Como realizar uma Quarentena

Você ou um ente querido tem febre leve, dores no corpo, o início de uma tosse seca e irritante. A comida não tem gosto nem cheira como antes. Talvez sinte falta de ar ou custa respirar...

Cozer feijões velhos

feijãoQuando guardados há muito tempo (anos mesmo) ou simplesmente mal acondicionados, os feijões podem demorar tempo a mais a cozer. Mas há soluções.

A menos aconselhável é a adição de...

A Tinturaria Vegetal em Alguma Ilhas dos Açores


Carreiro da Costa, 1957

tinturariaRemonta aos primeiros decénios de vida insular, a prática dos vários processos de tinturaria caseira, servida por elementos vegetais. Tais processos encontram-se...

Cores das Ilhas

Tudo leva a crer que esta paleta de cores começou a ser formada com a visita do escritor Raul Brandão, que esteve nos Açores em 1924 e foi atribuindo a cada ilha uma determinada cor (ou...

A Amoreira e a Sericultura

 

Carreiro da Costa, 1945

De entre os problemas económicos em equação no arquipélago dos Açores, o da sericicultura é dos que mais tem apaixonado aqueles que, no decorrer dos tempos, vêm...

Agave (Babosa)

Piteira, Babosa, Agave, Agave americana L.

agaveÉ uma planta muito disseminada nos jardins de algumas ilhas. Não sabemos se o  “Agave azul” (e a sua parente “Marginata”, com folhas às riscas...

Alguns Estudos Científicos sobre Agricultura Açoriana

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Departamento de Ciências Agrárias

http://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3

 

A influência da paisagem, dos factores ambientais e taxa de infestação na densidade na...

