Como realizar uma Quarentena

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feijãoQuando guardados há muito tempo (anos mesmo) ou simplesmente mal acondicionados, os feijões podem demorar tempo a mais a cozer. Mas há soluções.

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A Tinturaria Vegetal em Alguma Ilhas dos Açores


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Cores das Ilhas

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A Amoreira e a Sericultura

 

Carreiro da Costa, 1945

De entre os problemas económicos em equação no arquipélago dos Açores, o da sericicultura é dos que mais tem apaixonado aqueles que, no decorrer dos tempos, vêm...

Agave (Babosa)

Piteira, Babosa, Agave, Agave americana L.

agaveÉ uma planta muito disseminada nos jardins de algumas ilhas. Não sabemos se o  “Agave azul” (e a sua parente “Marginata”, com folhas às riscas...

Alguns Estudos Científicos sobre Agricultura Açoriana

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Departamento de Ciências Agrárias

http://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3

 

A influência da paisagem, dos factores ambientais e taxa de infestação na densidade na...

Não se podem perfeitamente contar em todos os terramotos estranhos e nunca vistos que aconteceram nesta ilha de S. Miguel na era de sessenta e três, atrás dita, havendo passado muitos, cada ano, por serem próprios e coisa natural a todas as terras marítimas, mormente a ilhas que estão cercadas de mar. E tampouco se pode dizer o incêndio que, com os mesmos terramotos, se seguiu nesta ilha de S. Miguel, nas partes já ditas e na vila da Ribeira Grande, de que agora direi, porque universalmente foi uma opinião de morte à ilha; pelas terribilidades que se viram, persuadiram-se todos que haviam de morrer e que tudo se acabava, porque, com menos mostras, havia quarenta e quatro anos, no de vinte e dois, atrás dito, que no mês de Octubro, na noite de S. Hilarião, abade, com um terramoto, arrebentou um monte sobre Vila Franca do Campo, principal povoação desta ilha, o qual, com a veemência do espírito e exalação que saiu, súbita e juntamente, pelos poros da terra, sem abrir boca alguma desde a concavidade onde estava, arrevessou, ou, por melhor dizer, sacudiu a faldra do dito monte tanto lodo, feito polme, que quase em um momento alagou a dita povoação, sendo a melhor, mais fresca e mais deleitosa de todas as ilhas, em que morreu toda a gente sem escaparem mais que os que atrás tenho dito. Naquele primeiro terramoto, o terror foi súbito e teve o medo subsequente e não precedente, como este segundo. No primeiro, sem Deus ameaçar, castigou e morreram quase todos; neste segundo, ameaçou a todos e não morreu nenhum. Mas, foi tão terríbel medo da ameaça, que o centro da ilha ardia, a terra tremia, o mar se embalançava e o ar roncava com o rumor desvairado do estrondo das pedras que a boca aberta lançava para riba, como furioso trabuco. Os ânimos dos homens e a palavra se lhe encolhia de horror; tudo lhe era uma semelhança do juízo final e assim o julgavam alguns doctos e quase todo o vulgo ignorante.
O medo foi comum em toda a ilha, como foram os terramotos e espectáculo de fogo que ameaçava a todos. Mas, particularmente em cada povoação, se sentiram e viram novidades que nas outras não passaram; e assim se não pode contar tudo.

