Como realizar uma Quarentena

Você ou um ente querido tem febre leve, dores no corpo, o início de uma tosse seca e irritante. A comida não tem gosto nem cheira como antes. Talvez sinte falta de ar ou custa respirar...

Cozer feijões velhos

feijãoQuando guardados há muito tempo (anos mesmo) ou simplesmente mal acondicionados, os feijões podem demorar tempo a mais a cozer. Mas há soluções.

A menos aconselhável é a adição de...

A Tinturaria Vegetal em Alguma Ilhas dos Açores


Carreiro da Costa, 1957

tinturariaRemonta aos primeiros decénios de vida insular, a prática dos vários processos de tinturaria caseira, servida por elementos vegetais. Tais processos encontram-se...

Cores das Ilhas

Tudo leva a crer que esta paleta de cores começou a ser formada com a visita do escritor Raul Brandão, que esteve nos Açores em 1924 e foi atribuindo a cada ilha uma determinada cor (ou...

A Amoreira e a Sericultura

 

Carreiro da Costa, 1945

De entre os problemas económicos em equação no arquipélago dos Açores, o da sericicultura é dos que mais tem apaixonado aqueles que, no decorrer dos tempos, vêm...

Agave (Babosa)

Piteira, Babosa, Agave, Agave americana L.

agaveÉ uma planta muito disseminada nos jardins de algumas ilhas. Não sabemos se o  “Agave azul” (e a sua parente “Marginata”, com folhas às riscas...

Alguns Estudos Científicos sobre Agricultura Açoriana

uac 0 1

Departamento de Ciências Agrárias

http://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3

 

A influência da paisagem, dos factores ambientais e taxa de infestação na densidade na...

Tem esta ilha duas qualidades de terra: massapez e golfeira. A maior parte das terras de massapez ficam da banda da Vila, ao longo do mar do Sul, e alguma chega à banda do Norte e dá muito e bom trigo. As golfeiras ficam nas faldras da serra, e da outra banda também são terras de muito trigo e bom, porque o desta ilha, geralmente, é melhor que de todas as ilhas dos Açores, e o do massapez tem melhoria sobre todas, e é de mais rendimento.

A quarta parte nesta ilha de Santa Maria, pouco mais ou menos, das terras que se lavram é massapez, o qual cria muito as novidades, correndo-lhe o tempo temperado, porque, de outra maneira, é tão ventureiro que, se depois de semeado o trigo lhe chove dois ou três dias, morre a semente; e alguns anos, como foi o de mil quinhentos e oitenta, acontece semear-se duas e três vezes, e, se ao tempo que semeiam, a terra está seca, não nasce o trigo até que não chove, e assim está por nascer um e dois meses sem apodrecer nem se corromper, porque a qualidade deste massapez seco é não receber em si semente, por ser pedra, e, chovendo, assim se desfaz, como biscoito na água. Se chove dois dias, daí a oito e a dez, não podem lavrar nele; e, se depois dele enxuto não chove outros oito dias, não o podem lavrar com seca.

De maneira que é necessário aos lavradores terem o Sol em uma mão e a chuva na outra, esperando em suas sementeiras estas cousas da mão de Deus, que, quando é servido, dá tudo a seus tempos.

Semeia-se um moio desta terra com trinta e cinco até quarenta alqueires de trigo, e não sofre tanta semente como as outras ilhas, porque é de muita criação, e acham-se pés de trigo de um grão, que dá cento e dez, cento e vinte espigas; e o comum daquelas, que bem criam, são cinquenta e sessenta, dez, quinze, vinte, trinta, quarenta.

Monda-se o trigo ao sacho, porque a dureza da terra não sofre mão, ou a mão a não sofre, e para isso fazem uns sachinhos de três dedos de largo, que são, no pequeno olho que tem, da feição de enxada.

