Como realizar uma Quarentena

Você ou um ente querido tem febre leve, dores no corpo, o início de uma tosse seca e irritante. A comida não tem gosto nem cheira como antes. Talvez sinte falta de ar ou custa respirar...

Cozer feijões velhos

feijãoQuando guardados há muito tempo (anos mesmo) ou simplesmente mal acondicionados, os feijões podem demorar tempo a mais a cozer. Mas há soluções.

A menos aconselhável é a adição de...

A Tinturaria Vegetal em Alguma Ilhas dos Açores


Carreiro da Costa, 1957

tinturariaRemonta aos primeiros decénios de vida insular, a prática dos vários processos de tinturaria caseira, servida por elementos vegetais. Tais processos encontram-se...

Cores das Ilhas

Tudo leva a crer que esta paleta de cores começou a ser formada com a visita do escritor Raul Brandão, que esteve nos Açores em 1924 e foi atribuindo a cada ilha uma determinada cor (ou...

A Amoreira e a Sericultura

 

Carreiro da Costa, 1945

De entre os problemas económicos em equação no arquipélago dos Açores, o da sericicultura é dos que mais tem apaixonado aqueles que, no decorrer dos tempos, vêm...

Agave (Babosa)

Piteira, Babosa, Agave, Agave americana L.

agaveÉ uma planta muito disseminada nos jardins de algumas ilhas. Não sabemos se o  “Agave azul” (e a sua parente “Marginata”, com folhas às riscas...

Alguns Estudos Científicos sobre Agricultura Açoriana

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Departamento de Ciências Agrárias

http://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3

 

A influência da paisagem, dos factores ambientais e taxa de infestação na densidade na...

Nesta parte do norte, até à vila da Ribeira Grande, há nas rochas ao longo do mar e pelas grotas e na serra muitas e frescas fontes que correm em todo o ano; e algumas que no Verão secam tornam a abrir e correr, como dantes, com as trovoadas do Inverno. Mas, da Ribeira Grande para o ponente, é costa mais seca e sem tantas águas, começando a ser seca na Ribeira Seca, a qual já disse que estava apartada da vila da Ribeira Grande para o ocidente como um tiro de mosquete, e porque no tempo do segundo terremoto correram por ambas estas ribeiras muitas pedras e areia que tomaram por grande espaço posse do mar e o afastaram da vila, com que a fizeram mais tristonha e melanconisada sendo dantes, com o mesmo mar , mais bem assombrada e alegre; com que se fez um areial tão comprido que, começando da dita vila, vai passando pela Ribeira Seca e correndo ao longo do mar um terço de légua, até se acabar no Morro, que se chamou de João de Outeiro, por ser seu, que é uma ponta pequena, mas grossa, de terra alta, pouco metida no mar, defronte da qual está um baixo de pedra, dentro na água, um tiro de arcabuz apartado da terra, no qual arrebenta muitas vezes o mar e algumas pescam os pescadores de batel, em cima dele. Na rocha talhada e alto do Morro, que está defronte deste baixo, estão umas furnas, em as quais, entrando o mar com o vento noroeste, faz uns grandes roncos e espantosos estrondos, cuidando o povo que se causa isto no baixo e não nas bocas e furnas que digo.

Além do Morro, está um biscoutal de pedras, parte dele estéril e outra prantada de boas vinhas, até chegar ao lugar de Rabo de Peixe, que distará da Ribeira Grande meia légua, chamado assim por estar situado em uma ponta de terra e penedia, que sai ao mar, parecendo rabo de peixe, de que o lugar tomou o nome; ou, como outros, porque se achou ali no princípio, junto do mar, um peixe muito grande, sem se poder saber que peixe fosse, se era baleia ou de outro nome, e pelos mouros, que naquele tempo ali guardavam gado, foi dependurado o rabo dele em um pau e dali a dias perguntando a um de donde vinha, respondeu que do rabo de peixe.

