Como realizar uma Quarentena

Você ou um ente querido tem febre leve, dores no corpo, o início de uma tosse seca e irritante. A comida não tem gosto nem cheira como antes. Talvez sinte falta de ar ou custa respirar...

Cozer feijões velhos

feijãoQuando guardados há muito tempo (anos mesmo) ou simplesmente mal acondicionados, os feijões podem demorar tempo a mais a cozer. Mas há soluções.

A menos aconselhável é a adição de...

A Tinturaria Vegetal em Alguma Ilhas dos Açores


Carreiro da Costa, 1957

tinturariaRemonta aos primeiros decénios de vida insular, a prática dos vários processos de tinturaria caseira, servida por elementos vegetais. Tais processos encontram-se...

Cores das Ilhas

Tudo leva a crer que esta paleta de cores começou a ser formada com a visita do escritor Raul Brandão, que esteve nos Açores em 1924 e foi atribuindo a cada ilha uma determinada cor (ou...

A Amoreira e a Sericultura

 

Carreiro da Costa, 1945

De entre os problemas económicos em equação no arquipélago dos Açores, o da sericicultura é dos que mais tem apaixonado aqueles que, no decorrer dos tempos, vêm...

Agave (Babosa)

Piteira, Babosa, Agave, Agave americana L.

agaveÉ uma planta muito disseminada nos jardins de algumas ilhas. Não sabemos se o  “Agave azul” (e a sua parente “Marginata”, com folhas às riscas...

Alguns Estudos Científicos sobre Agricultura Açoriana

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Departamento de Ciências Agrárias

http://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3

 

A influência da paisagem, dos factores ambientais e taxa de infestação na densidade na...

Quando tratei da ilha da Madeira e de seus ilustres Capitães, disse como o primeiro Capitão dela, João Gonçalves Zargo, houvera de sua mulher, Constança Rodrigues de Almeida, com que casou no Reino, alguns filhos e filhas, o primeiro dos quais, João Gonçalves, herdara sua casa e foi o segundo Capitão da mesma ilha. E seu irmão, segundo filho do dito João Gonçalves Zargo, chamado Rui Gonçalves da Câmara, de que agora quero contar, foi depois terceiro Capitão desta ilha de S. Miguel porque, estando na ilha da Madeira muito rico, depois que o almirante de França alcançou da Rainha de Castela, D. Catarina com título de Rei para um Mosem ou Mossior João de Betancurt ou Betancor ou Betencor, que ganhou três delas, Lançarote, Forte Ventura e a do Ferro, sem poder conquistar a Gran-Canária pela resistência que achou nela, e faltando-lhe a despesa e gente se tornou a França, deixando ali um sobrinho, chamado Mossem Menante ou Misser Maciote de Betancor, com o mesmo título de Rei, com propósito de, em chegando, Ihe mandar gente de armas, ou tornar com ela; o qual depois de lá ser ocupado nas guerras do Rei ou da morte, não tornou nem mandou ao sobrinho algum socorro.

Vendo-se o sobrinho falto de gente e apertado da terra, vendeu o direito que tinha naquelas ilhas, com consentimento de el-Rei de Castela, ao Infante D. Henrique, por certa fazenda e pelas saboarias da ilha da Madeira, para onde se passou o dito Misser Maciote de Betancor, e como era de tanto nome e fama, veio ser tão rico que casou Rui Gonçalves da Câmara, segundo filho do Capitão João Gonçalves Zargo, com uma sua filha, chamada D. Maria Betancor, com grande dote que, junto com o de seu património, se fez Rui Gonçalves da Câmara, muito mais rico.

E, vivendo assim prosperamente com sua mulher na ilha da Madeira , foi ter a ela João Soares de Albergaria, segundo Capitão das ilhas de S. Miguel e de Santa Maria, com sua mulher, Beatriz Godiz, muito enferma, em cuja cura, fazendo muitos custos, Ihe foi necessário vender uma das ditas ilhas; e tendo para isso procuração da Capitoa, sua mulher, Ihe comprou Rui Gonçalves da Câmara esta ilha de S. Miguel, que então estava mais erma que a de Santa Maria, uns dizem que por seiscentos mil réis, outros que por setecentos mil e cem mil réis de socos; mas o certo é, segundo a informação da ilha da Madeira, que Iha comprou por dois mil cruzados em dinheiro de contado e quatro mil arrobas de açúcar, que naquele tempo devia ser boa fazenda, pois por tanto se vendia uma ilha tão grande como é esta. A qual compra e venda foi depois confirmada em a cidade de Évora pela Infanta D. Beatriz, tutor e curador do Duque D. Diogo, seu filho, que ainda naquele tempo era de pouca idade, mestre da cavalaria da Ordem de Cristo, de cujo mestrado eram estas ilhas; feita a confirmação na era do Senhor de mil e quatrocentos e setenta e quatro anos, aos dez dias de Março.

Comprada esta ilha, ficou Rui Gonçalves da Câmara Capitão, o primeiro dela só e primeiro do nome, mas terceiro em número, por haverem precedido os dois Capitães de ambas elas, de Santa Maria e desta ilha de S. Miguel, Gonçalo Velho, Comendador de Almourol, e João Soares de Albergaria, seu sobrinho, que vendeu esta ao dito Rui Gonçalves da Câmara. O qual Rui Gonçalves foi um dos bons cavaleiros do seu tempo e fez muitos serviços a el-Rei, mas não os que se contam na relação dos Capitães da ilha da Madeira, em que se afirma ser ele o de que conta o cronista Damião de Goes, na Crónica de el-Rei D. Manuel, onde se diz que esteve em África na era de mil e quinhentos e dez, no segundo cerco de Arzila, com certa gente de cavalo e de pé à sua custa, sendo outro Rui Gonçalves, seu neto e quinto Capitão desta ilha que na dita era foi Capitão, sendo este Rui Gonçalves, seu avô, já então falecido.

Veio este Rui Gonçalves da Câmara, terceiro Capitão, a povoar esta ilha de S. Miguel, e trouxe consigo sua mulher, D. Maria de Betancor, e muitos homens honrados, e três filhos naturais e uma filha também natural, porque da Capitoa, sua mulher, não teve filhos, nem filha, legítimos.

O primeiro filho natural foi João Roiz, que alguns chamam João Gonçalves da Câmara, que herdou a casa e ficou por Capitão, depois do falecimento de seu pai, como direi, quando tratar dele.

O segundo filho, Antão Roiz da Câmara, homem rico e abastado, muito cavaleiro e esforçado, e o que melhor se punha a cavalo nesta ilha, donde foi a África e lá serviu a ei-Rei alguns anos à sua própria custa, e fez coisas boas. E tornando de África, andando em requerimentos com el-Rei D. Manuel sobre seu despacho, estando el-Rei no Rocio de Lisboa com muitos fidalgos, ele na volta deles, aconteceu passar por ali um elefante com um índio que o trazia; sentindo os cavalos o faro dele se alvoroçaram, fugindo muitos deles com seus donos, caindo alguns da sela, alvoroçando-se também o cavalo de el-Rei e o de Antão Roiz da Câmara. Mas, como ele era homem de grandes espritos, extremado cavaleiro, tão consertador e sabedor para animar um cavalo que ninguém Ihe fazia avantage, temperou o cavalo da rédea e esporas, até afitar com os olhos e conhecer o que era, e seguro o cavalo bateu-Ihe as pernas tão arduamente para onde estava o elefante, que Ihe fez pôr a barba sobre o costado dele e, arrancando de um terçado que levava, deu uma espaldeirada no elefante e tornou muito recolhido e manso para onde el-Rei estava, tirando-lhe o barrete, inclinando-se-lhe todo com grande acatamento, o que el-Rei folgou muito de ver e mostrou levar gosto; e do modo com que aquilo fez, Ihe tiveram os fidalgos presentes grande inveja. Recolhido el-Rei, Ihe mandava pelo estribeiro-mor comprar o cavalo, ao que respondeu Antão Roiz que ele e o cavalo eram de Sua Alteza e que para seu serviço aí estava. Não Iho quiseram aceitar, senão que havia de ser vendido. Respondeu que não havia de vender o seu cavalo, senão fazer serviço dele a Sua Alteza. Não o querendo aceitar o estribeiro-mor, então o trouxe a esta ilha, donde o havia levado, quando foi para a África. Era ruço, rodado, muito formoso e, quando ouvia repicar os sinos, dificultosamente o podiam ter, se não estava cavalgado.

