Como realizar uma Quarentena

Você ou um ente querido tem febre leve, dores no corpo, o início de uma tosse seca e irritante. A comida não tem gosto nem cheira como antes. Talvez sinte falta de ar ou custa respirar...

Cozer feijões velhos

feijãoQuando guardados há muito tempo (anos mesmo) ou simplesmente mal acondicionados, os feijões podem demorar tempo a mais a cozer. Mas há soluções.

A menos aconselhável é a adição de...

A Tinturaria Vegetal em Alguma Ilhas dos Açores


Carreiro da Costa, 1957

tinturariaRemonta aos primeiros decénios de vida insular, a prática dos vários processos de tinturaria caseira, servida por elementos vegetais. Tais processos encontram-se...

Cores das Ilhas

Tudo leva a crer que esta paleta de cores começou a ser formada com a visita do escritor Raul Brandão, que esteve nos Açores em 1924 e foi atribuindo a cada ilha uma determinada cor (ou...

A Amoreira e a Sericultura

 

Carreiro da Costa, 1945

De entre os problemas económicos em equação no arquipélago dos Açores, o da sericicultura é dos que mais tem apaixonado aqueles que, no decorrer dos tempos, vêm...

Agave (Babosa)

Piteira, Babosa, Agave, Agave americana L.

agaveÉ uma planta muito disseminada nos jardins de algumas ilhas. Não sabemos se o  “Agave azul” (e a sua parente “Marginata”, com folhas às riscas...

Alguns Estudos Científicos sobre Agricultura Açoriana

uac 0 1

Departamento de Ciências Agrárias

http://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3

 

A influência da paisagem, dos factores ambientais e taxa de infestação na densidade na...

A ilha de Santa Maria está em altura de trinta e sete graus da parte do Norte setentrional, leste-oeste com o cabo de São Vicente, do Algarve, da qual, se deitarem uma linha direita a Leste, vai dar no dito cabo, do qual, pouco mais ou menos, distará duzentas e cinquenta léguas. Ao Norte dela demora a ilha de São Miguel, em que estamos, porque o morro do Nordeste desta está Norte e Sul com ela, e de toda ela demora ao Sueste do lugar da Povoação doze léguas, de terra a terra, e do porto de Vila Franca dezasseis, e da cidade vinte, de porto a porto.

Tem de compridão três léguas e de largura légua e meia, e por algumas partes uma; e terá em roda pouco mais de seis léguas, quase toda redonda, ou, por melhor dizer, de figura ovada.

Tem a compridão de Leste a Oeste, na parte do Oriente dela, uma ponta baixa ao mar, não comprida, e no cabo dela está um ilhéu redondo e alto, como pináculo, que parece torre ou castelo, e, por ser pequeno em respeito de outro maior, que adiante direi, lhe chamam Castelete. Deste Castelete, que está ao Leste, começa a compridão da ilha até as Lagoinhas, que estão a Oeste, da qual parte faz testa a ilha, das Lagoinhas até Água de Alto, e a Faneca, e Maldegolado (chamado assim pelo espaço que passa dela para a terra ser estreito) e Monte Gordo, assim chamado porque é terra alta e chã e tem feição de gorda. De maneira que, das Lagoinhas a Monte Gordo, não há determinação qual será a ponta da ilha, porque esta testa ou basis, que tem estes quatro nomes, é a ponta dela da parte de Oeste, ficando Monte Gordo da parte do Sul, e as Lagoinhas da parte do Norte desta mesma testa.

De uma parte e doutra, ao longo do Castelete, se acolhem em tempo de tormenta os navios a seu abrigo, dos ventos contrários; e a rocha dele é tão alcantilada, que muitas vezes se salvam ali, deitando a proiz em terra. E pegado nele, da banda do Sul, está uma calheta em que varam barcos e, fora, ancoram navios.

Adiante das calhetas estão algumas fajãs plantadas de vinhas, e no cimo delas, na terra feita, nasce uma fonte, chamada a Fonte Grande, de muita água, que logo na mesma terra se sume e vai por baixo da rocha e fajãs ao longo do mar, sem aparecer senão com a maré vazia; e as fajãs se chamam Fajãs da Fonte Grande, que agora são dos herdeiros de Domingos Fernandes. E esta e outras estão por esta ordem.

Logo, junto do Castelete, está uma ladeira, pela terra dentro, de Cristóvão Vaz Faleiro, que ele houve com o dito Castelete dos herdeiros da Maia, prantada de vinha nova que dá muito e bom vinho, como são quase todos os que cria aquela terra, que são quase como os da ilha da Madeira, por lhe ser semelhante o torrão e salão dela.

Indo do Castelete, pela banda do Sul, para Loeste até umas baixas, que estão debaixo de uma rocha chamada Ruiva, estão algumas fajãs ao longo do mar, a primeira das quais (que está da outra, acima dita, dois tiros de pedra de bom braço, e se chama da Maia, que foi uma honrada mulher de um nobre e rico homem) tem, no princípio, a primeira vinha, que nela prantou um Amador Lourenço, de meias, por lha dar assim Catarina Fernandes, a Maia, com este partido, e depois de prantada e feita, a partiram pelo meio, e a parte que à Maia caiu teve e possuiu até agora um Belchior Fernandes, seu herdeiro, e a do agricultor venderam seus herdeiros a Gaspar Fernandes, sapateiro, parte dela, e a outra tem um deles. Todas estas vinhas darão cada ano cem pipas de vinho, das melhores uvas que há nas ilhas, e dão muita fruta, figos, marmelos e pêssegos.

Daqui vai correndo para o Norte, até junto de Nossa Senhora das Candeias, uma ribeira Grande, que se chama assim, não por ela o ser, mas porque da banda da serra não há outra que tome mais água quando chove; esta corre sempre, no inverno com muita água e no verão com pouca, de algumas fontes que nela se recolhem; tem um salto muito grande na rocha, chegando sobre a Fajã, arriba do qual um tiro de besta estão umas casas antigas, com seu pomar, que foram de Catarina Fernandes, a Maia, chamada assim por ser filha de João da Maia, homem antigo e honrado, e casada com Álvaro Fernandes de Andrade, almoxarife que foi na mesma ilha, do qual ficaram nela os Andrades: Pedro de Andrade, Ana de Andrade, Maria de Andrade, Leonor de Andrade, Inês de Andrade, e outros filhos e filhas destes, que assim se chamam. Foi esta casa, que está perto da rocha, muito rica e abastada, onde estes antigos habitadores dela têm feito muitas esmolas a gente pobre e bom gasalhado aos ricos.

