frei Gigante, teve então a revelação de que aquela terra parecia a da Sicília, e mandou plantar ‘em pé franco’ as primeiras cepas de Verdecchio, que mandou vir da Madeira”. E deste modo que Catarina Carvalho (2004) nos relata a introdução da vinha e da casta Verdelho na ilha do Pico.

O Anuário do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV, 2004-05, p. 431) também refere a origem da vinha e da Verdelho, no arquipélago, em termos semelhantes, ao referir: “... pensando-se que foram os religiosos Franciscanos quem nelas (nas ilhas do arquipélago) introduziram o plantio da vinha.

Desde muito cedo estes religiosos constataram existirem grandes semelhanças entre as condições edafo-climáticas da Sicília e algumas ilhas deste arquipélago, tendo trazido várias plantas da casta mais conhecida, o Verdelho (antigo Verdecchio siciliano, segundo alguns investigadores), cuja expansão foi rápida e abundante”.

A coincidência de nomes e de factos é praticamente coincidente. A diferença entre os dois textos é que Catarina Carvalho cita a Verdelho como tendo sido introduzida da Madeira e o Anuário do IVV dá a entender que a casta foi introduzida directamente da Sicília. Os factos que estamos a analisar reportam-se ao século XV, sendo impossível saber a verdadeira identidade da casta citada.

Actualmente, sendo a designação Verdelho, Verdello, Verdecchio e até Verdejo (nome espanhol), bastante comuns, é praticamente impossível saber de modo preciso a que casta estes autores estão-se a referir.
Contudo, a Verdelho actualmente cultivada no arquipélago dos Açores é uma entidade relativamente bem conhecida (Fotografias 2 e 3). É a única casta tradicional que mantem a designação entre as ilhas do Pico, Terceira e Graciosa. Este facto é coerente com a história da casta no arquipélago, pois, como se depreende das citações sobre a origem da vinha na região, é considerada a mais antiga e mais típica do encepamento.

É igual à Verdelho cultivada na Madeira (Lopes et al., 1999) e na Austrália, para onde foi levada da ilha da Madeira, por volta de 1824 (Krake et al., 1999, p.115). É diferente da Verdecchio italiana (Fotografia 4) e da Verdejo espanhola. Relativamente a esta última casta, é morfologicamente muito semelhante, mas os perfis de microssatélites provam que são duas castas distintas. Vários autores consideram, erradamente, que é igual à Gouveio cultivada no Continente (Fotografia 5) (Kerridge e Antcliff, 1999, p. 177 e 194).

Morfologicamente caracteriza-se por possuir folhas jovens verdes com zonas acobreadas, sendo a página inferior glabra (sem pêlos). Pâmpano estriado de vermelho. Gomos ligeiramente avermelhados. A folha adulta é orbicular, subinteira, ligeiramente irregular, bastante bolhosa, possuindo a página inferior baixa densidade de pêlos prostrados. O seio peciolar é fechado, com a base em U. Os seios laterais superiores são em V aberto. Os dentes são convexos. As nervuras principais são ligeiramente avermelhadas junto ao ponto peciolar. O pecíolo é avermelhado. O cacho é pequeno e tochado. O bago é ligeiramente elíptico. Casta de abrolhamento em época média (6 dias após a Fernão Pires) e de maturação bastante precoce (2 semanas antes da Fernão Pires). Produz facilmente dois cachos por lançamento. O seu vigor é médio e o porte semi-erecto.

 

Arinto B (Terrantez da Terceira)
A mais importante casta do arquipélago (Fotografias 6 e 7). Esta casta é conhecida por Arinto no Pico e por Terrantez na Terceira. Na Graciosa, ora é designada por Arinto, ora por Terrantez. A hipótese veículada por alguns agricultores, de ser conhecida por Verdelho em S.Jorge, e daí justificar a sua antiguidade e ser a verdadeiro Verdelho, cujos vinhos foram encontrados nas garrafeiras dos czares, não se articula com a informação veículada quando nos referimos à Verdelho.

Perante os dados que possuimos, parece-nos que esta casta terá tido uma introdução posterior, apesar de não sabermos ainda a sua origem. A caracterização molecular, já citada, de 314 castas referidas na portaria n° 428/2000, mostra que é uma casta diferente de todas as outras cultivadas no país.

Na referida portaria n° 428/2000, de 17 de Julho, esta casta vem designada com o nome de Terrantez da Terceira. O uso deste nome foi determinado para não criar confusão com a casta Arinto cultivada no Continente. Por outro lado, o nome geográfico justifica-se para não criar confusão com a casta Terrantez cultivada no Continente.

