Como realizar uma Quarentena

Você ou um ente querido tem febre leve, dores no corpo, o início de uma tosse seca e irritante. A comida não tem gosto nem cheira como antes. Talvez sinte falta de ar ou custa respirar...

Cozer feijões velhos

feijãoQuando guardados há muito tempo (anos mesmo) ou simplesmente mal acondicionados, os feijões podem demorar tempo a mais a cozer. Mas há soluções.

A menos aconselhável é a adição de...

A Tinturaria Vegetal em Alguma Ilhas dos Açores


Carreiro da Costa, 1957

tinturariaRemonta aos primeiros decénios de vida insular, a prática dos vários processos de tinturaria caseira, servida por elementos vegetais. Tais processos encontram-se...

Cores das Ilhas

Tudo leva a crer que esta paleta de cores começou a ser formada com a visita do escritor Raul Brandão, que esteve nos Açores em 1924 e foi atribuindo a cada ilha uma determinada cor (ou...

A Amoreira e a Sericultura

 

Carreiro da Costa, 1945

De entre os problemas económicos em equação no arquipélago dos Açores, o da sericicultura é dos que mais tem apaixonado aqueles que, no decorrer dos tempos, vêm...

Agave (Babosa)

Piteira, Babosa, Agave, Agave americana L.

agaveÉ uma planta muito disseminada nos jardins de algumas ilhas. Não sabemos se o  “Agave azul” (e a sua parente “Marginata”, com folhas às riscas...

Alguns Estudos Científicos sobre Agricultura Açoriana

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Departamento de Ciências Agrárias

http://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3

 

A influência da paisagem, dos factores ambientais e taxa de infestação na densidade na...

Afora duzentos e oitenta soldados hespanhóis que estão de presídio na fortaleza, dos naturais há em toda a ilha de São Miguel cinco mil homens de peleja, todos bons soldados de infantaria, afora os de cavalo, dos quais, ainda que se pode ajuntar um corpo ou companhia de quinhentos, sós trezentos serão bons cavaleiros, em bons cavalos e ginetes. Sumariamente digo que esta ilha de São Miguel, em gente e riqueza, é um Reino de dezoito léguas de comprido, e de largo, em partes uma, e em partes duas léguas e mais. Tem uma populosa cidade, cinco vilas, vinte e dois lugares, em que há cinco mil e seiscentos e sessenta e sete fogos e mais de quarenta mil almas, das quais são de confissão vinte mil e setecentas e noventa e quatro, e de comunhão catorze mil e quatrocentas e oitenta e quatro. Rende a Sua Majestade cada ano mais de cinquenta mil cruzados, que é mais do que rendem as outras oito ilhas dos Açores juntas.
O conde de Vila Franca, Capitão e governador desta ilha, tem nela mais de trinta mil cruzados de renda. .
Há nela fazendas grossas e homens de quatrocentos e de trezentos moios de trigo, de renda; e outros ricos de duzentos mil cruzados e de cem mil, e daí para baixo, em rendas, granjearia e trato.
As terras, no geral, são mui fértiles e rendosas. A gente dela de bons entendimentos, pia, devota, caritativa, discreta, lustrosa e de polícia, e tão inteira nas cousas da Santa Fé Católica Romana que com ser mui antigo e contínuo o trato e comércio nesta ilha, de ingreses, franceses e framengos, por bondade de Deus, até agora se não têm visto nos moradores tisnados erros, que em algumas destas nações há nas cousas da Fé, e, assim como são leais a Deus, o foram sempre a Sua Majestade, no tempo das alterações do Reino de Portugal, pelo que merecem mercês e favores.
Sobretudo, é também lustrada com a Santa Margarida de Chaves, natural dela, que nela nasceu e está sepultada, onde fazem suas relíquias muitos milagres, como já tenho contado.
No descoberto, não se sabem ilhas que estejam tão remotas da terra firme como estas nove dos Açores, algumas das quais estão de Portugal quase trezentas léguas, e outras mais e menos, e além de serem mui frequentadas do comércio que nelas têm gentes estrangeiras, suspeitosas na fé, de alguns que andam piratas são avexadas, como também o são as naus e navios que a elas vêm aportar das Índias do oriente e ponente e de outras partes; pelo que os moradores delas, vivendo dantes quietos, vivem agora como em fronteira de corsairos, a cujos rebates acodem valorosamente, defendendo a terra e os navios que aportam a seus portos, arriscando suas vidas e perdendo-as alguns, como já tem acontecido algumas vezes em algumas, e pouco tempo há nesta ilha de S. Miguel, de cuja narração faço, Senhora, fim, inda que o não tem as saudades da terra, nem menos as do céu, que os dois amigos seus naturais, nela e fora dela, tiveram. .
Dizendo eu à Fama: — isto é, Senhora, o que pude saber desta ilha de S. Miguel, afora a história dos dois amigos que nela houve, que é larga de contar, — nos fomos por entre o mato praticando e comendo as uvas da serra, pretas, roxas e brancas, e das alvas camarinhas, que se parecem na cor e grão com o fino aljôfre, recolhendo-nos em a minha sombria pousada, onde passámos a escura noite, às vezes dormindo e outras falando claras e amorosas palavras, agradecendo ela o trabalho passado de lhe dizer tantas particularidades desta terra, mostrando-me desejar de me meter em outro, de também lhe contar a história dos dois amigos que houve nela, como amanhecesse. E depois que o sol começou a alumiar a face da terra, nos fomos assentar no costumado lugar, junto da grande e fresca ribeira, onde passámos ambos o que adiante direi.

