cedro do matoCedro‑do‑mato (Juniperus brevifolia (Seub.) Antoine)

Conhecido por cedro (erro comum na atribuição de nomes vulgares às coníferas de folhas curtas, designando‑as todas como cedros, embora pertençam a diferentes géneros), cedro‑do‑mato nas populações de montanha.

e de zimbro (nome português de facto para as espécies de Juniperus) nas populações de costa, esta espécie poderia, com toda a justiça, ser eleita como a planta que melhor simboliza as ilhas dos Açores.

As razões para esta afirmação baseiam‑se essencialmente, no reconhecimento de que é dominante ou co‑dominante em vários tipos de comunidades endémicas e de que a sua morfologia e fisiologia se encontram particularmente bem adaptadas ao meio ecológico dos Açores, sendo, por isso, a espécie com distribuição mais ampla, desde a beira‑mar até quase ao topo da montanha da ilha do Pico, o ponto mais alto de Portugal. O carácter dominante do cedro‑do‑mato é particularmente evidente nas florestas situadas acima dos 500 m de altitude (florestas de montanha ou florestas das nuvens) que correspondem a comunidades endémicas, onde a maioria das plantas vasculares são igualmente únicas dos Açores.

Estas comunidades têm também uma enorme importância na intercepção de nevoeiros (aumentando a recarga dos aquíferos) e na estabilização e formação do solo, sendo fontes importantes de biodiversidade, quer vegetal, quer animal. As primeiras descrições da vegetação natural dos Açores, na altura do seu descobrimento, revelam de uma forma geral ilhas cobertas por densas florestas.

Facto comum à maioria das descrições é a presença de cedro‑do‑mato, existindo desde o povoamento a referência a cobertos vegetais dominados apenas por cedros, em zonas de montanha. No entanto, a alteração antropogénica dos cobertos vegetais começou mesmo antes do povoamento, devido à introdução de todo o tipo de gado doméstico (ovelhas, cabras, porcos, cavalos e vacas) pelos navegadores. Com o povoamento veio a exploração directa dos recursos naturais, que rapidamente alterou os cobertos vegetais, principalmente em São Miguel e Santa Maria.

Quando os Açores se tornaram o eixo central das viagens atlânticas ocorreu uma intensa destruição da floresta natural para fomentar a produção cerealífera e fornecer madeira para reparar e construir barcos.

A exploração dos recursos florestais diversificou‑se e incluía: o uso da baga do louro (Laurus azorica) para fabrico de óleo com fins medicinais e de iluminação, o fabrico de carvão vegetal a partir, principalmente, da madeira de faia (Myrica faya), urze (Erica azorica) e cedro‑do‑mato (Juniperus brevifolia), mas também de louro, a exploração das plantas tintureiras como o dragoeiro (Dracaena dracco) e a utilização dos frutos de faia e uva‑da‑serra (Vaccinium cylindraceum) para fabrico de compotas.

O cedro‑do‑mato terá sido provavelmente uma das espécies arbóreas mais exploradas, uma vez que, para além do fabrico de carvão vegetal, esta espécie era usada para fins variados, de que são exemplo o fabrico de galochas, medidas para cereais, colheres, fechaduras e principalmente mobiliário civil e arte sacra.

As florestas naturais foram também destruídas para implantação de cana‑do‑açúcar e de pastagens. De facto, desde o período do pré‑povoamento, que a floresta natural serviu de alimento para o gado, mas com o povoamento esta exploração dos recursos florestais aumentou, devido não apenas à actividade directa de herbivoria mas também à recolha de folhagem. No entanto, a destruição das florestas naturais para implantação de pastagens assumiu maior dimensão apenas no século XX, particularmente nas zonas de maior altitude.

Actualmente, o cedro‑do‑mato distribui‑se por todas as ilhas dos Açores, com excepção da Graciosa. No entanto, a análise mais detalhada da distribuição em cada ilha revela que em Santa Maria a espécie está à beira da extinção. Aliás, de uma forma geral a J. brevifolia sofreu um acentuado declínio desde o povoamento das ilhas açoreanas e a sua distribuição actual é certamente muito menor do que a distribuição potencial, particularmente, para além das ilhas já citadas, em São Miguel, no Faial e no Corvo.