Tem este lugar uma igreja de Bom Jesus, cuja festa principal se celebra o primeiro dia de Janeiro; freguesia de duzentos e vinte e quatro fogos e almas de confissão setecentas e vinte e uma, das quais são de sacramento quinhentas e cinquenta e uma, cujo primeiro vigairo foi Afonso Gonçalves, que chamavam pai dos mulatos, por ter muitos escravos em casa; o segundo, João Luiz; o terceiro, Francisco Alvres; o quarto, António Gonçalves; o quinto, Amador Fernandes, que agora tem este cargo. Dos beneficiados, o primeiro foi Roque Esteves; o segundo, Baltasar do Monte; o terceiro, Herculiano Cabral, o quarto, Gaspar Alvres, que o Bispo Dom Pedro de Castilho passou para a vila da Ribeira Grande, como mudou outros beneficiados de outros lugares, por justos respeitos. Tem esta freguesia duas ermidas: uma de Nossa Senhora, que dantes era a paróquia até que fizeram a que é agora matriz, abaixo, abrigada e acompanhada antre as casas; e outra de São Sebastião, no cabo do lugar, para o ponente. Há neste lugar boas terras de pão, de que tem bom dizimadouro; também fazem pastel os moradores, os mais dos quais lavram em terras alheias, tirando os Monizes e sua família e João Roiz, do Pico da Pedra, e poucas pessoas outras. Tem uma formosa baía, da qual até à vila da Alagoa, que está da banda do sul, há uma légua, onde é mais estreita esta ilha e tem o gigante sua delicada cintura. Tem um poço de água salobra, de que todos bebem por não haver outra fonte; é abastado lugar de peixe, de codornizes e de coelhos, em seus tempos. De Rabo de Peixe a um terço de légua, estão umas Calhetas em umas pontas e arrecifes de pedra, em que se toma muito peixe de tarrafa e se fazem boas pescarias, onde mora Belchior Tavares, sogro de Manoel de Puga, e outros alguns moradores; antes das quais Calhetas, pouco espaço, esta a fazenda e quinta do grão capitão Francisco do Rego, com uma ermida nela de que corta e cinge a ilha, como talabarte em que se dependura a espada do gigante Almourol apegada ao cinto, dali, da banda do norte, com uma ponta nas barrocas do mar, até tornar no mesmo cinto, na parte do sul, na freguesia de Rosto de Cão, junto de São Roque, onde tem outra quinta, que houve em casamento com D. Roqueza, sua mulher, de seu sogro Jorge Nunes Botelho; e somente se antremetem no meio dois cerrados alheios, sendo o mais tudo seu, cingindo a terra de mar a mar, com que fica da serra para ambas as bandas águas vertentes. Até às Calhetas chega a freguesia de Rabo de Peixe e termo da Ribeira Grande; delas a outro terço de légua de rocha, de calhau e biscouto, que todo se corre, , sai pouco ao mar uma ponta de terra, mais grossa que a outra chã, que se chama o Morro de Jácome Dias Raposo, por ser seu, onde está uma ermida de São Pedro, que ali mandou fazer o mesmo Jácome Dias, homem nobre e poderoso, cujas eram aquelas terras, em que tinha sua quinta e moradas, tão ricas que elas sós pareciam um grande lugar povoado, com uma ermida, muito devota, da advocação de Nossa Senhora das Candeias. Foi esta casa tão rica e abastada e de tantos criados e criadas, escravos e escravas, de tantos hóspedes ricos e pobres visitada, que nela sempre acharam bom gasalhado, enquanto Jácome Dias viveu, e depois seu filho, Barão Jácome Raposo, e seu neto, Aires Jácome Raposo nela residiam, que parecia uma corte frequentada de gente de toda sorte, onde se davam muitos jantares e ceias, e faziam grandes e sumptuosos banquetes, sendo amparo de forasteiros e dos vizinhos do lugar dos Fenais, que está perto dela, cujos senhores fizeram em seu muitas grandezas, com seus generosos e liberais ânimos, e movidos com grande caridade e piedade deram grossas esmolas a pobres e despenderam grande parte da sua fazenda em obras-pias; e foi uma das mais ricas e abastadas casas que houve nesta ilha e ainda o pode tornar a ser, se seu senhor, Aires Jácome Correia, tornar à ilha.