Sendo ainda solteiro, das terras que seu pai Rui Gonçalves da Câmara Ihe deu na Ribeirinha, termo da vila da Ribeira Grande, e de outras que comprou, ajuntou muita fazenda de que depois fez um rico morgado, que rende agora cem moios de trigo cada ano. Houve duas filhas naturais: Guiomar da Câmara, mãe de Rui Gago da Câmara, e Maria da Câmara, mãe de João Nunes da Câmara, vigairo e ouvidor que foi na ilha de Santa Maria, irmão de D. Dorotea, Capitoa da dita ilha, mulher do ilustre Capitão Brás Soares de Sousa que agora a governa, como em seus lugares tenho contado.

Vindo de África, casou Antão Roiz da Câmara, na corte, com D. Catarina Ferreira, por ser muito fidalga e formosa, dama da Duquesa de Bragança, e a trouxe para esta ilha de S. Miguel, onde houve dela a Rui Pereira da Câmara e a D. Mécia Pereira. Adoeceu de uma grave enfermidade; indo-se curar dela ao Reino, faleceu em Viana de Caminha, onde está enterrado; o que sabendo sua mulher D. Catarina, se foi para a Corte com os dois filhos e dali a perto de quarenta anos faleceu em Lisboa, de idade de oitenta. Rui Pereira serviu a el-Rei em África muitos anos, em muitos cargos honrosos e fez lá muitas coisas notáveis, pelo que el-Rei o tinha em muita conta, e em satisfação de seus serviços Ihe deu a Capitania de Sofala, sem nunca ter ido à Índia. Indo para lá, arribou em uma nau em que ia por capitão; chegando a Lisboa, faleceu, sendo ainda solteiro. Sucedeu no morgado sua irmã D. Mécia, que já a este tempo era casada com D. Gomes de Melo, filho de Diogo de Melo e de D. Maria Manuel; os quais houveram a D. Maria Manuel que foi para Castela por dama da Princesa, mãe de el-Rei D. Sebastião, e a D. Rodrigo de Melo, que casou com D. Antónia de Vilhana , filha de Pero de Toar e de D. Beatriz da Silva. Este herdou o morgado, por ser filho mais velho, por falecimento de sua mãe, e passando a África com el-Rei D. Sebastião, indo também lá Manuel de Noronha, seu irmão, ambos faleceram na batalha, pelo que sucedeu no morgado seu irmão D. Francisco Manuel, que pouco há veio da Índia e casou com uma filha de Francisco Carneiro.

 Houve mais Diogo de Melo, de sua mulher D. Maria Manuel, a D. Catarina de Noronha, que foi casada com Simão Ribeiro, comendador e alcaide-mor do Pombal, e a D. Ana Pereira e a D. Leonor Manuel, ambas ainda solteiras.

Tem Antão Roiz da Câmara as mesmas armas dos Câmaras, com mais dois puxavantes ao pé da torre, que são declaração de ele sempre ir avante com suas coisas, assim nas da paz, como nas da guerra.

Houve o dito Rui Gonçalves da Câmara, Capitão desta ilha de S. Miguel, o terceiro filho natural, dizem que de uma nobre mulher, de geração dos Albernazes, chamado Pedro Roiz da Câmara, o qual casou com D. Margarida de Betancor, filha de Gaspar de Betancor, da qual teve estes filhos: o primeiro, João Roiz da Câmara; o segundo, Manuel da Câmara; o terceiro, Simão da Câmara; o quarto, Anrique de Betancor; o quinto António de Sá; o sexto, Rui Gonçalves da Câmara; e teve uma filha, D. Francisca, que casou com D. António de Sousa, como logo direi.

O primeiro filho de Pedro Roiz da Câmara, chamado João Roiz da Câmara, casou a primeira vez com D. Helena, filha do contador Martim Vaz Bulhão, de que houve uma filha, chamada D. Joana, que faleceu solteira; e porque o Capitão Rui Gonçalves, segundo do nome, tinha casada a D. Helena com um filho de Sebastião Barbosa da Silva que, em a recebendo, se foi logo desta terra, houve diferenças, demandas e brigas sobre este casamento. Por esta razão, el-Rei tomou a fazenda de D. Helena e por também seu pai, o contador, Iha dever, que é a terra dos própios , que está no lugar da Relva; pelo que também João Roiz da Câmara foi a África, onde em uma batalha com os mouros, em que ele e seu irmão Manuel da Câmara se acharam, cativando os mouros ao dito Manuel da Câmara, indo-se recolhendo, pediu João Roiz ao Capitão Ihe desse licença para ir livrar seu irmão, e dizendo-lhe o Capitão que não era tempo, ele saiu sem licença, arremetendo com o cavalo e a lança enristada aos mouros, e matando do encontro a um deles, tomou o irmão por um braço e, ajudando-o a subir nas ancas do cavalo, o livrou dos imigos. Depois de livre, dizendo-lhe Manuel da Câmara: — pois irmão, como ficamos?, respondeu ele: — como dantes . E, depois de vir de África, Ihe deu el-Rei uma comenda de mais de cem mil réis na Beira, no lugar que se chama Os Trinta, no pé da Serra da Estrela, onde estando à hora, ou antes da hora, de sua morte, casou com D. Catarina, da qual houve estes filhos: o primeiro, Rui Gonçalves da Câmara, que faleceu solteiro na Índia em serviço de el-Rei, tendo vinte anos de serviço em que tinha feitas grandes sortes; e tendo-Ihe el-Rei dado despacho para ser capitão de uma fortaleza, sem o ele saber, em uma batalha o mataram. O segundo, Bernardim da Câmara, muito esforçado cavaleiro e valente soldado, que casou na Vila do Nordeste. O terceiro, Apolinário da Câmara, também de grandes forças e valentia, que foi com el-Rei D. Sebastião à guerra de África, onde o cativaram e não se sabe se é falecido.

Teve mais João Roiz da Câmara três filhas: a primeira, D. Guiomar, que indo para Castela ter com sua tia, que a fazia dama da Imperatriz na Corte, faleceu no caminho. A segunda, D. Beatriz, que também foi para Castela, onde está casada com um grande e poderoso fidalgo, a que não soube o nome. A terceira, D. Margarida, que casou com Pedro Roiz de Sousa, filho de Baltasar Roiz, de Santa Clara, e faleceu sem ter filhos.

O segundo filho de Pedro Roiz, Manuel da Câmara, faleceu solteiro na Índia, ataúde de homens fidalgos e honrados, em serviço de el-Rei; teve um filho natural.

O terceiro, Simão da Câmara, andava na Corte, sendo tão grande sabedor e astrólogo, que estando para falecer o grande piloto e astrólogo Simão Fernandes, disse- lhe el-Rei: — se morrerdes, que nos ficará? Respondeu ele: — se Simão morre, Simão fica —; dizendo isto pelo Simão da Câmara, o qual faleceu na Corte, solteiro.

O quarto, Anrique de Betancor de Sá, morador que foi na vila da Ribeira Grande, que andou na Corte muito tempo e casou com D. Simoa, filha de Baltasar Vaz de Sousa e de Leonor Manuel, de que houve estes filhos: O primeiro, Rui Gonçalves da Câmara, que casou com D. Luzia, filha de Hierónimo Jorge e de Beatriz de Viveiros, de que tem um filho e quatro filhas, três delas já freiras noviças no mosteiro de Jesus, da vila da Ribeira Grande. É fidalgo de magnífica condição, com que agasalhava muitos hóspedes que quase nunca em sua casa faltam; manso e macio para todos. O segundo filho, Manuel da Câmara, casou com dispensação com D. Maria, filha de Rui Gago da Câmara, sua parente, e de Isabel Botelho, de quem tem um filho e uma filha. O terceiro, Francisco de Sá, faleceu solteiro. O quarto, Anrique da Câmara, ainda solteiro, de grandes forças, bom cavaleiro e valente soldado que, andando na Índia em serviço de el-Rei, faleceu há pouco. Teve mais Anrique de Betancor de sua mulher D. Simoa sete filhas, três faleceram solteiras e uma sendo já professa; e tem agora duas freiras professas no mosteiro de Jesus, da vila da Ribeira Grande, chamadas Beatriz da Anunciação e Ângela do Paraíso, de muita virtude. E outra filha, chamada D. Margarida, que casou com Cristóvão Dias, nobre e rico, da cidade da Ponta Delgada.