Além das Furnas, para a parte do ponente, está o pico chamado de el-Rei, por se tomar para ele, de um homem que Ihe devia e não podia pagar, ou por aquelas terras serem de el- Rei; e o pico de Álvaro Pires, e os dois picos quebrados, ou esfolados de Luiz Fernandes da Costa; o pico do Barbosa; o pico da Senhora, porque foi de D. Inês, mãe do Capitão Rui Gonçalves da Câmara, pai de Manuel da Câmara; o pico do Louro e dos Bodes, nomes alcançados das coisas que neles havia; o pico do Congro, ao pé do qual está a alagoa do Congro, sobre Vila Franca; depois o pico da Sanchoeira acima dos engenhos de açúquere que por ali estiveram; e o pico de São Brás, da banda do norte, por mandar fazer nele uma ermida deste santo um homem principal e rico, chamado Mateus Vaz; e logo a alta serra do Monte Escuro, que tem no cume uma grande alagoa, ao redor da qual, antes do segundo terremoto, havia tão cerrado mato maninho, de altíssimo arvoredo de muitos cedros, folhados, faias, louros e ginjas, que ninguém podia lá passar, nem o gado que entrava podia mais sair e ali morria de velho, aproveitando somente os donos algum que, com grande dificuldade, se Ihe tornava a vir por si mesmo, que eles não podiam lá entrar para o tirarem; e os que tinham gado cabrum, ainda que ouviam andar, não o podiam tomar, nem assinar do seu ferro, por causa da grande espessura do arvoredo daquele mato; e por aquela alagoa ser muito sombria e obscura com as muitas árvores que a cobriam, e o mesmo mato obscuro com a espessura delas, se chamou aquela serra e cumieira Monte Obscuro. Do pé da qual serra nascem três ribeiras: a das Tainhas, que vai sair ao mar do sul, junto de Vila Franca, além de São João, para o nascente, e a ribeira do Salto, da outra parte da mesma Vila Franca, e a Ribeira Grande que pôs nome à vila, da banda do norte, e a corta pelo meio. Além do Monte Escuro está um pico que se chama o pico de Água de Alto, porque dele sai a ribeira deste nome, que cai da banda do sul. Adiante está o pico da Praia, do qual nasce a ribeira da Praia. Depois, a cumieira donde nasce a ribeira da Grota de Três Voltas. Além, um alto pico que se chama da Correia, nome da que o possuía; adiante, outro pico muito alto, sobre a vila de Água do Pau, que por ser em cima de terra chã, se chamou pico das Mesas, ao pé do qual estava uma alagoa de um Gonçalo Pires, que arrebentou no tempo do segundo terremoto que aconteceu nesta ilha ; e logo, outro alto monte, que se chama o pico Agudo, pelo ele ser no cume. Descendo dele, está a alta e comprida serra de Vulcão, que por ser altíssima, fragosa e crespa, com muitos montes de que está acompanhada ou composta, parece ser a morada que os antigos fingiam de Vulcano, donde cobrou este nome Vulcão que o vulgo chama Bulcão, corrompendo a letra, ou pela carranca grande que faz a quem o está olhando; ao pé do qual, quase junto do mar direito da ponta da Galé, está o pico de Água do Pau, sobre Val de Cabaços, a que chamam o Furado em toda a ilha, mas não naquela vila.
Logo está o pico das Mós, por tirarem no tempo antigo ali as primeiras mós de engenho de pastel, por mandado de Dona Inês, mãe do Capitão Rui Gonçalves da Câmara e avó do Capitão Manuel da Câmara, já defuntos, o qual pico está na Mediana, terra assim chamada por ser o meio da ilha. Mas da banda do norte estão primeiro: o pico da Murta, porque a tem; o pico do Azedo, por morar nele um homem deste nome; o pico de Santa Eiria, sobre o porto da vila da Ribeira Grande; o pico do Ermo; e o monte de Trigo, que parece assim ainda que é terra, e logo acima dele, quase ao pé da serra, a grande encumeada.
Além do lugar onde disse que estivera a fábrica da pedra hume, perto de meia légua da vila da Ribeira Grande, antre ela e a serra, está uma concavidade que terá cinco ou seis alqueires de terra, cercada de umas quebradas, onde já se tirou muita pedra hume, de pedreiras que ali há dela; e no tempo antigo, antes de tirar dali a pedra, estavam umas caldeiras ou furnas, como covas pequenas na mesma terra, que ferviam com olhos de água e polme; mas depois que se deixou de tirar a pedra hume, se abriram estas covas doutra maneira, mais em número e mais bravas e espantosas que dantes, de tal maneira que, tirando serem mais pequenas, quase são tão furiosas como as Furnas que estão à parte do oriente mas estas estão por esta ordem: entrando nelas pelo caminho da parte do ponente, estava uma alagoa de quinze palmos de largo e vinte de comprido, de água clara e fria, que em algumas partes fervia, a qual já agora está seca; e dela para a parte do oriente, dez ou doze palmos, está um grande ribeiro de água fria que vai correndo e fervendo muito