O lugar dos Fenais, termo da cidade da Ponta Delgada, dito assim, com letra mudada e corrupta, por haver ali muito feno ou muitos fenais, tem uma igreja da advocação de Nossa Senhora da Luz, cuja festa principal se celebra por dia da Purificação de Nossa Senhora, de Fevereiro; é freguesia de duzentos e vinte e quatro fogos, e almas de confissão setecentas e cinquenta e três das quais são de comunhão quinhentas e cinquenta e três. O primeiro vigairo foi Pero Garcia; o segundo, Sebastião Roiz Panchina; o terceiro, António Neto; o quarto, Francisco Fernandes; o quinto, Luís Cabral, que agora tem o cargo. O primeiro beneficiado foi Pero Fernandes; o segundo, Manoel Teixeira, agora transferido para a freguesia de S. Pedro, da cidade. O primeiro cura é o padre João Alvres, que ora serve. Tem também este lugar bom dizimadouro de trigo e pastel, que granjeiam os moradores; bebem água salobra de um poço e é provido de carne e caça de coelhos e codornizes, a seus tempos; e há nesta parte muitas perdizes, que ainda os caçadores não sabem caçar. Há tanto pescado que muitas vezes provê a cidade dele, quando lá falta, e por costume ou privilégio isento de imposição. Além dos Fenaes, meia légua, toda de biscouto de pedra ao longo da costa e terra chã, estão os Poços, assim chamados por estarem ali uns, onde tem um varadouro de calhau bravo, em que varam batéis; no qual lugar se fizeram já dois navios que botaram e vararam ao mar, e onde o capitão Diogo Lopes de Espinhosa mandou fazer um forte muro de pedra ensossa, para dele se poder seguramente defender a desembarcação aos imigos. Estão ali poucas casas e famílias de homens nobres e ricos, fregueses do lugar dos Fenais, que compreende daqui até às Calhetas, que atrás ficam. Dos Poços para o ponente, vai correndo a costa, baixa e quase rasa, de biscouto raso, bravo e mato baixo e vinhas, por espaço de um quarto de légua até o Morro, que é um pico com uma alta ponta que vai beber ao mar e se chama de Martim Vaz, por haver sido de um homem principal deste nome, que é uma terra grossa, de pão, de mais quantidade de dois moios, pouco mais ou menos, metida no mar e fechada com uma cancela. Logo pegado com ele, para a parte da serra, se chama aquela terra as Capelas, da razão do qual nome há muitas opiniões. São estas Capelas biscoutos, e terras de pão poucas, carecidas de águas, mas abastadas de mato de murtaes, tamujos, louros e árvores de outra sorte; há nelas algumas benfeitorias de pomares e vinhas. Dizem alguns que se chamam Capelas, não porque tenham naquela parte feitas algumas igrejas nem capelas, senão porque um dia de São João fizeram uns homens ali umas capelas, deixando- as por esquecimento dependuradas em uma árvore; quando depois nomeavam aquele lugar, Ihe chamavam as Capelas, pelas que nele deixaram. Outros dizem com mais verdade chamarem estas terras Capelas, porque antigamente eram criações de gado vacum e miúdo; os gados, que algumas vezes nelas pastavam, fugiam outras vezes para elas e lá os mandavam também seus donos, depois de ter feito seu serviço com eles; antre o qual gado iam lá muitas vezes e mandavam seus donos duas vacas toucadas ou printadas de branco pela cabeça, à maneira de capelas, pelo que Ihe chamavam as capelas por assim parecerem com aquela malha branca que na cabeça tinham, denominando, pela beta branca da parte, o todo, como chamamos ao negro, que é todo preto, João Branco, só por os dentes alvos. E, mandando-as seu dono buscar, dizia ao criado: — traze daquela serra as capelas; vamos pelas capelas; pelo que, pelo tempo em diante, dos nomes das vacas tão celebrado antre eles, ficou ao sítio, onde andavam, Capelas por nome. O Morro de Martim Vaz, que está para a banda do mar, mais para o ponente, ainda que por cima é terra lavradia, que dá bom trigo e pastel, seu âmago é pedra, como claramente se vê nele, porque na alta rocha que tem da banda do oriente uma grossa ponta, que ele faz ao mar, se criam bilhafres e muitas pombas bravas; a qual ponta é furada por baixo, fazendo uma abóboda de pedra, de altura de duas lanças e de compridão mais de três, e tão larga que passa por ela um batel emasteado, com um remo de uma parte e uma vara da outra, por não caberem na largura ambos os remos; e da banda do ponente, saindo pela boca dele, está à mão direita um ilhéu maior que uma grande casa sobradada, de altura de três lanças que tem em cima feno, em que se criam grande número de garajaus e se acham muitos ovos deles; onde está antre ele e a terra um grande espaço de mar, com uma espaçosa alagoa, que tem dois canais por onde sai ao pego, um por uma parte do ilhéu e outro pela outra. Ali, naquele grande poço do ilhéu para dentro, se fazem grandes pescarias de batel e de cana, pelos que descem àquele lugar pela rocha, e se tomam muitos cranguejos e apanha marisco naquela pequena enseada; e logo passada uma ponta de terra e rocha mui alta, está uma grande baía em que se acolhem os batéis dos Fenaes, em tempo de tormenta. Possue agora este Morro Jordão de Vasconcelos e Jorge de Lucena e seu cunhado Manoel de Sousa, e Martim Vaz, a terça que ficou de seu avô deste nome. Assim corre a rocha alta, espaço de meia légua, até o lugar de Santo António, da qual rocha dois tiros de arcabuz. antes de chegar ao dito lugar, defronte das casas de Sebastião Luiz, defunto, e de seu filho, Hierónimo Luís — da rocha quase o lível com o mar, saem algumas fontes de água doce, que dizem ser da ribeira das Lajes, que naquele direito se sume na serra; e logo sai uma ponta pequena ao mar, onde está o lugar de Santo António, assim chamado por ter a igreja paroquial do mesmo Santo. No cabo da ponta, está uma ermida de Nossa Senhora do Rosairo, que mandou fazer Álvaro Lopes da Costa, homem nobre e poderoso, cuja foi aquela terra; outra ermida está no princípio do lugar, da advocação da Madre de Deus, a qual mandou fazer um nobre antigo, cujo administrador é Gaspar de Oliveira, neto ou bisneto do mesmo. Tem esta freguesia de Santo António cento e cinquenta e dois fogos e almas de confissão quinhentas e cinquenta e quatro, das quais são de comunhão trezentas e oitenta e duas, cujo primeiro vigairo foi Afonso de S. Pedro, que era frade dos Loios; o segundo, João Roiz; o terceiro, João Soares da Costa; o quarto, Baltasar do Monte; o quinto, Francisco Diniz de Sousa, que agora serve. O primeiro beneficiado foi António de Bastos; o segundo, Manoel Roiz, filho do Bilhafre; o terceiro, Domingos de Crasto. Vivem os moradores deste lugar, que é termo da cidade, por lavrança de trigo e pastel. Dele aos Fenaes haverá légua e meia. Além do lugar de Santo António, pouco espaço na testada da fazenda de Álvaro Lopes da Costa, têm os seus moradores, em meia rocha, uma pequena fonte de água doce de que bebem; e tanto como um tiro de berço mais adiante, na testada da fazenda, que foi de Martim Alvres e que comprou a Rodrigueanes, o Bago, nasce antre o mar na rocha uma ribeira com que moem dois moinhos pequenos como azenhas. Além está a quinta e fazenda que foi do grão Pero Pacheco, fidalgo generoso e liberal, grandioso inventor de todas as festas graves que em seu tempo se fizeram nesta ilha antre os cavaleiros dela, e agora é de Simão Lopes de Andrade, casado com D. Maria, sua neta. Adiante estão as fazendas dos herdeiros de António Alvres e as de Domingos Fernandes Cafatim, que comprou a alguns deles; e logo estão as casas e fazenda de Aires de Oliveira, homem nobre e rico, que deixou à Casa da Misericórdia da cidade da Ponta Delgada; e além a fazenda de Aires Jácome Corrêa, e outra do genro de Aires de Oliveira, e a fazenda de Manoel Vaz que possui agora o Carvalho; e além as terras de Barão Jácome Raposo, que ficaram com outras muitas em outras partes a seu filho Aires Jácome Corrêa. Da freguesia de Santo António até uma grota que está além das casas de Aires de Oliveira, atrás ditas, é rocha alta por espaço de meia légua; sobre a mesma grota está uma ermida de Santa Bárbara, de muita romagem; pouco espaço, pela terra dentro, de Santa Bárbara, é a freguesia de Santo António.