O quinto filho de Pedro Roiz da Câmara, António de Sá, faleceu solteiro na vila da Ribeira Grande.

O sexto filho de Pedro Roiz da Câmara faleceu também solteiro na ilha da Madeira.

A filha de Pedro Roiz da Câmara e de D. Margarida de Betancor, sua mulher, chamada D. Francisca, casou com D. António de Sousa, viúvo, fidalgo, dos Sousas do Regno, que foi muitos anos vereador na cidade de Lisboa, homem de que el-Rei se servia em muitas coisas.

Deu-lhe Pedro Roiz em casamento propriedade no Morro e no monte de Trigo, que está junto da vila da Ribeira Grande, que rendia cinquenta moios de trigo cada ano, que com o mais que Ihe deram passava de dez mil cruzados.

Era D. António de Sousa irmão do Conde do Prado e de D. Maria de Távora, mulher de Pedro Álvares Carvalho, que foi capitão de Alcácer-Ceguer, que se largou aos mouros, do qual Ihe ficaram filhos, sc., Álvaro de Carvalho, Bernardim de Carvalho e Rui de Sousa, grandes capitães de lugares de África. O primeiro filho de D. António de Sousa, que Ihe ficou da primeira mulher, chamavam D. Martinho de Sousa, primeiro morgado: o segundo, D. Jorge de Sousa, os quais foram à Índia por capitães de naus, cada um, duas vezes. Teve o dito D. António de Sousa, da segunda mulher D. Francisca, filha de Pedro Roiz da Câmara, quatro filhos: o mais velho, D. Pedro de Sousa, comendador de Cristo, muito privado de el-Rei D. João, terceiro do nome; o segundo filho se chamava D. João, ambos bons cavaleiros e gentis-homens, que faleceram solteiros. O terceiro, D. Dinis de Sousa, que casou no Reino, e nele ficou encabeçada toda a fazenda que herdou do pai e da mãe aqui nesta ilha, que houveram de Pedro Roiz da Câmara e de D. Margarida de Betancor; o qual D. Dinis tem alguns filhos e fi!has, a que não soube o nome.

Teve Pedro Roiz da Câmara de sua mulher D. Margarida de Betancor de Sá outra filha, chamada D. Maria da Câmara, que faleceu solteira, caindo de uma janela de casa, por querer colher uma pera de uma pereira que junto dela estava, da qual queda se Ihe causou a morte dali a poucos dias.

Era Pedro Roiz da Câmara bem apessoado, grave e gentil homem, e liberalíssimo de condição. Fez no assento e pomar de suas casas, na vila da Ribeira Grande, um mosteiro de freiras observantes, da invocacão de Jesus, onde estão muitas e virtuosas religiosas suas parentas, e nele está sepultado. Deixou-Ihe dezoito moios de renda na sua fazenda da Achada, e trinta mil réis que Ihe ficaram de seu pai, de juro, na ilha da Madeira. Deixou certa renda ao Esprital da vila da Ribeira Grande. Dando cada um do povo, a quem mais daria, para a igreja matriz de Nossa Senhora da Estrela da dita vila, para que se fazia finta, e, ficando baixa, ele Ihe mandou acrescentar cinco palmos à sua custa e deu um cálice grande, dourado, com suas campainhas, e um pontifical de damasco rosado para a mesma igreja, e dizem que outro para a igreja da Maia. Foi logo — tente do Capitão Rui Gonçalves, seu sobrinho, e governou a Capitania sete anos, em sua absência, com muita paz e justiça, deixando de si bom exemplo e nome, distribuindo com grande liberalidade sua fazenda, que era muita, porque quando casou tinha, cada ano, cento e cinquenta moios de trigo de renda, afora outra muita que depois Ihe cresceu; e sua mulher, D. Margarida de Betancor, filha de Gaspar de Betancor, vivendo com muita virtude, faleceu vinte anos depois dele.

Teve mais o primeiro Capitão Rui Gonçalves da Câmara uma filha natural, chamada D. Beatriz, que casou com um fidalgo que veio muito rico da Índia, chamado Francisco da Cunha, dos Cunhas do Regno, que dizem ter este apelido do primeiro, que sendo alferes de uma capitania, em uma batalha, e sendo maltratados os de sua parte dos contrairos, indo já quase vencidos, vendo este alferes o desbarato dos seus, meteu a bandeira em uma fenda de uma pedra, acunhando-a com outras, e foi pelejar com os imigos tão valorosamente que com sua ajuda alcançaram vitória. E acabada a batalha, vendo o capitão o seu alferes consigo, sem bandeira, Ihe perguntou por ela; respondeu ele que bem acunhada a deixara; pelo que Ihe fez el-Rei mercês e Ihe deu este apelido de Cunhas, para si e seus sucessores. Este fidalgo Francisco da Cunha houve de sua mulher D. Beatriz uma filha, chamada D. Guiomar da Cunha, que casou com João Soares, terceiro Capitão da ilha de Santa Maria e segundo do nome, que houve os filhos já ditos, quando tratei da dita ilha de Santa Maria, pelo que ficaram os Capitães destas duas ilhas liados com estreito parentesco.

Estando o Infante D. Henrique em Sagres favorecendo o descobrimento destas ilhas, como tenho dito, comprou a Misser Maciote de Betancor, Rei das Canárias, e Ihe deu pelo que tinha delas subjugado e direito da empresa as saboarias da ilha da Madeira e vinte e cinco mil réis de juro na alfândega, e por dadas as Lombas dos Esmeraldos e a Ribeira de Água de Mel, sobre o Funchal. Com isto se passou o dito Maciote de Betancor à ilha da Madeira e casou sua filha, D. Maria de Betancor, com Rui Gonçalves da Câmara, segundo filho do primeiro Capitão dela, João Gonçalves Zargo; o qual Rui Gonçalves, comprando esta ilha a João Soares de Albergaria, segundo Capitão da ilha de Santa Maria, se passou a ela com sua mulher e como dentre eles não houve filhos legítimos, por razão de João Roiz da Câmara, filho natural mais velho do dito Rui Gonçalves da Câmara, ficar encabeçado na Capitania e jurdição, fizeram partilha em sua vida, ele e sua mulher, D. Maria de Betancor, que ela ficasse com cento e cinquenta mil réis de foro cada um ano, para sempre, nas Lombadas dos Esmeraldos, seus foreiros, por eles mesmos Ihas aforarem, quando da ilha da Madeira se vieram com a compra desta ilha, com mais a Ribeira de Água do Mel e com trinta mil réis de renda de foros em Vila Franca do Campo desta mesma ilha, que tudo o que agora rende, esta parte de D. Maria de Betancor, importa dois mil cruzados cada ano, que ela fez em morgado, encabeçado em Gaspar de Betancor, seu sobrinho, filho de sua irmã, que mandou vir da ilha da Madeira para nesta Ihe fazer companhia, por não ter aqui parente nenhum, em vida de seu marido Rui Gonçalves, e daí em seus descendentes, no filho mais velho. E seu marido Rui Gonçalves ficou com a Capitania, que então importava tão pouco que, para ficar igualado na partilha com sua mulher, ficou com mais o quarto da fazenda que se chama Ribeira de Água do Mel, sobre a cidade do Funchal, na ilha da Madeira.