O primeiro capitão estrangeiro da fortaleza da cidade da Ponta Delgada, desta ilha de São Miguel, foi Pedro Munhoz de Castel Branco, homem de grande ânimo, muito saber e prudência, natural da vila de Moia, do bispado de Cuenca, nos Reinos de Hespanha, da geração dos Munhozes da vila de Teruel, dos Reinos de Aragão, e da dos Castelos Brancos, das montanhas de Xala.
Tem por armas, dos Munhozes, uma cruz de Avis vermelha, abertos os braços até que chega à frol de liz em campo de ouro, e dos Castelos Brancos, tem por armas um castelo com as ameias brancas em campo vermelho, e por orla, ao redor do escudo, umas aspas vermelhas em campo de ouro, a meia porta do castelo cerrada e outra metade aberta, com um braço armado, com a espada nua na mão defendendo-a.
As quais armas deu el-Rei D. Jaime de Aragão, que ganhou a Valença, ao fidalgo Mossem Belenguer Ruiz de Castel Branco, que havia abaixado com ele das montanhas para a conquista, porque tendo a seu cargo a vila de Castel Favi, do Reino de Valença, que fazia fronteira aos mouros, vieram um dia sobre ele de sobressalto e acudiu só à defensão de seu castelo, e, não podendo cerrar mais que a metade da porta, defendeu a outra tão valorosamente que teve tempo a gente que estava na igreja, dentro no mesmo castelo, ouvindo missa, para se armar e vir a defendê-la, e chegando a ele o acharam feito pedaços, seguiram ao alcance dos mouros, e deram conta disso a el-Rei D. Jaime, o qual mandou que se enterrasse em cima da porta do mesmo castelo, onde está ainda este dia, e que a seus filhos e descendentes lhes ficasse por armas um castelo com meia porta cerrada e outra meia aberta, defendendo-a com o braço e a espada nua.
Descendem os Castelos Brancos deste fidalgo Mossem Belenguer Ruiz de Castel Branco, ao qual do repartimento da conquista que fez el-Rei D. Jaime de Aragão couberam as vilas de Valadoche, e Chera e Tormon e o Corvo, e os lugares desta jurdição, que eram sete, com a alcaidaria do Castelo e vila de Castel Favi, que estava por fronteira dos mouros, onde morreu em sua defensão, como está dito.
Teve este fidalgo dois filhos: ao maior deixou estas vilas com suas aldeias, em morgado, e ao outro, segundo, a vila da Torre Fondoneira, Velhar de Vehet, com a herdade que se chama Torrijos, que está junto de Camin Real, no Reino de Aragão.
O filho maior teve duas filhas: a mais velha, que herdava o morgado, casou com um fidalgo que se chamava Mossem Pedro de Herédia, senhor de Fontes, no Reino de Aragão, e de outras vilas e lugares; os quais com o tempo há muitos anos que têm título de condes de Fontes. Tem sua casa mais de vinte mil cruzados de renda, e os doze mil deles são da casa dos Castelos Brancos.
A outra casou com um filho do Arcebispo de Saragoça, chamado D. Fuão de Aragão.
O outro segundo filho de Mossem Belenguer, tio destas senhoras, vendo que a casa e nome dos Castelos Brancos se havia perdido pelo vir a herdar fêmea, fez morgado da vila de Fondoneira, Velhar de Vehet e da herdade de Torrijos, em seu filho maior, com tal gravame e força, que em nenhum tempo o pudesse vir a herdar fêmea, senão, quando faltassem descendentes varões, os herdassem os parentes mais propínquos do nome e armas dos de Castel Branco.
Terá de renda este morgado dois mil e duzentos cruzados. Teve por filhos a Mossem Diogo Ruiz de Castel Branco, que herdou o dito morgado, o qual teve princípio e veio de varão em varão há mais de quinhentos anos e agora o possui D. João Munhoz de Castel Branco, sobrinho deste capitão Pero Munhoz de Castel Branco, filho de um seu tio e de sua irmã.
Teve outras duas filhas o fundador deste morgado: uma, chamada Cendina Ruiz de Castel Branco, e outra Toda Ruiz de Castel Branco. A Cendina casou com Mossem Gonçalo Ruiz de Liori, que é uma casa dos mais principais fidalgos de Aragão, de que houve descendentes. A outra, Toda Ruiz, casou na raia de Castela com um fidalgo, chamado Jorge Ruiz de Alarcão, senhor das vilas de Valverde e Fontezilhas, da qual ficaram descendentes e se tratam por parentes dos Castelos Brancos.
Há duas casas destes senhores de Alarcão, na Mancha de Castela, Arcebispo de Toledo e Bispo de Cuenca: uma deste fidalgo, que valerá seis mil e seiscentos cruzados de renda, em cavalos; outra, dos senhores da vila de Beunache de Alarcão. Este terá perto de oito mil cruzados de renda, em cavalos.
Este filho de Mossem Belenguer Ruiz de Castel Branco andou sempre em casa dos Reis de Aragão, ele e seus descendentes; dos quais descendem os Castelos Brancos de Portugal, porque no tempo de el-Rei D. Diniz de Portugal , casado com D. Isabel, filha de el-Rei de Aragão, que foi Santa, cujas relíquias estão na cidade de Coimbra, vindo ela de Aragão para Portugal, trouxe consigo um irmão deste senhor deste morgado, o menor de três que eram, cujo nome não pude saber, porque o que tinha o morgado era já velho sem ter filhos e cuidava o segundo herdá-lo, pela qual causa não veio senão este só; o qual, por sua virtude e nobreza e pelo favor que teve desta Rainha de Portugal, veio a valer tanto que deixou as casas que agora há dos Castelos Brancos em Portugal, que descendem deles, e são tão ilustres como se sabe; donde é o meirinho mor e D. Martinho de Castel Branco, que morreu com el-Rei D. Sebastião na batalha de África, e tem sua casa tão sumptuosa junto ao Limoeiro em Lisboa, e D. Afonso de Castelo Branco, grande letrado e pregador e benemérito bispo de Coimbra e outros senhores.
Este valoroso capitão da fortaleza da cidade da Ponta Delgada, desta ilha de S. Miguel, Pedro Munhoz de Castel Branco, das progénias acima ditas, se achou em muitos recontros e batalhas, em serviço de Deus e de Sua Majestade. Foi seu alferes seu irmão D. Gaspar de Castel Branco e sargento Hierónimo de Mesa.