No ano sobredito de sessenta e três, na vila e termo da Ribeira Grande, uma sexta-feira, vinte e cinco do mês de Junho, no princípio da noite, pouco mais de uma hora, se começaram a sentir tremores pequenos e amiudados e não fizeram tanto espanto pelo costume que têm de os sentirem quase todos os anos. Mas, na perseverança depois o povo, também confuso e com sobejo espanto, se alterou, mormente lembrando-lhe o terramoto e dilúvio de Vila Franca. Chamaram por Deus e acolheram-se aos templos a ordenar procissões, as quais frequentaram muitos dias, não ousando confiar-se das próprias casas, porque toda a mesma noite e o sábado seguinte não cessaram os terramotos, antes iam em crescimento, assim na frequência como na quantidade, e o que mais era de temer que, ainda que os terramotos tinham intervalo nos grandes abalos que faziam, a terra não deixava de cernir e tremer.
Chegada a tarde da segunda feira, que era véspera de S. Pedro, vinte e oito do mesmo mês, com duas ou três horas de sol, eram os terramotos tão grandes, crescendo cada vez mais, que se foram os sacerdotes à igreja Matriz e, fazendo tanger os sinos, se ajuntou todo o povo, sem ficar pessoa alguma nas casas e começaram a fazer uma solene procissão que, saindo pelo adro com grande pranto e medo de todos, se iam abraçando uns a outros, pedindo perdão de ódios de muitos anos. E assim chegaram ao mosteiro de Jesus onde não acharam as freiras dentro, senão na segunda cerca, todas trespassadas de medo. Ali se começaram ouvir grandes urros e vozes a modo de trovões, de tal maneira e tão temerosos que quase todos pasmavam de espanto e não parecia senão que o mundo se acabava. Tornando a procissão, se iam as mulheres com grandes lágrimas abraçando umas com as outras, e os homens o mesmo, uns com outros, pedindo perdão como dantes.
Passando a procissão pela ermida de Nossa Senhora da Concepção e chegando à de S.
Sebastião, para consolar e animar o povo, pregou o doutor Francisco Bicudo, assentado em uma cadeira sustentada por dois homens, para não cair, por causa dos grandes abalos que com o tremor a terra dava; e, entre outras coisas, disse que se não espantassem de tremer a terra, pois era coisa que muitas vezes acontecia; que aquela noite passassem fora das casas, pelo perigo que havia estando dentro nelas; amoestando a todos que se confessassem e arrependessem de seus pecados, para assim aplacar melhor a ira de Deus.
Acabada a procissão, porque os terramotos iam crescendo, o povo não guardando ordem, nem sossego, se derramou por uma e outra parte e em magotes ordenaram suas procissões com cruzes que tomavam das ermidas, e sem mais ora pro nobis davam brados e gritos, levantando as palmas a Deus, somente dizendo: — Senhor Deus, Misericórdia, Jesus, Madre de Deus.
Se aquele dia atrás foi assás triste, a noite o foi muito mais, na qual, pelo perigo, tanto se fugia de entrarem nos templos, como dantes nas casas, ou mais. Logo do princípio da noite em diante, se sentiu diferença nos terramotos que, além de serem muito bravos, por baixo da terra sentiam correr coisa de muita quantidade e com desacostumados estrondos e veemência, porque parecia correr pelas concavidades da terra toda a artilharia do mundo e, como os grossos pelouros de bombardas vão ondeando pelo ar, assim se sentiam outros muito maiores ir ondeando por baixo da terra, do mar contra a serra da mesma vila. E o que se sentia claro era fazer a terra seus movimentos do sul para o norte e do norte para o sul, tão grandes e com tanta ligeireza que parecia uma leve barca sobre as águas que com mãos ligeiras se move e torna a recolher, tais eram os balanços que dava. Quando parecia que queria repousar fazia movimentos para os lados e, por serem contrários, faziam arruinar todas as casas, como de feito até a manhã se assolaram quase todas, e as que ficaram em pé, tão abertas que não era seguro entrar nem habitar nelas. Guardou Deus a igreja Matriz, que é de Nossa Senhora, mas ficou toda aberta. E a torre dos sinos, forte e de caracol, também abriu e ficou tão desbaratada que para se tornar a fazer é necessário derribar grande parte dela.