A terra, que na ilha de Santa Maria dá dez, doze moios de trigo, é muito melhor que outra tanta que nesta ilha de São Miguel dá vinte, por causa do pouco custo e despesa que se faz em a semear e cultivar, porque a melhor terra que há não passa de alqueire por alqueire, e as mondas também custam pouco.

O trigo dela, especialmente o do massapez, é o melhor de todas as ilhas dos Açores, e dá-o de diversas sortes: nafil, barbela, pelado, canoco, sete-espigo. E a cevada, semelhantemente, tem a vantagem das outras. Este massapez, para a parte do Ponente, entre a qual se acham algumas poucas reboleiras de terra golfeira, e, assim, na serra e onde as terras são golfeiras, também há de massapez outras, o mais que dá um moio de terra dele, pela vara pequena de dez palmos (de que somente ali se usa), são quinze moios de trigo, e, se alguns passam, não poucos; mas o menos dá seis e, como passa destes para cima, não há perda. A ilha, antigamente, foi mui fértil; dava muito e bom trigo e cevada e muito pastel, o melhor que houve nas ilhas, e houve terra que dava algumas vezes, a (sic) por alqueire de cevada, quarenta, trinta e trinta e cinco; mas agora dá o que tenho dito e, às vezes, oito, dez, quinze moios.

As ervas do pasto do gado são azevém, balanco, trevo, trevina, milhã, ainda que pouca, musgo, também muito no mato, panasco, muita grama, pampilho, sagueiro, e, de poucos anos a esta parte, há uma erva que, por não ter nome, lhe chamaram erva má, por ela o ser para os trigos e não a comer o gado; há muita macela galega, e pouca mourisca; todas estas são de tanta abundância, principalmente no massapez, que engordam mais o gado em quinze dias que as desta de São Miguel em trinta. E, assim, são os gados dali muitos mais gordos e encevados que os das outras partes, mas a carne de vaca não é tão gostosa como a desta de São Miguel, sendo muito melhor a de carneiro e ovelha; os cabritos não são bons; os cordeiros boníssimos.

O leite é muito grosso e, assim, faz muita manteiga, e em nenhuma parte dão as vacas mais, porque a que menos rende dá duas canadas cada dia, e, comummente, três e quatro, e algumas cinco e seis, e houve vaca que dava cada dia oito canadas, ordenhada duas vezes, pela manhã e à tarde, mas isto não sempre.

Uma ovelha se matou em casa de um Tomé Afonso, homem honrado, que deu mais de treze arráteis de cevo , pesando juntamente o que se tirava da panela, pelo que tem a ilha às outras uma grande avantagem no seu tamanho, que é de mais criação que todas, porque as vacas nela parem todos os anos, e algumas dois bezerros de um ventre. E o ano de mil e quinhentos e setenta e oito se matou uma novilha no açougue, que acertou de ser prenhe, a que acharam no ventre três bezerros, coisa poucas vezes vista. As ovelhas e cabras parem duas vezes no ano, e as mais dois e às vezes três, de um ventre. Pela qual razão há muita criação destas coisas e de outras semelhantes na terra, com que provê a si e a esta de algumas, afora as que vão para a ilha da Madeira e outras partes. Há também cavalos, mas não bons, sendo as éguas formosas e grandes; parece que saem tais por não haverem cavalos castiços, ou, porventura, causará isto a qualidade da mesma terra.

Há também toda sorte de aves mansas que se costumam criar em casa, galinhas, galipavos, patas e adens. E no campo garças, bilhafres, pombos torcazes, mélroas, estorninhos, canários e outros pássaros que se chamam sachões, que são má coisa, pela perda que fazem nas sementeiras. Algumas codornizes houve, cuja carne amargava, por ser pampilho a mor parte de seu pasto, e, pela mesma razão, ou agora há poucas, ou parece que se acabaram.