Esteve na dita fortaleza Pero Munhoz de Castel Branco por capitão dela quatro anos, até que Sua Majestade o mandou ir para o Reino, para se servir dele em outras cousas maiores, de que é merecedor.
Logo veio outro capitão para a mesma fortaleza, chamado D. António de Portugal, que é filho de D. Jorge de Portugal, filho do conde de Valença, que foi mordomo do Imperador Carlos quinto.
Há anos que serve este capitão D. António de Portugal a el-Rei D. Filipe, desde o mês de Outubro do ano de quarenta e oito até agora. Passou à Alemanha por pagem de Sua Majestade este dito mês, que foi a vinte e dois de Outubro. Depois que el-Rei tornou a Hespanha, lhe pediu licença para o ir servir na guerra de Córsiga , e, acabada esta jornada, se veio à de Sena, onde esteve nela até que se acabou. Dali se foi a Frandes, onde estava Sua Majestade sobre San Quintim, e em chegando lhe fez mercê de o fazer gentil homem de sua casa e dar-lhe quarenta cruzados cada mês; e quando se veio el-Rei D. Filipe, tornou com ele e o foi servir na tomada do Pinhão. Tomou-lhe juramento o duque de Alva, como mordomo mor de Sua Majestade.
Logo adiante o fez capitão, quando veio o terço sobre Malta, e mandou-o ir a Orão com três companhias a seu cargo, cuidando que depois da de Malta viesse o turco sobre Orão, e, acabada a jornada de Malta, se foi à corte com ordem de Sua Majestade, deixando a gente em Orão.
Levantou-se logo a guerra de Granada, donde o mandou Sua Majestade fazer gente, para ir contra os mouros que se alevantaram naquele Reino, onde esteve até que saíram os mouros de Granada e os levaram a Castela, fazendo o ofício algumas vezes em nome do mestre de campo, por estar enfermo e mandar-lho o senhor D. João, e o ofício de sargento mor por não o haver.
Acabada esta jornada, mandou Sua Majestade que fosse toda a gente de guerra a Itália, onde se achou na batalha naval de Lepanto, com o senhor D. João de Áustria. Acabada a naval pediu licença ao dito senhor D. João e se veio para Hespanha, onde esteve na corte alguns dias, servindo a el-Rei como gentil-homem que é, até que veio Sua Majestade a Lisboa.
Mandando el-Rei ao marquês de Santa Cruz que viesse tomar estas ilhas rebeladas, se veio com ele por ordem e mandado de Sua Majestade; e, tomada a Terceira, o marquês lhe ordenou que fosse ao Faial com D. Pedro de Toledo e que ficasse ele ali por governador daquela ilha, e com duzentos soldados castelhanos. Serviu nela a Sua Majestade perto de dois anos, até que o mandou vir a Angra, e que lá pusesse o mestre de campo João de Urbina outro capitão em seu nome, até que mandasse outra cousa; e ao cabo de dois anos mandou ao marquês de Santa Cruz o enviasse por capitão da fortaleza da cidade da Ponta Delgada; agora está com este cargo. Tem por alferes a João de Escobar, e por sargento Miguel Gomes, galhardo, discreto e animoso mancebo. Chegou o dito capitão D. António de Portugal a esta ilha no fim do ano de oitenta e sete.
As armas deste capitão D. António de Portugal, por uma parte, são as de Leão e castelos por orlas, e descende dos condes de Valença, que são junto a Leão e Astorga; têm nas bordas vermelhas quatro leões em cruz e quatro castelos de ouro entre eles, e no meio as cinco quinas de Portugal, e uma coroa em cima do escudo.
Por outra parte, tem no escudo as bordas vermelhas com quatro cabeças de cruz verdes, por el-Rei D. Dinis ser mestre de Avis, e entre elas quatro castelos de ouro, por D. Tareja, filha de D. Afonso, Rei de Castela, ser mulher de D. Henrique, conde de Portugal e pai de D. Afonso, que foi duque e depois primeiro Rei de Portugal; e dentro desta orla ou borda tem o escudo branco com as cinco quinas, que são cinco escudos azuis e em cada um cinco pontos brancos, que são vinte e cinco pontos por todos, e com os cinco escudos fazem número de trinta; as quais armas dizem os antigos que tomou o príncipe D. Henrique, primeiro conde de Portugal, irmão do Imperador da Grécia, à honra dos trinta dinheiros por que Nosso Senhor foi vendido; tem também sobre o escudo uma coroa.
O alferes deste capitão D. António de Portugal, chamado João de Escobar, serve a Sua Majestade desde a guerra de Malta, que há nesta era de 1590 vinte e cinco anos. Achouse também na guerra de Granada, donde se embarcou com o sr. D. João de Áustria para a batalha naval, onde se achou na galé Marquesa de Nápoles com o marquês de Santa Cruz e outro ano seguinte foram a Navarrino; dali passou a Frandes, a socorrer ao duque de Alva com Lopo da Cunha, governador que era do Alexandrino, muito parente do capitão D. António de Portugal, onde acharam o duque de Alva sobre a cidade de Arlem em Holanda. Daí veio às rotas, que teve o duque e o comendador mor de Castela D. Luís de Requenes, donde romperam ao conde Ludovico, irmão do príncipe de Orange, com os eleitores do Império de Alemanha, que eram o filho do conde Joanes e o filho do Landgrave e o filho do duque de Saxónia, onde lhes degolaram quinze mil homens e os venceram, e a mais gente que ficou do exército se retirou, fugindo pelo país de Cleves. Daí se foi a Anveres a pedir as trinta e sete pagas que se deviam ao exército, e sendo pagos se partiu para Lerdama e a tomou.
Depois de muitas jornadas em Frandes, veio a Itália, daí a Portugal, e na armada que venceu a Filipe Strosse e ao conde de Vimioso, e no ano seguinte veio à jornada da Terceira e foi com o capitão D. António de Portugal ao Faial, em que teve a fortaleza a seu cargo, por ordem do dito D. António; de lá tornou à Terceira, nela foi seu alferes e sargento, e veio a esta ilha, onde está servindo também de seu alferes.