Foi esta Catarina Fernandes filha de Guilhelma Fernandes, que foi filha de África Anes e do sobredito Pedro Anes de Alpoem. Junto destas casas da Maia está um moinho ou azenha, que mói de represa, no inverno, nesta Ribeira Grande, que agora é de Ana de Andrade; a qual ribeira vai pela terra dentro, do Sueste até um pico, que se chama do Cavaleiro, que lhe fica ao Nor-noroeste. E agora é esta fazenda de Manuel Fernandes, filho de Domingos Fernandes.

Tornando à Fajã, logo passado o nascimento da dita ribeira Grande, estão umas vinhas muito grandes e boas, onde se faz o melhor vinho da ilha, que vendeu Pero de Andrade, em vida de sua mãe, que possuía a terra delas, a Pero Gonçalves, o Manso, e Pero Nunes, e outra de Teodósio Faleiro, alguns dos quais a prantaram de vinhas mui formosas e de muitas árvores, haverá perto de vinte anos. Depois de vendida a Pero Nunes e a Pero Gonçalves, o Manso, pôs-lhe demanda um herdeiro da Maia, com a qual se consertou o Manso sobre a sua ametade, largando uma parte ao dito herdeiro, mas o Pero Nunes, seguindo a demanda, foi ao Reino e venceu a causa, de cuja sentença ajudando-se o Manso, se tornou a fazer bravo e vendeu a parte que tinha dado de conserto ao herdeiro diante do corregedor, e está agora por apelação para o Reino, e a outra parte que lhe tinha ficado vendeu a Teodósio Faleiro, acima dito, e ficou sem nada.

Logo pegado na mesma Fajã, está outra vinha de Ana de Andrade e de Miguel Soares, seu genro, a qual venderam a Baltazar Velho de Andrade.

Mais adiante está outra vinha de Diogo Fernandes Faleiro, que ele fez, por ser de seu pai, Domingos Fernandes, que possuía do mar até o meio da terra por esta banda do Sul, terras que foram de Genes Curvelo, homem antigo e honrado na ilha. Este Diogo Fernandes e seus irmãos têm suas casas em cima da rocha, como um tiro de arcabuz fronteiras à Fajã, à qual se desce pela dita rocha por um caminho tão medonho e perigoso de descer, que quem olha para baixo perde a vista dos olhos, pelo que o mesmo caminho, por ser tal, é a guarda da vinha (ainda que não para os ladrões, que enrocham como cabras), da qual seu dono não tirava o vinho senão por mar, por causa da grande aspereza do caminho e agrura da rocha, mas já agora tem caminho de carro; dará esta vinha cada ano vinte pipas de bom vinho.

O mesmo Diogo Fernandes Faleiro tem na sua vinha, no meio da rocha feito, um lagar de uma só pedra, muito bem feito, em que faz todo o seu vinho, e o mesmo, no ano de mil e quinhentos e setenta e nove (porque não é bem passar com silêncio uma obra de tanto louvor), sendo de muita esterilidade, como haviam sido já outros atrás, de que ficaram os moradores da ilha tão atribulados e pobres, que não se podiam manter nela, vendo ele alguns parentes seus em semelhante aflição, os persuadiu que se quisessem sair daquela miséria e se fossem para o Brasil, para o que gastou com eles, provendo-os de todo o necessário para a sua embarcação, duzentos mil réis, e mais não sendo ele tão rico, que pudesse fazer tão grossa esmola, sem notável trabalho seu e despesa de sua fazenda, ajudando-os, e, além da dita despesa, com diligências e ocupações de sua pessoa e dos seus, de sua casa, a embarcar, animando-os com grande fervor e caridade.

Adiante, mais no cabo desta fajã, está um ilhéu que chamam o Castelo, por ser maior que o Castelete, ou o Penedo das Armas, e entra ao mar mais quantidade que ele, fazendo um recanto, como abrigo, onde se acolhem os navios com tempo oeste e noroeste. Deste Castelo ao Castelete, donde comecei, ficando no meio esta fajã, será perto de meia légua de costa a modo de baía, não muito grande, onde morre muito peixe e muitos lagostins e se acham muitas cracas e outros mariscos. Tem seu porto, onde saem batéis a tomar os vinhos que hão-de tirar por mar, porque ao longo dele tem caminho de carro, que corre toda a fajã, tão largo e fácil, que os bois trazem pipa por ele, cuja entrada é bem por junto do Castelo. Dão-se nesta fajã muitos melões, abóboras, pepinos, trigo e cevada, porque tem terra feita, mas as vinhas são em moledais, onde têm seus lagares muito bons; dão muitos figos, marmelos e boas maçãs e tudo o que lhe prantam.

Passando o dito Castelo, está logo junto o porto que se chama a Calheta, onde saem batéis que desta banda pescam, e tem suas cafuas, em que dormem os pescadores e recolhem seu pescado. Adiante está outra fajã, de vinhas mais velhas, que começou a prantar Domingos Fernandes Faleiro, e depois mandou vir da ilha Terceira um Francisco Anes, que lha acabou de prantar, e nela esteve muitos anos, com mulher e filhos; o qual homem, comendo e bebendo com seu suor regradamente, faleceu em idade de mais de cento e dez anos.

Saindo desta fajã para o Norte, nas terras feitas ao Campo da Marcela, por a haver nele, chama-se ali Santo Espírito, onde dizem os antigos que na ilha se disse a primeira missa do Espírito Santo, quando entraram nela, e dali ficou nomear-se ainda hoje em dia esta freguesia de Santo Espírito, sendo ela depois edificada, como agora está, da invocação da Purificação de Nossa Senhora, sem perder aquele nome antigo. E, por não achar neste dito campo conveniente lugar para povoação e vila, se foram a Santa Ana, como direi depois em seu lugar, adiante.