Por experiência, está visto que todos os anos, véspera de Nossa Senhora da Anunciação, ou ao dia (se tardam, pode ser um dia ou dois) antes ou depois, vão criar à ilha, no ilhéu, que está junto da Vila um tiro de espingarda da terra, defronte da Ribeira Seca, grande soma de garajaus, que dizem vir de umas ilhas que estão junto de Berbéria, ou da mesma Berbéria, que, por ser terra muito quente, não podem lá criar, porque lhe queima ou gora o Sol ou areia quente, com seus raios, os ovos; e, porque ali no ilhéu lhos queimaram um ano, se absentaram, mas já tornam a criar nele; os quais fazem proveito na terra, porque a alimpam do gafanhoto, que faz também muita perda nos trigos; toma-se também muitas cagarras nas rochas, de que fazem graxa.

Em dois ilhéus que estavam ao longo da ilha, que por essa razão rendem seis tostões cada ano, havia ali, antigamente, muitos estapagados, com que muito se sustentava a gente, porque lhe comiam a carne e se alumiavam com a graxa, e dormiam na pena, de que há ainda na ilha muitas coçaras (sic) e cabeçais, que escusam os colchões; e, havendo tantos deles, os tinham por praga, pela perda que faziam nas terras de comedias de gado, lavrando-as por debaixo com covas em que se acolhiam, e, por isto e porque havendo muitos porcos, comiam os estapagados e a carne sabia muito a eles, indo o bispo D. Agostinho à ilha lhe pediram os maldiçoasse e botasse fora da terra, o que o bispo fez; donde nunca mais os viram, nem os há na terra, senão se vem algum de maravilha; e já agora lhe levantariam de boa vontade a maldição, pois suspiram por eles, que eram mantimento de muitos. Estas aves não as viam de dia fora das covas, senão de noite, em que faziam tão grande gasnada que, quando iam ali algumas pessoas de fora que não sabiam deles, cuidavam ser demónios; são estes pássaros da feição e grandura de pombas, e para os tomarem, no tempo que havia muitos, faziam nos campos fogueiras de noite, e, vindo eles como encandeados com o lume cair sobre elas, os tomavam com paus às trochadas, enchendo assim sacos deles, de que faziam muita graxa, e outros escalavam e punham a secar como pescado, para depois comerem; e já em anos de fome foram desta ilha de São Miguel fazer lá escala deles.

Há também na ilha muitos agriões, vimens, e muito junco, com que cobrem as casas, muitas rosas, de mais suave e excelente cheiro que de outras partes, e, da mesma maneira, a flor da laranja cheira muito melhor e os cravos o mesmo.

Abelhas há já poucas, havendo sido dantes muitas, cujo mel é muito bom, mas não em tanta quantidade como dantes, e coalha-se como marmelada, e a cera também boa; o qual dizem comummente ser melhor para temperar e adubar, mas que para comer só o de cá, de São Miguel, tem avantagem; acham muito em abelheiras que se descobrem alguns anos, e no de mil e quinhentos e setenta e nove, dois tiros de besta da Vila do Porto, na Ribeira Grande dos Moinhos, achou um homem uma, de que tirou quatro canadas de mel; e outros muitos, que cada ano têm por costume buscar abelheiras, acham muitas.

A hortaliça da ilha é a melhor que se pode achar; os rábãos maiores e mais grossos que há em outras partes, e no ano de mil e quinhentos e setenta e sete se achou em uma horta de um homem honrado da terra, que se chama Matias Nunes, um que tinha três palmos de roda na grossura, e outro, em outro tempo, de dois palmos, afora outros muitos, grandes e bons, que se criam muitas vezes; também há nabos muito grandes e já se acharam na ilha da grossura de botijas de quarta. As couves são grandes, sarradas e gostosas, e no massapez crescem muito.