Vendo o ilustríssimo D. Rui Gonçalves da Câmara , conde de Vila Franca do Campo, como na batalha naval que os dois cossairos ingreses tiveram de noite com a nau dos biscainhos, lhe mataram alguma gente nobre dos mais esforçados da terra que foram em seu socorro, principalmente entre eles o esforçado capitão Luís Cardoso, de poucos dias chegado, por mandado de Sua Majestade, para residir nesta ilha, a quem ele, embarcando-se para socorro da nau biscainha, entregara seu caríssimo filho D. Gaspar da Câmara, que também quis que fosse servir a Sua Majestade naquele assalto, e por receio de virem outras naus ingresas sobre esta ilha mandou pedir a Sua Majestade quatro capitães destros na guerra do mar e da terra, para os ter aqui para qualquer recontro que se oferecesse, com outras munições de guerra que também pediu, o que tudo Sua Majestade lhe mandou logo com muita brevidade em duas caravelas, ainda que era então a força do inverno tanta, que na viagem estiveram debaixo do mar quase de todo sossobrados e perdidos. Chegaram ao porto da cidade da Ponta Delgada a oito dias de Novembro de mil e quinhentos e oitenta e cinco e ele os recebeu com muita cortesia e gasalhado, como eles mereciam, assim por serem enviados de Sua Majestade, e pedidos por ele, como pela qualidade e valor de suas pessoas, porque são quatro capitães portugueses valorosos, muito animosos, esforçados e experimentados na guerra do mar e da terra, como agora direi.
Um deles, chamado António de Oliveira, soldado velho do terço de Lombardia, virtuoso e temente a Deus, há vinte e cinco anos que é soldado. Achou-se no cerco de Malta, quando D. Garcia de Toledo a socorreu; depois passou a Frandes com o Duque de Alva, e se achou nas guerras do príncipe de Orange e seu irmão o conde Ludovico. E nestes tempos houve muitas vitórias em muitas rotas, encontros e escaramuças.
El-Rei D. Sebastião, querendo fazer alardos e exércitos nestes Regnos de Portugal, mandou vir de Itália e Frandes soldados portugueses que tivessem nome, para os fazer sargentos mores das comarcas. E o primeiro que veio a este Regno foi o dito António de Oliveira, que foi grandemente bem recebido de el-Rei. E logo o tomou por seu cavaleiro fidalgo e por capitão do número e mandou por sargento mor à comarca de Viseu, onde dez anos teve o dito cargo.
A primeira vez que el-Rei D. Sebastião passou a África, o mandou chamar a Viseu para a dita jornada e foi por capitão em uma escaramuça que com os alcaides do Xerife houve nos Pomares, fora das tranqueiras de Tânger, onde se sinalou entre todos; el-Rei o armou cavaleiro por sua mão.
Querendo-se el-Rei fazer prestes para a segunda jornada de África, o mandou chamar a Viseu e fez capitão da infantaria de uma companhia que fez dentro da cidade de Lisboa, e todos os alardos que se fizeram em Alvalade, um ano antes que el-Rei fosse a África, ele capitão os fez diante da pessoa de el-Rei, de quem teve muitos favores, e foi capitão do terço do coronel Diogo Lopes de Sequeira.
Pela muita confiança que el-Rei tinha dele, o mandou a Viseu e sua comarca fazer três mil homens para a dita jornada, e levou para isso todos os poderes do coronel Diogo Lopes de Sequeira.
Foi com el-Rei e, na batalha de Alcácere, pelejando como devia, muito ferido de muitas arcabuzadas, o cativaram, e foi levado a Fez, onde esteve cativo dois anos; resgatou-se à sua custa e custou o resgate mil cruzados.
Depois que veio do cativeiro, os governadores o mandaram a vila de Chaves por sargento mor, onde fez inteiramente o que devia; e vindo à corte a requerer pelos muitos serviços que tinha feito, el-Rei o despachou com o hábito de Cristo e logo o mandou a esta ilha de S. Miguel.
Martim Peres de Peralta há vinte anos que é soldado e esteve muitos em Frandes. Achouse no de Frisa e também no cerco de Mastrique, e foi alferes de Lourenço de Ávila. Veio a Portugal e foi por capitão de uma companhia de castelhanos, quando el-Rei D. Sebastião passou a África, a qual fez em Sevilha e em Granada para a dita jornada de África, e ficou todo um terço, no mar, de castelhanos, que não passou. E depois de roto el-Rei D. Sebastião, os mandou Sua Majestade por sua provisão embarcar nas galés do marquês de Santa Cruz, a estar em Tânger ou Arzila ou Ceita , onde mais necessidade houvesse, e estiveram embarcados com suas companhias um mês nas galés e foram três vezes a Tânger, sem poder chegar a ele com tormenta. Visto isto, desfizeram as companhias, porque o mandou el-Rei D. Henrique chamar, e vindo a Portugal, o despacharam por sargento mor da comarca da Guarda e capitão do número. Depois de morto el-Rei D. Henrique, foi por geral da dita comarca da Guarda D. João de Vasconcelos de Menezes, e mandaram os Governadores que fizesse uma companhia de soldados arcabuzeiros, que ali teve com paga, como soem levar os capitães de Sua Majestade em Itália, que é quarenta cruzados, e teve o castelo da cidade da Guarda a seu cargo. Depois de estar Sua Majestade alevantado por Rei de Portugal, veio o dito capitão a Lisboa, onde lhe deram o hábito de S. Tiago com quinze mil réis de tença, e cavaleiro fidalgo da casa de el-Rei Nosso Senhor. E estando aí o mandaram embarcar para esta ilha de S.
Miguel, para ser do conselho do conde de Vila Franca do Campo, sétimo Capitão dela.
El-Rei D. Henrique mandou ao capitão Francisco de Vila Lobos, natural de Ceita, a estas ilhas dos Açores, em companhia de D. Jorge de Menezes, por capitão da caravela S. João, e, indo destas ilhas depois do falecimento de el-Rei D. Henrique, o mandaram os Governadores por capitão mor ao Estreito na zabra Júlia, com outros dois navios da armada, debaixo da sua bandeira, com mais dezassete navios de mantimento para repartir pelos lugares de além, e dez mil cruzados em dinheiro, para deixar em Ceita dois mil e quinhentos, e em Tânger cinco mil, e em Arzila dois mil e quinhentos, que fazem a dita soma dos ditos dez mil cruzados. Dentro no seu navio levou muito encomendado o alcaide Abdelhorim, o qual entregou Arzila a el-Rei D. Sebastião, por onde o dito Rei entrou em Berbéria e se perdeu como se sabe. Este mouro é um grande cavaleiro e de muito entendimento, e como tal disse ao capitão Francisco de Vila Lobos algumas cousas, dando para isso muitas razões, que depois aconteceram como ele dizia. Foi filho de um grande alcaide que houve em Berbéria, chamado Hamu. Depois do dito capitão Francisco de Vila Lobos fazer a dita jornada, embarcando em Arzila mulheres e filhos deste mouro, se veio demandar a costa de Hespanha, que em poucos dias houve à mão, e se foi meter em um rio que divide Portugal e Castela, que se chama Guadiana, de uma parte do qual está um lugar de Portugal, chamado Crasto Marim, para onde se degradam malfeitores onde então estavam os Governadores; e da outra, outro lugar de Castela, que se chama Ayamonte, onde estava o duque de Medina.