Aqui nesta fajã, pela banda do Ponente, se mete uma enseada à terra, em que está um pico que tem uma rocha mui alta, em cujo recanto está um pequeno porto, e dela, quando a maré é vazia, sai uma formosa água, e muito clara e doce, que se presume ser a da Fonte Grande, que acima na terra se sume e vai ali sair ao nível com o mar, como acima disse.

Deste recanto para o Ponente, onde se chama a Rocha Alta, por ser perto de cento e cinquenta braças de alto e mais, e a mais alta que há na ilha, está outra fajã de terra e vinha, que prantou um Fernão d’Álvares e agora é de seus herdeiros, onde mora Manuel Vaz Feio, natural desta ilha de São Miguel, por casar lá com uma sua filha e ser um dos herdeiros. O qual Fernão d’Álvares se diz que era um homem nobre, rico e abastado, e dizia que da dita sua fajã via a Terra Nova, dando os sinais e figuras dela, e foi casado com uma nobre mulher da geração dos Velhos, e dela teve sete filhos, homens muito lustrosos, cavaleiros, que se exercitavam muito em folgares e cavalarias de cavalos, e algumas filhas. E neste direito ao Norte está a igreja de Nossa Senhora da Purificação, que é a freguesia.

Adiante da dita Rocha Alta, tanto como um quarto de légua, está outra fajã, que se chama a Fajã de Afonso, de vinha, que pode dar três ou quatro pipas de vinho. E, logo além, onde se chama a Lomba da Gardeza, estão outras. E onde se chama o Cardal, estão também outras fajãs de vinhas, que dão três e quatro pipas de vinho, que são dos próprios herdeiros do dito Fernão d’Álvares. E mais avante está outra fajã de vinha, que dá duas pipas de vinho. E aqui se acaba a testada da fazenda que foi de Fernão d’Álvares.

Estas fajãs se chamavam antigamente as Fajãs dos Murtinhos, porque, antes de prantadas de vinhas, davam grandes murtinhos, bons e doces, e tantos, que traziam delas moios deles, pela bondade que tinham, e os ia apanhar muita gente para comer.

Entre estas fajãs está uma ribeira, que corre água todo o ano e se chama da Gardeza, por se chamar assim uma mulher que possuiu estas terras, de uma parte da dita ribeira. Correndo adiante, está uma ribeira chamada dos Eirós ou Esteios. E sai ao mar uma ponta, que se chama de Malbusca, uma légua do Castelete, atrás dito.

Mais adiante, como um tiro de besta, está outra fajã, de Pero Velho, filho que foi de Duarte Nunes, já abaixo do começo da rocha que se chama de Malbusca, cujo sítio, que também se chama Malbusca, como a rocha dele, é da freguesia de Santo Espírito e tem poucos moradores, afastados uns dos outros, como está da Vila uma légua e da sua freguesia meia, que lhe demora a Leste, pela terra dentro, junto do Castelete, onde comecei o princípio da ilha.

Corre esta rocha de Malbusca a pique, ao longo do mar, mui alta e temerosa, da qual se tira urzela, que apanham homens, arriscando suas vidas, metidos em cestos dependurados por cordas atadas em estacas metidas na terra, sobre a rocha, com uma ponta, e na outra atado o cesto em que se metem, e assim vão largando a corda por mão até chegarem onde querem, e, depois que têm seu saco cheio, alam-se pela corda; e outros vão atados pela cinta.

Não pude saber a razão do nome desta rocha de Malbusca, se não lho puseram por nela com tanto trabalho e perigo buscarem os homens e urzela. E logo está a ribeira do Gato, que é muito medonha.

No começo desta rocha de Malbusca, como ia dizendo, está a Fajã de Pero Velho, de mais de dois moios de terra e moledais, a qual foi mato de murtal e pau branco e outro arvoredo; tem vinhas que dão cinquenta pipas de vinho. E tem um ribeiro seco pelo meio, e, no princípio dela, do ribeiro para a banda do Nascente, deu Pero Velho, haverá vinte e quatro anos, um moio dela a Gonçalo Gardez, que a prantasse de meias, a qual prantou e depois partiram. E o dito Gardez e seus filhos possuem a sua parte, que caiu no recanto da rocha, da banda do Nascente, e o Pero Velho a sua, da parte do Ponente, junto de um ribeiro, que corre, de fontes do pé da rocha ao mar, por antre a vinha, e vai ter à porta de um lagar (onde o podem meter dentro por cales), que está feito junto de um porto, que, ainda que é tão estreito que os remos chegam às lagens, entram nos barcos muito à vontade, como de cais a pé enxuto, onde embarcam os vinhos das vinhas, por não haver caminho pela rocha acima, por onde passem os carros.

Nesta mesma fajã, que de ponta a ponta tem uma enseada não grande, fez o dito Pero Velho, que ainda vive, outras vinhas, que, por falecimento de sua mulher, herdaram seus filhos e genros; e, assim, em uma como em outra fajã se dão muitas abobras (sic), melões e pepinos e também algum trigo.

Desta Fajã de Pero Velho até Água de Alto, que já é na praia e será meia légua, vai a rocha, que chamam Ruiva, tão alta e íngreme que faz sombreiro, e com trabalho se podem ter as pombas pousadas nela, da qual cai uma fresca água, que vem de umas fontes de junto da serra e passa perto das casas de Nuno Fernandes e Pero Velho, que com ser pouca, como começa a cair, não dá mais na rocha, senão em baixo no calhau miúdo, salvo se o vento a rebate, e, pela grande altura donde cai, quando abaixo chega, quase toda vai espalhada em gotas. Defronte desta água, ao mar, estão umas baixas, que com a maré vazia quase se pode passar a algumas delas a pé, da terra, e a outras a nado, onde vão muitas vezes a folgar muitos da Vila em barcos, no verão, em uma pequena praia que tem (porque no Inverno bate o mar na rocha), onde acham muitos lagostins e caranguejos, e muito peixe e marisco, e são de muito passatempo.

Passadas as baixas, está a ribeira que chamam Água de Alto, porque dele cai em um pico grande que tem em meia rocha; e dali vai para o mar, vindo da serra, sair no canto de uma praia, da banda do Nascente, onde começam as vinhas da mesma praia, que está mui comprida de areia e começa logo, passando esta ribeira, e acaba pouco mais além de outra.