Há também muitos melões, e os melhores destas ilhas, e não há nenhum, por ruim que seja, que não tenha muito bom gosto e se possa comer, antes que lhe caia alforra, que depois nenhum presta para nada. E, geralmente, toda a coisa que na ilha se cria, assim de pranta como de agricultura, é melhor que das outras dos Açores, suas comarcãs, quanto é na bondade, que no mais, um moio de terra nesta ilha de São Miguel rende como dois e mais na de Santa Maria.

Há também muitos e baratos coelhos, que dão três por um vintém, e são tantos, que fazem nas novidades muita perda, e, se os não matassem, como matam muitos, caçando, não se fariam searas com eles. E o mesmo nojo fazem na terra os muitos e grandes ratos que há nela.

Há furões muito bons e cães de caça, ainda que já os houve muito melhores que agora, de maneira que alguns senhores do Reino os mandavam buscar à ilha.

Antigamente, houve muitas perdizes que já se acabaram; dizem alguns que os porcos e ratos e bilhafres as desinçaram da terra, os porcos e ratos comendo-as no ninho e os bilhafres depois que andavam fora, ou por se descobrirem as terras se perderam, como alguns mais afirmam. Porque, em outro tempo, faziam muito pastel na ilha, e as mais das terras, que agora são de matos, foram roçadas para ele, que era bom e dava proveito, e por tempo se veio a perder o trato dele, deixando-se de fazer perto de quarenta anos, por uns mercadores, que vieram de fora, o tomarem na alfarja aos lavradores e o misturarem com o granado, por não haver então justiça que nisso atentasse; mas, já agora, de quatro ou cinco anos a esta parte, se começa a fazer tão bom como o melhor desta ilha de São Miguel. Ou se acabariam as perdizes por todas estas causas, porque, quando uma só por si não pudesse, muitas juntas se ajudariam.

Nas ribeiras de água há muitos eirós e grandes, tamanhos como safios, e para comer mui gostosos; ao redor da ilha se fazem grandes pescarias de pescados de toda a sorte, de que é bem provida, mas não é tão bom e gostoso como o desta de São Miguel. De marisco, há lagostas e muitos e bons lagostins, e algumas cranguejolas (sic) e muitos cangrejos (sic) e camarões, cracas e lapas.

Não falo nas vinhas e bom vinho, que já disse haver ali muito; e melhor o fizeram, se seus donos se puseram a isso. Mas, finalmente, digo que em todas as sete ilhas dos Açores não há melhor torrão de terra que o desta de Santa Maria, pois tudo o que há de mantimentos, frutas e gado é extremado e bom, senão as pragas que disse fazerem-lhe prejuízo, além das muitas pulgas; e querem dizer alguns que muitas mais houvera, se não fora o remédio que para as matar deu um médico castelhano, dizendo que lhe abrissem as bocas e que lhe deitassem um pouco de pó de tijolo ou uma pedra de sal, com que logo morreriam.

DA FERTILIDADE DA ILHA DE SANTA MARIA, ASSIM DE PÃO COMO DE CRIAÇÃO E DE OUTRAS COISAS

Tem esta ilha duas qualidades de terra: massapez e golfeira. A maior parte das terras de massapez ficam da banda da Vila, ao longo do mar do Sul, e alguma chega à banda do Norte e dá muito e bom trigo. As golfeiras ficam nas faldras da serra, e da outra banda também são terras de muito trigo e bom, porque o desta ilha, geralmente, é melhor que de todas as ilhas dos Açores, e o do massapez tem melhoria sobre todas, e é de mais rendimento.

A quarta parte nesta ilha de Santa Maria, pouco mais ou menos, das terras que se lavram é massapez, o qual cria muito as novidades, correndo-lhe o tempo temperado, porque, de outra maneira, é tão ventureiro que, se depois de semeado o trigo lhe chove dois ou três dias, morre a semente; e alguns anos, como foi o de mil quinhentos e oitenta, acontece semear-se duas e três vezes, e, se ao tempo que semeiam, a terra está seca, não nasce o trigo até que não chove, e assim está por nascer um e dois meses sem apodrecer nem se corromper, porque a qualidade deste massapez seco é não receber em si semente, por ser pedra, e, chovendo, assim se desfaz, como biscoito na água. Se chove dois dias, daí a oito e a dez, não podem lavrar nele; e, se depois dele enxuto não chove outros oito dias, não o podem lavrar com seca.