É diferente da Terrantez cultivada no Dão e da Torrontés cultivada em Espanha. Morfologicamente caracteriza-se por possuir a extremidade do ramo jovem com média densidade de pêlos prostrados. A folha jovem é verde com zonas acobreadas, possuindo a página inferior média densidade de pêlos prostrados. Pâmpano ligeiramente estriado de vermelho. Gomos verdes, sem pigmentação antociânica.

A folha adulta é orbicular, trilobada, ligeiramente irregular, medianamente bolhosa, possuindo a página inferior média densidade de pêlos prostrados. O seio peciolar é pouco aberto, com a base em V, e os seios laterais superiores em V. Os dentes são rectilíneos. As nervuras principais são avermelhadas junto ao ponto peciolar. O cacho é pequeno a médio e o bago é pequeno e elíptico.

O abrolhamento desta casta é tardio, daí a sua cultura mais próxima ao litoral, na Graciosa. Produz, em média, 2 a 3 cachos por lançamento. O seu vigor é baixo e o porte semi—erecto. É, das três castas tradicionais cultivadas no Pico, a mais resistente às intempéries, evidenciando maior capacidade de produção aliada a uma qualidade enológica semelhante à do Verdelho. São estas as razões que têm levado a que cada vez mais viticultores do Pico substituam as plantas de Verdelho e Terrantez que vão morrendo por Arinto, denotando-se uma tendência acentuada para o aumento da área plantada desta casta relativamente às restantes.

 

Terrantez do Pico B
Casta do Pico, mas de expansão muito restrita (Fotografias 8 e 9). Não existe nas restantes ilhas. Na Portaria n° 428/2000, já referida, esta casta vem designada com o nome de Terrantez do Pico. O uso do nome geográfico justifica-se para não criar confusão com a casta Terrantez cultivada no Continente. A caracterização molecular, já citada, mostra que é uma casta diferente de todas as outras cultivadas no país.

Morfologicamente caracteriza-se por possuir a folha jovem verde com zonas acobreadas e a página inferior glabra. O pâmpano é estriado de vermelho e os gomos são ligeiramente avermelhados. A folha adulta é pentagonal, trilobada, irregular, com elevada bolhosidade. A página inferior tem baixa densidade de pêlos prostrados. O seio peciolar é fechado, com a base em U. Os seios laterais superiores são em V aberto. Os dentes são convexos. As nervuras principais são avermelhadas do ponto peciolar até à 1a ramificação. O pecíolo é avermelhado. O cacho é pequeno e muito tochado, e o bago é arredondado. O sarmento é castanho escuro a avermelhado. Produz facilmente dois cachos por lançamento. O vigor é baixo e o porte semi-erecto.
É uma casta muito sensível às doenças criptogâmicas (principalmente oídio), muito usuais na região dos Açores - humidade relativa alta, temperatura amena e pluviosidade frequente, são uma constante durante todo o ciclo vegetativo da videira.

 

Boal B (Malvasia Fina)
Esta casta existe no encepamento tradicional da Graciosa e é conhecida no continente por Malvasia Fina (Fotografias 10 e 11). Na ilha da Madeira, esta casta também é designada por Boal, designação que pode ser usada na rotulagem do VLQPRD Madeira.

Morfologicamente possui a extremidade do ramo jovem aberta, com orla ligeiramente carmim e elevada densidade de pêlos prostrados. A folha jovem é verde, com elevada densidade de pêlos prostrados na página inferior. O pâmpano é verde, com gomos verdes. A folha adulta, de tamanho médio e côr verde médio, é pentagonal, com cinco lóbulos, irregular, ligeiramente bolhosa. A página inferior possui forte densidade de pêlos prostrados, e os dentes são médios e rectilíneos. O seio peciolar é pouco aberto, com a base em V, e os seios laterais superiores são fechados em U.

O cacho é médio, cónico-alado, medianamente compacto e o pedúnculo de comprimento médio. O bago é ligeiramente elíptico, pequeno e verde-amarelado, com a película medianamente espessa e a polpa mole. O sarmento é castanho amarelado. Fenologicamente caracteriza-se por abrolhar em época média (3 dias após a Fernão Pires) e atingir a maturação também em época média (uma semana após a Fernão Pires). O seu porte é semi-erecto e o vigor é médio. Possui boa produtividade e é regular nas produções. Sensível ao oídio, à podridão cinzenta e à carência hídrica, engelhando o bago.

 

FONTE: O ENCEPAMENTO DO ARQUIPÉLAGO DOS AÇORES J.E. Eiras-Dias1, Vasco Paulos2, Susana Mestre2, Jorge Tiago Martins2,Isabel Goulart2 - Estação Vitivinícola Nacional; SDA

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