mais que a ribeira fria, que nas Furnas ferve; passado o ribeiro, se vê a primeira caldeira, rasa com a terra e muito grande, junto dele fervendo com muitos olhos, deles grandes como uma joeira, e deles menores e outros mais pequenos. Logo para o oriente, espaço de quinze palmos, está outra pegada com ela, mais profunda, que ferve como ondas de mar bravo, da mesma grandura da outra rasa, de quinze palmos de largo, trinta de comprido e vinte de alto, tão furiosa que parece ribeira quando trás enchente antre penedia e faz grande matinada, de cor e água cinzenta; mais ao oriente oito palmos, está outra caldeira rasa, quase do mesmo tamanho, de um polme cinzento e basto, o qual alevanta muitas empolas tão grandes delas como jarras de azeite, de três canadas e de canada e meia; pegado com esta, para a banda do nascente, estão quatro olheiros pequenos, de água clara os três deles e outro de água cinzenta, afora outros olheiros que já se secaram. Junto destes, para a banda da serra, está uma caldeira de dez palmos de comprido e outros tantos de largo e cinco de altura, que ferve com alguns olhos grandes e pequenos de polme cinzento e basto, mas com pouco estrondo. Junto deste caldeirão está outro mais pequeno, com seis olheiros abertos, fervendo polme cinzento; pegada com o qual, quantidade de uma braça para a parte do oriente, está uma caldeira grande de vinte palmos de comprido e quinze de largo, a qual sempre ferve com muitas fervuras contínuas e muitos olhos de um polme ralo.
Dali a sete braças de dez palmos cada uma, para a banda da serra, ou do sul, está um caldeirão pequeno e raso com a face da terra, de água clara de tanta quentura, que se não pode aguardar com a mão, senão metendo-a e tirando-a logo, que é da mesma quentura da furna da água clara das Furnas, e como nela, também neste caldeirão se podem pelar cabritos; pegado com ele estão muitos olheiros rasos de água clara, fervendo, uns de água quente, mas não tanto como a do caldeirão, outros estão fervendo, sendo a água doce e fria. Antre estas caldeiras estão muitos resfolgadouros por onde sai fumo e quentura, que em alguns lugares Ihe não pode aguardar a mão, e podem neles assar ovos. A cor da terra é de pedra hume, como cal cinzenta, da mesma maneira da das Furnas, e o fumo que sai delas também cheira a enxofre, como o das Furnas; estão por antre elas algumas junqueiras e um campo coberto de cinzeiro, que parece cair em algum tempo atrás, que não dá senão silvas e feitos.
Um tiro de arcabuz delas para a vila da Ribeira Grande está um fojo ou cova que deita de si um ar tão peçonhento, que mata os pássaros ou coelhos que àquela parte vão ter e ali caem sobre ele, da mesma maneira como os fedores das Furnas, onde, se entra o gado, morre, e os cães também, se Ihe não cortam logo as orelhas, como já disse quando tratei delas.
A terra e sítio, antre estas caldeiras, é pedreira mole de pedra hume, na superfície da terra, mas debaixo é pedreira dura, porque doutra maneira já abriram muito maiores bocas, se fora terra, e a consumiram, e da mesma maneira é nas Furnas.
Mais acima, já na faldra da serra. estão outras caldeiras, em que ferve polme da mesma maneira, e vai lavrando o fogo por debaixo da terra, que na superfície está quente, de que há muitos anos se vê continuamente sair muito fumo, que no tempo do Inverno, antre os ares frios dele, se vê mais grosso e espesso; pelo que se podem todas estas caldeiras chamar umas Furnas pequenas a respeito das grandes, de que já tratei atrás a razão e causa delas, que toda é uma.
Além das caldeiras, ao pé da encumeada, está o pico do Leitão, por ser de um homem deste sobrenome, e logo um pequeno monte que se chama o Pico-que-Arde, porque sempre ardia, saindo fumo dele, tendo uma cova no meio, por onde arrebentou em tempo antigo; e assim na cova, como em todo ele, tinha a terra mui quente, pelo que Ihe puseram nome o Pico-que-Arde; mas depois do segundo terremoto desta ilha já não arde, nem fumega como dantes soía. Além está o pico de Santa Maria, por ter a confraria de Nossa Senhora da Estrela da vila da Ribeira Grande nele alguma terra que rende para ela. Na mesma Mediana e meio da ilha, está o pico do Maranhão, homem assim chamado, e por outro nome o pico do Sapateiro, porque foi de um oficial deste ofício, o qual arrebentou no segundo terremoto e dele correram duas ribeiras de fogo, como adiante direi. Também o pico da Madeira, por estar ali perto da Ribeira Grande, nele, a derradeira madeira que se roçava e achava no tempo antigo, sendo todos os outros picos ao redor despovoados já dela; mais além de uns outeiros, o pico da Cova, por uma que tem, por onde em outro tempo