Depois de chegado ali o capitão de Vila Lobos, teve de Badajoz uma carta de el-Rei em que lhe dava as graças dos serviços que lhe tinha feito e que se havia por bem servido dele, e que podia entregar os navios da armada a Martim Correia da Silva, governador do Regno do Algarve, e ir-se a ele, o que fez; e depois se foi a Badajoz onde achou el-Rei, o qual o mandou ao Porto, de Portugal, buscar parte do arreo que D. António trazia consigo e ali deixara quando foi a frota do Porto. E achando algumas peças, como foram alguns marcos de ouro e muitas pedras ricas, que tudo podia valer quinze até dezasseis mil cruzados, tornando, o mandou el-Rei a estas ilhas, em companhia de D. Lopo de Figueiroa, por capitão da caravela Santo António, o ano que D. Pedro Baldez perdeu a gente na Terceira.
Logo o ano seguinte, o mandou Sua Majestade embarcar no galeão S. Mateus, em companhia de D. Lopo de Figueiroa, o qual lhe entregou a artilharia em uma estância, que pelejasse com ela e, pelejando valorosamente, foi ferido e queimado no rosto e em outras partes de seu corpo, de que sarou com muitos remédios que lhe fizeram em Vila Franca do Campo, desta ilha de S. Miguel, onde primeiro saiu, e depois de curado, ainda apareceu na cidade da Ponta Delgada com o rosto todo abrasado. Logo o ano seguinte, o mandou o sereníssimo senhor Cardeal Alberto, que se embarcasse em companhia de D. Lopo no galeão S. Francisco, que foi o ano que entraram na Terceira, e depois de entrada e quieta à custa do trabalho de alguns bons soldados, o mandou o marquês de Santa Cruz ficasse por juiz da Vila da Praia da dita ilha Terceira, onde prendeu um frade da ordem de S. Bento, o qual fora capitão de uma das fortalezas da mesma ilha, e outro da ordem de S. Domingos, que ambos foram presos para o Regno; prendeu mais um grande capitão que servia em toda a ilha de mestre de campo, no tempo que estava oprimida, chamado António Trigueiro, o qual na dita ilha foi enforcado, tanto que o prendeu.
Estando assim servindo de juiz, o chamou João de Urbina, mestre de campo, e o licenciado Cristóvão Soares de Albergaria, corregedor, e o mandaram à ilha Graciosa aquietá-la e reduzila ao serviço de Sua Majestade, e a notificar a Manuel Correia de Melo e a Gomes Pacheco de Lima, fidalgos e dos mais aparentados daquela ilha, e ao licenciado João Gonçalves Correia e a Manuel Fernandes de Quadros e Antão Vaz de Ávila, para que viessem à ilha Terceira a parecer diante deles; e, não querendo, usasse de todo o poder para os prender. Chegado, se vieram eles apresentar a ele por suas virtudes, antes de serem notificados; prendeu-os em suas casas e tornou-lhes a largar a prisão, até sua embarcação. Trazia vara branca levantada e com seu meirinho diante; obedeciam-lhe todos os da terra, assim justiças, como os mais; mandou alevantar forca e abaixar; prendeu homens e soltou por erguerem voz por D. António ; e, depois da terra reduzida ao serviço de Sua Majestade, sem apelação nem agravo, tirou capitães e juízes e fez outros; mandou consertar e alimpar uns paúis de água que estão no meio da vila, de que se serve todo aquele povo, por haver muitos anos que não eram limpos e não tinham já água, que era grande falta na vila; mandou concertar a rocha do Quitadouro, que é o caminho que vai da vila da Cruz para a vila da Praia, a qual rocha estava para cair, que é toda a serventia daquelas vilas; finalmente, deixou a terra mui quieta e pacífica, tirando alguns homens dos cargos que tinham e pondo outros melhores, por onde ficou tudo muito quieto. Tornado e ido ao Regno, a petição do conde D. Rui Gonçalves da Câmara, o mandou Sua Majestade a esta ilha de S. Miguel para sua companhia.
O capitão Vasco Giraldo é natural da vila de Ourique, filho de Pedro Afonso Giraldo. Sendo de idade de dezoito anos, se achou na guerra de Granada em muitos assaltos, emboscadas, encamisadas e escoltas, todas de muito perigo. Daí se passou no terço de D. Lopo de Figueiroa às partes de Itália, onde esteve doze anos, e se achou na batalha naval do senhor D. João de Áustria, sendo soldado neste tempo, donde saiu ferido de duas frechadas; logo o segundo ano, no de Navarrim, onde se achou o senhor D. João de Áustria; o terceiro, na tomada de Tunis; o quarto, em quatro galés de socorro para entrar dentro na Goleta, o que não houve efeito por estar já tomada dos turcos. Passou-se à Alemanha o ano de setenta e cinco, onde serviu o Imperador Maximiliano, tenente de uma companhia de cavalos em Viena, donde o doutor António Pinto de Roma, que estava por embaixador em Alemanha, o fez vir, a chamado de el-Rei D. Sebastião, para a jornada de África, onde se achou no terço de Vasco da Silveira, coronel de um terço, ajudante de sargento mor. Lá o cativaram e lhe deu um pelouro na boca que lhe levou sete dentes e partiu a língua pelo meio e enguliu o pelouro. Esteve cativo dois anos. Resgatou-se à sua custa por dois mil cruzados. Estando neste cativeiro, por sua ordem mandou muitos cativos a terra de cristãos com muito segredo. Depois de tudo isto, vindo do cativeiro, o mandou Sua Majestade a estas ilhas por capitão de um galeão da armada, em que vinha por capitão mor João Saldanha, e, o ano de mil e quinhentos e oitenta e seis, depois de todos estes trabalhos, afora outros muitos sucessos, encontros e tomadas de galeotas e bergantins no mar, o mandou a esta ilha de S. Miguel, a ele e aos outros três capitães acima ditos, a petição do conde de Vila Franca, D. Rui Gonçalves da Câmara, sétimo Capitão desta ilha de S. Miguel, para servirem nas cousas da guerra, pela suspeita de virem ingreses a esta terra. Tem cada um cento e vinte mil réis de ordenado cada ano, afora a tença de seus hábitos, que têm da Ordem de Cristo e Santiago, e outras cousas, e a comenda da Ponte de Sor, do capitão Francisco de Vila Lobos, que com o hábito lhe rende cada ano cento e vinte mil reis.