Esta D. Maria de Betancor, francesa, nesta terra, ou por humildade, ou pelo muito que deixara das ilhas Canárias e isto ser pouco naquele tempo, ou por descender de geração dos Reis nunca se nomeou por Capitoa, nem ninguém Ihe chamava senão D. Maria; era muito formosa e liberal. Deixou em Vila Franca, para o concelho da mesma vila, dois moios de terra que está arriba da vila e parte da banda do sul com os Pomares, e da banda de levante com uma grota que vai antre a fazenda de Rui Gago da Câmara e a própria terra do concelho, e da banda do ponente com terra foreira do mosteiro dos frades de Nossa Senhora, e do norte com terras que foram de João d’Outeiro, a qual terra deixou que rendesse para as coisas do concelho, com condição que os gados, que viessem de caminho, pudessem dormir ali uma noite e mais não, e nunca andassem éguas nem fêmeas nela. Mandou também fazer uma capela no Funchal, no mosteiro de S. Francisco, no cruzeiro à mão direita, onde disse que levassem sua ossada. Dizem alguns que depois faleceu, e outros que primeiro, que o Capitão seu marido, alguns anos; que foi enterrado , segundo alguns dizem, na capela do mosteiro de S. Francisco; mas outros afirmam que na capela-mor da igreja matriz do Arcanjo S. Miguel, que havia antes da subversão de Vila Franca.

Tinha este Capitão Rui Gonçalves seu assento principal em Vila Franca do Campo, onde residia o mais do tempo, por ser então única vila nesta ilha. Era homem bem apessoado, grande e grosso, discreto e solícito em fazer cultivar e povoar a terra, visitando-a pessoalmente muitas vezes, só, a cavalo, vestido com uma peliça de martas e uma touca na cabeça, como naquele tempo se costumava, e com um cão grande detrás de si, chamado Temido, sem trazer outros pages consigo, e algumas vezes andava em uma mula, dando ordem à sua gente que roçavam as terras, que agora possuem os Capitães seus sucessores, que são a Salga e a Criação, chamada assim porque criava nela seu gado, perto dos Fenais da Chada, onde ele morava algum tempo, com sua mulher e família.

Este Capitão Rui Gonçalves da Câmara me parece que mandou vir de Guiné, ou da ilha da Madeira, as galinhas chamadas de Guiné, que nesta ilha multiplicaram muito e duraram pouco.

Repartiu a maior parte das dadas ou doações das terras desta ilha, de sesmaria, que é desta maneira: quando dava o Capitão dada ou fazia alguma repartição de terra nova, povoada de mato e espesso arvoredo, a alguma pessoa, de obrigação, na terra que Ihe davam fazia curral e cafua, curral para gado e casa para morar, e tudo era para tomar posse do que recebia; e dentro em cinco anos eram obrigados, estes moradores e possuidores, a terem terra feita e roçada a maior e melhor parte daquela que Ihe era dada e eles recebiam; e não o fazendo assim, dentro no termo de cinco anos, ia outro pedir ou o Capitão podia dar a outrem aquela terra, e a dava, porque o primeiro não fazia benfeitoria nela.

Chamava-se terra de sesmaria, uns dizem que porque no sexto ano ficava livre do que a não aproveitara em cinco; de seis se chamava seismaria. Outros dão outras razões não tão boas. Pode ser que se diz terra dada de sesmaria, deste verbo ou desta palavra scemo em italiano, em que estas letras juntas só soam x e se há-de pronunciar xemo, que quere dizer dividido ou dividir, roçar, cortar, cultivar, porque a terra, dividida e repartida por muitos, para isso se dava, para se aproveitar, cortando- a, roçando-a e cultivando-a, que isto quere dizer scemo; e para fazer isto e os homens a quem se davam terem cuidado, era necessário pôr-lhe termo em que as beneficiassem, com pena de as perderem e ficarem devolutas e livres para as darem a outros colonos e lavradores, que as fizessem dar fruto. O mesmo quere dizer este vocábulo scemato, dividido ou cortado. Também se pode com mais razão dizer que deste nome scisma se disse sesmaria, porque se dividem as terras por cada um, que dantes estavam juntamente devolutas e comuns a todos, em uma comunidade, porque scisma se diz deste verbo scindo, scindis, que quere dizer cortar, e scisma, que quere dizer cortadura ou coisa cortada e parte dividida do todo, como se dividiu esta ilha no princípio, dando de scismaria e divisão ou partilha, a cada um dos que a vinham povoar, sua parte.

Fez seu testamento Rui Gonçalves da Câmara, filho do primeiro Capitão da ilha da Madeira, aos 21 dias do mês de Novembro da era de mil e quatrocentos e noventa e sete anos, em Vila Franca do Campo desta ilha de S. Miguel, estando enfermo em cama, da qual enfermidade faleceu, havendo bem governado a capitania vinte e um anos, pelo que parece que começou a governar na era de mil e quatrocentos e setenta e quatro anos, quando foi confirmada a compra e venda desta ilha por el-Rei D. Afonso, o quinto, e governando-a vinte e um anos, faleceu na era de mil e quatrocentos e noventa e sete ou oito, pouco mais ou menos. Deixou por herdeiro da Capitania a João Roiz da Câmara, seu filho, tendo-o já dantes nomeado também na sua legitimação, da maneira que era dada e confirmada pelos Infantes e Duques e Reis passados, e por el-Rei D. Manuel que então reinava, e depois por seus sucessores.

Toda outra fazenda e herança, que tinha em qualquer parte e lugar, tomou para se distribuir por sua alma e para pagar o que devesse.

Deixou por seu testemanteiro a João Roiz, seu filho.

Foi enterrado seu corpo dentro na capela-mor da igreja do Arcanjo S. Miguel, na sepultura onde jazia já sua mulher, a Capitoa D. Maria de Betancor, de que encarregou a seu filho que houvesse licença de el-Rei para se enterrar na capela-mor, que ele chamava capela dos grandes trabalhos, pelos que teve e pelas despesas grandes que fez em fazer povoar esta ilha.

Neste testamento deixou seis escravas, que tinha prometido em casamento, a seu genro Francisco da Cunha.

Deixou um anal de missa quotidiana na capela-mor onde seu corpo se enterrasse, e obrigou para isso o quarto da fazenda da Ribeira de Água do Mel, da ilha da Madeira, e as mais rendas que tinha; e o remanescente de sua terça se distribuísse cada ano por pobres, como se faz.

Era este Capitão Rui Gonçalves da Câmara, primeiro do nome, mui temente a Deus e de boa consciência, e assim fez o seu testamento como muito amigo de Deus, segundo dele se pode bem coligir.

No dito testamento se vê que o dito Capitão Rui Gonçalves e Gaspar de Betancor ficaram por testamenteiros de D. Maria de Betancor, sua mulher, primeira Capitoa desta ilha, depois que se apartou a capitania da ilha de Santa Maria, mandando-lhe que o dito cargo de testamenteiro ficasse aos descendentes de Gaspar de Betancor, filho, neto, bisneto e mais descendentes; e assim nomeou o dito Rui Gonçalves, primeiro Capitão, por testamenteiro depois da morte de Gaspar de Betancor a seu filho João de Betancor, e depois seus filhos, netos e bisnetos, declarando que era melhor sê-lo uma só pessoa que duas, como mandava D. Maria, sua mulher, em seu testamento, que diz que fossem testamenteiros o dito seu marido e Gaspar de Betancor, e por falecimento de seu marido nomeasse uma pessoa que fosse com Gaspar de Betancor.

Estava esta quinta da Ribeira do Mel aforada por setenta mil réis cada ano; a qual teve Gaspar de Betancor e seus descendentes, que é como morgado, e agora rende muito mais.

 O Capitão Manuel da Câmara, bisneto deste Capitão Rui Gonçalves, comprou depois um quinhão de vinte mil réis de renda que tinha Luís da Silva de Meneses, fidalgo, e D. Maria, sua mulher, na quinta de Água do Mel, da ilha da Madeira, os quais vinte mil réis herdam por morte de João Brandão, seu pai.