arrebentou, o qual nome pode ser comum a quase todos os picos desta ilha e não só a este, pois quase todos têm covas e arrebentaram já em outros tempos não sabidos, nem vistos. Junto deste, está o pico de Rui Gago da Câmara cujo é; adiante, o pico da Areia, por todo estar coberto dela; e o de Álvaro Lopes, que deu em casamento, com outras terras, a António de Faria, seu genro, sobrinho de António Lopes de Faria, da Alagoa, que por ali teve outros picos, terras e criações. Além, o pico de João Ramos, tomando o nome de seu dono assim chamado, que ali morou antigamente no meio de uma estrada que vai da Ponta Delgada para a vila da Ribeira Grande; ao pé do qual estão dois padrões afastados do caminho por marcos e balisas, que dividem os termos da dita vila e da cidade; e logo o pico do Bezerro, por dizerem que se ouvia bradar nele um muitas vezes; e o pico de João Moniz, e o de Fernão Vieira, cujos eram. Adiante, o pico da Cruz, onde estava arvorada uma, no tempo antigo, o qual está sobre as cabeçadas do lugar de Rosto de Cão, para a banda do sul, que chamam do Congro, partindo da banda do levante com terras de Rosto de Cão, que foram de Diogo Nunes Botelho, contador destas ilhas dos Açores, e agora de Jorge Nunes Botelho, seu filho; e da banda do ponente, com terras da Fajã, que foram de Sebastião Barbosa da Silva, Rui da Costa e Francisco Anes, que poderão ser cem moios de biscouto, pouco mais ou menos, que natural ou violentamente correram por aqueles lugares mais baixos e cobriram naquele tempo as melhores terras, que ficaram depois tais e tidas em tão pouca estima, que a troco de quatro galinhas que davam ao Capitão que então era, não as dava ele por medida, senão quanta os homens Ihe pediam, porque nem o mato, que ao tal tempo tinham, cuidavam de entrar. Mas proveu Nosso Senhor de maneira que são todas feitas vinhas, que valem mais que as melhores terras da ilha, pelo muito proveito que dão em vinho, vides, pêssegos, maçãs, peros, peras, albricoques, marmelos, figos e outras muitas frutas, afora muitos e ricos pomares que em fajãs antre eles se prantaram, que são de fruta estremada de espinho, em que fazem seus donos muito dinheiro, sem Ihe semearem trigo de tostão o alqueire. Indo para o ponente, está um pico grande, antre dois caminhos que vão da cidade para os Fenais, que também se chama o pico da Cruz, porque teve no cume outra, e contém em si outros picos e serras ou outeiros pequenos e três concavidades que têm água contínua, onde bebem os gados de três freguesias. sc., Fajã, Fenaes e Rabo de Peixe. Adiante está o pico de Gaspar Ferreira e o pico de João da Castanheira, mais junto da cidade, sobre a qual, acima das terras de pão, está a Serra Gorda, que é um só pico tão grande como uma grande serra, e por isso Ihe chama Gorda, que em outro tempo parecia longe aos moradores da cidade, mas agora Ihe parece ficar perto, por causa dos pastéis e trigo pelado que semeiam até meia ladeira dele, o qual é tão grande que tem bem que fazer um homem bom andador, com o rodear em um quarto de dia; no cume dele estão três concavidades, as duas delas muito grandes, de grandura cada uma de dois moios de terra; à terceira, que está no topo, da banda da cidade, tem um charco contínuo onde bebem os gados que no dito pico se criam. Ao pé do qual pico, algum tanto afastado, abaixo da estrada que vai para o lugar de Santo António, está um charco, como alagoa de espaço de dez alqueires de terra, que sempre se chamou o Charco da Madeira, por razão da muita que dentro e fora dele em outro tempo houve, o qual é mui cursado dos gados e lavagem da roupa dos moradores da cidade e seu limite. Mais adiante, para o ponente, está uma alagoa que se chama das Canas por ter moitas de espadanas tão viçosas, que se parecem com elas. Além, para a banda da cidade, está outra alagoa que chamam da Prata, por ser muito clara, e antigamente, antes que fosse tirada a água da fonte da cidade, que nasce não muito longe, dela bebiam, e quando quebrava, enchiam muitos as pipas dela, e depois faltando a água da mesma cidade, meteram um cano dela nos alcatruzes, para ajudar a fazer mais cópia, mas não se sofreu, por já agora faltarem os matos e ser mui tratada de porcos e gados e outras alimárias.