Logo corre alta rocha por espaço de uma légua até o lugar da Bretanha, também termo da cidade, situado em uma ponta grossa e romba de terra, que faz a enseada atrás dita; defronte da qual está um baixo grande, dentro no mar, apartado da terra um tiro de arcabuz, que quando o mar é manso aparece de longe preto, e quando é bravo, parece branco e navio que vai à vela, por causa do mar que arrebenta por cima dele. Chama-se este lugar da Bretanha porque é terra alta e grossa, a que chamavam os antigos alta Bretanha; outros dizem que por morar ali antiguamente e ter suas terras e fazenda um bretão. Tem uma igreja da advocação de Nossa Senhora da Ajuda, cuja festa principal se celebra aos oito dias do mês de Setembro. Há nesta freguesia oitenta e dois fogos e almas de confissão trezentas e doze, das quais são de comunhão duzentas e vinte e seis, cujo primeiro vigairo foi João Alvres; o segundo, Nicolau Domingues; o terceiro, Manoel Curvêlo. Têm os seus moradores a mesma granjearia que os de Santo António, de bom trigo e pastel. Além do lugar da Bretanha está o pico de João Alvres, onde mora Braz Alvres, seu herdeiro, e, deste pico a dois tiros de arcabuz, está a grota de João Bom, que ali vivia e tinha suas terras; além da qual grota, logo pegado com ela, está o pico de Mafra, acima do qual pela terra dentro vai a encumeada das Sete- Cidades; da grota de João Bom a meia légua toda de alta rocha, está o lugar dos Mosteiros, passando primeiro que a ele cheguem pelo pico de Mafra, dito assim por haver nele antiguamente algum homem deste lugar de Portugal, assim chamado, ou por outra razão não sabida, uma faldra do qual chega à grota do João Bom, para a parte do levante, a respeito dos Mosteiros; e abaixo deste pico de Mafra, mais ao longo do mar, está a ponta de Estêvão Dias, homem antigo e honrado do Algarve, e o lombo da Pedra Queimada, e o vale de Afonso Vaz, pegado com a fajã dos Mosteiros, que é uma terra corrida do pico das Sete-Cidades que antiguamente arrebentou, descendo pela rocha, fez abaixo dela esta grande fajã de até dez moios de terra boa, que dá o melhor trigo da ilha, e faz pão sem tufo, como o de Portugal, e bom pastel e melões; onde se fez a povoação e freguesia de Nossa Senhora da Concepção, que tem setenta fogos e almas de confissão duzentas e quarenta e seis, das quais são de comunhão cento e oitenta e duas, cujo primeiro vigairo foi Fernão de Anes, o segundo, Pero Anes; o terceiro, Fernão Gonçalves; o quarto, Francisco de Rovoredo; o quinto, Álvaro Garcia, que agora serve. Segundo alguns dizem, também arrebentaram do pico das Sete-Cidades, ou porventura quebrariam da rocha, quatro ilhéus que estão no mar, apartados da terra um tiro de besta, e passam navios por antre eles e a terra; o mesmo espaço distará um do outro, três dos quais, chegados à terra ou fajã, são maiores, e dois deles como dois cubelos, e o mais distante é só muito maior que os outros três juntos, à feição de igreja ou mosteiro, e por isso se chamou dele ou de todos eles àquele lugar e freguesia, feita na fajã ao longo deles, Mosteiros. Nestes ilhéus, que todos são de tufo, principalmente no maior, de Abril até todo Agosto, todos os anos, criam muitos garajaus, e dali por diante se vão e não aparecem. Antre os quais ilhéus e uma ponta que está para a parte do norte, que se chama do Matos, homem deste nome, está um porto em que varam os batéis, e mais além da ponta Ruiva, defronte da rocha, uma baixa grande, ao mar. Antre o ilhéu grande e a ponta Ruiva, pela rocha, até à ponta dos Escalvados, estão umas grandes concavidades e furnas bem feitas, a modo de igreja ou mosteiros, e daqui ou dos ilhéus que parecem mosteiros, ou de ambas estas coisas, chamam os antigos povoadores àquele lugar os Mosteiros, situado na fajã que tenho dito haver corrido do pico das Sete Cidades .

Tudo o que aqui se dá, dizem os moradores que é o melhor ou ao menos igual com o melhor que a ilha de si produz. Nesta baía e antre estes ilhéus, à sombra da rocha e terra alta, se abrigam os navios de todos os ventos do sueste, até o sul e leste. Este é o pé direito, que eu dizia do gigante Almourol, que tem dentro no mar alevantado, por estarem alevantados nele estes ilhéus, que parecem dedos de seu pé, que, por parecerem igrejas, Ihe deram o nome de religião, chamando-lhe Mosteiros.

Deste lugar dos Mosteiros, a três tiros de besta, está a ponta Ruiva, chamada assim por ser desta cor a terra daquela rocha, e dela aos Escalvados, ou pico dos Escalvados, há um tiro de arcabuz; os quais Escalvados são o fim da ilha, que está ao noroeste, da parte do ocidente, e o rabo da vestidura roçagante do gigante Almourol, como já tenho dito. Logo para a parte do sul, distante dois tiros de besta, está o pé esquerdo do mesmo gigante, armado de ferro, que é o pico das Ferrarias. Por toda a costa da ilha, em torno, há muitos e bons pesqueiros, em que comummente se toma muito pescado de diversas espécies e maneiras, porque, como há muita penedia de biscoutos ao redor de toda ela, seguramente, como se estivessem os homens em suas casas, estão assentados nos penedos pescando e, com muita facilidade e passatempo e pouco trabalho, tomam quase sempre muito peixe; e em algumas partes da costa, onde há moledos, que é uma pedra mole como tufo, há infinitas cracas, que chamam em latim umbilicus marinus, e assim o parece a quem as vê, e no gosto e em todo o mais fazem avantagem às ostras e ameijas e a qualquer outro marisco, e são o melhor marisco de todos os mariscos; há também muitos cranguejos de toda sorte, e uns melhores que todos, mais delicados e limpos que os de Portugal, criados não em lodo, mas em lisos e lavados penedos, a que chamam mouriscos, por serem como uns ginetes de África, mais delicados e ligeiros; e muitas lapas e búzios, e sobretudo as melhores lagostas que se podem achar em todo mundo; e em muitas partes das rochas, assim da banda do norte, como da banda do sul, há infinidade de pombas bravas que nelas criam muitas, das quais tomam os caçadores pombeiros em cevadouros e dá negaça, com que toda a ilha é delas bem provida.