Nos derradeiros dias deste ilustre Capitão Rui Gonçalves da Câmara se fez alardo geral, por seu mandado, nesta ilha, das armas que nela havia, porquanto os andaluzes, naquele tempo das guerras de Castela com Portugal, vivendo el-Rei D. João, segundo do nome, soíam vir por estas ilhas, em armadas, a roubar e fazer entradas, principalmente e sendo avisado o dito Capitão de certa armada que vinha para entrar nesta ilha de S. Miguel; e se acharam nela cento e setenta lanças de costa, que tiveram em muito, e trinta e seis gibanetes que o mesmo Capitão, por seu dinheiro, mandou pedir ao Capitão da ilha da Madeira, seu irmão, e sobre isso escreveu uma carta a el-Rei, dando-lhe conta do ânimo dos moradores desta terra e da razão que havia para Sua Alteza fazer mercês e dar liberdades aos fidalgos, cavaleiros e homens honrados pelo muito esforço que neles achara, para defensão da terra e seu serviço.

Quando tratei da ilha da Madeira e de seus ilustres Capitães, disse como o primeiro Capitão dela, João Gonçalves Zargo, houvera de sua mulher, Constança Rodrigues de Almeida, com que casou no Reino, alguns filhos e filhas, o primeiro dos quais, João Gonçalves, herdara sua casa e foi o segundo Capitão da mesma ilha. E seu irmão, segundo filho do dito João Gonçalves Zargo, chamado Rui Gonçalves da Câmara, de que agora quero contar, foi depois terceiro Capitão desta ilha de S. Miguel porque, estando na ilha da Madeira muito rico, depois que o almirante de França alcançou da Rainha de Castela, D. Catarina com título de Rei para um Mosem ou Mossior João de Betancurt ou Betancor ou Betencor, que ganhou três delas, Lançarote, Forte Ventura e a do Ferro, sem poder conquistar a Gran-Canária pela resistência que achou nela, e faltando-lhe a despesa e gente se tornou a França, deixando ali um sobrinho, chamado Mossem Menante ou Misser Maciote de Betancor, com o mesmo título de Rei, com propósito de, em chegando, Ihe mandar gente de armas, ou tornar com ela; o qual depois de lá ser ocupado nas guerras do Rei ou da morte, não tornou nem mandou ao sobrinho algum socorro.

Vendo-se o sobrinho falto de gente e apertado da terra, vendeu o direito que tinha naquelas ilhas, com consentimento de el-Rei de Castela, ao Infante D. Henrique, por certa fazenda e pelas saboarias da ilha da Madeira, para onde se passou o dito Misser Maciote de Betancor, e como era de tanto nome e fama, veio ser tão rico que casou Rui Gonçalves da Câmara, segundo filho do Capitão João Gonçalves Zargo, com uma sua filha, chamada D. Maria Betancor, com grande dote que, junto com o de seu património, se fez Rui Gonçalves da Câmara, muito mais rico.

E, vivendo assim prosperamente com sua mulher na ilha da Madeira , foi ter a ela João Soares de Albergaria, segundo Capitão das ilhas de S. Miguel e de Santa Maria, com sua mulher, Beatriz Godiz, muito enferma, em cuja cura, fazendo muitos custos, Ihe foi necessário vender uma das ditas ilhas; e tendo para isso procuração da Capitoa, sua mulher, Ihe comprou Rui Gonçalves da Câmara esta ilha de S. Miguel, que então estava mais erma que a de Santa Maria, uns dizem que por seiscentos mil réis, outros que por setecentos mil e cem mil réis de socos; mas o certo é, segundo a informação da ilha da Madeira, que Iha comprou por dois mil cruzados em dinheiro de contado e quatro mil arrobas de açúcar, que naquele tempo devia ser boa fazenda, pois por tanto se vendia uma ilha tão grande como é esta. A qual compra e venda foi depois confirmada em a cidade de Évora pela Infanta D. Beatriz, tutor e curador do Duque D. Diogo, seu filho, que ainda naquele tempo era de pouca idade, mestre da cavalaria da Ordem de Cristo, de cujo mestrado eram estas ilhas; feita a confirmação na era do Senhor de mil e quatrocentos e setenta e quatro anos, aos dez dias de Março.

Comprada esta ilha, ficou Rui Gonçalves da Câmara Capitão, o primeiro dela só e primeiro do nome, mas terceiro em número, por haverem precedido os dois Capitães de ambas elas, de Santa Maria e desta ilha de S. Miguel, Gonçalo Velho, Comendador de Almourol, e João Soares de Albergaria, seu sobrinho, que vendeu esta ao dito Rui Gonçalves da Câmara. O qual Rui Gonçalves foi um dos bons cavaleiros do seu tempo e fez muitos serviços a el-Rei, mas não os que se contam na relação dos Capitães da ilha da Madeira, em que se afirma ser ele o de que conta o cronista Damião de Goes, na Crónica de el-Rei D. Manuel, onde se diz que esteve em África na era de mil e quinhentos e dez, no segundo cerco de Arzila, com certa gente de cavalo e de pé à sua custa, sendo outro Rui Gonçalves, seu neto e quinto Capitão desta ilha que na dita era foi Capitão, sendo este Rui Gonçalves, seu avô, já então falecido.

Veio este Rui Gonçalves da Câmara, terceiro Capitão, a povoar esta ilha de S. Miguel, e trouxe consigo sua mulher, D. Maria de Betancor, e muitos homens honrados, e três filhos naturais e uma filha também natural, porque da Capitoa, sua mulher, não teve filhos, nem filha, legítimos.

O primeiro filho natural foi João Roiz, que alguns chamam João Gonçalves da Câmara, que herdou a casa e ficou por Capitão, depois do falecimento de seu pai, como direi, quando tratar dele.

O segundo filho, Antão Roiz da Câmara, homem rico e abastado, muito cavaleiro e esforçado, e o que melhor se punha a cavalo nesta ilha, donde foi a África e lá serviu a ei-Rei alguns anos à sua própria custa, e fez coisas boas. E tornando de África, andando em requerimentos com el-Rei D. Manuel sobre seu despacho, estando el-Rei no Rocio de Lisboa com muitos fidalgos, ele na volta deles, aconteceu passar por ali um elefante com um índio que o trazia; sentindo os cavalos o faro dele se alvoroçaram, fugindo muitos deles com seus donos, caindo alguns da sela, alvoroçando-se também o cavalo de el-Rei e o de Antão Roiz da Câmara. Mas, como ele era homem de grandes espritos, extremado cavaleiro, tão consertador e sabedor para animar um cavalo que ninguém Ihe fazia avantage, temperou o cavalo da rédea e esporas, até afitar com os olhos e conhecer o que era, e seguro o cavalo bateu-Ihe as pernas tão arduamente para onde estava o elefante, que Ihe fez pôr a barba sobre o costado dele e, arrancando de um terçado que levava, deu uma espaldeirada no elefante e tornou muito recolhido e manso para onde el-Rei estava, tirando-lhe o barrete, inclinando-se-lhe todo com grande acatamento, o que el-Rei folgou muito de ver e mostrou levar gosto; e do modo com que aquilo fez, Ihe tiveram os fidalgos presentes grande inveja. Recolhido el-Rei, Ihe mandava pelo estribeiro-mor comprar o cavalo, ao que respondeu Antão Roiz que ele e o cavalo eram de Sua Alteza e que para seu serviço aí estava. Não Iho quiseram aceitar, senão que havia de ser vendido. Respondeu que não havia de vender o seu cavalo, senão fazer serviço dele a Sua Alteza. Não o querendo aceitar o estribeiro-mor, então o trouxe a esta ilha, donde o havia levado, quando foi para a África. Era ruço, rodado, muito formoso e, quando ouvia repicar os sinos, dificultosamente o podiam ter, se não estava cavalgado.

Sendo ainda solteiro, das terras que seu pai Rui Gonçalves da Câmara Ihe deu na Ribeirinha, termo da vila da Ribeira Grande, e de outras que comprou, ajuntou muita fazenda de que depois fez um rico morgado, que rende agora cem moios de trigo cada ano. Houve duas filhas naturais: Guiomar da Câmara, mãe de Rui Gago da Câmara, e Maria da Câmara, mãe de João Nunes da Câmara, vigairo e ouvidor que foi na ilha de Santa Maria, irmão de D. Dorotea, Capitoa da dita ilha, mulher do ilustre Capitão Brás Soares de Sousa que agora a governa, como em seus lugares tenho contado.