Nem podia ser menos, pois os sinos que estavam nela por si davam repique aquela noite, tal era o movimento que padeciam.
Estando a cousa nestes termos, se sentiram grandes estampidos na serra e foram tais que por sua grandeza privaram o sentido a todos de não poderem discernir onde podia ser e julgavam Vila Franca ser subvertida, como já da outra vez fora. A este tempo estava muita gente da vila nos campos, ao redor dela, e outra mais quantidade alojada em magotes nos biscoutaes de Rabo de Peixe, seu termo.
Sendo já meia noite, se viu na serra de Vulcão uma nuvem mui espessa e negra, tão alta que parecia comunicar com o céu, e assim nos básis e pé dela, como no mais alto, e por toda se viram tantos cometas e com tantos e tão ligeiros discursos, que logo na primeira vista, assim os populares, como os que alguma coisa entendiam, cuidaram ser fogo do céu, para castigo universal de todos. Não vejo cousa que com isto se compare, dado que seja mui pequena a respeito do que se viu, senão os disbarates que os moços fazem de pólvora com papel complicado de muitas dobras, que com lhe darem fogo dão muitos estoiros e mui ligeiros saltos, mostrando muitos foguetes. Assim eram os que pareciam na nuvem, mas mais perspícuos e com tantos dilates que bem pareciam forjados de mão muito forte, nem se podem pintar aos ouvidos com palavras, porque foram muito dificultosos aos olhos de quem os viu.
Saiu esta nuvem da serra contra o vento, que era nor-noroeste, e tão súbita por sua ligeireza que ninguém a viu sair, mas daí a pouco espaço se entendeu claro que da serra saíra, pela fusilada e raios de fogo que viram sair do pé da nuvem e por muitas torres de fogo que viram levantar após isso; pelo que caíram logo na conta que a serra havia arrebentado e que os espíritos e exalações e fogo lhe faziam a guerra e tinham achado saída e evasão por ali. Em alguma maneira se confortou algum povo avisado disto. Mas assim como, com a força da matéria que subia, se ia ampliando a abertura, assim o fogo se mostrava mais e com maior estrondo e artilharia, de que nasceram novos tremores. Ajudava a isto que, quando havia de disparar debaixo algum grande penedo ou matéria muito grossa e não podia caber facilmente pelo orifício e abertura, padecia o fogo e espíritos repulsão atrás para a vila e logo sentiam, após o estrondo, tremer e mugir a terra, e por baixo grande soltura e corrida, como de coisas que se arrancavam e faziam força para sair. E, sem dúvida, ainda que aquele fogo na serra se via por toda a ilha e com o mesmo espanto, e aquela nuvem, e os foguetes e fusilada que faziam, ameaçava a todos e por sua altura parecia que estava sobre todos, todavia o mal carregou para a vila da Ribeira Grande e nela sentiu mais. A prova disto é que, estando Vila Franca bem perto da mesma serra e padecendo lá iguais medos, não se sentiram nela os estrondos por baixo da terra, que digo, nem se arruinou alguma casa, ficando a vila da Ribeira Grande quase de todo assolada.
Também, demorando a ilha Terceira desta ao noroeste trinta léguas, tremeu lá a terra então notavelmente, o que foi porque as cavernas e comissuras da terra, em que estava a matéria em que acendeu o fogo, carregava para a parte do norte e, assim como se foi despejando a matéria do fogo, assim afloxaram os terramotos algum tanto, dado que grandes e muito frequentes, que não parecia senão que o céu chovia fogo, água, ferro, sangue e morte. Com o terror dos trovões, como de artilharia, e com a fumaça e o fusilar do fogo e mistura da grita da gente, parecia um vivo inferno, sem uns e outros se poderem ouvir, por tudo ser uma confusão e obscuridão de fumaça, porque o fogo arrebentado, e subido o fumo e nuvem começou a fazer uma obra que dava semelhança de inferno. E de quando em quando, entre aquele grosso fumo, apareciam uns relâmpagos envoltos com a trovoada que procedia deles, tão temerosa aos ouvidos e espantosa à vista, que assombrava a gente; o que não parecia tudo aquilo sombra nem sinais do dia do juízo, senão o mesmo juízo presente, como muitos, até alguns letrados, creram