Nesta parte do norte, até à vila da Ribeira Grande, há nas rochas ao longo do mar e pelas grotas e na serra muitas e frescas fontes que correm em todo o ano; e algumas que no Verão secam tornam a abrir e correr, como dantes, com as trovoadas do Inverno. Mas, da Ribeira Grande para o ponente, é costa mais seca e sem tantas águas, começando a ser seca na Ribeira Seca, a qual já disse que estava apartada da vila da Ribeira Grande para o ocidente como um tiro de mosquete, e porque no tempo do segundo terremoto correram por ambas estas ribeiras muitas pedras e areia que tomaram por grande espaço posse do mar e o afastaram da vila, com que a fizeram mais tristonha e melanconisada sendo dantes, com o mesmo mar , mais bem assombrada e alegre; com que se fez um areial tão comprido que, começando da dita vila, vai passando pela Ribeira Seca e correndo ao longo do mar um terço de légua, até se acabar no Morro, que se chamou de João de Outeiro, por ser seu, que é uma ponta pequena, mas grossa, de terra alta, pouco metida no mar, defronte da qual está um baixo de pedra, dentro na água, um tiro de arcabuz apartado da terra, no qual arrebenta muitas vezes o mar e algumas pescam os pescadores de batel, em cima dele. Na rocha talhada e alto do Morro, que está defronte deste baixo, estão umas furnas, em as quais, entrando o mar com o vento noroeste, faz uns grandes roncos e espantosos estrondos, cuidando o povo que se causa isto no baixo e não nas bocas e furnas que digo.

Além do Morro, está um biscoutal de pedras, parte dele estéril e outra prantada de boas vinhas, até chegar ao lugar de Rabo de Peixe, que distará da Ribeira Grande meia légua, chamado assim por estar situado em uma ponta de terra e penedia, que sai ao mar, parecendo rabo de peixe, de que o lugar tomou o nome; ou, como outros, porque se achou ali no princípio, junto do mar, um peixe muito grande, sem se poder saber que peixe fosse, se era baleia ou de outro nome, e pelos mouros, que naquele tempo ali guardavam gado, foi dependurado o rabo dele em um pau e dali a dias perguntando a um de donde vinha, respondeu que do rabo de peixe.

Tem este lugar uma igreja de Bom Jesus, cuja festa principal se celebra o primeiro dia de Janeiro; freguesia de duzentos e vinte e quatro fogos e almas de confissão setecentas e vinte e uma, das quais são de sacramento quinhentas e cinquenta e uma, cujo primeiro vigairo foi Afonso Gonçalves, que chamavam pai dos mulatos, por ter muitos escravos em casa; o segundo, João Luiz; o terceiro, Francisco Alvres; o quarto, António Gonçalves; o quinto, Amador Fernandes, que agora tem este cargo. Dos beneficiados, o primeiro foi Roque Esteves; o segundo, Baltasar do Monte; o terceiro, Herculiano Cabral, o quarto, Gaspar Alvres, que o Bispo Dom Pedro de Castilho passou para a vila da Ribeira Grande, como mudou outros beneficiados de outros lugares, por justos respeitos. Tem esta freguesia duas ermidas: uma de Nossa Senhora, que dantes era a paróquia até que fizeram a que é agora matriz, abaixo, abrigada e acompanhada antre as casas; e outra de São Sebastião, no cabo do lugar, para o ponente. Há neste lugar boas terras de pão, de que tem bom dizimadouro; também fazem pastel os moradores, os mais dos quais lavram em terras alheias, tirando os Monizes e sua família e João Roiz, do Pico da Pedra, e poucas pessoas outras. Tem uma formosa baía, da qual até à vila da Alagoa, que está da banda do sul, há uma légua, onde é mais estreita esta ilha e tem o gigante sua delicada cintura. Tem um poço de água salobra, de que todos bebem por não haver outra fonte; é abastado lugar de peixe, de codornizes e de coelhos, em seus tempos. De Rabo de Peixe a um terço de légua, estão umas Calhetas em umas pontas e arrecifes de pedra, em que se toma muito peixe de tarrafa e se fazem boas pescarias, onde mora Belchior Tavares, sogro de Manoel de Puga, e outros alguns moradores; antes das quais Calhetas, pouco espaço, esta a fazenda e quinta do grão capitão Francisco do Rego, com uma ermida nela de que corta e cinge a ilha, como talabarte em que se dependura a espada do gigante Almourol apegada ao cinto, dali, da banda do norte, com uma ponta nas barrocas do mar, até tornar no mesmo cinto, na parte do sul, na freguesia de Rosto de Cão, junto de São Roque, onde tem outra quinta, que houve em casamento com D. Roqueza, sua mulher, de seu sogro Jorge Nunes Botelho; e somente se antremetem no meio dois cerrados alheios, sendo o mais tudo seu, cingindo a terra de mar a mar, com que fica da serra para ambas as bandas águas vertentes. Até às Calhetas chega a freguesia de Rabo de Peixe e termo da Ribeira Grande; delas a outro terço de légua de rocha, de calhau e biscouto, que todo se corre, , sai pouco ao mar uma ponta de terra, mais grossa que a outra chã, que se chama o Morro de Jácome Dias Raposo, por ser seu, onde está uma ermida de São Pedro, que ali mandou fazer o mesmo Jácome Dias, homem nobre e poderoso, cujas eram aquelas terras, em que tinha sua quinta e moradas, tão ricas que elas sós pareciam um grande lugar povoado, com uma ermida, muito devota, da advocação de Nossa Senhora das Candeias. Foi esta casa tão rica e abastada e de tantos criados e criadas, escravos e escravas, de tantos hóspedes ricos e pobres visitada, que nela sempre acharam bom gasalhado, enquanto Jácome Dias viveu, e depois seu filho, Barão Jácome Raposo, e seu neto, Aires Jácome Raposo nela residiam, que parecia uma corte frequentada de gente de toda sorte, onde se davam muitos jantares e ceias, e faziam grandes e sumptuosos banquetes, sendo amparo de forasteiros e dos vizinhos do lugar dos Fenais, que está perto dela, cujos senhores fizeram em seu muitas grandezas, com seus generosos e liberais ânimos, e movidos com grande caridade e piedade deram grossas esmolas a pobres e despenderam grande parte da sua fazenda em obras-pias; e foi uma das mais ricas e abastadas casas que houve nesta ilha e ainda o pode tornar a ser, se seu senhor, Aires Jácome Correia, tornar à ilha.