No Pico, apesar de a situação aparentar ser boa, o facto é que em grande parte da área de ocorrência as comunidades de Cedro‑do‑mato estão extremamente fragmentadas devido à implantação de pastagens, particularmente no Planalto da Achada, a Este da montanha. Situação semelhante acontece em São Jorge, na zona do Topo. No entanto, é na ilha do Pico que podem ser encontrados os melhores exemplos de populações costeiras de cedro‑do‑mato, principalmente no extremo leste e entre o Cachorro e o Cais do Mourato, na zona noroeste.

Nas ilhas Terceira e Flores encontram‑se ainda grandes áreas naturais ocupadas por comunidades dominadas por esta espécie, principalmente acima dos 500 m de altitude.

Nas zonas de montanha a Juniperus brevifolia assume um papel preponderante nas comunidades florestais, sendo mesmo a única espécie arbórea nos bosques de cedro e nos bosques de cedro com turfeira. Assim, seria muito provável que na ausência desta espécie muitas áreas montanhosas dos Açores fossem ocupadas por matos ou prados de montanha.

A ausência de coberto florestal resultaria necessariamente numa menor intercepção de nevoeiros, numa menor recarga de aquíferos e de corpos de água livre e na menor estabilização dos solos, assim como num aumento do risco de eutrofização de ribeiras e lagoas. Por outro lado, mesmo em algumas florestas onde não é a única espécie arbórea, a sua ausência teria resultados catastróficos. Nas florestas de cedro‑azevinho, por exemplo, o declínio de Juniperus brevifolia tem como consequência o aumento da mortalidade e a diminuição da regeneração do azevinho (Ilex azorica), devido provavelmente ao aumento da exposição e alteração das condições micro ambientais.

O cedro‑do‑mato é também uma espécie essencial em sucessões primárias e em sucessões secundárias antropogénicas. De facto, a larga amplitude ecológica desta espécie reflecte‑se também na capacidade que possui de colonizar substratos recentes, sendo uma das principais espécies construtoras de comunidades.

Adicionalmente, Juniperus brevifolia, juntamente com Erica azorica (urze), é muitas vezes a primeira espécie arbórea a recolonizar áreas onde o coberto florestal foi destruído, sendo assim também uma das principais espécies reconstrutoras das comunidades florestais açorianas que foram alteradas pela acção do homem, principalmente acima dos 500 m de altitude. Por outro lado, nas zonas de maior altitude, acima do limite das árvores (timberline), esta é uma das espécies dominantes de muitos matos de montanha.

O cedro‑do‑mato é de facto uma espécie‑chave em muitas comunidades naturais dos Açores. O seu declínio teria consequências graves nos ecossistemas naturais, na qualidade e quantidade dos recursos hídricos, nos solos, na flora e fauna insulares. Actualmente, esta espécie e as comunidades por si dominadas, são protegidas a nível regional e internacional.

o entanto, muito tem de ser feito ainda ao nível da conservação das florestas de cedro, de forma a garantir a protecção das comunidades naturais existentes e o restauro ecológico das comunidades degradadas. Adicionalmente, as populações costeiras desta espécie devem merecer uma atenção especial devido ao facto de estarem extintas na maior parte das ilhas e de serem na sua maior parte semi‑naturais e ameaçadas pelas actividades humanas.

No seu hábito, pode aparecer como arbusto ou árvore, embora seja verdade que quase todas as populações existentes, na actualidade, sejam de arbustos resultado da exploração da sua madeira durante séculos.

A copa do cedro‑do‑mato tem a particularidade de ser formada por ramos terminais horizontais a erectopatentes, o que parece ser uma defesa face ao excesso de precipitação que ocorre em muitas das áreas de montanha que povoa. As suas folhas são muito pequenas, de 5,7 a 6,5 mm de comprimento (donde a designação de brevifolia), persistentes, linear‑lanceoladas a ovado‑lineares, acuminadas a obtusas, mucronadas.

As suas sementes amadurecem em cones subglobosos e baciformes (em forma de bagas) que, quando maduras têm elevado conteúdo em açúcares nas partes carnudas (7,8– 8,7 mm de diâmetro), tornando‑as apetecíveis para os pássaros.

No estudo do seu habitat, tem‑se verificado uma grande plasticidade, distribuindo‑se por solos litólicos, andossolos e andossolos ferruginosos, em domas e escoadas lávicas, e ainda depósitos piroclásticos.

Formando comunidades de matos costeiros, matos de montanha, matos pioneiros, matos secundários, florestas e bosques.

In Espécies florestais das ilhas, Eduardo Dias, Carina Araújo, José Fernando Mendes, Rui Elias, Cândida Mendes e Cecília Melo
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