Como realizar uma Quarentena

Você ou um ente querido tem febre leve, dores no corpo, o início de uma tosse seca e irritante. A comida não tem gosto nem cheira como antes. Talvez sinte falta de ar ou custa respirar...

Cozer feijões velhos

feijãoQuando guardados há muito tempo (anos mesmo) ou simplesmente mal acondicionados, os feijões podem demorar tempo a mais a cozer. Mas há soluções.

A menos aconselhável é a adição de...

A Tinturaria Vegetal em Alguma Ilhas dos Açores


Carreiro da Costa, 1957

tinturariaRemonta aos primeiros decénios de vida insular, a prática dos vários processos de tinturaria caseira, servida por elementos vegetais. Tais processos encontram-se...

Cores das Ilhas

Tudo leva a crer que esta paleta de cores começou a ser formada com a visita do escritor Raul Brandão, que esteve nos Açores em 1924 e foi atribuindo a cada ilha uma determinada cor (ou...

A Amoreira e a Sericultura

 

Carreiro da Costa, 1945

De entre os problemas económicos em equação no arquipélago dos Açores, o da sericicultura é dos que mais tem apaixonado aqueles que, no decorrer dos tempos, vêm...

Agave (Babosa)

Piteira, Babosa, Agave, Agave americana L.

agaveÉ uma planta muito disseminada nos jardins de algumas ilhas. Não sabemos se o  “Agave azul” (e a sua parente “Marginata”, com folhas às riscas...

Alguns Estudos Científicos sobre Agricultura Açoriana

uac 0 1

Departamento de Ciências Agrárias

http://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3

 

A influência da paisagem, dos factores ambientais e taxa de infestação na densidade na...

