Como realizar uma Quarentena

Você ou um ente querido tem febre leve, dores no corpo, o início de uma tosse seca e irritante. A comida não tem gosto nem cheira como antes. Talvez sinte falta de ar ou custa respirar...

Cozer feijões velhos

feijãoQuando guardados há muito tempo (anos mesmo) ou simplesmente mal acondicionados, os feijões podem demorar tempo a mais a cozer. Mas há soluções.

A menos aconselhável é a adição de...

A Tinturaria Vegetal em Alguma Ilhas dos Açores


Carreiro da Costa, 1957

tinturariaRemonta aos primeiros decénios de vida insular, a prática dos vários processos de tinturaria caseira, servida por elementos vegetais. Tais processos encontram-se...

Cores das Ilhas

Tudo leva a crer que esta paleta de cores começou a ser formada com a visita do escritor Raul Brandão, que esteve nos Açores em 1924 e foi atribuindo a cada ilha uma determinada cor (ou...

A Amoreira e a Sericultura

 

Carreiro da Costa, 1945

De entre os problemas económicos em equação no arquipélago dos Açores, o da sericicultura é dos que mais tem apaixonado aqueles que, no decorrer dos tempos, vêm...

Agave (Babosa)

Piteira, Babosa, Agave, Agave americana L.

agaveÉ uma planta muito disseminada nos jardins de algumas ilhas. Não sabemos se o  “Agave azul” (e a sua parente “Marginata”, com folhas às riscas...

Alguns Estudos Científicos sobre Agricultura Açoriana

uac 0 1

Departamento de Ciências Agrárias

http://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3

 

A influência da paisagem, dos factores ambientais e taxa de infestação na densidade na...