Da ribeira desta praia para a serra, antre estas duas ribeiras, há ladeiras lançantes e pouco íngremes, em que se fazem searas pelas faldras delas, e no mais são prantadas de vinhas, que foram de Duarte Nunes Velho e dão muito vinho; ficam para a banda da ribeira de Água de Alto, onde se chama Larache, por serem as terras chãs e bem assombradas, como a costa de Larache, de África. Defronte desta ribeira de Água de Alto está um ilhéu pequeno um tiro de pedra da terra. E no cabo destas vinhas de Larache está uma ribeira de todo o ano, que dá no mar, chamada a ribeira do Gato, da qual corre a costa, sem rocha, até a ribeira de Nossa Senhora dos Remédios.

A primeira vinha que houve nesta praia foi uma que fez um homem de Portugal, chamado de alcunha o Albardeiro. E neste canto, onde cai Água de Alto, está uma praia muito pequena, e uma furna nela, em que podem caber duzentos homens; jaz logo uma penedia ao longo do mar, e dela avante vai correndo a praia grande, antre a qual e a rocha está uma vinha de Duarte Nunes, que foi do Albardeiro, que ele depois de feita vendeu a Frei João, vigairo velho, e se foi da ilha.

A esta praia vem sair a outra ribeira, que tenho dito , rasa neste lugar, mas alta por cima da terra , que se chama a do Gato, sem se saber o porquê. Aqui está, junto das outras, outra vinha, que fez o dito Frei João, vigairo velho, irmão do pai de Frei Belchior Homem, depois de serem feitas as de Larache, a qual ele, depois de passado algum tempo, vendeu toda a Duarte Nunes, e agora as possui juntamente Nuno Fernandes, seu filho, e administrador de duas capelas que deixou, a modo de morgado, no filho mais velho, que renderão um ano por outro quinze até dezoito mil réis.

Adiante está outra vinha de um Sebastião Pires, que na ilha mataram os franceses, e agora possui sua mulher e filhos. Desta vinha até uma aldeia, tudo são terras de pão, que poderão ter até moio e meio somente.

Nesta aldeia da Praia, que será de quinze vizinhos, está uma ermida de Nossa Senhora dos Remédios, onde os tiveram muitos enfermos, que, indo ali em romaria, alcançaram saúde.

Diante desta igreja um tiro de pedra vem sair à praia uma ribeira, que se chama da Praia, vindo pelo Farrobo, onde há vinhas e pomares antigos, e outros que agora se prantam, a qual ribeira logo junto desta aldeia se parte em três: na do Farrobo, já dita, que corre do Norte, e outra do Meio, que vai ter a Castelo de Bodes e vem do Nordeste, e outra que traz sua corrente da parte de Lés-nordeste; e todas três não trazem muita água, mas duas delas juntas têm dois moinhos naquela pequena aldeia, que moem com água de ambas, e por isso esta ribeira se chama dos Moinhos da Praia, a qual praia é tudo areia, em que o mar anda sempre de tombo (?) ou de rolo, em uma grande baía de baixos limpos, onde ancoram muitas naus e navios; e dali vai dar em outra fajã de vinhas, que se chama a Prainha, tudo costa de areia, por esta ordem.

Passada esta ribeira, afastada dela como doze até quinze palmos, nasce uma fonte salobra, com estar do mar um tiro de besta, a qual cai de uma bica, onde se têm lavado muitos enfermos e cobram saúde, e, por isto e por estar ali perto da ermida, lhe chamam todos a Fonte de Nossa Senhora.

Correndo mais adiante, passada esta praia, se mete uma rocha não muito alta, nem comprida, e logo dois tiros de arcabuz está outra praia pequena, que se chama a Prainha, por diferença da outra maior, que atrás fica, sobre a qual estão ladeiras com muitas vinhas, uma das quais dizem prantar um Álvaro da Fonte, o Velho, neto de África Anes, homem liberal e honrado, cuja casa foi muito abastada e estalagem de muitos, assim da terra como de fora, e morreu já pobre por ser bom para todos. Esta vinha mandou renovar e prantar Gaspar Garcia, e nela deu um pedaço a Pero Francisco, seu genro, que vendeu o seu quinhão a um Francisco de Medina, ali estante na ilha e morador na da Madeira.

Perto corre a rocha lançada, com outras ladeiras de vinhas, as mais antigas que houve na ilha, por espaço de outros dois tiros de arcabuz, onde se chama o Figueiral, acima das quais vinhas, na rocha, se tira pedra, de que se faz muita cal na terra, a qual não há em nenhuma das outras ilhas dos Açores, ainda que não é tão boa como a que vem de outras partes. Tiramse também ali, na mesma pedreira, pedras de mós de mármore. E antre algumas destas pedras se acham pegadas cascas de marisco, de ameijas (sic) e ostras.

Chama-se o Figueiral, por haver ali muitas figueiras juntas, emboscadas, que dão tão bons figos, e a maior parte longares, que em todas estas ilhas os não há melhores, nem tão bons; mas são já figueiras muito velhas. Nesta fajã estão vinhas que dão uvas primeiro que todas as outras, as quais mandou prantar Álvaro da Fonte, acima dito, que foram as segundas que na ilha se fizeram; e, por estarem mais perto da Vila, fazem pouco vinho nelas, polas levarem a vender, e, se algum vinho se faz, é muito bom. As quais vinhas são agora de Gaspar Álvares e António Curvelo e podem render, forros, a seus donos dez mil réis. Daqui, por espaço de dois tiros de arcabuz, corre a rocha tão baixa que a maior parte se anda, que é de terras que foram de Rui Fernandes de Alpoem e agora são de Belchior de Sousa, filho de João Soares, terceiro Capitão que foi da ilha, onde, junto do mar, como em um capelo antre duas vinhas e a ponta do Marvão, estão duas furnas de greda, uma delas muito grande, assim de comprido como de altura, que se chama a Furna Velha, a que se não acha cabo; da qual (indo com candeias acesas por ser dentro obscura) se tira um barro fino, cinzento como sabão muito macio, que serve para lavar pano de cor, principalmente branco, e tirar nódoas dele; untando-as com a greda branda e mole e pondo o pano a secar ao Sol, secando-se, ele chupa e recolhe em si a graxa, ou azeite, ou qualquer outro licor que fez a nódoa, e, lavando-se depois o mesmo pano, fica sem ela. Junto a esta, está outra furna, que se chama a Nova, por se usar dela depois, em que também se tira mais greda, sem candeia.