No tempo do ilustre Capitão Manual da Câmara, único do nome, veio ter a esta ilha de S.
Miguel D. Jorge Pereira, filho do conde da Feira, ainda moço, sem saber cujo filho era; cujo nascimento foi na cidade do Porto em uma rua que se chama a rua Chã; daí foi dado a criar a um ferreiro e a sua mulher, que moravam na rua dos Canos da dita cidade, o qual o criou com muito segredo, não sabendo quem fosse seu pai, senão que era filho de um senhor, por ser sua mãe dos principais da cidade do Porto e correr muito perigo, sabendo-se quem o parira. O ferreiro e sua mulher, depois de o criarem dois anos, se foram morar a Lisboa, onde o tiveram em seu poder até idade de onze anos, em que faleceu a mulher do ferreiro. Estando no artigo da morte, ouviu dizer D. Jorge, que então se chamava Jorge somente, a seu marido, chamando-o por seu nome: —encomendo-vos muito este menino, porque é filho de um senhor deste Reino e alguma hora quererá Deus que se descobrirá. O Jorge, quando isto ouviu, disse: — como não sou eu filho de vossa mercê?; e o ferreiro pelejou com ele, pelo que se calou, mas sempre trouxe aquilo no sentido. Daí a certo tempo, casou o ferreiro com outra mulher da sua terra, dez léguas acima do Porto, a qual Ihe ficou em nome de madrasta. Sucedendo-lhe um desastre ao ferreiro, se tornou com a segunda mulher para sua terra e indo pela estrada para o Porto, junto do castelo da Feira, recolhendo-se de muita água que chovia, ao redor de um penedo, ouviu dizer Jorge ao ferreiro: — este moço que aqui trago é filho de um senhor desta terra, segundo me quizeram dizer, mas não o sei em certo. Tomou o moço aquelas palavras no sentido, mais do que dantes tinha. E chegando à cidade do Porto, pousando o ferreiro em casa de um seu primo sarralheiro , Ihe perguntou o dito sarralheiro se era aquele o moço que dali levara: respondendo-lhe que sim, Ihe disse: — pois devieis-vos de dar a conhecer com seu pai e dar-lho. — Não ouso fazer isso. Depois apartaram-se e falaram ambos sós, sem Jorge os ouvir. Dali se foram caminho de Campelo, donde era natural o ferreiro. Lá esteve Jorge com ele, por espaço de dois anos e meio. Neste tempo, foi o ferreiro a Lisboa, deixando a Jorge em casa de dois irmãos, guardando-lhe ovelhas, cabras, vacas e porcos, por tempo de nove meses, no cabo dos quais chegou o ferreiro e o tornou a levar para sua casa, onde sua mulher o tratava mal de comida, pelo que o moço algumas vezes fazia por Ihe furtar coisas de comer.
E uma vez, estando-lhe tomando de uma arca umas poucas de castanhas, deu ela sobre ele, tomando-o no salto e Ihe deu muito açoite com um cordão. Acudindo uma mulher de um cuteleiro, sua vizinha, lhe disse: — porque dais assim em Jorge?, não é ele vosso filho, ou como? — Respondeu: — não, nem é filho de Nicolau Gonçalves. — Respondeu-lhe: — pois cujo filho é? — Disse ela: — diz que o criou em sua casa e que é filho de uma Fuã de Macedo, da rua Chã, e de um fidalgo, mas não sabe qual. A vizinha, quando isto ouviu, foi-se aonde estava Jorge chorando e levando-o nos braços se pôs a chorar com ele, dizendo-lhe: — filho, tu és filho das Macedas da cidade do Porto com que eu me criei, e filho de um grande senhor.
Então tomou o moço mais em sentido isto que dantes. E fugiu logo, indo-se à cidade do Porto, onde perguntou pelas Macedas da rua Chã, e dizendo-lhe onde moravam, foi lá. Querendo entrar pela porta e subir ao sobrado, não ousou, por não ter quem o ajudasse. Tornou a pôr-se em caminho para Lisboa, onde dantes se criara, e foi ter a casa de um relojoeiro aragoês , de Valença de Aragão, que ali o ajudara a criar, por ser vizinho conhecido do ferreiro que o criara, quando morava na dita cidade de Lisboa. Esteve ali o moço com o relojoeiro espaço de três meses, no fim dos quais tendo necessidade de um homem para o ajudar, foi ter com um ferreiro de Ponte de Lima que fora desta ilha, e levando-o para sua casa por obreiro; vindo acaso um dia, perguntando-lhe as coisas destas ilhas e pelas Furnas, Ihe disse que ele estivera nesta ilha de S. Miguel com um Jorge Gonçalves, ferreiro, morador na vila da Ponta Delgada, defronte da igreja de S. Sebastião, irmão de Nicolau Gonçalves, que o criara, os quais se carteavam, estando Nicolau Gonçalves em Lisboa pola qual notícia, Ihe perguntou o moço se conhecia a Jorge Gonçalves; dizendo-lhe que sim, porque era primo de sua mulher, naturais de Ponte de Lima, e que estava bem. Dizendo-lhe o moço que se queria ir para ele, porquanto era irmão do ferreiro Nicolau Gonçalves que o criara, e o tinha em nome de tio, respondeu que faria bem em ir ter com ele, porque Ihe faria muitos bens. Tirou-se então o moço de casa do relojoeiro e buscando passagem, se veio com um sapateiro chamado João Marques, e com Baltasar Lopes, homem baço, tosador, que o trouxeram a casa do dito Jorge Gonçalves, que o agasalhou muito bem nesta ilha como sobrinho, dizendo todavia a algumas pessoas que aquele moço não era filho de seu irmão, mas que folgava muito com ele e o tinha em conta