CARACTERIZAÇÃO DAS CASTAS TRADICIONAIS

 

Verdelho B
“O primeiro pároco da ilha, o franciscano Frei Gigante, teve então a revelação de que aquela terra parecia a da Sicília, e mandou plantar ‘em pé franco’ as primeiras cepas de Verdecchio, que mandou vir da Madeira”. E deste modo que Catarina Carvalho (2004) nos relata a introdução da vinha e da casta Verdelho na ilha do Pico.

O Anuário do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV, 2004-05, p. 431) também refere a origem da vinha e da Verdelho, no arquipélago, em termos semelhantes, ao referir: “... pensando-se que foram os religiosos Franciscanos quem nelas (nas ilhas do arquipélago) introduziram o plantio da vinha.

Desde muito cedo estes religiosos constataram existirem grandes semelhanças entre as condições edafo-climáticas da Sicília e algumas ilhas deste arquipélago, tendo trazido várias plantas da casta mais conhecida, o Verdelho (antigo Verdecchio siciliano, segundo alguns investigadores), cuja expansão foi rápida e abundante”.

A coincidência de nomes e de factos é praticamente coincidente. A diferença entre os dois textos é que Catarina Carvalho cita a Verdelho como tendo sido introduzida da Madeira e o Anuário do IVV dá a entender que a casta foi introduzida directamente da Sicília. Os factos que estamos a analisar reportam-se ao século XV, sendo impossível saber a verdadeira identidade da casta citada.

Actualmente, sendo a designação Verdelho, Verdello, Verdecchio e até Verdejo (nome espanhol), bastante comuns, é praticamente impossível saber de modo preciso a que casta estes autores estão-se a referir.
Contudo, a Verdelho actualmente cultivada no arquipélago dos Açores é uma entidade relativamente bem conhecida (Fotografias 2 e 3). É a única casta tradicional que mantem a designação entre as ilhas do Pico, Terceira e Graciosa. Este facto é coerente com a história da casta no arquipélago, pois, como se depreende das citações sobre a origem da vinha na região, é considerada a mais antiga e mais típica do encepamento.

É igual à Verdelho cultivada na Madeira (Lopes et al., 1999) e na Austrália, para onde foi levada da ilha da Madeira, por volta de 1824 (Krake et al., 1999, p.115). É diferente da Verdecchio italiana (Fotografia 4) e da Verdejo espanhola. Relativamente a esta última casta, é morfologicamente muito semelhante, mas os perfis de microssatélites provam que são duas castas distintas. Vários autores consideram, erradamente, que é igual à Gouveio cultivada no Continente (Fotografia 5) (Kerridge e Antcliff, 1999, p. 177 e 194).

Morfologicamente caracteriza-se por possuir folhas jovens verdes com zonas acobreadas, sendo a página inferior glabra (sem pêlos). Pâmpano estriado de vermelho. Gomos ligeiramente avermelhados. A folha adulta é orbicular, subinteira, ligeiramente irregular, bastante bolhosa, possuindo a página inferior baixa densidade de pêlos prostrados. O seio peciolar é fechado, com a base em U. Os seios laterais superiores são em V aberto. Os dentes são convexos. As nervuras principais são ligeiramente avermelhadas junto ao ponto peciolar. O pecíolo é avermelhado. O cacho é pequeno e tochado. O bago é ligeiramente elíptico. Casta de abrolhamento em época média (6 dias após a Fernão Pires) e de maturação bastante precoce (2 semanas antes da Fernão Pires). Produz facilmente dois cachos por lançamento. O seu vigor é médio e o porte semi-erecto.

 

Arinto B (Terrantez da Terceira)
A mais importante casta do arquipélago (Fotografias 6 e 7). Esta casta é conhecida por Arinto no Pico e por Terrantez na Terceira. Na Graciosa, ora é designada por Arinto, ora por Terrantez. A hipótese veículada por alguns agricultores, de ser conhecida por Verdelho em S.Jorge, e daí justificar a sua antiguidade e ser a verdadeiro Verdelho, cujos vinhos foram encontrados nas garrafeiras dos czares, não se articula com a informação veículada quando nos referimos à Verdelho.

Perante os dados que possuimos, parece-nos que esta casta terá tido uma introdução posterior, apesar de não sabermos ainda a sua origem. A caracterização molecular, já citada, de 314 castas referidas na portaria n° 428/2000, mostra que é uma casta diferente de todas as outras cultivadas no país.

Na referida portaria n° 428/2000, de 17 de Julho, esta casta vem designada com o nome de Terrantez da Terceira. O uso deste nome foi determinado para não criar confusão com a casta Arinto cultivada no Continente. Por outro lado, o nome geográfico justifica-se para não criar confusão com a casta Terrantez cultivada no Continente.