Correndo a rocha baixa, perto como dois tiros de besta está uma ponta que se chama do Marvão, por haverem sido as terras acima dela de um Francisco Marvão, que dista mais de uma grande légua, pela terra, da ponta de Malbusca, onde estão as baixas, atrás ditas, e pelo mar menos. E antre estas duas pontas se faz uma grande baía.

EM QUE SE COMEÇA A DESCREVER EM CIRCUITO TODA A COSTA MARÍTIMA DA ILHA DE SANTA MARIA, COM A DISTÂNCIA DAS POVOAÇÕES E MAIS NOTÁVEIS PONTAS E BAÍAS E ILHÉUS QUE HÁ NELA, DO CASTELETE, QUE ESTÁ AO ORIENTE, PELA BANDA SUL, ATÉ A PONTA DO MARVÃO, JUNTO DA VILA DO PORTO

A ilha de Santa Maria está em altura de trinta e sete graus da parte do Norte setentrional, leste-oeste com o cabo de São Vicente, do Algarve, da qual, se deitarem uma linha direita a Leste, vai dar no dito cabo, do qual, pouco mais ou menos, distará duzentas e cinquenta léguas. Ao Norte dela demora a ilha de São Miguel, em que estamos, porque o morro do Nordeste desta está Norte e Sul com ela, e de toda ela demora ao Sueste do lugar da Povoação doze léguas, de terra a terra, e do porto de Vila Franca dezasseis, e da cidade vinte, de porto a porto.

Tem de compridão três léguas e de largura légua e meia, e por algumas partes uma; e terá em roda pouco mais de seis léguas, quase toda redonda, ou, por melhor dizer, de figura ovada.

Tem a compridão de Leste a Oeste, na parte do Oriente dela, uma ponta baixa ao mar, não comprida, e no cabo dela está um ilhéu redondo e alto, como pináculo, que parece torre ou castelo, e, por ser pequeno em respeito de outro maior, que adiante direi, lhe chamam Castelete. Deste Castelete, que está ao Leste, começa a compridão da ilha até as Lagoinhas, que estão a Oeste, da qual parte faz testa a ilha, das Lagoinhas até Água de Alto, e a Faneca, e Maldegolado (chamado assim pelo espaço que passa dela para a terra ser estreito) e Monte Gordo, assim chamado porque é terra alta e chã e tem feição de gorda. De maneira que, das Lagoinhas a Monte Gordo, não há determinação qual será a ponta da ilha, porque esta testa ou basis, que tem estes quatro nomes, é a ponta dela da parte de Oeste, ficando Monte Gordo da parte do Sul, e as Lagoinhas da parte do Norte desta mesma testa.

De uma parte e doutra, ao longo do Castelete, se acolhem em tempo de tormenta os navios a seu abrigo, dos ventos contrários; e a rocha dele é tão alcantilada, que muitas vezes se salvam ali, deitando a proiz em terra. E pegado nele, da banda do Sul, está uma calheta em que varam barcos e, fora, ancoram navios.

Adiante das calhetas estão algumas fajãs plantadas de vinhas, e no cimo delas, na terra feita, nasce uma fonte, chamada a Fonte Grande, de muita água, que logo na mesma terra se sume e vai por baixo da rocha e fajãs ao longo do mar, sem aparecer senão com a maré vazia; e as fajãs se chamam Fajãs da Fonte Grande, que agora são dos herdeiros de Domingos Fernandes. E esta e outras estão por esta ordem.

Logo, junto do Castelete, está uma ladeira, pela terra dentro, de Cristóvão Vaz Faleiro, que ele houve com o dito Castelete dos herdeiros da Maia, prantada de vinha nova que dá muito e bom vinho, como são quase todos os que cria aquela terra, que são quase como os da ilha da Madeira, por lhe ser semelhante o torrão e salão dela.

Indo do Castelete, pela banda do Sul, para Loeste até umas baixas, que estão debaixo de uma rocha chamada Ruiva, estão algumas fajãs ao longo do mar, a primeira das quais (que está da outra, acima dita, dois tiros de pedra de bom braço, e se chama da Maia, que foi uma honrada mulher de um nobre e rico homem) tem, no princípio, a primeira vinha, que nela prantou um Amador Lourenço, de meias, por lha dar assim Catarina Fernandes, a Maia, com este partido, e depois de prantada e feita, a partiram pelo meio, e a parte que à Maia caiu teve e possuiu até agora um Belchior Fernandes, seu herdeiro, e a do agricultor venderam seus herdeiros a Gaspar Fernandes, sapateiro, parte dela, e a outra tem um deles. Todas estas vinhas darão cada ano cem pipas de vinho, das melhores uvas que há nas ilhas, e dão muita fruta, figos, marmelos e pêssegos.

Daqui vai correndo para o Norte, até junto de Nossa Senhora das Candeias, uma ribeira Grande, que se chama assim, não por ela o ser, mas porque da banda da serra não há outra que tome mais água quando chove; esta corre sempre, no inverno com muita água e no verão com pouca, de algumas fontes que nela se recolhem; tem um salto muito grande na rocha, chegando sobre a Fajã, arriba do qual um tiro de besta estão umas casas antigas, com seu pomar, que foram de Catarina Fernandes, a Maia, chamada assim por ser filha de João da Maia, homem antigo e honrado, e casada com Álvaro Fernandes de Andrade, almoxarife que foi na mesma ilha, do qual ficaram nela os Andrades: Pedro de Andrade, Ana de Andrade, Maria de Andrade, Leonor de Andrade, Inês de Andrade, e outros filhos e filhas destes, que assim se chamam. Foi esta casa, que está perto da rocha, muito rica e abastada, onde estes antigos habitadores dela têm feito muitas esmolas a gente pobre e bom gasalhado aos ricos.