Mais para o ocidente está uma alagoa que chamam dos Monteiros, onde se alaga quase todo o linho da cidade e seu limite, pelo que é chamada também o charco dos Linhos. Adiante está um pico, na fazenda que foi de Pero Gonçalves Delgado, chamado das Malhas, porque no Verão, em muitas partes dele, florescem umas ervas como rapassaes ou rabaças, que de longe parecem bem e fazem as ditas malhas. Mais além, ao pé do pico das Éguas, está uma alagoa grande, que, por ter um estreito no meio, parece duas e corre uma para a outra, segundo faz o vento, ora para uma, ora para outra banda; e logo, o pico das Éguas, que por ser alto o vão buscar as éguas no Verão para seu refresco, donde cobrou o nome delas, ou porque o dito pico sempre foi e é ainda agora do concelho, comum a todos, pelo que por outro nome se chama a terra devassa, em que as éguas e mais gados, corridos dos outros sarrados, tem seu couto. Sobre o lugar da Relva está o Monte Gordo, porque assim o parece; acima do qual estão duas alagoas muito grandes, na cumieira da serra, uma das quais, por ser muito clara, tem também nome da Prata, e a outra, por as moças irem lavar nela roupa, Ihe puseram nome, alagoa das Moças. Logo está o pico das Ovelhas, sobre uma grande serra que contém em si muitos picos mais pequenos, chamado das Ovelhas porque, sendo a ilha toda de mato, o dito pico sempre foi escalvado e de bom pasto para elas, pela qual razão, quem as tinha, as botava para lá e elas mesmas, por se sairem do mato, o iriam buscar, que isso têm por natureza; ao pé do qual pico, da banda do ponente, está uma alagoa quase rasa, de quantidade de quatro alqueires de terra, pouco mais ou menos, que se chama dos Canários, não por andarem ali pássaros deste nome, que depois vieram de fora, mas porque antigamente houve ali pastores de ovelhas e cabras, naturais das ilhas Canárias, à qual levavam a beber as ovelhas e mais gado que no pico das Ovelhas criavam.
Ficando no oriente este pico das Ovelhas, que está quase em direito pela terra dentro, arriba da cidade da Ponta Delgada, perto da fonte de água que vai dali a ela, de cuja frescura a melhor que há na ilha, bebem os moradores da cidade e das partes de redor dela, que custou muito levá-la por longos caminhos e alcatruzes, e não custa menos conservá-la. Além do pico das Ovelhas, para a parte do ocidente, está o pico da Cruz, pelo meio da terra ou da ilha, e da parte do sul, está o pico do Casal. Dali vão por uma encumeada até o Cerro do Camelo, que é uma descida para as Sete Cidades. Da parte do pico do Casal, fica para a banda do noroeste outra terra baixa e concavidade, de altura de meia légua de bom caminho de carro, novamente feito como obra de romanos, para tirar por ele a lenha daquela concavidade, cercada com a encumeada do pico do Casal, que tem dentro em si duas alagoas, uma que se chama alagoa do Santiago, que está muito sumida na terra, de tão negra e obscura cor, que é coisa medonha olhar para ela, cuja água terá de fundo trinta e sete braças e meia, que tomou por prumo um André Pires Cedro, grande fragueiro, no meio dela, de uma barca que nela fez, com que andava atoando e levando de uma a outra parte muita madeira de cedro que, nas quebradas e fajãs ao redor dela, cortou e deitou de cima dentro na água da dita alagoa, que será, lá em baixo, de uma légua em redondo, ainda que de cima, do alto, não parece tão grande, donde depois a tirou, arrastando os toros dos paus por caminho novo que fez, e a vendeu para a casaria da fortaleza da cidade da Ponta Delgada; e achou dentro na água uma certa maneira de peixe, quase da feição de camarões, e pegado em um pau, uma casca ou pelo de lagarto; tem esta alagoa, ao longo de água faias muito grossas de cinco, seis e sete palmos de testa, e de sessenta em comprido; onde há também pau branco, louros, folhados, azevinhos altíssimos, com que está toda cercada, até a sua cumieira, acompanhado todo aquele arvoredo de infinidade de mélroas, canários, tintilhões, petos, crespinas, estorninhos e outras sortes de passarinhos; no Verão, sobre os ramos e nas águas da alagoa, há muitas adens, marrecas e galeirões; ao redor da qual terra há um areal, espaço de um tiro de espingarda; cujas águas parecem ter resfolgadouro ou algum sumidouro no meio, ou em alguma parte delas, porque se vêem crescer e minguar palmo e meio e dois palmos; ainda que, com mais certa razão, parece ser a causa disto a lua, que faz impressão em todo ajuntamento e multidão de águas, onde não há corrente, como na alagoa Grande das Furnas, e nesta de que vou falando, está ao lível com as outras alagoas das Sete Cidades, que têm pouca altura de água, de sete até oito braças, em comparação da altura desta, de trinta e sete braças e meia, ainda que vista da alta encumeada, parece que deve de ser muito mais funda, pela sua obscuridão e põe medo a quem vê sua fundura e alta concavidade desta alagoa de Santiago; e por isso parece que Ihe puseram este nome de Santiago, porque quando vemos uma coisa perigosa, dizemos logo —Santiago — como invocando este nome do padroeiro de Espanha os