De maneira que é necessário aos lavradores terem o Sol em uma mão e a chuva na outra, esperando em suas sementeiras estas cousas da mão de Deus, que, quando é servido, dá tudo a seus tempos.

Semeia-se um moio desta terra com trinta e cinco até quarenta alqueires de trigo, e não sofre tanta semente como as outras ilhas, porque é de muita criação, e acham-se pés de trigo de um grão, que dá cento e dez, cento e vinte espigas; e o comum daquelas, que bem criam, são cinquenta e sessenta, dez, quinze, vinte, trinta, quarenta.

Monda-se o trigo ao sacho, porque a dureza da terra não sofre mão, ou a mão a não sofre, e para isso fazem uns sachinhos de três dedos de largo, que são, no pequeno olho que tem, da feição de enxada.

A terra, que na ilha de Santa Maria dá dez, doze moios de trigo, é muito melhor que outra tanta que nesta ilha de São Miguel dá vinte, por causa do pouco custo e despesa que se faz em a semear e cultivar, porque a melhor terra que há não passa de alqueire por alqueire, e as mondas também custam pouco.

O trigo dela, especialmente o do massapez, é o melhor de todas as ilhas dos Açores, e dá-o de diversas sortes: nafil, barbela, pelado, canoco, sete-espigo. E a cevada, semelhantemente, tem a vantagem das outras. Este massapez, para a parte do Ponente, entre a qual se acham algumas poucas reboleiras de terra golfeira, e, assim, na serra e onde as terras são golfeiras, também há de massapez outras, o mais que dá um moio de terra dele, pela vara pequena de dez palmos (de que somente ali se usa), são quinze moios de trigo, e, se alguns passam, não poucos; mas o menos dá seis e, como passa destes para cima, não há perda. A ilha, antigamente, foi mui fértil; dava muito e bom trigo e cevada e muito pastel, o melhor que houve nas ilhas, e houve terra que dava algumas vezes, a (sic) por alqueire de cevada, quarenta, trinta e trinta e cinco; mas agora dá o que tenho dito e, às vezes, oito, dez, quinze moios.

As ervas do pasto do gado são azevém, balanco, trevo, trevina, milhã, ainda que pouca, musgo, também muito no mato, panasco, muita grama, pampilho, sagueiro, e, de poucos anos a esta parte, há uma erva que, por não ter nome, lhe chamaram erva má, por ela o ser para os trigos e não a comer o gado; há muita macela galega, e pouca mourisca; todas estas são de tanta abundância, principalmente no massapez, que engordam mais o gado em quinze dias que as desta de São Miguel em trinta. E, assim, são os gados dali muitos mais gordos e encevados que os das outras partes, mas a carne de vaca não é tão gostosa como a desta de São Miguel, sendo muito melhor a de carneiro e ovelha; os cabritos não são bons; os cordeiros boníssimos.

O leite é muito grosso e, assim, faz muita manteiga, e em nenhuma parte dão as vacas mais, porque a que menos rende dá duas canadas cada dia, e, comummente, três e quatro, e algumas cinco e seis, e houve vaca que dava cada dia oito canadas, ordenhada duas vezes, pela manhã e à tarde, mas isto não sempre.