Foi esta Catarina Fernandes filha de Guilhelma Fernandes, que foi filha de África Anes e do sobredito Pedro Anes de Alpoem. Junto destas casas da Maia está um moinho ou azenha, que mói de represa, no inverno, nesta Ribeira Grande, que agora é de Ana de Andrade; a qual ribeira vai pela terra dentro, do Sueste até um pico, que se chama do Cavaleiro, que lhe fica ao Nor-noroeste. E agora é esta fazenda de Manuel Fernandes, filho de Domingos Fernandes.

Tornando à Fajã, logo passado o nascimento da dita ribeira Grande, estão umas vinhas muito grandes e boas, onde se faz o melhor vinho da ilha, que vendeu Pero de Andrade, em vida de sua mãe, que possuía a terra delas, a Pero Gonçalves, o Manso, e Pero Nunes, e outra de Teodósio Faleiro, alguns dos quais a prantaram de vinhas mui formosas e de muitas árvores, haverá perto de vinte anos. Depois de vendida a Pero Nunes e a Pero Gonçalves, o Manso, pôs-lhe demanda um herdeiro da Maia, com a qual se consertou o Manso sobre a sua ametade, largando uma parte ao dito herdeiro, mas o Pero Nunes, seguindo a demanda, foi ao Reino e venceu a causa, de cuja sentença ajudando-se o Manso, se tornou a fazer bravo e vendeu a parte que tinha dado de conserto ao herdeiro diante do corregedor, e está agora por apelação para o Reino, e a outra parte que lhe tinha ficado vendeu a Teodósio Faleiro, acima dito, e ficou sem nada.

Logo pegado na mesma Fajã, está outra vinha de Ana de Andrade e de Miguel Soares, seu genro, a qual venderam a Baltazar Velho de Andrade.

Mais adiante está outra vinha de Diogo Fernandes Faleiro, que ele fez, por ser de seu pai, Domingos Fernandes, que possuía do mar até o meio da terra por esta banda do Sul, terras que foram de Genes Curvelo, homem antigo e honrado na ilha. Este Diogo Fernandes e seus irmãos têm suas casas em cima da rocha, como um tiro de arcabuz fronteiras à Fajã, à qual se desce pela dita rocha por um caminho tão medonho e perigoso de descer, que quem olha para baixo perde a vista dos olhos, pelo que o mesmo caminho, por ser tal, é a guarda da vinha (ainda que não para os ladrões, que enrocham como cabras), da qual seu dono não tirava o vinho senão por mar, por causa da grande aspereza do caminho e agrura da rocha, mas já agora tem caminho de carro; dará esta vinha cada ano vinte pipas de bom vinho.

O mesmo Diogo Fernandes Faleiro tem na sua vinha, no meio da rocha feito, um lagar de uma só pedra, muito bem feito, em que faz todo o seu vinho, e o mesmo, no ano de mil e quinhentos e setenta e nove (porque não é bem passar com silêncio uma obra de tanto louvor), sendo de muita esterilidade, como haviam sido já outros atrás, de que ficaram os moradores da ilha tão atribulados e pobres, que não se podiam manter nela, vendo ele alguns parentes seus em semelhante aflição, os persuadiu que se quisessem sair daquela miséria e se fossem para o Brasil, para o que gastou com eles, provendo-os de todo o necessário para a sua embarcação, duzentos mil réis, e mais não sendo ele tão rico, que pudesse fazer tão grossa esmola, sem notável trabalho seu e despesa de sua fazenda, ajudando-os, e, além da dita despesa, com diligências e ocupações de sua pessoa e dos seus, de sua casa, a embarcar, animando-os com grande fervor e caridade.

Adiante, mais no cabo desta fajã, está um ilhéu que chamam o Castelo, por ser maior que o Castelete, ou o Penedo das Armas, e entra ao mar mais quantidade que ele, fazendo um recanto, como abrigo, onde se acolhem os navios com tempo oeste e noroeste. Deste Castelo ao Castelete, donde comecei, ficando no meio esta fajã, será perto de meia légua de costa a modo de baía, não muito grande, onde morre muito peixe e muitos lagostins e se acham muitas cracas e outros mariscos. Tem seu porto, onde saem batéis a tomar os vinhos que hão-de tirar por mar, porque ao longo dele tem caminho de carro, que corre toda a fajã, tão largo e fácil, que os bois trazem pipa por ele, cuja entrada é bem por junto do Castelo. Dão-se nesta fajã muitos melões, abóboras, pepinos, trigo e cevada, porque tem terra feita, mas as vinhas são em moledais, onde têm seus lagares muito bons; dão muitos figos, marmelos e boas maçãs e tudo o que lhe prantam.

Passando o dito Castelo, está logo junto o porto que se chama a Calheta, onde saem batéis que desta banda pescam, e tem suas cafuas, em que dormem os pescadores e recolhem seu pescado. Adiante está outra fajã, de vinhas mais velhas, que começou a prantar Domingos Fernandes Faleiro, e depois mandou vir da ilha Terceira um Francisco Anes, que lha acabou de prantar, e nela esteve muitos anos, com mulher e filhos; o qual homem, comendo e bebendo com seu suor regradamente, faleceu em idade de mais de cento e dez anos.

Saindo desta fajã para o Norte, nas terras feitas ao Campo da Marcela, por a haver nele, chama-se ali Santo Espírito, onde dizem os antigos que na ilha se disse a primeira missa do Espírito Santo, quando entraram nela, e dali ficou nomear-se ainda hoje em dia esta freguesia de Santo Espírito, sendo ela depois edificada, como agora está, da invocação da Purificação de Nossa Senhora, sem perder aquele nome antigo. E, por não achar neste dito campo conveniente lugar para povoação e vila, se foram a Santa Ana, como direi depois em seu lugar, adiante.

Aqui nesta fajã, pela banda do Ponente, se mete uma enseada à terra, em que está um pico que tem uma rocha mui alta, em cujo recanto está um pequeno porto, e dela, quando a maré é vazia, sai uma formosa água, e muito clara e doce, que se presume ser a da Fonte Grande, que acima na terra se sume e vai ali sair ao nível com o mar, como acima disse.