O lugar dos Fenais, termo da cidade da Ponta Delgada, dito assim, com letra mudada e corrupta, por haver ali muito feno ou muitos fenais, tem uma igreja da advocação de Nossa Senhora da Luz, cuja festa principal se celebra por dia da Purificação de Nossa Senhora, de Fevereiro; é freguesia de duzentos e vinte e quatro fogos, e almas de confissão setecentas e cinquenta e três das quais são de comunhão quinhentas e cinquenta e três. O primeiro vigairo foi Pero Garcia; o segundo, Sebastião Roiz Panchina; o terceiro, António Neto; o quarto, Francisco Fernandes; o quinto, Luís Cabral, que agora tem o cargo. O primeiro beneficiado foi Pero Fernandes; o segundo, Manoel Teixeira, agora transferido para a freguesia de S. Pedro, da cidade. O primeiro cura é o padre João Alvres, que ora serve. Tem também este lugar bom dizimadouro de trigo e pastel, que granjeiam os moradores; bebem água salobra de um poço e é provido de carne e caça de coelhos e codornizes, a seus tempos; e há nesta parte muitas perdizes, que ainda os caçadores não sabem caçar. Há tanto pescado que muitas vezes provê a cidade dele, quando lá falta, e por costume ou privilégio isento de imposição. Além dos Fenaes, meia légua, toda de biscouto de pedra ao longo da costa e terra chã, estão os Poços, assim chamados por estarem ali uns, onde tem um varadouro de calhau bravo, em que varam batéis; no qual lugar se fizeram já dois navios que botaram e vararam ao mar, e onde o capitão Diogo Lopes de Espinhosa mandou fazer um forte muro de pedra ensossa, para dele se poder seguramente defender a desembarcação aos imigos. Estão ali poucas casas e famílias de homens nobres e ricos, fregueses do lugar dos Fenais, que compreende daqui até às Calhetas, que atrás ficam. Dos Poços para o ponente, vai correndo a costa, baixa e quase rasa, de biscouto raso, bravo e mato baixo e vinhas, por espaço de um quarto de légua até o Morro, que é um pico com uma alta ponta que vai beber ao mar e se chama de Martim Vaz, por haver sido de um homem principal deste nome, que é uma terra grossa, de pão, de mais quantidade de dois moios, pouco mais ou menos, metida no mar e fechada com uma cancela. Logo pegado com ele, para a parte da serra, se chama aquela terra as Capelas, da razão do qual nome há muitas opiniões. São estas Capelas biscoutos, e terras de pão poucas, carecidas de águas, mas abastadas de mato de murtaes, tamujos, louros e árvores de outra sorte; há nelas algumas benfeitorias de pomares e vinhas. Dizem alguns que se chamam Capelas, não porque tenham naquela parte feitas algumas igrejas nem capelas, senão porque um dia de São João fizeram uns homens ali umas capelas, deixando- as por esquecimento dependuradas em uma árvore; quando depois nomeavam aquele lugar, Ihe chamavam as Capelas, pelas que nele deixaram. Outros dizem com mais verdade chamarem estas terras Capelas, porque antigamente eram criações de gado vacum e miúdo; os gados, que algumas vezes nelas pastavam, fugiam outras vezes para elas e lá os mandavam também seus donos, depois de ter feito seu serviço com eles; antre o qual gado iam lá muitas vezes e mandavam seus donos duas vacas toucadas ou printadas de branco pela cabeça, à maneira de capelas, pelo que Ihe chamavam as capelas por assim parecerem com aquela malha branca que na cabeça tinham, denominando, pela beta branca da parte, o todo, como chamamos ao negro, que é todo preto, João Branco, só por os dentes alvos. E, mandando-as seu dono buscar, dizia ao criado: — traze daquela serra as capelas; vamos pelas capelas; pelo que, pelo tempo em diante, dos nomes das vacas tão celebrado antre eles, ficou ao sítio, onde andavam, Capelas por nome. O Morro de Martim Vaz, que está para a banda do mar, mais para o ponente, ainda que por cima é terra lavradia, que dá bom trigo e pastel, seu âmago é pedra, como claramente se vê nele, porque na alta rocha que tem da banda do oriente uma grossa ponta, que ele faz ao mar, se criam bilhafres e muitas pombas bravas; a qual ponta é furada por baixo, fazendo uma abóboda de pedra, de altura de duas lanças e de compridão mais de três, e tão larga que passa por ela um batel emasteado, com um remo de uma parte e uma vara da outra, por não caberem na largura ambos os remos; e da banda do ponente, saindo pela boca dele, está à mão direita um ilhéu maior que uma grande casa sobradada, de altura de três lanças que tem em cima feno, em que se criam grande número de garajaus e se acham muitos ovos deles; onde está antre ele e a terra um grande espaço de mar, com uma espaçosa alagoa, que tem dois canais por onde sai ao pego, um por uma parte do ilhéu e outro pela outra. Ali, naquele grande poço do ilhéu para dentro, se fazem grandes pescarias de batel e de cana, pelos que descem àquele lugar pela rocha, e se tomam muitos cranguejos e apanha marisco naquela pequena enseada; e logo passada uma ponta de terra e rocha mui alta, está uma grande baía em que se acolhem os batéis dos Fenaes, em tempo de tormenta. Possue agora este Morro Jordão de Vasconcelos e Jorge de Lucena e seu cunhado Manoel de Sousa, e Martim Vaz, a terça que ficou de seu avô deste nome. Assim corre a rocha alta, espaço de meia légua, até o lugar de Santo António, da qual rocha dois tiros de arcabuz. antes de chegar ao dito lugar, defronte das casas de Sebastião Luiz, defunto, e de seu filho, Hierónimo Luís — da rocha quase o lível com o mar, saem algumas fontes de água doce, que dizem ser da ribeira das Lajes, que naquele direito se sume na serra; e logo sai uma ponta pequena ao mar, onde está o lugar de Santo António, assim chamado por ter a igreja paroquial do mesmo Santo. No cabo da ponta, está uma ermida de Nossa Senhora do Rosairo, que mandou fazer Álvaro Lopes da Costa, homem nobre e poderoso, cuja foi aquela terra; outra ermida está no princípio do lugar, da advocação da Madre de Deus, a qual mandou fazer um nobre antigo, cujo administrador é Gaspar de Oliveira, neto ou bisneto do mesmo. Tem esta freguesia de Santo António cento e cinquenta e dois fogos e almas de confissão quinhentas e cinquenta e quatro, das quais são de comunhão trezentas e oitenta e duas, cujo primeiro vigairo foi Afonso de S. Pedro, que era frade dos Loios; o segundo, João Roiz; o terceiro, João Soares da Costa; o quarto, Baltasar do Monte; o quinto, Francisco Diniz de Sousa, que agora serve. O primeiro beneficiado foi António de Bastos; o segundo, Manoel Roiz, filho do Bilhafre; o terceiro, Domingos de Crasto. Vivem os moradores deste lugar, que é termo da cidade, por lavrança de trigo e pastel. Dele aos Fenaes haverá légua e meia. Além do lugar de Santo António, pouco espaço na testada da fazenda de Álvaro Lopes da Costa, têm os seus moradores, em meia rocha, uma pequena fonte de água doce de que bebem; e tanto como um tiro de berço mais adiante, na testada da fazenda, que foi de Martim Alvres e que comprou a Rodrigueanes, o Bago, nasce antre o mar na rocha uma ribeira com que moem dois moinhos pequenos como azenhas. Além está a quinta e fazenda que foi do grão Pero Pacheco, fidalgo generoso e liberal, grandioso inventor de todas as festas graves que em seu tempo se fizeram nesta ilha antre os cavaleiros dela, e agora é de Simão Lopes de Andrade, casado com D. Maria, sua neta. Adiante estão as fazendas dos herdeiros de António Alvres e as de Domingos Fernandes Cafatim, que comprou a alguns deles; e logo estão as casas e fazenda de Aires de Oliveira, homem nobre e rico, que deixou à Casa da Misericórdia da cidade da Ponta Delgada; e além a fazenda de Aires Jácome Corrêa, e outra do genro de Aires de Oliveira, e a fazenda de Manoel Vaz que possui agora o Carvalho; e além as terras de Barão Jácome Raposo, que ficaram com outras muitas em outras partes a seu filho Aires Jácome Corrêa. Da freguesia de Santo António até uma grota que está além das casas de Aires de Oliveira, atrás ditas, é rocha alta por espaço de meia légua; sobre a mesma grota está uma ermida de Santa Bárbara, de muita romagem; pouco espaço, pela terra dentro, de Santa Bárbara, é a freguesia de Santo António.