Vindo de África, casou Antão Roiz da Câmara, na corte, com D. Catarina Ferreira, por ser muito fidalga e formosa, dama da Duquesa de Bragança, e a trouxe para esta ilha de S. Miguel, onde houve dela a Rui Pereira da Câmara e a D. Mécia Pereira. Adoeceu de uma grave enfermidade; indo-se curar dela ao Reino, faleceu em Viana de Caminha, onde está enterrado; o que sabendo sua mulher D. Catarina, se foi para a Corte com os dois filhos e dali a perto de quarenta anos faleceu em Lisboa, de idade de oitenta. Rui Pereira serviu a el-Rei em África muitos anos, em muitos cargos honrosos e fez lá muitas coisas notáveis, pelo que el-Rei o tinha em muita conta, e em satisfação de seus serviços Ihe deu a Capitania de Sofala, sem nunca ter ido à Índia. Indo para lá, arribou em uma nau em que ia por capitão; chegando a Lisboa, faleceu, sendo ainda solteiro. Sucedeu no morgado sua irmã D. Mécia, que já a este tempo era casada com D. Gomes de Melo, filho de Diogo de Melo e de D. Maria Manuel; os quais houveram a D. Maria Manuel que foi para Castela por dama da Princesa, mãe de el-Rei D. Sebastião, e a D. Rodrigo de Melo, que casou com D. Antónia de Vilhana , filha de Pero de Toar e de D. Beatriz da Silva. Este herdou o morgado, por ser filho mais velho, por falecimento de sua mãe, e passando a África com el-Rei D. Sebastião, indo também lá Manuel de Noronha, seu irmão, ambos faleceram na batalha, pelo que sucedeu no morgado seu irmão D. Francisco Manuel, que pouco há veio da Índia e casou com uma filha de Francisco Carneiro.

Houve mais Diogo de Melo, de sua mulher D. Maria Manuel, a D. Catarina de Noronha, que foi casada com Simão Ribeiro, comendador e alcaide-mor do Pombal, e a D. Ana Pereira e a D. Leonor Manuel, ambas ainda solteiras.

Tem Antão Roiz da Câmara as mesmas armas dos Câmaras, com mais dois puxavantes ao pé da torre, que são declaração de ele sempre ir avante com suas coisas, assim nas da paz, como nas da guerra.

Houve o dito Rui Gonçalves da Câmara, Capitão desta ilha de S. Miguel, o terceiro filho natural, dizem que de uma nobre mulher, de geração dos Albernazes, chamado Pedro Roiz da Câmara, o qual casou com D. Margarida de Betancor, filha de Gaspar de Betancor, da qual teve estes filhos: o primeiro, João Roiz da Câmara; o segundo, Manuel da Câmara; o terceiro, Simão da Câmara; o quarto, Anrique de Betancor; o quinto António de Sá; o sexto, Rui Gonçalves da Câmara; e teve uma filha, D. Francisca, que casou com D. António de Sousa, como logo direi.

O primeiro filho de Pedro Roiz da Câmara, chamado João Roiz da Câmara, casou a primeira vez com D. Helena, filha do contador Martim Vaz Bulhão, de que houve uma filha, chamada D. Joana, que faleceu solteira; e porque o Capitão Rui Gonçalves, segundo do nome, tinha casada a D. Helena com um filho de Sebastião Barbosa da Silva que, em a recebendo, se foi logo desta terra, houve diferenças, demandas e brigas sobre este casamento. Por esta razão, el-Rei tomou a fazenda de D. Helena e por também seu pai, o contador, Iha dever, que é a terra dos própios , que está no lugar da Relva; pelo que também João Roiz da Câmara foi a África, onde em uma batalha com os mouros, em que ele e seu irmão Manuel da Câmara se acharam, cativando os mouros ao dito Manuel da Câmara, indo-se recolhendo, pediu João Roiz ao Capitão Ihe desse licença para ir livrar seu irmão, e dizendo-lhe o Capitão que não era tempo, ele saiu sem licença, arremetendo com o cavalo e a lança enristada aos mouros, e matando do encontro a um deles, tomou o irmão por um braço e, ajudando-o a subir nas ancas do cavalo, o livrou dos imigos. Depois de livre, dizendo-lhe Manuel da Câmara: — pois irmão, como ficamos?, respondeu ele: — como dantes . E, depois de vir de África, Ihe deu el-Rei uma comenda de mais de cem mil réis na Beira, no lugar que se chama Os Trinta, no pé da Serra da Estrela, onde estando à hora, ou antes da hora, de sua morte, casou com D. Catarina, da qual houve estes filhos: o primeiro, Rui Gonçalves da Câmara, que faleceu solteiro na Índia em serviço de el-Rei, tendo vinte anos de serviço em que tinha feitas grandes sortes; e tendo-Ihe el-Rei dado despacho para ser capitão de uma fortaleza, sem o ele saber, em uma batalha o mataram. O segundo, Bernardim da Câmara, muito esforçado cavaleiro e valente soldado, que casou na Vila do Nordeste. O terceiro, Apolinário da Câmara, também de grandes forças e valentia, que foi com el-Rei D. Sebastião à guerra de África, onde o cativaram e não se sabe se é falecido.

Teve mais João Roiz da Câmara três filhas: a primeira, D. Guiomar, que indo para Castela ter com sua tia, que a fazia dama da Imperatriz na Corte, faleceu no caminho. A segunda, D. Beatriz, que também foi para Castela, onde está casada com um grande e poderoso fidalgo, a que não soube o nome. A terceira, D. Margarida, que casou com Pedro Roiz de Sousa, filho de Baltasar Roiz, de Santa Clara, e faleceu sem ter filhos.

O segundo filho de Pedro Roiz, Manuel da Câmara, faleceu solteiro na Índia, ataúde de homens fidalgos e honrados, em serviço de el-Rei; teve um filho natural.

O terceiro, Simão da Câmara, andava na Corte, sendo tão grande sabedor e astrólogo, que estando para falecer o grande piloto e astrólogo Simão Fernandes, disse- lhe el-Rei: — se morrerdes, que nos ficará? Respondeu ele: — se Simão morre, Simão fica —; dizendo isto pelo Simão da Câmara, o qual faleceu na Corte, solteiro.

O quarto, Anrique de Betancor de Sá, morador que foi na vila da Ribeira Grande, que andou na Corte muito tempo e casou com D. Simoa, filha de Baltasar Vaz de Sousa e de Leonor Manuel, de que houve estes filhos: O primeiro, Rui Gonçalves da Câmara, que casou com D. Luzia, filha de Hierónimo Jorge e de Beatriz de Viveiros, de que tem um filho e quatro filhas, três delas já freiras noviças no mosteiro de Jesus, da vila da Ribeira Grande. É fidalgo de magnífica condição, com que agasalhava muitos hóspedes que quase nunca em sua casa faltam; manso e macio para todos. O segundo filho, Manuel da Câmara, casou com dispensação com D. Maria, filha de Rui Gago da Câmara, sua parente, e de Isabel Botelho, de quem tem um filho e uma filha. O terceiro, Francisco de Sá, faleceu solteiro. O quarto, Anrique da Câmara, ainda solteiro, de grandes forças, bom cavaleiro e valente soldado que, andando na Índia em serviço de el-Rei, faleceu há pouco. Teve mais Anrique de Betancor de sua mulher D. Simoa sete filhas, três faleceram solteiras e uma sendo já professa; e tem agora duas freiras professas no mosteiro de Jesus, da vila da Ribeira Grande, chamadas Beatriz da Anunciação e Ângela do Paraíso, de muita virtude. E outra filha, chamada D. Margarida, que casou com Cristóvão Dias, nobre e rico, da cidade da Ponta Delgada.

O quinto filho de Pedro Roiz da Câmara, António de Sá, faleceu solteiro na vila da Ribeira Grande.