e cuidaram. Representando pois tanto o dia do juízo, fusilando fogo, vaporando fumo e atroando os ares com estas cousas e com os enxames de árvores que andavam nos ares, andava a gente sem cor e sem sentido, como morta de medo. Tudo era uma confusão na vista e nos ouvidos de todos e se a terra com grandes abalos tremia, maiores tremores e abalos havia nos corações da gente. Finalmente, tudo era um grito e nas procissões pedir a Deus misericórdia, sem uns dos outros se acordarem, nem pai de filho, nem casado de sua mulher, nem mulher do marido, nem filhas de suas mães. Tão derramadas andavam as ovelhas sem pastor, que muitas nobres, formosas e virtuosas moças se trasmontaram para longe e algumas foram ter à cidade, indo em tal tempo mais seguras sós, que em outros acompanhadas. Tudo era enfim uma obscuridão e fumaça de morte, pelo qual a gente antes que fosse manhã e por verem a vila destruída, a despovoaram com pranto assás; o que as religiosas de Santa Clara da mesma maneira fizeram, como adiante direi, indo-se, como gado sem pastor, caminho da cidade, deixando seu mosteiro posto por terra, que para todos foi grande mágoa. E conquanto a noite foi de sobejíssima aflição e de tanto desatino que cada um perdia o cuidado de si sem conselho, quanto mais de outrem. E houve pessoas que falavam desatinos, como doidos; contudo, sabendo que as religiosas eram idas daquela maneira, choraram seu mal por maior.
Esta serra de Bulcão é a mais alta e está no meio de toda a ilha, pelo que dela se notam duas coisas: uma, que quis Deus pôr ali aquele espectáculo de fogo com que ameaçou a todos, para nossa emenda, porque em outra parte não pudera ser tão manifesto; a outra, que quem lhe pôs nome Bulcão, que quer dizer fogo, ou deus do fogo, na imposição de tal nome pronosticou o que havia de ser.
Também se podem notar outras muitas coisas e dar muitas graças a Nosso Senhor que, irando-se dos pecadores, juntamente há misericórdia deles. Uma é que, saindo a matéria da abertura com tanta cópia que cobriu a maior parte da ilha, assim de cinza como de pedra pomes e penedos, que a veemência do fogo lançava tão grandes como uma casa, uma e duas léguas apartados da boca por que saíram, com que pereceu muito gado e os matos ficaram cobertos e destruídos, todavia não pereceu alguma criatura humana.
Na mesma noite de S. Pedro, se viu levantado no pé da nuvem um globo de fogo que parecia na vila da Ribeira Grande, tão grande como a maior mó que há de lagar de azeite, e, levantado tanto como duas lanças, o viram tornar para baixo; parece que, por ser grande peso, a força não pôde mais com ele e por sem dúvida se tem que era calhau de desproporcionada grandeza. A cinza que saiu, por ser mais leve, se levantou no ar, da qual como fumo se fazia aquela nuvem que disse, e depois se espalhou e encheu todas as terras que estavam derredor, duas e três léguas. Mas, a pedra pomes, por ser de mor quantidade, com a força caiu pela vila do Nordeste, que estava nove léguas e lá encheu todas as terras e as da parte do norte, de maneira que por alguns anos ficaram estériles, nem sofriam cultura, até que foram limpas a poder de homens com enxadas e águas. Perderam-se também todas as searas daquela parte de Vila Franca, que naquele tempo estavam ricas e tão grandes que se não podiam ver mais formosas, louras e chegadas à foice. Cobriram-se também as terras, matos e comedias de gados, e do gado pereceu muito, e o que escapava, bramando, se vinha acolher à gente, por mais bravos que fossem, tão domésticos como cavalos.
Aquela noite, da mesma parte se viram mortos, assim da pedra pomes, que não entendiam donde vinha, cuidando que caía do céu, como de uma cinza e fumo que os afogava, e lhes fez o dia seguinte tanta obscuridade que podemos dizer que tiveram as trevas palpáveis de Egipto.