Logo corre alta rocha por espaço de uma légua até o lugar da Bretanha, também termo da cidade, situado em uma ponta grossa e romba de terra, que faz a enseada atrás dita; defronte da qual está um baixo grande, dentro no mar, apartado da terra um tiro de arcabuz, que quando o mar é manso aparece de longe preto, e quando é bravo, parece branco e navio que vai à vela, por causa do mar que arrebenta por cima dele. Chama-se este lugar da Bretanha porque é terra alta e grossa, a que chamavam os antigos alta Bretanha; outros dizem que por morar ali antiguamente e ter suas terras e fazenda um bretão. Tem uma igreja da advocação de Nossa Senhora da Ajuda, cuja festa principal se celebra aos oito dias do mês de Setembro. Há nesta freguesia oitenta e dois fogos e almas de confissão trezentas e doze, das quais são de comunhão duzentas e vinte e seis, cujo primeiro vigairo foi João Alvres; o segundo, Nicolau Domingues; o terceiro, Manoel Curvêlo. Têm os seus moradores a mesma granjearia que os de Santo António, de bom trigo e pastel. Além do lugar da Bretanha está o pico de João Alvres, onde mora Braz Alvres, seu herdeiro, e, deste pico a dois tiros de arcabuz, está a grota de João Bom, que ali vivia e tinha suas terras; além da qual grota, logo pegado com ela, está o pico de Mafra, acima do qual pela terra dentro vai a encumeada das Sete- Cidades; da grota de João Bom a meia légua toda de alta rocha, está o lugar dos Mosteiros, passando primeiro que a ele cheguem pelo pico de Mafra, dito assim por haver nele antiguamente algum homem deste lugar de Portugal, assim chamado, ou por outra razão não sabida, uma faldra do qual chega à grota do João Bom, para a parte do levante, a respeito dos Mosteiros; e abaixo deste pico de Mafra, mais ao longo do mar, está a ponta de Estêvão Dias, homem antigo e honrado do Algarve, e o lombo da Pedra Queimada, e o vale de Afonso Vaz, pegado com a fajã dos Mosteiros, que é uma terra corrida do pico das Sete-Cidades que antiguamente arrebentou, descendo pela rocha, fez abaixo dela esta grande fajã de até dez moios de terra boa, que dá o melhor trigo da ilha, e faz pão sem tufo, como o de Portugal, e bom pastel e melões; onde se fez a povoação e freguesia de Nossa Senhora da Concepção, que tem setenta fogos e almas de confissão duzentas e quarenta e seis, das quais são de comunhão cento e oitenta e duas, cujo primeiro vigairo foi Fernão de Anes, o segundo, Pero Anes; o terceiro, Fernão Gonçalves; o quarto, Francisco de Rovoredo; o quinto, Álvaro Garcia, que agora serve. Segundo alguns dizem, também arrebentaram do pico das Sete-Cidades, ou porventura quebrariam da rocha, quatro ilhéus que estão no mar, apartados da terra um tiro de besta, e passam navios por antre eles e a terra; o mesmo espaço distará um do outro, três dos quais, chegados à terra ou fajã, são maiores, e dois deles como dois cubelos, e o mais distante é só muito maior que os outros três juntos, à feição de igreja ou mosteiro, e por isso se chamou dele ou de todos eles àquele lugar e freguesia, feita na fajã ao longo deles, Mosteiros. Nestes ilhéus, que todos são de tufo, principalmente no maior, de Abril até todo Agosto, todos os anos, criam muitos garajaus, e dali por diante se vão e não aparecem. Antre os quais ilhéus e uma ponta que está para a parte do norte, que se chama do Matos, homem deste nome, está um porto em que varam os batéis, e mais além da ponta Ruiva, defronte da rocha, uma baixa grande, ao mar. Antre o ilhéu grande e a ponta Ruiva, pela rocha, até à ponta dos Escalvados, estão umas grandes concavidades e furnas bem feitas, a modo de igreja ou mosteiros, e daqui ou dos ilhéus que parecem mosteiros, ou de ambas estas coisas, chamam os antigos povoadores àquele lugar os Mosteiros, situado na fajã que tenho dito haver corrido do pico das Sete Cidades .