No ano de oitenta e sete, foram repartidos estes valorosos capitães por ordem do conde D. Rui Gonçalves da Câmara, por quatro vilas mais principais da ilha: o capitão Vasco Giraldo, em Vila Franca; o capitão Francisco de Vila Lobos, em Água do Pau; o capitão António de Oliveira, na Alagoa; e o capitão Martim Peres de Peralta, na Ribeira Grande; para animar e adestrar a gente nas cousas de guerra, como fizeram com tanto cuidado, que quase todos os que tinham a cargo se fizeram, de bisonhos, feitos soldados, velhos .

Considerando o conde de Vila Franca o muito perigo que esperava pelas novas que corriam de grandes guerras e do dano que os ingreses faziam nas Índias, que por ser esta ilha passagem de sua derrota, lhe pareceu não estar fora do perigo que os cossairos com a ufania da vitória que contra os cristãos houveram, também podiam aqui querer provar sua ventura, sendo esta fama importante a seu mau propósito, foram chamados os vereadores, juiz de fora e pessoas particulares, e pondo-lhes prática do perigo que esperavam e da obrigação que tinham os homens para defender sua terra, e quanta ocasião se mostrava para mostrarem seu ânimo, disse que, além das companhias que na cidade havia, lhe parecia serviço de Sua Majestade fazer uma, a qual se chamaria dos Aventureiros, para acudir às partes de mais perigo, e que a gente dela seria a mais principal da terra, assim os fidalgos, como cavaleiros da Ordem de Cristo que nela havia, donde se reputasse a honra de el-Rei, com a boa defensa que estes tais podiam fazer, e que tinha por segura esta ilha, efectuando-se isto; e lhe parecia bem declarar seu filho D. Gaspar da Câmara por capitão desta companhia, que, sendo seu, o não queria escusar de semelhantes perigos e porque os esperava o fazia; e assim outra pessoa onde estivesse bem a bandeira de el-Rei e fosse segunda pessoa de seu filho, e que para isso rogaria a Manuel Cordeiro de Sampaio que, além dos seus cargos, aceitasse este por servir a Sua Majestade, e que certificado estava que sendo para esta ocasião se não escusaria, pois se tinha mostrado noutras de muita honra. Pareceu a todos bem o pressuposto e tenção declarada do conde, e pôs-se logo em execução. Todos os do hábito foram e o sargento Bartolomeu Cabral, também do hábito, a qual foi tão lustrosa e os homens mostraram tanto desejo de servir a Sua Majestade, que era muito para ver o número da companhia ; eram cento e cinquenta moços galhardos e gente toda principal, ornados de muitas galantarias de ornamentos de vestidos, diferentes, com muitas plumas e outros esquisitos, muito adequados a soldados, e além do tudo, muito destros no atirar. Gente era que prometia qualquer efeito donde se empreendesse muita honra, e dito por muitos homens estrangeiros, muito vistos em muitas partes, ser capaz a companhia de defender esta ilha e outras partes maiores. Foi tanto o contentamento que o conde mostrou em ver seu desejo cumprido e efectuado tão bem, que andava em cada rua encontrando-se para ver, e foi enxergado de todos este contentamento, e em muitas palavras agradecendo a cada qual o bem que o mostravam, dizendo que agora se tinha por ganhador de toda a vitória. E, porque D. Gaspar era dantes capitão da gente de cavalo, deu este cargo a outro seu filho, chamado D. Francisco, galhardo mancebo, de grandes partes e mores esperanças; mas como semelhantes cousas não permaneçam, por certa ocasião se desfez a companhia, o que em geral foi sentido de toda a pessoa.
Há na cidade da Ponta Delgada uma companhia de mais de cem homens de cavalo, de que foi capitão Francisco de Arruda da Costa, depois D. Gaspar da Câmara e agora é capitão D. Francisco da Câmara, seu irmão, filhos do conde , e em seu lugar tenente o capitão Alexandre, e alferes Manuel da Fonseca Mota, e agora António Pereira; e cabos de esquadra Manuel de Oliveira, filho do licenciado Manuel de Oliveira, Pero da Costa, neto de Francisco de Arruda, Hércules Barbosa da Silva, Gaspar de Brum da Silveira, Gonçalo do Rego e Francisco Ramalho.
Há também agora, na dita cidade da Ponta Delgada, seis companhias de infantaria, de cento e cinquenta homens cada companhia.
Da primeira é capitão João de Arruda da Costa, alferes Manuel Pavão e sargento João Velho Cabral, neto de Rui Velho.
Da segunda, capitão Gaspar de Teve, alferes António Afonso Pavão, sargento João Rabelo , irmão de D. Fernando.
Da terceira, capitão João de Melo, do hábito de Cristo, alferes Lourenço Vaz Carreiro, depois Francisco de Melo, e sargento Brás de Melo, seu irmão, que agora é alferes, em lugar de seu irmão falecido, e de sargento serve ao presente Francisco Brochado.
Da quarta, capitão Rui Vaz Medeiros, do hábito de Cristo, alferes Manuel Serrão, e agora é alferes João Rabelo, sargento António Monforte.
Da quinta, capitão Brás Raposo, alferes Afonso de Goes, depois Gaspar Camelo Pereira, agora Hierónimo Coelho, e sargento António Mendes Pereira, e agora Fernão de Matos.
Da sexta, capitão Gonçalo Tavares, alferes seu filho, e sargento Pero Furtado. Todas estas entram e saem de guarda todos os dias de todo o ano, cada uma por si.
Nos termos da cidade, na freguesia de S. Roque, há uma companhia de cento e cinquenta homens de que foi capitão Manuel da Costa e agora Martim de Sousa, alferes Pero de Teve Mota, e sargento, o primeiro Simão de Viveiros, o segundo é agora António Fernandes.
Na freguesia de Nossa Senhora das Neves há outra companhia de outra tanta gente, de que é capitão João Roiz Ferreira, alferes António Lopes Falcão e sargento Afonso Gonçalves Ferreira, filho do dito capitão.
Nas freguesias das Feiteiras, Candelária, S. Sebastião e dos Mosteiros há outra companhia que tem perto de quatrocentos homens, de que é capitão João Roiz Pavão, alferes Garcia Rois Pavão, seu irmão, e sargento Pero de Teve de Mesa.
Nas freguesias da Bretanha e de Santo António há outra companhia que terá duzentos e cinquenta homens, de que é capitão Bastião Afonso de Sousa, alferes António de Viveiros e sargento Cristóvão Afonso, filho do dito capitão. Casou este capitão com Guiomar de Oliveira de Vasconcelos, filha de João Manuel de Vasconcelos, grande cavaleiro; teve cinco filhos, Manuel Lopes de Sousa, Cristóvão Afonso de Sousa, o licenciado Marcos Afonso de Vasconcelos, Belchior Manuel de Sousa e Gaspar Manuel de Vasconcelos, que casou com Catarina de Figueiredo, irmã do Bispo do Funchal. Teve mais Bastião Afonso de Sousa três filhas: Isabel Lopes, Filipa de Vasconcelos, e Inês de Oliveira, todas bem casadas como os filhos, excepto o licenciado que ainda é solteiro .
Na freguesia dos Fanais há outra companhia de duzentos homens, de que é capitão Manuel Lopes de Sousa, alferes Tomé Gonçalves Homem, sargento Domingos Pires.
Deixando à parte os capitães e oficiais da milícia das outras vilas desta ilha, de que já disse, direi por remate os que agora são das duas vilas mais principais dela, onde há capitães mores.
Em Vila Franca do Campo foi primeiro capitão mor Pedro da Costa, e sargento mor seu filho João de Arruda Costa; e em seu tempo foram ali capitães Lopo Anes Furtado, e seu alferes Cosme de Brum, sargento Brás Ferros. O outro capitão foi Jorge Furtado, alferes Leonardo de Sousa, seu filho, sargento Miguel da Grã.
Agora é capitão mor João de Arruda da Costa, filho do dito Pedro da Costa, e sargento mor seu irmão Rui Tavares da Costa, e capitães os seguintes: Manuel Favela da Costa, seu alferes Cosme de Brum, sargento Brás Ferros, e agora Manuel da Fonseca.
Outro capitão, Leonardo de Sousa, seu alferes Apolinário Raposo e sargento João Galego.
Outro capitão foi Jerónimo de Araújo; depois dele foi António de Matos, que era seu alferes, em cuja absência é agora Filipe do Quental, seu irmão; seu alferes Simão Martins; sargento Miguel da Grã. Tem cada uma bandeira duzentos homens.
Os sargentos mores foram sempre cabos dos de cavalo, que são vinte homens bons cavaleiros; e agora é cabo deles Bento de Sousa.
Na vila da Ribeira Grande há mais de cinquenta homens de cavalo, de que era capitão mor D. Gaspar da Câmara, como o foi em toda a ilha, a quem toda a gente de cavalo obedecia.
Agora é dela capitão mor, na dita vila da Ribeira Grande, Rui Gago da Câmara, como o é da infantaria, e cabos de esquadra Paulo Gago e Jordão Pacheco.
Da infantaria é sargento mor Duarte Privado, e capitães são os seguintes: Francisco Tavares, capitão de duzentos homens; seu alferes, Gonçalo Bezerra; sargento, o primeiro, Gaspar Fernandes, o segundo, Miguel de Paiva.
Pero de Paiva, capitão de outros tantos; seu alferes, o primeiro, Simão de Sousa, o segundo, Manuel da Câmara, o terceiro, Duarte Tavares; sargento, António Cansado.
Nuno de Sousa, capitão da gente da Ribeira Seca; seu alferes, o primeiro, Ciprião da Ponte, o segundo, João Cabral; sargento, o primeiro, Estêvão Pires, o segundo, Cristóvão Afonso.
Na dita vila e seu termo, havia mil homens de peleja em quatro bandeiras, e o conde , no ano de mil e quinhentos e oitenta e seis, pelo pedir assim o tempo perigoso, erigiu outra companhia de novo, como de aventureiros, de cento e setenta e cinco homens, de que foi eleito por capitão Pedro Alvres Cabral; seu alferes, Tomé Jorge Formigo; sargento, Belchior Soares.
Manuel Moniz, capitão do lugar de Rabo de Peixe, termo da mesma vila; seu alferes, Rui Gago, filho de Rui Gago da Câmara; sargento, o primeiro, Manuel Raposo, o segundo, Custódio Afonso.

