Como realizar uma Quarentena

Você ou um ente querido tem febre leve, dores no corpo, o início de uma tosse seca e irritante. A comida não tem gosto nem cheira como antes. Talvez sinte falta de ar ou custa respirar...

Cozer feijões velhos

feijãoQuando guardados há muito tempo (anos mesmo) ou simplesmente mal acondicionados, os feijões podem demorar tempo a mais a cozer. Mas há soluções.

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A Tinturaria Vegetal em Alguma Ilhas dos Açores


Carreiro da Costa, 1957

tinturariaRemonta aos primeiros decénios de vida insular, a prática dos vários processos de tinturaria caseira, servida por elementos vegetais. Tais processos encontram-se...

Cores das Ilhas

Tudo leva a crer que esta paleta de cores começou a ser formada com a visita do escritor Raul Brandão, que esteve nos Açores em 1924 e foi atribuindo a cada ilha uma determinada cor (ou...

A Amoreira e a Sericultura

 

Carreiro da Costa, 1945

De entre os problemas económicos em equação no arquipélago dos Açores, o da sericicultura é dos que mais tem apaixonado aqueles que, no decorrer dos tempos, vêm...

Agave (Babosa)

Piteira, Babosa, Agave, Agave americana L.

agaveÉ uma planta muito disseminada nos jardins de algumas ilhas. Não sabemos se o  “Agave azul” (e a sua parente “Marginata”, com folhas às riscas...

Alguns Estudos Científicos sobre Agricultura Açoriana

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Departamento de Ciências Agrárias

http://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3

 

A influência da paisagem, dos factores ambientais e taxa de infestação na densidade na...