Uma ovelha se matou em casa de um Tomé Afonso, homem honrado, que deu mais de treze arráteis de cevo , pesando juntamente o que se tirava da panela, pelo que tem a ilha às outras uma grande avantagem no seu tamanho, que é de mais criação que todas, porque as vacas nela parem todos os anos, e algumas dois bezerros de um ventre. E o ano de mil e quinhentos e setenta e oito se matou uma novilha no açougue, que acertou de ser prenhe, a que acharam no ventre três bezerros, coisa poucas vezes vista. As ovelhas e cabras parem duas vezes no ano, e as mais dois e às vezes três, de um ventre. Pela qual razão há muita criação destas coisas e de outras semelhantes na terra, com que provê a si e a esta de algumas, afora as que vão para a ilha da Madeira e outras partes. Há também cavalos, mas não bons, sendo as éguas formosas e grandes; parece que saem tais por não haverem cavalos castiços, ou, porventura, causará isto a qualidade da mesma terra.

Há também toda sorte de aves mansas que se costumam criar em casa, galinhas, galipavos, patas e adens. E no campo garças, bilhafres, pombos torcazes, mélroas, estorninhos, canários e outros pássaros que se chamam sachões, que são má coisa, pela perda que fazem nas sementeiras. Algumas codornizes houve, cuja carne amargava, por ser pampilho a mor parte de seu pasto, e, pela mesma razão, ou agora há poucas, ou parece que se acabaram.

Por experiência, está visto que todos os anos, véspera de Nossa Senhora da Anunciação, ou ao dia (se tardam, pode ser um dia ou dois) antes ou depois, vão criar à ilha, no ilhéu, que está junto da Vila um tiro de espingarda da terra, defronte da Ribeira Seca, grande soma de garajaus, que dizem vir de umas ilhas que estão junto de Berbéria, ou da mesma Berbéria, que, por ser terra muito quente, não podem lá criar, porque lhe queima ou gora o Sol ou areia quente, com seus raios, os ovos; e, porque ali no ilhéu lhos queimaram um ano, se absentaram, mas já tornam a criar nele; os quais fazem proveito na terra, porque a alimpam do gafanhoto, que faz também muita perda nos trigos; toma-se também muitas cagarras nas rochas, de que fazem graxa.

Em dois ilhéus que estavam ao longo da ilha, que por essa razão rendem seis tostões cada ano, havia ali, antigamente, muitos estapagados, com que muito se sustentava a gente, porque lhe comiam a carne e se alumiavam com a graxa, e dormiam na pena, de que há ainda na ilha muitas coçaras (sic) e cabeçais, que escusam os colchões; e, havendo tantos deles, os tinham por praga, pela perda que faziam nas terras de comedias de gado, lavrando-as por debaixo com covas em que se acolhiam, e, por isto e porque havendo muitos porcos, comiam os estapagados e a carne sabia muito a eles, indo o bispo D. Agostinho à ilha lhe pediram os maldiçoasse e botasse fora da terra, o que o bispo fez; donde nunca mais os viram, nem os há na terra, senão se vem algum de maravilha; e já agora lhe levantariam de boa vontade a maldição, pois suspiram por eles, que eram mantimento de muitos. Estas aves não as viam de dia fora das covas, senão de noite, em que faziam tão grande gasnada que, quando iam ali algumas pessoas de fora que não sabiam deles, cuidavam ser demónios; são estes pássaros da feição e grandura de pombas, e para os tomarem, no tempo que havia muitos, faziam nos campos fogueiras de noite, e, vindo eles como encandeados com o lume cair sobre elas, os tomavam com paus às trochadas, enchendo assim sacos deles, de que faziam muita graxa, e outros escalavam e punham a secar como pescado, para depois comerem; e já em anos de fome foram desta ilha de São Miguel fazer lá escala deles.

Há também na ilha muitos agriões, vimens, e muito junco, com que cobrem as casas, muitas rosas, de mais suave e excelente cheiro que de outras partes, e, da mesma maneira, a flor da laranja cheira muito melhor e os cravos o mesmo.