Deste recanto para o Ponente, onde se chama a Rocha Alta, por ser perto de cento e cinquenta braças de alto e mais, e a mais alta que há na ilha, está outra fajã de terra e vinha, que prantou um Fernão d’Álvares e agora é de seus herdeiros, onde mora Manuel Vaz Feio, natural desta ilha de São Miguel, por casar lá com uma sua filha e ser um dos herdeiros. O qual Fernão d’Álvares se diz que era um homem nobre, rico e abastado, e dizia que da dita sua fajã via a Terra Nova, dando os sinais e figuras dela, e foi casado com uma nobre mulher da geração dos Velhos, e dela teve sete filhos, homens muito lustrosos, cavaleiros, que se exercitavam muito em folgares e cavalarias de cavalos, e algumas filhas. E neste direito ao Norte está a igreja de Nossa Senhora da Purificação, que é a freguesia.

Adiante da dita Rocha Alta, tanto como um quarto de légua, está outra fajã, que se chama a Fajã de Afonso, de vinha, que pode dar três ou quatro pipas de vinho. E, logo além, onde se chama a Lomba da Gardeza, estão outras. E onde se chama o Cardal, estão também outras fajãs de vinhas, que dão três e quatro pipas de vinho, que são dos próprios herdeiros do dito Fernão d’Álvares. E mais avante está outra fajã de vinha, que dá duas pipas de vinho. E aqui se acaba a testada da fazenda que foi de Fernão d’Álvares.

Estas fajãs se chamavam antigamente as Fajãs dos Murtinhos, porque, antes de prantadas de vinhas, davam grandes murtinhos, bons e doces, e tantos, que traziam delas moios deles, pela bondade que tinham, e os ia apanhar muita gente para comer.

Entre estas fajãs está uma ribeira, que corre água todo o ano e se chama da Gardeza, por se chamar assim uma mulher que possuiu estas terras, de uma parte da dita ribeira. Correndo adiante, está uma ribeira chamada dos Eirós ou Esteios. E sai ao mar uma ponta, que se chama de Malbusca, uma légua do Castelete, atrás dito.

Mais adiante, como um tiro de besta, está outra fajã, de Pero Velho, filho que foi de Duarte Nunes, já abaixo do começo da rocha que se chama de Malbusca, cujo sítio, que também se chama Malbusca, como a rocha dele, é da freguesia de Santo Espírito e tem poucos moradores, afastados uns dos outros, como está da Vila uma légua e da sua freguesia meia, que lhe demora a Leste, pela terra dentro, junto do Castelete, onde comecei o princípio da ilha.

Corre esta rocha de Malbusca a pique, ao longo do mar, mui alta e temerosa, da qual se tira urzela, que apanham homens, arriscando suas vidas, metidos em cestos dependurados por cordas atadas em estacas metidas na terra, sobre a rocha, com uma ponta, e na outra atado o cesto em que se metem, e assim vão largando a corda por mão até chegarem onde querem, e, depois que têm seu saco cheio, alam-se pela corda; e outros vão atados pela cinta.

Não pude saber a razão do nome desta rocha de Malbusca, se não lho puseram por nela com tanto trabalho e perigo buscarem os homens e urzela. E logo está a ribeira do Gato, que é muito medonha.

No começo desta rocha de Malbusca, como ia dizendo, está a Fajã de Pero Velho, de mais de dois moios de terra e moledais, a qual foi mato de murtal e pau branco e outro arvoredo; tem vinhas que dão cinquenta pipas de vinho. E tem um ribeiro seco pelo meio, e, no princípio dela, do ribeiro para a banda do Nascente, deu Pero Velho, haverá vinte e quatro anos, um moio dela a Gonçalo Gardez, que a prantasse de meias, a qual prantou e depois partiram. E o dito Gardez e seus filhos possuem a sua parte, que caiu no recanto da rocha, da banda do Nascente, e o Pero Velho a sua, da parte do Ponente, junto de um ribeiro, que corre, de fontes do pé da rocha ao mar, por antre a vinha, e vai ter à porta de um lagar (onde o podem meter dentro por cales), que está feito junto de um porto, que, ainda que é tão estreito que os remos chegam às lagens, entram nos barcos muito à vontade, como de cais a pé enxuto, onde embarcam os vinhos das vinhas, por não haver caminho pela rocha acima, por onde passem os carros.

Nesta mesma fajã, que de ponta a ponta tem uma enseada não grande, fez o dito Pero Velho, que ainda vive, outras vinhas, que, por falecimento de sua mulher, herdaram seus filhos e genros; e, assim, em uma como em outra fajã se dão muitas abobras (sic), melões e pepinos e também algum trigo.

Desta Fajã de Pero Velho até Água de Alto, que já é na praia e será meia légua, vai a rocha, que chamam Ruiva, tão alta e íngreme que faz sombreiro, e com trabalho se podem ter as pombas pousadas nela, da qual cai uma fresca água, que vem de umas fontes de junto da serra e passa perto das casas de Nuno Fernandes e Pero Velho, que com ser pouca, como começa a cair, não dá mais na rocha, senão em baixo no calhau miúdo, salvo se o vento a rebate, e, pela grande altura donde cai, quando abaixo chega, quase toda vai espalhada em gotas. Defronte desta água, ao mar, estão umas baixas, que com a maré vazia quase se pode passar a algumas delas a pé, da terra, e a outras a nado, onde vão muitas vezes a folgar muitos da Vila em barcos, no verão, em uma pequena praia que tem (porque no Inverno bate o mar na rocha), onde acham muitos lagostins e caranguejos, e muito peixe e marisco, e são de muito passatempo.

Passadas as baixas, está a ribeira que chamam Água de Alto, porque dele cai em um pico grande que tem em meia rocha; e dali vai para o mar, vindo da serra, sair no canto de uma praia, da banda do Nascente, onde começam as vinhas da mesma praia, que está mui comprida de areia e começa logo, passando esta ribeira, e acaba pouco mais além de outra.

Da ribeira desta praia para a serra, antre estas duas ribeiras, há ladeiras lançantes e pouco íngremes, em que se fazem searas pelas faldras delas, e no mais são prantadas de vinhas, que foram de Duarte Nunes Velho e dão muito vinho; ficam para a banda da ribeira de Água de Alto, onde se chama Larache, por serem as terras chãs e bem assombradas, como a costa de Larache, de África. Defronte desta ribeira de Água de Alto está um ilhéu pequeno um tiro de pedra da terra. E no cabo destas vinhas de Larache está uma ribeira de todo o ano, que dá no mar, chamada a ribeira do Gato, da qual corre a costa, sem rocha, até a ribeira de Nossa Senhora dos Remédios.