Aos vinte e cinco dias do mês de Setembro de oitenta e cinco, quarta-feira pela manhã, veio recado ao conde D. Rui Gonçalves da Câmara que nos Mosteiros estavam duas naus de cossairos que ao dia antes haviam chegado e tinham tomado cinco navios que do porto da cidade com temporais se alevantaram, os quais, quando tiveram vista das ditas naus, se seguraram e não quiseram fugir, podendo-o fazer, porque entenderam pelas bandeiras serem ingresas que logo vieram abalroando-os todos e botando gente em cada um, sem gasto nem dano seu, por os navios não terem defensão alguma. Mandou o conde ao capitão Rui Vaz Medeiros, com sua companhia de aventureiros, que marchasse para aquela parte e depois se partiu ele com a gente de cavalo, levando consigo a companhia de Brás Raposo; foram todas às Feteiras, onde entenderam não ser necessário sua ida lá, e se tornaram, porque ali vieram ter homens dos navios roubados que os ingreses botaram em terra, e lhe prometeram que resgatariam seus navios e gente. Logo se ordenou resgatar alguns escravos. À quinta-feira, mandou o conde a um ingrês que na cidade residia com este resgate, para ir mais seguro.
E, à mesma quinta-feira de noite, puseram fogo a um navio, por acharem nele cartas para Sua Majestade e roupa de alguns hespanhóis, e largaram outro sem gente, que foi dar à costa.
Outros dois com pouca gente, sem aparelhos e sem velas deixaram, que vieram ter ao porto à sexta-feira, em amanhecendo. Logo vieram as duas naus com o navio que lhes ficou em companhia, e dando algumas voltas defronte do porto, onde ao parecer lhe andavam fugindo duas naus pequenas ingresas que no mesmo porto estavam para carregar, as quais se vieram por debaixo do castelo e artilharia, e elas se foram surgir longe de lhes poder chegar, onde por popa da capitaina pareceu uma bandeira branca, esperando ainda fossem resgatar os mais escravos e navio que tinham; foi lá o mesmo ingrês, a sexta-feira, já tarde, e em todo lhe trataram verdade. E o mesmo ingrês afirmou serem ingreses que com carta de marca vinham a se entregar. Amanheceu ao sábado e eles no mesmo lugar se estiveram sempre até depois do meio-dia, que eram vinte e oito de Setembro, véspera de S. Miguel; ao qual tempo, pela parte do ponente, houveram vista de uma nau grande, pelo que logo se fizeram à vela na volta dela.
Vendo isto o conde , mandou alguns barcos que fossem dar aviso à nau que vinha, e souberam ser dela capitão Jorge Arias de Arbeto, por Sua Majestade, na companhia de João Martins de Ricalde, que andava na carreira da Índia, aguardando as naus e frotas daquelas partes; por a qual nau passaram os ingreses, a quem ao passar da fortaleza, com algumas peças de artilharia fizeram, segundo parece, algum dano, e eles em suas voltas foram atirando à nau e à terra algumas peças. A hespanhola lhe atirou também algumas, mas não com tanto dano do ingrês, porque, por causa de algumas tormentas que na altura onde andaram tiveram, traziam a artilharia abatida, as armas e gente mal composta, os petrechos de guerra poucos e mal aparelhados, ao contrairo do que se dizia dos ingreses, que eram duas naus, não tão grandes como a castelhana, mas traziam, entre ambas, mais de trezentos e cinquenta homens de guerra, mui bem aparelhados. O capitão castelhano com sua nau se veio surgir a terra; os cossairos a voltaram algumas vezes e, como era já sobre tarde e se ia cerrando a noite, se foram na volta do mar. De terra foi Manuel Cordeiro de Sampaio, juiz do mar, e Cristóvão Soares de Albergaria, corregedor, ambos cavaleiros do hábito de Cristo, a fazer fala ao capitão da parte do conde , pedindo-lhe se chegasse debaixo da fortaleza, e mandasse dizer a necessidade que tinha, a que o capitão por arrogância e não mostrar fraqueza aos imigos, não quis corresponder, somente pediu-lhe mandassem obra de cem arcabuzeiros e alguns artilheiros, porque a nau era capaz de muita gente, e nela havia somente cento e vinte homens de peleja, bisonhos e para muito pouco se poder fiar em suas forças. Foi também à nau Manuel Correia, sargento mor desta ilha, homem experimentado, que veio com parecer de levar toda a gente de terra que fosse possível. Começaram-se a embarcar logo alguns com muito fervor e pressa. Os primeiros que se embarcaram, e foram ter à nau, foram Manuel Ferreira Pimentel, Inácio de Melo, Fernão do Quental, Brás Barbosa da Silva, João Álvares Examinado, os quais entrando na nau a fizeram aparelhar, porque sabiam a força do inimigo . O Conde , para mais incitar e obrigar a todos para acudir a esta pressa, mandou seu filho D. Gaspar da Câmara, que foi acompanhado de Francisco da Costa, seu veador, e Manuel Privado e Gaspar de Viveiros, seus criados, e o sargento mor Manuel Correia e Simão Correia, seu irmão, André Botelho de Travassos, cavaleiro do hábito de Cristo, acompanhado de dois criados seus, Luís Cardoso, cavaleiro do hábito de Cristo e capitão do número, que de pouco tempo era chegado a esta ilha por mandado de Sua Majestade, com oitenta mil réis de renda cada ano, Sebastião da Costa, cavaleiro do hábito de Cristo, António de Benevides, Baltasar de Figueiredo, Mateus Cordeiro, Gonçalo do Rego, Francisco de Melo, António Pereira, Manuel Pavão, Francisco Saldanha, João Ribeiro, filho do feitor António Ribeiro, acompanhado de André Gonçalves, seu criado, António Soares, sobrinho do corregedor Cristóvão Soares de Albergaria, e Bastião da Costa, sobrinho do capitão Alexandre, e Gaspar de Armenteiros, Jerónimo de Castro, escrivão do contrato de Alfândega, Miguel Pereira, filho de Gaspar Borges e outros de menos nome e plebeus, que seriam por todos mais de cem homens valorosos de peleja , afora trinta soldados hespanhóis do presídio do castelo, quinze mosqueteiros e quinze arcabuzeiros, que mandou Pero Munhoz de Castel Branco, capitão da fortaleza da cidade da Ponta Delgada, debaixo do governo de seu irmão e alferes D. Gaspar Munhoz de Castel Branco.
A gente se embarcara em muito mor número, porque alguns, que nestes assaltos são os primeiros, ficaram em terra com tenção de se embarcar ante manhã, tendo no pensamento que, se houvesse assalto, então devia ser, o que não foi assim; mas, os valorosos e atrevidos cossairos, receando que aquela noite lhe dessem socorro de terra, acometeram logo, indo fora do uso militar, pondo a confiança em suas forças, e, entendendo que a nau que queriam cometer devia ser de Índias, carregada de fina prata, aljôfar e outras coisas com que se enriquecessem, lhes saiu ao contrairo, porque contra sua vontade se carregaram de despojo dela, dos petrechos de pólvora e pelouros jogados por horrendas peças de artilharia e por furiosas escopetas e mosquetes. Seriam as nove horas da noite quando os ladrões, que na volta do mar foram enquanto durou a lua, vieram sobre a nau, cometendo-a com surriadas de artilharia e mosquetaria, tangendo trombetas e tambores, admoestações da furiosa guerra. Não dormiam a este tempo os que estavam na nau hespanhola, porque cada qual, acudindo ao que lhe estava debaixo de seu mando e guarda, se mostrava ser um capitão, em acudir com o conselho aonde havia necessidade, e em pelejar se parecia um Heitor. Ouvia-se a voz do ladrão: — Amaina, amaina, da parte da Rainha de Inglaterra. Respondia o português: — Amaina, da parte de Sua Majestade el-Rei D. Filipe.
Quem neste tempo vira a Manuel Correia, sargento mor que a seu cargo tinha artilharia, pola não fiar de outrem, e a cujos pés lhe mataram na briga dezassete bombardeiros, entendera só dele proceder todo o nome de guerra, que depois de correr os lugares que lhe não tocavam, pois não era capitão da nau, ele, como experimentado e sabedor de tal jogo, esta vez estava em cima das estâncias, correndo-as todas, agora em baixo na artilharia, não consentindo se atirasse peça que não visse com seu olho meter o pelouro, por ter alguma suspeita de certos artilheiros que na nau vinham, framengos. A este tempo, estavam as naus abalroadas, uma pelo costado da parte do mar, a outra por proa, onde estava defendendo o alferes D. Gaspar Munhoz de Castel Branco, com tanto ânimo que os fez afastar, alguns mortos e outros mal feridos, em tanto que nunca mais se aventuraram a outro tanto; e ficaram mortos dos nossos, desta rociada de mosquetaria, arcabuzaria e bombas de fogo, três mosqueteiros, e feridos quatro soldados e queimados outros quatro, e a D. Gaspar Munhoz deram uma arcabuzada no morrião, um pouco através da testa, que o amolgou um dedo dentro, e não sendo de prova, foi Deus servido que não o ferisse. Pelas mais partes da nau apertavam também com a arcabuzaria e artilharia e alcanzias de fogo; com grande pressa, andavam os portugueses pelejando e defendendo valorosamente, e D. Gaspar da Câmara, filho do conde , com ser moço, misturado entre eles, em tantos perigos. Sendo mortos alguns artilheiros, acudiu João Ferreira Indiático, ainda que de artilharia não tinha muito uso, e fez tanto que por o capitão da nau lhe foi posto nome de condestável mor, prometendo-lhe da parte de Sua Majestade grandes mercês, por seu valor e ânimo, porque neste tempo foi mui grande ajuda que deu. Não faltava ali a presença