Abelhas há já poucas, havendo sido dantes muitas, cujo mel é muito bom, mas não em tanta quantidade como dantes, e coalha-se como marmelada, e a cera também boa; o qual dizem comummente ser melhor para temperar e adubar, mas que para comer só o de cá, de São Miguel, tem avantagem; acham muito em abelheiras que se descobrem alguns anos, e no de mil e quinhentos e setenta e nove, dois tiros de besta da Vila do Porto, na Ribeira Grande dos Moinhos, achou um homem uma, de que tirou quatro canadas de mel; e outros muitos, que cada ano têm por costume buscar abelheiras, acham muitas.

A hortaliça da ilha é a melhor que se pode achar; os rábãos maiores e mais grossos que há em outras partes, e no ano de mil e quinhentos e setenta e sete se achou em uma horta de um homem honrado da terra, que se chama Matias Nunes, um que tinha três palmos de roda na grossura, e outro, em outro tempo, de dois palmos, afora outros muitos, grandes e bons, que se criam muitas vezes; também há nabos muito grandes e já se acharam na ilha da grossura de botijas de quarta. As couves são grandes, sarradas e gostosas, e no massapez crescem muito.

Há também muitos melões, e os melhores destas ilhas, e não há nenhum, por ruim que seja, que não tenha muito bom gosto e se possa comer, antes que lhe caia alforra, que depois nenhum presta para nada. E, geralmente, toda a coisa que na ilha se cria, assim de pranta como de agricultura, é melhor que das outras dos Açores, suas comarcãs, quanto é na bondade, que no mais, um moio de terra nesta ilha de São Miguel rende como dois e mais na de Santa Maria.

Há também muitos e baratos coelhos, que dão três por um vintém, e são tantos, que fazem nas novidades muita perda, e, se os não matassem, como matam muitos, caçando, não se fariam searas com eles. E o mesmo nojo fazem na terra os muitos e grandes ratos que há nela.

Há furões muito bons e cães de caça, ainda que já os houve muito melhores que agora, de maneira que alguns senhores do Reino os mandavam buscar à ilha.

Antigamente, houve muitas perdizes que já se acabaram; dizem alguns que os porcos e ratos e bilhafres as desinçaram da terra, os porcos e ratos comendo-as no ninho e os bilhafres depois que andavam fora, ou por se descobrirem as terras se perderam, como alguns mais afirmam. Porque, em outro tempo, faziam muito pastel na ilha, e as mais das terras, que agora são de matos, foram roçadas para ele, que era bom e dava proveito, e por tempo se veio a perder o trato dele, deixando-se de fazer perto de quarenta anos, por uns mercadores, que vieram de fora, o tomarem na alfarja aos lavradores e o misturarem com o granado, por não haver então justiça que nisso atentasse; mas, já agora, de quatro ou cinco anos a esta parte, se começa a fazer tão bom como o melhor desta ilha de São Miguel. Ou se acabariam as perdizes por todas estas causas, porque, quando uma só por si não pudesse, muitas juntas se ajudariam.

Nas ribeiras de água há muitos eirós e grandes, tamanhos como safios, e para comer mui gostosos; ao redor da ilha se fazem grandes pescarias de pescados de toda a sorte, de que é bem provida, mas não é tão bom e gostoso como o desta de São Miguel. De marisco, há lagostas e muitos e bons lagostins, e algumas cranguejolas (sic) e muitos cangrejos (sic) e camarões, cracas e lapas.

Não falo nas vinhas e bom vinho, que já disse haver ali muito; e melhor o fizeram, se seus donos se puseram a isso. Mas, finalmente, digo que em todas as sete ilhas dos Açores não há melhor torrão de terra que o desta de Santa Maria, pois tudo o que há de mantimentos, frutas e gado é extremado e bom, senão as pragas que disse fazerem-lhe prejuízo, além das muitas pulgas; e querem dizer alguns que muitas mais houvera, se não fora o remédio que para as matar deu um médico castelhano, dizendo que lhe abrissem as bocas e que lhe deitassem um pouco de pó de tijolo ou uma pedra de sal, com que logo morreriam.