espanhoes, que nos livre Deus dela. E outra alagoa que chamam a de Água Rasa, em respeito da outra funda, que é mais pequena, porque está em terras mais altas e não recolhe tantas águas; perto destas, estão muitas fontes, com as quais já moeram em outro tempo azenhas; e para a parte do noroeste ficam as Sete Cidades que são uma grande concavidade repartida em duas, com um cerro ou cumieira que as divide, mas juntas fazem uma concavidade, que terá em circuito quatro léguas e de diâmetro por qualquer parte, uma, toda cercada de alta encumeada, feita das faldras do pico que não arrebentaram, e somente arrebentou, com a força do fogo, o cume e ponta dele, que fez esta concavidade de quatro léguas em redondo, o que mostra bem a grandeza e altura que o alto pico podia ter, antes de arrebentar e se desfazer, como agora está desfeito.
Afora estas duas alagoas ditas, divididas com o cerro ou encumeada, que disse, antre si em uma parte da grande concavidade, está na outra fundura, da parte do norte, uma grande alagoa de légua e meia de roda, que é mais comprida que a das Furnas, mas não tão larga, que se chama alagoa Grande, em respeito das outras duas. Junto dela está uma praia grande, que terá até trinta moios de terra, ou por melhor dizer, estéril areia, que tudo era água no tempo antigo, por onde passava o gado antigamente, a pascer de uma parte à outra, em uma barca grande que mandou fazer Baltazar Vaz de Sousa, da vila da Ribeira Grande, que ali tinha grande criação dele; e logo, quase pegado com este areal branco, no meio, está ao pé do pico do Casal a alagoa que se chama Azul, por parecer a sua água desta cor; e além, para o ponente, está um cerro, como cumieira redonda, que terá de circuito dois moios de terra, alto e com mais de cento e cinquenta espigões, faz ruas que vão descendo dele, como ladeiras, para as partes derredor à maneira de grotas, antre espigão e espigão, povoadas de alto e fresco arvoredo, como cidade rodeada, que todas vão descendo do meio para baixo delas, de cento e cinquenta e outras de cem braças e menos de comprido, até dar em um campo chão, onde estão as alagoas, a Grande e a Azul, e se fazem umas ruas mui largas e chãs, na dita praia de areia, sem arvoredo, como espaçosas praças e ruas, que assim como dão muita graça ao espesso e fresco arvoredo, assim a recebem também dele, porque a espessura e altura do mato e calva das ruas, ambas estas coisas juntas realçam uma à outra. E por estas ruas e praças, puseram a este lugar nome de Sete Cidades, ou porque o parecem naquela concavidade, a quem a vê de cima, da alta encumeada delas, como outro mundo baixo e cidades ali abscondidas, segundo se diz de outras incógnitas de cristãos que estão ainda por descobrir. Todas estas coisas acima ditas estão cercadas com uma cumieira alta, em partes de meia légua e em outras partes menos, dentro do qual circuito tem as alagoas, águas, arvoredos, ervas, que disse, e rosais de João Gago, e uma fresca e clara fonte onde descansam e desencalmam os que vão ver estas cidades sem gente e ermas, e estes lugares tão sós e saudosos, com muitos pássaros que ali habitam em seus ninhos antre seus ramos, e fazem aquele lugar mui alegre e saudoso com seus cantos. Estão além dos Mosteiros, da parte do ocidente.
Este pico das Sete Cidades, como tenho dito, e segundo dele diziam os antigos, depois de achada a ilha, logo naquele primeiro ano tornando o navio ao Regno, os primeiros descobridores que nela ficaram, ouviram grande trovoada e estrondo, com grandes tremores de terra; e neste tempo, na Povoação Nova que depois se chamou Velha, o sentiram arrebentar com grande força de fogo, salitre e enxofre, e dele subiu pelo ar e tornou a cair por todas aquelas terras ao redor, que dantes eram mais rasas e as fez mui altas e dependuradas; e parte correu para a banda do noroeste e ocidente, até o mar, e descendo pela rocha, fez abaixo dela uma grande fajã de até onze moios de terra boa e dela misturada com pedra e areia, onde se fez depois uma povoação e freguesia da invocação de Nossa Senhora da Concepção, que chamaram os Mosteiros. Sobre o qual lugar está seu vizinho o pico de Mafra, que de algum homem que ali morou de Mafra, lugar de Portugal, cobrou este nome, ou por ter alguma semelhança com a terra de Mafra, na altura ou no sítio; outros picos, muitos grandes e pequenos, há por todo o espaço da serra desta ilha, que não nomeio por não fazer um longo processo, nomeando somente os mais notáveis, com que está como com botões abotoada a roupa ou opa roçagante do gigante Almourol, pelo meio, do pescoço até o rabo dela, safado, que chamam os Escalvados, sem verdura sendo ela toda verde.