de António de Benevides, tomando mais alento do que parece em homem podia caber, acudindo a todo com grande fervor e ao capitão por vezes se apresentou, pedindo-lhe favor e companhia para saltar em uma das naus, que não pareceu conselho; e, depois de grandes cousas feitas por ele, estando em baixo assestando uma peça, tiraram-lhe pela portinhola, onde foi morto com grande sentimento de todos, porque nele tinham um grande esteio. A este tempo, deram nova que era morto Manuel Ferreira Pimentel, que como soldado valente e animoso se estava em sua estância carregando e descarregando seu arcabuz, não faltando ponto. Estando em sua companhia no mesmo uso Fernão do Quental e Baltazar de Figueiredo, mostrando o para quanto eram, dando de sua vida inteira fama, animando aos que pelejavam, e eles que eram usados em semelhante acto, mostrando todo o que deles se esperava; nem eram menos nisto Inácio de Melo, Brás Barbosa, António Soares e Bastião da Costa, todos com grandíssimo fervor alvoroçados, dando mostra de quem eram. E da primeira surriada, antes de abalroarem, deu um pelouro em Luís Cardoso, que com grande esforço manifestava seu ânimo, e dando de si tal mostra, acabou com deixar a fama tal na morte como de valoroso teve na vida. Pelo que nesta batalha fez Inácio de Melo, filho de Diogo de Melo, o fez Sua Majestade capitão do número e cavaleiro fidalgo, e lhe fez mercê de quatrocentos cruzados para ajuda de custo. Levava o alferes D. Gaspar Munhoz de Castel Branco uma relíquia do lenho da Cruz, que lhe pôs ao pescoço o capitão Pero Munhoz de Castel Branco, seu irmão, com a qual lhe tinha sucedido ao dito capitão, tendo-a ao pescoço na vila do Nordeste, pegar-se fogo a um barril de pólvora, estando ele com as mãos em cima para o apartar de um pouco de fogo que se acendera, por descuido de um seu escravo, a outra pouca de pólvora que estava derramada dentro de uma caixa que teria quatro palmos de altura; cuidando remediar que não saltasse o fogo no barril para o deitar fora pela janela; e foi tão prestes o fogo que saltou no barril, ainda que estava apartado, que fez voar toda a casa, deitando as telhas até uma ermida de S.
Sebastião e levando toda a madeira, abrindo as paredes e arremessando pedras mui grossas dela, tirando as portas de riba e de baixo todas do coice, dando com elas em terra e deitando fora alguns criados seus que estavam bem apartados dele, pelas paredes e escadas. Foi Deus servido, por virtude desta relíquia, que estando ele sobre a mesma pólvora, não o fizesse voar pelos ares, e, para que fosse mais visível o milagre, saiu queimados os safões e borzeguins e uma monteira que tinha na cabeça nunca mais pareceu, e as mãos e mangas do gibão e a tudo o que alcançava uma cadeia de ouro que trazia ao pescoço, em que estava dependurada esta relíquia, não se queimou, nem se fez mais sinal, como se não houvera havido fogo. Eu lhe ouvi dizer ao mesmo capitão se lembrava mui bem que ao tempo em que se pegou o fogo no barril, tinha os olhos abertos e lhe dera o fogo por eles, e com ser cousa ordinária ficarem cegos de caso semelhante, ficou mui são deles; e assim dizia ele que tinha por mui certo que este sucesso, como de seu irmão de andar sobre as bombas do fogo e do incêndio da pólvora desta nau, não lhe haver empecido por virtude da dita relíquia. E ficou tão queimado no rosto e mãos o dito capitão que não o pôde levar o marquês consigo à jornada da Terceira, ordenando-lhe ficasse na guarda e defensa da fortaleza da cidade da Ponta Delgada, que é o castelo e força desta ilha de S. Miguel, onde esteve quatro anos até o de oitenta e sete, sem lhe dar licença que se fosse, posto que a pedisse por ser ele pessoa como convinha para o bom governo dos soldados e paz e quietação com a terra. A seu irmão e seu alferes D. Gaspar Munhoz de Castel Branco, pelo que nesta batalha se mostrou, fez Sua Majestade mercês. E agora é capitão de uma companhia de presídio na ilha Terceira .
Não faltou também ali na briga Francisco Saldanha, que pareceu alguma bombarda lhe devia dar e levá-lo ao mar, porque dele se não soube parte. Desaferrou-se a capitaina, ficando a outra com ânimo abalroada um grande espaço, e depois de ida a companheira se entendeu por uma trombeta que em uso militar dizia: — socorrei, a que logo vieram da capitaina barcos de gente; depois tornando, com a trombeta manifestadora de seus males, a pedir socorro, foi entendida a resposta pela outra, dizendo: — retira-te, retira-te; e ainda se esteve mais algum espaço. Neste tempo, com um pelouro mataram a Henrique do Rego, criado de André Botelho; e a Bernabé Fernandes, filho de Pero Fernandes, natural da cidade da Ponta Delgada deram com outro pelouro de um mosquete no geolho da perna esquerda, estando posto na força da batalha, de que esteve para morrer, e Sua Majestade lhe fez mercê de dois moios de trigo de renda cada ano, e cem cruzados para ajuda de custo.
Não esteve muito a nau abalroada, porque logo, como lhe faltou socorro, se foi retirando, e não foi tanto a seu salvo, que muito havia que dela não tiravam nem peça nem arcabuzaria, e ao tempo de se expedir foi cortada a amarra da nossa nau, ao que logo acudiram, dando nela; seria isto três horas antes do dia, e haveria sete horas que o combate durava; foi na volta do mar e as outras por outra parte. Quando amanheceu, deitando conta aos mortos que entre os portugueses e castelhanos e artilheiros faltavam, acharam ser mais de vinte pessoas, e trinta feridos, mas com todo gozando-se da vitória. Pesarosos da morte dos valorosos amigos, se iam razoando, quando um contava — a mim sucedeu tal encontro, outro — eu vali a tal fogo, outros — outras semelhantes cousas. Nisto apareceu pela parte do ponente uma nau que logo o capitão conheceu ser das de sua conserva, e mui contentes iam com o pensamento de tomar conselho e acordo para novo cometimento. Não faltava nisto o parecer dos valentes portugueses que na nau estavam, porque com muito gosto de todos aceitaram novo assalto e desprezavam todo o louvor que os hespanhóis lhe davam, dizendo-lhe que sustentar-se a nau contra o imigo, eles foram causa, porque, se os não tiveram consigo, se tinham por perdidos.
Nesta hora, se ia chegando a outra nau hespanhola, a quem determinou o capitão dar salva. E chamando a João Ferreira, a quem tinha levantado por condestável, lhe mandou ordenar a artilharia de cima, e aos demais a outra, já que se ia pondo em ordem, sem receio que o condestável, flamengo de nação pusesse, o fogo a uma peça ante tempo, que acendeu outras três peças e um barril de pólvora que junto estava, que foi causa de grande perda e muito dano, porque em partes se queimaram até sessenta homens, em que entrou o sargento mor, o qual, tanto que se queimou, desceu pela enxárcia ao mar a se meter na água, e depois não tinha remédio algum para se salvar, se lho não dera Simão Correia, seu irmão, que ali acabou de pôr o selo ao que tinha feito na briga, mostrandose valoroso soldado; o qual com muito ânimo, por força, por si e com alguma ajuda, pôs a seu irmão em salvo, em cima. Queimou-se muita gente, mas puderam passar com menos perda, dor e choro, se o temor do fogo e fúria dele não alvoroçara a alguns que se deitassem ao mar, em que se afogaram mais de vinte pessoas, entre as quais foram o animoso Fernão do Quental e Baltasar de Figueiredo, galhardo mancebo, a quem não quis a como invejosa morte de sua boa ventura e galhardia deixar gozar a glória de seus feitos e sua virtuosa fama; e acabaram afogados sem remédio algum. Foram três barcos de terra que salvaram a D. Gaspar , a quem deu um pelouro no peito, de prova que levava, e outros muitos das furiosas ondas do mar, entre os quais escapou Brás Barbosa da Silva, filho de Hércules Barbosa da Silva, o qual, depois de pelejar valorosamente todo o tempo que durou a batalha, ficando queimado em uma perna quando se acendeu o fogo depois da vitória, se lançou ao mar e nadando espaço de uma hora, o tomou um dos batéis que foram de terra, pelo que Sua Majestade o tomou por cavaleiro fidalgo de sua casa e o fez alferes mor da cidade da Ponta Delgada, fazendo-lhe mais mercê de cem cruzados para ajuda de custo . O sargento mor foi queimado no rosto e mãos e outras partes e ferido em uma perna, de uma lasca de távoa que partiu e sacudiu um pelouro; Sebastião da Costa queimado no rosto e em um braço; e também André Botelho Travassos e outros, dos quais alguns depois faleceram. A nau se foi repairando até chegar a Vila Franca. Os imigos desapareceram, e a árvore seca estiveram ao sul dos Mosteiros três dias; no fim deles, sobre tarde, vindo um navio da ilha da Madeira, da parte do ponente, o foram seguindo e tomaram junto com as pedras, ao longo da costa. A gente se foi para terra, e eles desapareceram, levando-o consigo. As duas hespanholas se fizeram prestes e foram na volta de Cales. Depois de elas idas, tornaram a aparecer os ingreses e tomaram um navio que estava no ilhéu de Vila Franca, carregado de farinhas para o Cabo Verde, até que, depois de fazerem muitos males e roubos, de todo desapareceram, sem mais serem vistos na costa desta ilha.