Enquanto isto, que atrás disse, passava, as mulheres se recolheram todas, com muita pressa, para fora da Vila, e as mais delas em camisa, tão súpita e não esperada, nem cuidada, foi a chegada destes cossairos; e sendo esses homens, uns mortos, outros feridos, e os que ficavam poucos, por estarem recolhendo suas novidades fora da Vila, não houve mais resistência, e cada um fez por se recolher e salvar a vida, que vale mais que a fazenda, porque, quanto ao que à honra tocava, não se pôde mais fazer.
E assim os imigos, indo pela Vila, sem ordem nem esquadrão, senão como cada um queria, três a três, e a quatro a quatro, entretanto uns na igreja da Misericórdia, começaram a tratar mal o altar, vendo-os Fernão Monteiro de Gamboa, que eles não viram que estava no coro, ferido da maneira que tenho dito, até que eles passaram, e assim foram até o cabo da Vila, uns por uma parte e outros por outra, despejando e roubando o melhor dela.
O vigairo Baltazar de Paiva, até este tempo, sempre teve para si que não entrariam aqueles cossairos a Vila, e, cuidando que se defenderia, andava na dianteira, ajudando e animando a todos. E vendo neste tempo que já entravam pelas ruas da ermida de Nossa Senhora da Concepção, onde estava ajudando a defender a entrada, lembrando-lhe o Santíssimo Sacramento, foi correndo a sua casa buscar umas chaves para o ir tirar do sacrário e pôr em cobro. Chegando a casa, chegava um seu moço, de idade de dezoito anos, chamado Belchior Luís, com o seu cavalo, de fora, e, mandando-lhe que trancasse as portas e selasse o cavalo, se meteu dentro em casa a buscar as chaves e, querendo sair de casa, foi primeiro ver da janela da rua se apareciam alguns imigos e viu passar adiante da sua porta três, com piques nas mãos, espadas na cinta, e, tornando-se à janela do quintal, para se deitar por ela abaixo, viu já no mesmo quintal, junto da porta, quinze ou vinte soldados e, tornando-se à janela da rua, viu em baixo, no cabo dela, vir para cima quatro ou cinco arcabuzeiros. Determina-se, então, sair pela porta da rua, e, antes de sair, disse ao moço, que lhe estava selando o cavalo: — “Moço, deixa acabar estes ladrões de entrar na Vila e, como não vires nenhum no quintal, sai-te por ele no cavalo e vai pela ribeira arriba ter à igreja, que lá me hás-de achar, ou morto ou vivo”. E, dizendo isto, saiu com muita pressa, a todo correr, ficando-lhe os arcabuzeiros nas costas, que lhe tiraram um tiro sem acertar, por ver as cabeças de outros que estavam já nos quintais para saltar na rua de António Coelho, não ousando ir por ela, e passou por antre os três cossairos, que diante dele vira passar dantes com os piques, os quais foram após ele, sem o poder alcançar, até se pôr na rua Direita, por onde foi ter à igreja.
E neste tempo entravam já os imigos por muitas partes na Vila, matando os que podiam alcançar e espantando outros que fugiam.
Chegando o dito vigairo ao adro da igreja, achou nele um António Pinto, casado, homem trabalhador, e lhe disse: — “Entretende às pedradas estes ladrões, que não entrem na igreja, enquanto vou tirar do sacrário o Santíssimo Sacramento”. E o António Pinto pelejou, como valente, detendo-os um pouco espaço às pedradas, que, se isso não fora, sem dúvida nenhuma os imigos mataram o vigairo dentro na igreja. O qual descendo pelos degraus do altar-mor com o Santo Sacramento em um cofre, entrava o seu moço (que rompeu pelos franceses, sem o matarem), trazendo-lhe o cavalo por onde o dito vigairo lhe tinha mandado, e, entrando sobre ele pela porta travessa da igreja, da banda do Sul, foi ter à capela-mor, onde se apeou, e, subindo o vigairo no cavalo, deu, entretanto, o cofre com o Santo Sacramento ao moço, e, tornando-lho a tomar, lhe disse que o seguisse, apegando-se no rabo do cavalo; e se saía pela mesma porta travessa do Sul, por a outra, da banda do Norte, estar fechada com chave da banda de fora, e a porta principal somente ter um postigo aberto, e os imigos defronte.