de sobrinho. Estando nesta casa o moço, a cabo de seis meses, vendo tanta pobreza e que tinha tantos filhos, Ihe disse que o pusesse a aprender o ofício de ferreiro, e fosse com Francisco Pires Leal, por ser bom homem, e assim o fez; esteve com ele sete anos. E tendo acabado de aprender o ofício, querendo-se ir caminho do Reino para saber quem eram seu pai e mãe, se casou com uma filha de Gaspar Fernandes, mestre e senhorio de um navio, que agora se chama D. Guiomar, mulher de grande virtude. Sempre suspirando ele e dizendo antre si que havia de saber quem era. Vindo aqui o padre pregador Frei Manuel Marques, da ordem de S. Francisco, sabendo o dito D. Jorge que o padre era da cidade do Porto, se foi ter com ele e Ihe deu conta como nascera na rua Chã e era filho de uma das Macedas, perguntando-lhe se sabia porventura alguma coisa, e que era também filho de um senhor do Reino, segundo Ihe diziam pelas atoardas ditas atrás, contando-lhas todas assim como as ouvira. Ele chamou a Frei António, seu irmão, perguntando-lhe se alguma hora ouvira dizer a sua mãe, que era mulher muito velha, que as Macedas pariram de algum fidalgo; disse-lhe que nada ouvira.
Tomando-lhe ele afeição e amor, de muitas vezes que o ia visitar, veio a suceder caso por onde o irmão Frei António se foi para o Reino, por um desgosto que teve com o padre Frei António Alarcão, e prometeu-lhe que lá saberia parte de tudo, de sua mãe e de outras pessoas antigas, o que cumpriu assim, praticando-o na cidade do Porto com o padre pregador Frei Gaspar do Porto, e ambos pediram licença ao guardião para irem à cidade saber parte disto, por via de sua mãe e mais pessoas; onde foram ter à rua Chã, a casa de uma tia do dito D. Jorge, irmã de sua mãe, à qual perguntando, conforme à informação que Ihe davam, se pôs ela em negá-lo, todavia inquirindo o padre Frei Gaspar com mais instância, dizendo-lhe que o teria em muito segredo, pois era também parente, confessou ela ser verdade que uma sua irmã houvera um menino, chamado Jorge, da idade que eles diziam, do conde da Feira, D. Manuel Forjaz Pereira, e que folgava muito de ele ser vivo; o qual o conde, antes que falecesse, mandara buscar pela cidade do Porto e seu termo, e em Campelo, sem o poderem achar, porquanto neste tempo era fugido a esta ilha. E disse que por seu falecimento deixara o conde dito que se alguma hora achassem este menino e tivesse um sinal que ele punha a seus filhos que o recolhessem por seu filho. Vendo os padres isto, Ihe escreveram que se fosse ver com ela. E assim o fez o dito D. Jorge Pereira, e tirou um estromento em que provou ser filho do dito conde. Tornando a esta ilha e achando ao padre Frei Manuel Marques de caminho para o Reino, Ihe deu o estromento para o apresentar ao conde, seu irmão; o que o dito Frei Manuel fez com muito cuidado; praticando com o conde, mostrando-lhe juntamente o estromento, se pôs o conde em o negar, confessando todavia que o estromento estava bom e o nome e a idade assim era, mas que poderia ser morto e outrem tomar aquele nome. Replicando Frei Manuel que remédio se havia de ter, pois D. Jorge Pereira provava ser tal? Respondeu o conde: — padre, se ele não tiver um sinal que têm todos os filhos de meu pai, assim bastardos como legítimos, ele não é este. Perguntando-lhe Frei Manuel que sinal era, Iho disse o conde.
Então escreveu tudo o que passara com ele e respondeu D. Jorge Pereira a Frei Manuel que tinha o dito sinal. Sendo as cartas no Reino, neste meio tempo veio ter a esta ilha o licenciado Gaspar Leitão por juiz de fora da cidade da Ponta Delgada, e trouxe recado do conde que soubesse de D. Jorge se tinha o sinal e se era bom homem, que manhas tinha, se era casado e com quem, porque se era homem de pouca conta o não aceitaria por irmão, mas se tivesse boas partes e o sinal, que o faria, e que assim Iho escrevesse. Sabendo D. Jorge que Gaspar Leitão perguntava por ele, por parte do conde, e que era de sua casa, se foi ver com ele uma noite. Perguntando-lhe que buscava, Ihe respondeu: — eu sou Jorge Gonçalves Pereira. Ele não aguardou mais, senão deu muito depressa à cadeira e o levou nos braços, dizendo-lhe: — senhor, vós sois irmão do senhor conde da Feira, porque vos pareceis com ele, e haveis de ter um sinal. Respondeu D. Jorge: — sim, tenho; de que ele folgou muito. E Ihe disse que fosse logo ter com o senhor conde D. Diogo Forjaz Pereira e levasse cartas suas. Assim se embarcou no primeiro navio e foi ter com o padre Frei Manuel Marques à cidade do Porto, que já tinha falado com sua tia, que Ihe escrevera uma carta se fosse ver com ele e com o conde; a qual tia, com muito contentamento, mandou dizer logo a sua mãe, que estava em Braga, que seu filho, que ela parira, era achado e que cada dia estava esperando por ele, o qual fora descoberto por uns padres de S. Francisco. Neste tempo, chegou D. Jorge Pereira ao Porto, donde foi caminho de Braga ver sua mãe por conselho de sua tia, dizendo-lhe que dissesse que era filho de outra sua tia, já falecida; e assim entrou por sobrinho, por amor de seu marido com quem estava casada.