Tudo o que aqui se dá, dizem os moradores que é o melhor ou ao menos igual com o melhor que a ilha de si produz. Nesta baía e antre estes ilhéus, à sombra da rocha e terra alta, se abrigam os navios de todos os ventos do sueste, até o sul e leste. Este é o pé direito, que eu dizia do gigante Almourol, que tem dentro no mar alevantado, por estarem alevantados nele estes ilhéus, que parecem dedos de seu pé, que, por parecerem igrejas, Ihe deram o nome de religião, chamando-lhe Mosteiros.

Deste lugar dos Mosteiros, a três tiros de besta, está a ponta Ruiva, chamada assim por ser desta cor a terra daquela rocha, e dela aos Escalvados, ou pico dos Escalvados, há um tiro de arcabuz; os quais Escalvados são o fim da ilha, que está ao noroeste, da parte do ocidente, e o rabo da vestidura roçagante do gigante Almourol, como já tenho dito. Logo para a parte do sul, distante dois tiros de besta, está o pé esquerdo do mesmo gigante, armado de ferro, que é o pico das Ferrarias. Por toda a costa da ilha, em torno, há muitos e bons pesqueiros, em que comummente se toma muito pescado de diversas espécies e maneiras, porque, como há muita penedia de biscoutos ao redor de toda ela, seguramente, como se estivessem os homens em suas casas, estão assentados nos penedos pescando e, com muita facilidade e passatempo e pouco trabalho, tomam quase sempre muito peixe; e em algumas partes da costa, onde há moledos, que é uma pedra mole como tufo, há infinitas cracas, que chamam em latim umbilicus marinus, e assim o parece a quem as vê, e no gosto e em todo o mais fazem avantagem às ostras e ameijas e a qualquer outro marisco, e são o melhor marisco de todos os mariscos; há também muitos cranguejos de toda sorte, e uns melhores que todos, mais delicados e limpos que os de Portugal, criados não em lodo, mas em lisos e lavados penedos, a que chamam mouriscos, por serem como uns ginetes de África, mais delicados e ligeiros; e muitas lapas e búzios, e sobretudo as melhores lagostas que se podem achar em todo mundo; e em muitas partes das rochas, assim da banda do norte, como da banda do sul, há infinidade de pombas bravas que nelas criam muitas, das quais tomam os caçadores pombeiros em cevadouros e dá negaça, com que toda a ilha é delas bem provida.