Também caiu muito cinzeiro na vila da Ribeira Grande e houve trevas de dia, mas não duraram muito por causa do vento que as desviou. Subiu tão alta aquela nuvem de cinza e fumo, que caiu além de Braga parte dela. A pedra pomes foi em tanta quantidade que igualou a serra, sendo muito fragosa e de grandes quebradas. Muita caiu no mar, e alguns homens, vindos de Portugal, quarenta léguas desta ilha, acharam restingas dela tão grandes que lhe não podiam ver cabo em muitas horas, e tão grossa e alta que tinha oito palmos em montes, como areias gordas, onde se tiveram por perdidos.
Ao dia de S. Pedro, amanheceram na dita vila e pelos montes muitas casas caídas e as paredes dos caminhos até o chão, de uma banda e da outra, sem ter a gente por onde passar.
Da igreja Matriz, caiu a cruz de pedra que estava no frontespício, que com os grandes tremores parecia que punha a ponta no chão. Caiu a ermida da Madre de Deus, sem ficar pedra sobre pedra, e toda a igreja de S. Pedro da Ribeira Seca , termo da dita vila, com quantas casas nele havia, sem deixar de tremer todo aquele dia e o fogo da serra fazer grande terramoto, e a nuvem no ar grande espanto, alumiando e dando claridade com seus raios e fusis, sem deixar de dar espantosos urros, com grandes e insofríveis fedores que saíam daquele fogo alevantado na serra, caindo infinita cinza e enxofre, que todo o mato e picos cobriu de tal sorte que não apareciam paus, nem rama. Também se alevantou muito vento que trazia nos ares aquela cinza, com que cobriu toda a vila, ruas, praça e telhados. E então se acabou de despejar a dita vila, sem ficar pessoa nela, porque todos fugiram para diversas partes, sem esperança de nunca mais a tornar a povoar. Era o vento sudoeste, que foi deitando a cinza e pedra pomes do mar até à serra, desde o lugar do Porto Formoso até à Lomba de S. Pedro, em altura de cinco, seis e mais palmos, e acravando todas as serras, pelo que os moradores daquelas cinco freguesias, Achada Grande, Achadinha, Fenais da Maia, Maia e Porto Formoso, que poderiam ser mil e quinhentos fogos e duas mil almas, vendo as casas acravadas, as searas perdidas, os gados mortos e perdido quanto tinham , deixaram seus assentos e terras, fugindo para a cidade da Ponta Delgada.
A quinta-feira, primeiro dia do mês de Julho do dito ano, depois de véspera, se alevantaram muito grandes terramotos e fusiladas, com grandes arruídos, e desceram pela ribeira do Salto abaixo contra o mar. Então tiveram todos para si que eram perdidos, por lhe parecer que viam os diabos naquelas nuvens, botando muitos fusis de fogo. Um Afonso Luís, homem velho, que morava na Ribeirinha, termo da Ribeira Grande, e um moço, filho de Sebastião Álvares, morador na dita vila, afirmaram que viram ir mais de quarenta mil demónios nas nuvens que iam muito baixas, vestidos de muitas cores, atirando com fogo uns aos outros, caminhando contra o mar, e que detrás deles ia um homem, grande de corpo, com vestiduras brancas, que levava na mão uns azorragues com que lhe ia dando, levando-os diante de si até os deitar no mar, com aqueles grandes arruídos e alaridos que iam fazendo, e, como chegaram ao mar, logo o fogo na serra deixou de dar os acostumados brados e a terra teve algum pequeno descanso, sem tremer tanto como dantes; pelo que creu o povo que aquele homem vestido de branco seria o Arcanjo S. Miguel, padroeiro da ilha, que em favor dela açoitaria e deitaria fora os ministros do inferno. Mas, o que mais com verdade se pode crer, é que começando-se a desfazer a grande e temerosa nuvem que a todos assombrava, na parte dela que o vento levava para o mar ia infinidade de árvores chamuscadas, que a força do fogo tinha alevantado do mato e deitado pela boca fora do lugar donde arrebentou, cujas raízes pareciam cabeças com cabelos e os troncos chamuscados, corpos negros e as ramas, pés e braços, sendo árvores e não demónios, como depois se acharam no mar infinidade delas. Mas a gente, com aquele falso entendimento, algum tanto descansou e perdeu o medo.
A sexta feira, dois de Julho, dia da Visitação de Santa Isabel, se tornaram alguns já mais quietos à vila da Ribeira Grande, e fizeram a procissão solene, costumada cada ano. Mas, sendo já perto da noite, se tornaram a alvoroçar com medo, por um novo fogo que, com grandes terramotos e labaredas, se alevantou em um pico junto da dita vila, como agora direi.