Saindo ele pela porta do Sul, viu vir quatro arcabuzeiros demandar a mesma porta e, perplexo e duvidoso por quais deles romperia com o cavalo, olhou para trás e disse ao moço: — “Sigue-me (sic) e pega-te ao rabo do cavalo, que quero romper por onde estão estes dos piques, que estão da banda da porta principal, que tem menos perigo que estoutra dos arcabuzeiros”. E neste olhar para trás viu aberta a outra porta travessa da banda do Norte, estando ela (como disse) fechada de fora com chave e de dentro com tranca, e sem atentar, então, por isso, cuidando que alguém lha abrira, voltou com o cavalo, saindo por ela correndo, sem ver ninguém junto da porta; e logo os imigos o cercaram, assim pela banda da porta principal como por detrás da capela-mor, e, saltando ele com o cavalo o peitoril do adro, sem poder ir pelos portais dele, por estarem tomados dos contrários, se acolheu, com o moço detrás do cavalo, pela rua arriba, fora da Vila, e ali lhe tiraram uma arcabuzada, que lhe deram pela borda do sombreiro, indo alguns quatro ou cinco de piques e espadas na cinta após ele, e chegando arriba das derradeiras casas da Vila, onde morava Amador Vaz Faleiro, que já por eles, em baixo, ficava morto, vendo a Helena de Alpoem, mulher deste defunto, com duas netas suas, lhe disse: — “Saí fora, Senhora, e fugi, que vêm aqui os cossairos!” E ela começou a correr, com passo vagaroso de oitenta anos para cima, que tinha de idade, levando consigo as meninas, com cada uma sua trouxinha à cabeça; e, levando-as diante de si e animando-as que corressem, as iam alcançando os cossairos, pelo que foi necessário ao vigairo acolher-se a cavalo pelo não matarem, sem lhe poder valer. E, chegando à ermida de Santo Antão, achou nela muita cópia de gente, homens e mulheres, onde, tirando o Santíssimo Sacramento do cofre, lho amostrou, dizendo algumas palavras de consolação espiritual, que aquele tempo requeria, com que houve grandes clamores, gritos e lágrimas de todo o povo. E acabado isto o recebeu, com muita reverência e devoção, acompanhada também com muitas lágrimas.
Não há dúvida senão que milagrosamente escapou o vigário da igreja principal com o Santíssimo Sacramento e se lhe abriram as portas travessas da banda do Norte, por si, ou algum Anjo, por mandado de Deus, lhas abriu, porque elas estavam fechadas da banda de fora, e de dentro com a tranca, e não havia ali de dentro nem de fora quem as pudesse abrir senão ele e o seu moço, que as viram abrir naquele grande conflito, de que não podia escapar com a vida, se Deus lhas não abrira. Nem os imigos ali haviam chegado, pelo que o dito vigairo, para verificar o milagre que Deus fez, contou depois na estação, em muitos domingos, este caso, perguntando se alguma pessoa se achara ali, ou fizera por abrir naquele tempo aquelas portas, e não se achou alguém que tal fizesse, nem ao tal tempo ali se achasse, senão António Pinto, que foi o derradeiro que dali partiu sem chegar à dita porta, por onde ficou claro ser milagre que Deus fez, de que o vigairo não tirou estromentos por não se achar ali mais gente que ele e o seu moço, sem levar, por antre os imigos tão armados, outra fazenda, senão a Deus, que é toda riqueza; e, por poor (sic) em cobro o Santíssimo Sacramento e fazer por defender a terra, como pai da pátria, não lhe lembrou sua casa nem o que nela tinha, que valeria mais de quatrocentos cruzados, que lhe roubaram. Mas o Deus que ele quis tirar do poder dos hereges o livrará a ele de outros imigos e lhe dará, pelas riquezas que perdeu temporais, outras eternas.
O tesoureiro, sentindo o rebate dos cossairos, havia tirado também a prata da igreja que ele tinha a seu cargo, levando consigo três cálices de prata, e um dourado, e a cruz e turíbulo, também de prata, e todos os corporais que havia na igreja. A outra se perdeu, por ele não ter a chave que tinham os mordomos do Santo Sacramento, que era uma custódia e todos os ornamentos da confraria, que estavam fechados em uma caixa. E também a da Misericórdia foi roubada dos imigos, e um cálice e ornamentos da capela de Duarte... , que estava tudo fechado em um armário, e a coroa de prata da imagem de Nossa Senhora, com todos os ornamentos da igreja.
Despejada desta maneira a Vila, e entrados os cossairos e posta a maior parte deles junto da igreja principal, e outros andando roubando, a quem primeiro chegaria para levar as primícias do que achassem, ficaram nela somente dois ou três homens velhos, e um negro cego, e duas mulheres muito velhas, de setenta anos para cima, e mais dos oitenta, uma chamada Helena de Alpoem, mulher de Amador Vaz Faleiro, o primeiro homem que mataram, e uma neta sua, menina, filha de Matias Jorge, e outra neta sua, bastarda, também menina, como tenho dito; e a outra mulher velha era Caterina Bernaldes, mãe do padre Bartolomeu Luís, ali beneficiado; e nenhuma outra mulher tomaram, pela bondade de Deus, que foi uma mercê mui grande que ele fez a toda a gente da terra; e está claro que o encontro que tiveram os da terra aos franceses foi causa de não tomarem muitas mulheres nas camas, porque, como disse, em camisa saíram as mais delas, sem salvarem mais que suas pessoas.