O sexto filho de Pedro Roiz da Câmara faleceu também solteiro na ilha da Madeira.

A filha de Pedro Roiz da Câmara e de D. Margarida de Betancor, sua mulher, chamada D. Francisca, casou com D. António de Sousa, viúvo, fidalgo, dos Sousas do Regno, que foi muitos anos vereador na cidade de Lisboa, homem de que el-Rei se servia em muitas coisas.

Deu-lhe Pedro Roiz em casamento propriedade no Morro e no monte de Trigo, que está junto da vila da Ribeira Grande, que rendia cinquenta moios de trigo cada ano, que com o mais que Ihe deram passava de dez mil cruzados.

Era D. António de Sousa irmão do Conde do Prado e de D. Maria de Távora, mulher de Pedro Álvares Carvalho, que foi capitão de Alcácer-Ceguer, que se largou aos mouros, do qual Ihe ficaram filhos, sc., Álvaro de Carvalho, Bernardim de Carvalho e Rui de Sousa, grandes capitães de lugares de África. O primeiro filho de D. António de Sousa, que Ihe ficou da primeira mulher, chamavam D. Martinho de Sousa, primeiro morgado: o segundo, D. Jorge de Sousa, os quais foram à Índia por capitães de naus, cada um, duas vezes. Teve o dito D. António de Sousa, da segunda mulher D. Francisca, filha de Pedro Roiz da Câmara, quatro filhos: o mais velho, D. Pedro de Sousa, comendador de Cristo, muito privado de el-Rei D. João, terceiro do nome; o segundo filho se chamava D. João, ambos bons cavaleiros e gentis-homens, que faleceram solteiros. O terceiro, D. Dinis de Sousa, que casou no Reino, e nele ficou encabeçada toda a fazenda que herdou do pai e da mãe aqui nesta ilha, que houveram de Pedro Roiz da Câmara e de D. Margarida de Betancor; o qual D. Dinis tem alguns filhos e fi!has, a que não soube o nome.

Teve Pedro Roiz da Câmara de sua mulher D. Margarida de Betancor de Sá outra filha, chamada D. Maria da Câmara, que faleceu solteira, caindo de uma janela de casa, por querer colher uma pera de uma pereira que junto dela estava, da qual queda se Ihe causou a morte dali a poucos dias.

Era Pedro Roiz da Câmara bem apessoado, grave e gentil homem, e liberalíssimo de condição. Fez no assento e pomar de suas casas, na vila da Ribeira Grande, um mosteiro de freiras observantes, da invocacão de Jesus, onde estão muitas e virtuosas religiosas suas parentas, e nele está sepultado. Deixou-Ihe dezoito moios de renda na sua fazenda da Achada, e trinta mil réis que Ihe ficaram de seu pai, de juro, na ilha da Madeira. Deixou certa renda ao Esprital da vila da Ribeira Grande. Dando cada um do povo, a quem mais daria, para a igreja matriz de Nossa Senhora da Estrela da dita vila, para que se fazia finta, e, ficando baixa, ele Ihe mandou acrescentar cinco palmos à sua custa e deu um cálice grande, dourado, com suas campainhas, e um pontifical de damasco rosado para a mesma igreja, e dizem que outro para a igreja da Maia. Foi logo — tente do Capitão Rui Gonçalves, seu sobrinho, e governou a Capitania sete anos, em sua absência, com muita paz e justiça, deixando de si bom exemplo e nome, distribuindo com grande liberalidade sua fazenda, que era muita, porque quando casou tinha, cada ano, cento e cinquenta moios de trigo de renda, afora outra muita que depois Ihe cresceu; e sua mulher, D. Margarida de Betancor, filha de Gaspar de Betancor, vivendo com muita virtude, faleceu vinte anos depois dele.

Teve mais o primeiro Capitão Rui Gonçalves da Câmara uma filha natural, chamada D. Beatriz, que casou com um fidalgo que veio muito rico da Índia, chamado Francisco da Cunha, dos Cunhas do Regno, que dizem ter este apelido do primeiro, que sendo alferes de uma capitania, em uma batalha, e sendo maltratados os de sua parte dos contrairos, indo já quase vencidos, vendo este alferes o desbarato dos seus, meteu a bandeira em uma fenda de uma pedra, acunhando-a com outras, e foi pelejar com os imigos tão valorosamente que com sua ajuda alcançaram vitória. E acabada a batalha, vendo o capitão o seu alferes consigo, sem bandeira, Ihe perguntou por ela; respondeu ele que bem acunhada a deixara; pelo que Ihe fez el-Rei mercês e Ihe deu este apelido de Cunhas, para si e seus sucessores. Este fidalgo Francisco da Cunha houve de sua mulher D. Beatriz uma filha, chamada D. Guiomar da Cunha, que casou com João Soares, terceiro Capitão da ilha de Santa Maria e segundo do nome, que houve os filhos já ditos, quando tratei da dita ilha de Santa Maria, pelo que ficaram os Capitães destas duas ilhas liados com estreito parentesco.

Estando o Infante D. Henrique em Sagres favorecendo o descobrimento destas ilhas, como tenho dito, comprou a Misser Maciote de Betancor, Rei das Canárias, e Ihe deu pelo que tinha delas subjugado e direito da empresa as saboarias da ilha da Madeira e vinte e cinco mil réis de juro na alfândega, e por dadas as Lombas dos Esmeraldos e a Ribeira de Água de Mel, sobre o Funchal. Com isto se passou o dito Maciote de Betancor à ilha da Madeira e casou sua filha, D. Maria de Betancor, com Rui Gonçalves da Câmara, segundo filho do primeiro Capitão dela, João Gonçalves Zargo; o qual Rui Gonçalves, comprando esta ilha a João Soares de Albergaria, segundo Capitão da ilha de Santa Maria, se passou a ela com sua mulher e como dentre eles não houve filhos legítimos, por razão de João Roiz da Câmara, filho natural mais velho do dito Rui Gonçalves da Câmara, ficar encabeçado na Capitania e jurdição, fizeram partilha em sua vida, ele e sua mulher, D. Maria de Betancor, que ela ficasse com cento e cinquenta mil réis de foro cada um ano, para sempre, nas Lombadas dos Esmeraldos, seus foreiros, por eles mesmos Ihas aforarem, quando da ilha da Madeira se vieram com a compra desta ilha, com mais a Ribeira de Água do Mel e com trinta mil réis de renda de foros em Vila Franca do Campo desta mesma ilha, que tudo o que agora rende, esta parte de D. Maria de Betancor, importa dois mil cruzados cada ano, que ela fez em morgado, encabeçado em Gaspar de Betancor, seu sobrinho, filho de sua irmã, que mandou vir da ilha da Madeira para nesta Ihe fazer companhia, por não ter aqui parente nenhum, em vida de seu marido Rui Gonçalves, e daí em seus descendentes, no filho mais velho. E seu marido Rui Gonçalves ficou com a Capitania, que então importava tão pouco que, para ficar igualado na partilha com sua mulher, ficou com mais o quarto da fazenda que se chama Ribeira de Água do Mel, sobre a cidade do Funchal, na ilha da Madeira.

Esta D. Maria de Betancor, francesa, nesta terra, ou por humildade, ou pelo muito que deixara das ilhas Canárias e isto ser pouco naquele tempo, ou por descender de geração dos Reis nunca se nomeou por Capitoa, nem ninguém Ihe chamava senão D. Maria; era muito formosa e liberal. Deixou em Vila Franca, para o concelho da mesma vila, dois moios de terra que está arriba da vila e parte da banda do sul com os Pomares, e da banda de levante com uma grota que vai antre a fazenda de Rui Gago da Câmara e a própria terra do concelho, e da banda do ponente com terra foreira do mosteiro dos frades de Nossa Senhora, e do norte com terras que foram de João d’Outeiro, a qual terra deixou que rendesse para as coisas do concelho, com condição que os gados, que viessem de caminho, pudessem dormir ali uma noite e mais não, e nunca andassem éguas nem fêmeas nela. Mandou também fazer uma capela no Funchal, no mosteiro de S. Francisco, no cruzeiro à mão direita, onde disse que levassem sua ossada. Dizem alguns que depois faleceu, e outros que primeiro, que o Capitão seu marido, alguns anos; que foi enterrado , segundo alguns dizem, na capela do mosteiro de S. Francisco; mas outros afirmam que na capela-mor da igreja matriz do Arcanjo S. Miguel, que havia antes da subversão de Vila Franca.