É diferente da Terrantez cultivada no Dão e da Torrontés cultivada em Espanha. Morfologicamente caracteriza-se por possuir a extremidade do ramo jovem com média densidade de pêlos prostrados. A folha jovem é verde com zonas acobreadas, possuindo a página inferior média densidade de pêlos prostrados. Pâmpano ligeiramente estriado de vermelho. Gomos verdes, sem pigmentação antociânica.

A folha adulta é orbicular, trilobada, ligeiramente irregular, medianamente bolhosa, possuindo a página inferior média densidade de pêlos prostrados. O seio peciolar é pouco aberto, com a base em V, e os seios laterais superiores em V. Os dentes são rectilíneos. As nervuras principais são avermelhadas junto ao ponto peciolar. O cacho é pequeno a médio e o bago é pequeno e elíptico.

O abrolhamento desta casta é tardio, daí a sua cultura mais próxima ao litoral, na Graciosa. Produz, em média, 2 a 3 cachos por lançamento. O seu vigor é baixo e o porte semi—erecto. É, das três castas tradicionais cultivadas no Pico, a mais resistente às intempéries, evidenciando maior capacidade de produção aliada a uma qualidade enológica semelhante à do Verdelho. São estas as razões que têm levado a que cada vez mais viticultores do Pico substituam as plantas de Verdelho e Terrantez que vão morrendo por Arinto, denotando-se uma tendência acentuada para o aumento da área plantada desta casta relativamente às restantes.

 

Terrantez do Pico B
Casta do Pico, mas de expansão muito restrita (Fotografias 8 e 9). Não existe nas restantes ilhas. Na Portaria n° 428/2000, já referida, esta casta vem designada com o nome de Terrantez do Pico. O uso do nome geográfico justifica-se para não criar confusão com a casta Terrantez cultivada no Continente. A caracterização molecular, já citada, mostra que é uma casta diferente de todas as outras cultivadas no país.

Morfologicamente caracteriza-se por possuir a folha jovem verde com zonas acobreadas e a página inferior glabra. O pâmpano é estriado de vermelho e os gomos são ligeiramente avermelhados. A folha adulta é pentagonal, trilobada, irregular, com elevada bolhosidade. A página inferior tem baixa densidade de pêlos prostrados. O seio peciolar é fechado, com a base em U. Os seios laterais superiores são em V aberto. Os dentes são convexos. As nervuras principais são avermelhadas do ponto peciolar até à 1a ramificação. O pecíolo é avermelhado. O cacho é pequeno e muito tochado, e o bago é arredondado. O sarmento é castanho escuro a avermelhado. Produz facilmente dois cachos por lançamento. O vigor é baixo e o porte semi-erecto.
É uma casta muito sensível às doenças criptogâmicas (principalmente oídio), muito usuais na região dos Açores - humidade relativa alta, temperatura amena e pluviosidade frequente, são uma constante durante todo o ciclo vegetativo da videira.

 

Boal B (Malvasia Fina)
Esta casta existe no encepamento tradicional da Graciosa e é conhecida no continente por Malvasia Fina (Fotografias 10 e 11). Na ilha da Madeira, esta casta também é designada por Boal, designação que pode ser usada na rotulagem do VLQPRD Madeira.

Morfologicamente possui a extremidade do ramo jovem aberta, com orla ligeiramente carmim e elevada densidade de pêlos prostrados. A folha jovem é verde, com elevada densidade de pêlos prostrados na página inferior. O pâmpano é verde, com gomos verdes. A folha adulta, de tamanho médio e côr verde médio, é pentagonal, com cinco lóbulos, irregular, ligeiramente bolhosa. A página inferior possui forte densidade de pêlos prostrados, e os dentes são médios e rectilíneos. O seio peciolar é pouco aberto, com a base em V, e os seios laterais superiores são fechados em U.

O cacho é médio, cónico-alado, medianamente compacto e o pedúnculo de comprimento médio. O bago é ligeiramente elíptico, pequeno e verde-amarelado, com a película medianamente espessa e a polpa mole. O sarmento é castanho amarelado. Fenologicamente caracteriza-se por abrolhar em época média (3 dias após a Fernão Pires) e atingir a maturação também em época média (uma semana após a Fernão Pires). O seu porte é semi-erecto e o vigor é médio. Possui boa produtividade e é regular nas produções. Sensível ao oídio, à podridão cinzenta e à carência hídrica, engelhando o bago.

 

FONTE: O ENCEPAMENTO DO ARQUIPÉLAGO DOS AÇORES J.E. Eiras-Dias1, Vasco Paulos2, Susana Mestre2, Jorge Tiago Martins2,Isabel Goulart2 - Estação Vitivinícola Nacional; SDA

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