Vendo-se com sua mãe, Ihe disse ela a maneira de seu nascimento, e como o houvera do dito conde de idade de dezasseis anos, e andando prenhe fizera alguns remédios para mover dele, para não ser sentida, por amor de sua mãe e parentes, e fora parir a casa de um seu tio de que mais se confiou; o qual, depois dela parir, a casou em nome de viúva; dizendo-lhe mais que o não vira senão à hora que o pariu; e que tivera o conde tal diligência, que mandara saber àquele tempo do parto por três criados seus, armados, e tanto que ela parira o tomaram e levaram aquela noite a casa de uma mulher que morava à porta de cima de Vila, da cidade do Porto, onde Ihe deu de mamar aquela noite e um dia; e dali ouvira dizer que o deram a um ferreiro, e que nunca mais souberam novas dele. Despediu-se de sua mãe, foi ter à cidade do Porto com o padre Frei Manuel Marques; e por saberem que o conde não estava na terra da Feira, se foram ambos caminho de Lisboa, onde o acharam. E o dito padre o apresentou ao conde, dizendo-lhe: — senhor, este é vosso irmão. O conde folgou muito com o ver e indo D. Jorge para Ihe beijar a mão, ele Ihe disse: — não, que sois muito meu irmão, porque vos pareceis muito com meu pai. E o levantou e tomou pela mão e assentou em uma cadeira a par de si, perguntando-Ihe de sua vida que tal fora, dando muitos agradecimentos ao padre Manuel Marques por ser tanto seu amigo e chegá-lo a tal descobrimento. Tornando-lhe a perguntar de sua vida, respondeu: — senhor, não venho enganar a vossa senhoria, faça-me mercê, queira ver o sinal que me mandou dizer que eu havia de ter, e saberá por ele se sou seu irmão. E vendo-o, folgou muito, e o recolheu e acceptou por irmão. Tornando ao outro dia, tornando-Ihe a perguntar o conde por sua vida, Ihe respondeu D. Jorge que levara muitos trabalhos e que o ferreiro que o criara de oito anos o começara a fazer malhar pregos em cima de uma gamela, por ser pequeno, e dali Ihe ficara o ofício de ferreiro, o qual sempre usara até aquele tempo presente, em que estava diante de sua senhoria. O qual Ihe passou logo por sua letra uma certidão de quem era, assinada por ele, em que dizia ser verdade que, estando na cidade do Porto o conde seu pai, D. Manuel Pereira, já defunto, houvera de Florença de Macedo, filha de um cidadão da dita cidade, ao dito Jorge Gonçalves Pereira, que ora era morador na cidade da Ponta Delgada, da ilha de S. Miguel; e por Ihe constar assim, por estromentos e certidões disso, como também por um sinal que somente os filhos de seu pai todos tinham, o qual o dito Jorge Gonçalves Pereira tinha, pelo qual Ihe pertencia chamar-se dali em diante D. Jorge Pereira, como se chamavam os outros filhos bastardos do conde, seu pai, que Deus tem, e se ora chamam; portanto, ele e sua mulher, filhos e filhas tinham o dom, e se poderia chamar daí por diante assim, por Ihe pertencer direitamente por seu sangue, e filho de seu pai, e irmão seu, o que certificava tudo ser assim, e pedia a todos os corregedores, juízes e justiças que Ihe guardassem todas as preeminências, honras e liberdades que ele dito D. Jorge Pereira tinha e Ihe pertenciam. E para sua guarda, por verdade, fizera a dita certidão de sua letra e sinal, na cidade de Lisboa, a vinte e quatro dias de Novembro de mil e quinhentos e setenta e três anos.
Chegando o dito D. Jorge Pereira a esta ilha, já conhecido por quem era, o juiz de fora, o licenciado Gaspar Leitão, e os vreadores e muitos homens nobres e quase todo o povo o foram receber quando desembarcou no cais da cidade da Ponta Delgada, acompanhando-o para a igreja e daí até sua casa, e Ihe fizeram a honra que ele merecia daí por diante; o que sabendo o conde, escreveu uma carta de agradecimentos aos oficiais da Câmara da cidade, em que dizia que em muita obrigação o puseram com o honrado gasalhado e recebimento que a seu irmão D. Jorge fizeram; que a honra não a dava senão quem a tinha, e por isso o que de sua casa e pessoa cumprisse à Câmara e em particular a cada um dela, faria ele com muito gosto; isso tivessem por muito certo todos, a quem pedia que o mesmo fizessem a seu irmão, porque à sua conta o tomava e a ele o faziam. Mandando el-Rei chamar a D. Leoniz, irmão do dito D. Jorge Pereira, que esteve na Índia por capitão de Malaca para o mandar por capitão e governador de Cepta , onde estava o marquês de Vila Real, que el-Rei mandou vir, escreveu o dito D. Leoniz a D. Jorge Pereira que logo fosse ter a Cepta com ele, onde o esperava, e levasse um seu filho consigo, para estar ali com ele ganhando uma comenda. O que querendo fazer o dito D. Jorge, soube como lá era falecido seu irmão. Tem D. Jorge Pereira quatro filhos e uma filha; o primeiro, chamado D. Pedro Pereira, foi com seu pai para o Reino na era de mil e quinhentos e setenta e nove.
Dizem que el-Rei o filhou no foro de seu avô, o conde da Feira D. Manuel Forjaz, com quarenta e sete mil réis de moradia.