Tinha este Capitão Rui Gonçalves seu assento principal em Vila Franca do Campo, onde residia o mais do tempo, por ser então única vila nesta ilha. Era homem bem apessoado, grande e grosso, discreto e solícito em fazer cultivar e povoar a terra, visitando-a pessoalmente muitas vezes, só, a cavalo, vestido com uma peliça de martas e uma touca na cabeça, como naquele tempo se costumava, e com um cão grande detrás de si, chamado Temido, sem trazer outros pages consigo, e algumas vezes andava em uma mula, dando ordem à sua gente que roçavam as terras, que agora possuem os Capitães seus sucessores, que são a Salga e a Criação, chamada assim porque criava nela seu gado, perto dos Fenais da Chada, onde ele morava algum tempo, com sua mulher e família.

Este Capitão Rui Gonçalves da Câmara me parece que mandou vir de Guiné, ou da ilha da Madeira, as galinhas chamadas de Guiné, que nesta ilha multiplicaram muito e duraram pouco.

Repartiu a maior parte das dadas ou doações das terras desta ilha, de sesmaria, que é desta maneira: quando dava o Capitão dada ou fazia alguma repartição de terra nova, povoada de mato e espesso arvoredo, a alguma pessoa, de obrigação, na terra que Ihe davam fazia curral e cafua, curral para gado e casa para morar, e tudo era para tomar posse do que recebia; e dentro em cinco anos eram obrigados, estes moradores e possuidores, a terem terra feita e roçada a maior e melhor parte daquela que Ihe era dada e eles recebiam; e não o fazendo assim, dentro no termo de cinco anos, ia outro pedir ou o Capitão podia dar a outrem aquela terra, e a dava, porque o primeiro não fazia benfeitoria nela.

Chamava-se terra de sesmaria, uns dizem que porque no sexto ano ficava livre do que a não aproveitara em cinco; de seis se chamava seismaria. Outros dão outras razões não tão boas. Pode ser que se diz terra dada de sesmaria, deste verbo ou desta palavra scemo em italiano, em que estas letras juntas só soam x e se há-de pronunciar xemo, que quere dizer dividido ou dividir, roçar, cortar, cultivar, porque a terra, dividida e repartida por muitos, para isso se dava, para se aproveitar, cortando- a, roçando-a e cultivando-a, que isto quere dizer scemo; e para fazer isto e os homens a quem se davam terem cuidado, era necessário pôr-lhe termo em que as beneficiassem, com pena de as perderem e ficarem devolutas e livres para as darem a outros colonos e lavradores, que as fizessem dar fruto. O mesmo quere dizer este vocábulo scemato, dividido ou cortado. Também se pode com mais razão dizer que deste nome scisma se disse sesmaria, porque se dividem as terras por cada um, que dantes estavam juntamente devolutas e comuns a todos, em uma comunidade, porque scisma se diz deste verbo scindo, scindis, que quere dizer cortar, e scisma, que quere dizer cortadura ou coisa cortada e parte dividida do todo, como se dividiu esta ilha no princípio, dando de scismaria e divisão ou partilha, a cada um dos que a vinham povoar, sua parte.

Fez seu testamento Rui Gonçalves da Câmara, filho do primeiro Capitão da ilha da Madeira, aos 21 dias do mês de Novembro da era de mil e quatrocentos e noventa e sete anos, em Vila Franca do Campo desta ilha de S. Miguel, estando enfermo em cama, da qual enfermidade faleceu, havendo bem governado a capitania vinte e um anos, pelo que parece que começou a governar na era de mil e quatrocentos e setenta e quatro anos, quando foi confirmada a compra e venda desta ilha por el-Rei D. Afonso, o quinto, e governando-a vinte e um anos, faleceu na era de mil e quatrocentos e noventa e sete ou oito, pouco mais ou menos. Deixou por herdeiro da Capitania a João Roiz da Câmara, seu filho, tendo-o já dantes nomeado também na sua legitimação, da maneira que era dada e confirmada pelos Infantes e Duques e Reis passados, e por el-Rei D. Manuel que então reinava, e depois por seus sucessores.

Toda outra fazenda e herança, que tinha em qualquer parte e lugar, tomou para se distribuir por sua alma e para pagar o que devesse.

Deixou por seu testemanteiro a João Roiz, seu filho.

Foi enterrado seu corpo dentro na capela-mor da igreja do Arcanjo S. Miguel, na sepultura onde jazia já sua mulher, a Capitoa D. Maria de Betancor, de que encarregou a seu filho que houvesse licença de el-Rei para se enterrar na capela-mor, que ele chamava capela dos grandes trabalhos, pelos que teve e pelas despesas grandes que fez em fazer povoar esta ilha.

Neste testamento deixou seis escravas, que tinha prometido em casamento, a seu genro Francisco da Cunha.

Deixou um anal de missa quotidiana na capela-mor onde seu corpo se enterrasse, e obrigou para isso o quarto da fazenda da Ribeira de Água do Mel, da ilha da Madeira, e as mais rendas que tinha; e o remanescente de sua terça se distribuísse cada ano por pobres, como se faz.

Era este Capitão Rui Gonçalves da Câmara, primeiro do nome, mui temente a Deus e de boa consciência, e assim fez o seu testamento como muito amigo de Deus, segundo dele se pode bem coligir.

No dito testamento se vê que o dito Capitão Rui Gonçalves e Gaspar de Betancor ficaram por testamenteiros de D. Maria de Betancor, sua mulher, primeira Capitoa desta ilha, depois que se apartou a capitania da ilha de Santa Maria, mandando-lhe que o dito cargo de testamenteiro ficasse aos descendentes de Gaspar de Betancor, filho, neto, bisneto e mais descendentes; e assim nomeou o dito Rui Gonçalves, primeiro Capitão, por testamenteiro depois da morte de Gaspar de Betancor a seu filho João de Betancor, e depois seus filhos, netos e bisnetos, declarando que era melhor sê-lo uma só pessoa que duas, como mandava D. Maria, sua mulher, em seu testamento, que diz que fossem testamenteiros o dito seu marido e Gaspar de Betancor, e por falecimento de seu marido nomeasse uma pessoa que fosse com Gaspar de Betancor.

Estava esta quinta da Ribeira do Mel aforada por setenta mil réis cada ano; a qual teve Gaspar de Betancor e seus descendentes, que é como morgado, e agora rende muito mais.

O Capitão Manuel da Câmara, bisneto deste Capitão Rui Gonçalves, comprou depois um quinhão de vinte mil réis de renda que tinha Luís da Silva de Meneses, fidalgo, e D. Maria, sua mulher, na quinta de Água do Mel, da ilha da Madeira, os quais vinte mil réis herdam por morte de João Brandão, seu pai.

Nos derradeiros dias deste ilustre Capitão Rui Gonçalves da Câmara se fez alardo geral, por seu mandado, nesta ilha, das armas que nela havia, porquanto os andaluzes, naquele tempo das guerras de Castela com Portugal, vivendo el-Rei D. João, segundo do nome, soíam vir por estas ilhas, em armadas, a roubar e fazer entradas, principalmente e sendo avisado o dito Capitão de certa armada que vinha para entrar nesta ilha de S. Miguel; e se acharam nela cento e setenta lanças de costa, que tiveram em muito, e trinta e seis gibanetes que o mesmo Capitão, por seu dinheiro, mandou pedir ao Capitão da ilha da Madeira, seu irmão, e sobre isso escreveu uma carta a el-Rei, dando-lhe conta do ânimo dos moradores desta terra e da razão que havia para Sua Alteza fazer mercês e dar liberdades aos fidalgos, cavaleiros e homens honrados pelo muito esforço que neles achara, para defensão da terra e seu serviço.