Estando os imigos de posse da Vila, os homens, que escaparam, se recolheram todos a uma ermida de Santo Antão, que está direito da mesma Vila ao Noroeste, pouco mais de dois tiros de besta, onde, ajuntando-se os mais chegados moradores e outros de mais longe, que iam para a igreja ouvir missa, esperaram pelo Capitão Pero Soares de Sousa, que estava naquele tempo fora da Vila, no Paúl, uma quintã sua, e, em chegando, houve logo diversos pareceres antre todos, uns que tornassem a cometer a Vila e outros em contrário, dizendo que esperassem que acudisse toda a gente da ilha, porquanto os que estavam juntos eram poucos e desarmados, pelos tomar o rebate fora, onde moravam alguns, e outros estavam recolhendo suas searas, e uns e outros tinham suas armas na Vila, já em poder dos imigos, por não irem com elas às costas aos alardos; outros diziam que os acometessem logo, antes que as naus ao porto chegassem, que neste tempo vinham da banda do Norte em distância de uma légua, e, pois os imigos que estavam na Vila não podiam ser mais que até sessenta homens, os podiam deitar fora ou vencer antes que as naus chegassem, o que não poderiam fazer depois de elas chegadas, pela muita gente que logo desembarcariam.
Estando o Capitão com estes pareceres indeterminado, se veio a determinar que fossem sobre os imigos e deu cargo a um Matias Nunes Velho e a Cristóvão Vaz Velho, fazendo-os capitães daquela gente, que fossem com ela dar sobre os imigos.
E foram logo, e chegando a eles, dois homens principais da terra começaram a dizer, correndo a grandes vozes: — “A eles, a eles, que já fogem!”, com as quais palavras começou a gente correr desordenada, e o Capitão Pero Soares de Sousa também com eles, o que vendo uns homens honrados e prudentes, se chegaram a ele, dizendo-lhe que não se fosse dali com tal desordem, mas ele, como agastado e pesaroso do que até ali havia sucedido, não atentando a razão nenhuma (porque muitas vezes qualquer destes dois extremos, ou o muito pesar ou o muito prazer, não tem conselho), tomou uma lança na mão com muito ânimo, sendo, então, homem de mais de sessenta anos, enfermo e muito grosso e pesado, dizendo que o deixassem ir que queria ser o primeiro, e com isto começou a caminhar juntamente com os mais, indo os que alevantaram a lebre por capitães da dianteira, e desta maneira foram todos a quem mais correria.
E, como os imigos viram a determinação dos da terra, começaram a recuar atrás, por ordem, pouco espaço, por verem a desordem que os naturais levavam; estando quedos, puseram fogo às casas do arrabalde, arriba da igreja, por onde pareceu aos da terra que ardia a igreja e toda a Vila, e, juntos os cossairos, que se retraíram, com os que estavam na Vila, deram volta sobre os da terra e dispararam a arcabuzaria.
E, sem falta, os imigos foram desbaratados desta vez se foram avante os da terra, mas, como viram que os contrairos lhe faziam rosto com tanto disparar de arcabuzes, se tornaram todos a recolher, por onde o Capitão Pero Soares correu risco de o matarem, ou ficar em poder dos imigos, se acaso se não achara um cavalo em que o subiram os que com ele iam, e desta maneira escapou.
E também não há dúvida senão que os cossairos foram todos vencidos e mortos, se foram cometidos com ordem, por serem poucos e alguns deles estarem já embarcados, a fazer a saber às naus, que vinham de largo, como tinham a Vila tomada, para que lhe socorressem. E o fogo, que puseram os imigos nas casas, dizem ser ou por fazer terror, ou por dar sinal que os socorressem, e que estavam em aperto, o que fez cuidar que também poriam o fogo a toda a Vila. E com isto se tornou a gente ao lugar donde havia partido. Neste encontro mataram os contrários a um Martim Fernandes, e Sebastião Pires e Simão de Araújo, e feriram a Protesilau de Loura em um braço.
Seria isto já às sete ou oito horas do dia, pouco mais ou menos, e, então, apareceram as naus, que com tempo próspero foram ancorar no porto e botaram logo em terra a mais gente, que seriam, por todos, perto de quatrocentos soldados bem armados, com que os imigos ficaram mais fortes e seguros na Vila.