A primeira vinha que houve nesta praia foi uma que fez um homem de Portugal, chamado de alcunha o Albardeiro. E neste canto, onde cai Água de Alto, está uma praia muito pequena, e uma furna nela, em que podem caber duzentos homens; jaz logo uma penedia ao longo do mar, e dela avante vai correndo a praia grande, antre a qual e a rocha está uma vinha de Duarte Nunes, que foi do Albardeiro, que ele depois de feita vendeu a Frei João, vigairo velho, e se foi da ilha.

A esta praia vem sair a outra ribeira, que tenho dito , rasa neste lugar, mas alta por cima da terra , que se chama a do Gato, sem se saber o porquê. Aqui está, junto das outras, outra vinha, que fez o dito Frei João, vigairo velho, irmão do pai de Frei Belchior Homem, depois de serem feitas as de Larache, a qual ele, depois de passado algum tempo, vendeu toda a Duarte Nunes, e agora as possui juntamente Nuno Fernandes, seu filho, e administrador de duas capelas que deixou, a modo de morgado, no filho mais velho, que renderão um ano por outro quinze até dezoito mil réis.

Adiante está outra vinha de um Sebastião Pires, que na ilha mataram os franceses, e agora possui sua mulher e filhos. Desta vinha até uma aldeia, tudo são terras de pão, que poderão ter até moio e meio somente.

Nesta aldeia da Praia, que será de quinze vizinhos, está uma ermida de Nossa Senhora dos Remédios, onde os tiveram muitos enfermos, que, indo ali em romaria, alcançaram saúde.

Diante desta igreja um tiro de pedra vem sair à praia uma ribeira, que se chama da Praia, vindo pelo Farrobo, onde há vinhas e pomares antigos, e outros que agora se prantam, a qual ribeira logo junto desta aldeia se parte em três: na do Farrobo, já dita, que corre do Norte, e outra do Meio, que vai ter a Castelo de Bodes e vem do Nordeste, e outra que traz sua corrente da parte de Lés-nordeste; e todas três não trazem muita água, mas duas delas juntas têm dois moinhos naquela pequena aldeia, que moem com água de ambas, e por isso esta ribeira se chama dos Moinhos da Praia, a qual praia é tudo areia, em que o mar anda sempre de tombo (?) ou de rolo, em uma grande baía de baixos limpos, onde ancoram muitas naus e navios; e dali vai dar em outra fajã de vinhas, que se chama a Prainha, tudo costa de areia, por esta ordem.

Passada esta ribeira, afastada dela como doze até quinze palmos, nasce uma fonte salobra, com estar do mar um tiro de besta, a qual cai de uma bica, onde se têm lavado muitos enfermos e cobram saúde, e, por isto e por estar ali perto da ermida, lhe chamam todos a Fonte de Nossa Senhora.

Correndo mais adiante, passada esta praia, se mete uma rocha não muito alta, nem comprida, e logo dois tiros de arcabuz está outra praia pequena, que se chama a Prainha, por diferença da outra maior, que atrás fica, sobre a qual estão ladeiras com muitas vinhas, uma das quais dizem prantar um Álvaro da Fonte, o Velho, neto de África Anes, homem liberal e honrado, cuja casa foi muito abastada e estalagem de muitos, assim da terra como de fora, e morreu já pobre por ser bom para todos. Esta vinha mandou renovar e prantar Gaspar Garcia, e nela deu um pedaço a Pero Francisco, seu genro, que vendeu o seu quinhão a um Francisco de Medina, ali estante na ilha e morador na da Madeira.

Perto corre a rocha lançada, com outras ladeiras de vinhas, as mais antigas que houve na ilha, por espaço de outros dois tiros de arcabuz, onde se chama o Figueiral, acima das quais vinhas, na rocha, se tira pedra, de que se faz muita cal na terra, a qual não há em nenhuma das outras ilhas dos Açores, ainda que não é tão boa como a que vem de outras partes. Tiramse também ali, na mesma pedreira, pedras de mós de mármore. E antre algumas destas pedras se acham pegadas cascas de marisco, de ameijas (sic) e ostras.

Chama-se o Figueiral, por haver ali muitas figueiras juntas, emboscadas, que dão tão bons figos, e a maior parte longares, que em todas estas ilhas os não há melhores, nem tão bons; mas são já figueiras muito velhas. Nesta fajã estão vinhas que dão uvas primeiro que todas as outras, as quais mandou prantar Álvaro da Fonte, acima dito, que foram as segundas que na ilha se fizeram; e, por estarem mais perto da Vila, fazem pouco vinho nelas, polas levarem a vender, e, se algum vinho se faz, é muito bom. As quais vinhas são agora de Gaspar Álvares e António Curvelo e podem render, forros, a seus donos dez mil réis. Daqui, por espaço de dois tiros de arcabuz, corre a rocha tão baixa que a maior parte se anda, que é de terras que foram de Rui Fernandes de Alpoem e agora são de Belchior de Sousa, filho de João Soares, terceiro Capitão que foi da ilha, onde, junto do mar, como em um capelo antre duas vinhas e a ponta do Marvão, estão duas furnas de greda, uma delas muito grande, assim de comprido como de altura, que se chama a Furna Velha, a que se não acha cabo; da qual (indo com candeias acesas por ser dentro obscura) se tira um barro fino, cinzento como sabão muito macio, que serve para lavar pano de cor, principalmente branco, e tirar nódoas dele; untando-as com a greda branda e mole e pondo o pano a secar ao Sol, secando-se, ele chupa e recolhe em si a graxa, ou azeite, ou qualquer outro licor que fez a nódoa, e, lavando-se depois o mesmo pano, fica sem ela. Junto a esta, está outra furna, que se chama a Nova, por se usar dela depois, em que também se tira mais greda, sem candeia.

Correndo a rocha baixa, perto como dois tiros de besta está uma ponta que se chama do Marvão, por haverem sido as terras acima dela de um Francisco Marvão, que dista mais de uma grande légua, pela terra, da ponta de Malbusca, onde estão as baixas, atrás ditas, e pelo mar menos. E antre estas duas pontas se faz uma grande baía.