Ao nor-noroeste de Vila Franca do Campo, eminente sobre ela, está uma grande e alta serra, não sem mistério chamada Vulcão, que quer dizer fogo, ou deus do fogo, na qual está um mui alto pico sobre a vila de Água do Pau que por ser em cima da terra chã se chamou o pico das Mesas, onde estava uma alagoa de Gonçalo Pires em um pico chamado das Berlengas, por ser tão longe dos povoados, que os que lá iam se podiam perder e perdiam, como os navios nas Berlengas. E tudo ali junto arrebentou no tempo do segundo terramoto, que pôs tanto medo a todos os moradores desta ilha que cuidaram ter a morte e o dia do Juízo presente. Arrebentou também terra na dita serra em uns espigões que estavam sobre a ribeira do Limo que corre para a banda do norte e, correndo pela mesma grota e ribeira, levou muito gado e um moinho que nela estava, de maneira que não podiam passar senão por junto do mar, onde as suas ondas lavavam as pedras por onde passavam de pedra em pedra, até que aquele lodo se endureceu e cessou, porque dantes qualquer alimária, que se metia na terra que correu, atolava tanto, que não se podia tirar senão com muito trabalho, e a muitas cortavam as pernas para lhe aproveitarem os corpos. E atupidas e quebradas as águas das ribeiras, os bois quebravam as cordas donde estavam presos e os soltos buscando onde beber, caíam pelas rochas abaixo e grotas de água e polme que os levava ao mar e lá se afogavam nele e andavam mortos sobre suas ondas. Neste segundo terramoto, nenhuma terra correu que tolhesse serventia, senão esta sobre a dita ribeira do Limo, e não havia depois erva para os gados comerem, nem águas para beberem, pelo que houve muita destruição de muito gado.
Nas cavernas da terra, debaixo deste pico das Berlengas e alagoa de Gonçalo Pires e espigões sobre a ribeira do Limo, tudo povoado de grande arvoredo, havia abundância de muitos materiais, enxofre, salitre, caparosa e rosalgar, comum em todas estas ilhas, e outros.
Os quais materiais, tremendo a terra a sobredita sexta feira, sábado e domingo, com alguns espíritos e vento que tinha dentro de suas concavidades, que pelejavam por buscar lugar por onde sair, com tantos e tão grandes abalos ganhou vento e ar frio em suas cavernas, mais principalmente na dita serra, e acendeu e atiçou os ditos minerais de fogo, que, estando quieto antes do dito terramoto, tinha menos vapor e por isso ocupava menor lugar onde dantes estava. Buscou respiráculo e saída por onde resfolegasse e saísse, de modo que, lidando e trabalhando com isso, foi tão brava a guerra dentro do dito pico e tão impetuosos abalos, que de uma parte para a outra dava dentro o dito fogo, instigado e assoprado do sobredito ar, que isso era o que causava e causou aqueles maiores e mais violentos terramotos atrás ditos, e fez violentamente porta e saída; pelo que, quando veio a segunda-feira, véspera do Apóstolo S.
Pedro, logo em anoitecendo, arrebentou o dito pico e fez grandíssimas aperturas e espantosas bocas, por onde evaporou e respirou tão áspera e furiosamente que a não abrasar e fundir toda a ilha, em um instante, mercê grande foi que Deus quis fazer e misericórdia imensa que com os moradores dela usou.
Estas bocas e monstruosas aperturas se abriram no mesmo pico Grande, a maior delas na própria sumidade e coroa dele, que era o pico das Berlengas, onde estava a alagoa; e por esse mesmo lugar arrebentou, dando espantosíssimos estouros. E depois disso, como quando um grande ferro abrasado e acendido, metendo-o em água, naturalmente faz grandes rugidos, pelejando as qualidades contrárias, assim topando o dito fogo em arrebentando com a água da dita alagoa não se pode contar a pavorosa guerra que então se ordenou, e uns e outros eram aqueles horrendos estouros e espantosos urros que ao tal dia e hora se ouviram ao redor e pelas faldras do mesmo pico, e por todo o sobredito sítio se abriram outras muitas bocas, também mui grandes, botando diante grande soma de fumo mui espesso e negro, que se foi com o ímpeto junto direito a cima e fez no alto a espantosa nuvem que disse aparecer na tal hora, no dito dia em que causou tanta aflição a quem a via.
Esta nuvem saiu tão alta que, segundo o que parecia e distava donde foi vista, não se julgava estar senão na suprema região do ar, junto à Esfera do fogo elemental. E o fogo que naqueles materiais ardia nas cavernas da terra com o ar e vento inchado, deitou pelos ares quanto naquele sítio achou sobre a superfície da terra, muito mato de grossíssimas e várias árvores, pedras, paus, água e terra, e na imensa altura; e também a mesma côdea e face dela por espaço de mais de dois terços de légua em redondo, sem ficar cousa das que ali havia em que pôr olhos, ficando tudo escalvado, sem erva nem muito gado que ali dantes pascia. Porque, contra sua natureza, altíssima e furiosamente foi voando sem asas e caindo depois espalhado e semeado em diversas partes e lugares do mar e da terra.
Muita parte do qual, convém a saber, bois, vacas, e outro gado miúdo, muitos paus e muitas árvores grandíssimas, com suas folhas, ramos e raízes inteiras e outras meias queimadas, chamuscadas, e outras muitas cousas, caíram mui longe e muitas léguas pelo mar, onde depois se acharam. E o que por fim e com menos fúria e violência foi botado por espaço de quatro horas, pouco mais ou menos, até à meia noite, e que se ouvia ferir, e estrogir o ar caiu na mesma terra.
É de notar que nas cavernas da terra desta ilha há material quebradiço e estaladiço, que se pode quebrar com a mão, mui espesso e preto como azeviche, de que fazem imagens que trazem os romeiros nos sombreiros; alguns dizem que se chama atabona, como uma pedra preta que há nas Canárias, mas não é semelhante, pois esta matéria estala e quebra muito, e a atabona é tão forte pedra que dela fazem navalhas e lancetas. Este material preto que, Senhora, digo, de que há grande cópia nas cavernas e centro desta ilha , experiência dele) pondo-o no fogo, de preto se torna branco, e fervia tanto como fazendo-se todo em escuma que de pequena quantidade se tornava grande e de pouco muito, e resfriado ficava pedra pomes, como a que saiu pelas bocas que o fogo fez na serra.
Pelo que claramente se vê e entende que, aquentando o fogo, que se acendeu debaixo da terra, este material que achou nela, de pouca e pequena quantidade fazendo muita e grande, por isso não podendo caber no estreito lugar onde dantes estava, buscou boca por onde sair ao espaçoso do ar, expelido com a força do mesmo fogo, causando os furiosos terramotos que disse, alevantando-se no ar, como pedra leve que é, juntamente com a cinza e terra, arvoredo e mato alevantado. Mas, caindo depois sobre a terra com outras pedras e cinzeiro da mesma frágua, do que dentro do pico e serra tinha queimado; e feita cinza misturada com enxofre e outros materiais peçonhentos arrasaram e acravaram as terras.
E todas as pedras que saíam daquelas bocas vinham abrasadas em fogo, em diversas aparências e cores de várias feições e figuras, umas alvas, outras negras, outras roxas e algumas mui grandes, outras mais pequenas e infinidade delas mui miúdas; umas quadradas, outras compridas e outras redondas; e todas eram pedras moles e algumas das grandes eram pomes, e quase todas, umas e outras, eram leves, entre as quais todavia se achavam outras pesadas; algumas das quais, que subiram mais altas, quando desciam, caíam no mar e outras na terra, apartadas grande espaço daquela frágua, e outras maiores. E no lugar de Porto Formoso se achou uma de trinta palmos de comprido e grossura de uma pipa, de forma mais quadrada que roliça, a qual hoje em dia se vê no caminho do concelho onde caiu, trazida pelo ar, sem mãos humanas que, da boca do fogo donde saiu, está mais de duas léguas ao nordeste.
Foi tanta a multidão das ditas pedras e cinza, que levaram todo o pico consigo ao ar e fez um algar mais profundo do que dantes tinha de altura. E esta é a cinza que, ajuntando-se com a água da alagoa que este pico tinha, se tornou em polme e choveu a véspera de S. Pedro de noite e causava os acidentais eclipses do sol e as negras obscuridades, quando do dia se fazia noite.
Deste lugar do incêndio que está ao noroeste de Vila Franca, cortando a ilha direito abaixo ao mar do sul, mais de uma légua, a dita cinza e pedra pomes acravou e fez rasas as grotas e concavidades que por ali havia. E cortando para o norte até o lugar do Porto Formoso, termo da dita vila, daquela banda do norte, do dito lugar do Porto Formoso até à vila do Nordeste da banda do oriente, arrasou tudo, tornando e fazendo iguais os altos outeiros e fundas grotas. E tão subvertido, acravado, coberto e arrasado ficou tudo, que sem nenhum trabalho nem perigo se andava e podia andar por cima das pontas e ramos das mui altas árvores que soíam ser pousos dos ligeiros passarinhos, por tudo estar tão chão como um igual prado ou um raso areal feito da dita cinza; a qual, ao tempo que se isto experimentou, tinha criado uma côdea e dureza com a água que chovia, de maneira que consentia andar-se de tal modo assim por cima sem perigo, dado que por baixo estava falta e solta, e a lugares contudo apareciam algumas pequenas pontas das árvores, e nos montes e encumeadas mais altas se viam os paus e árvores até o meio, tudo tão esfolado, escalvado, chamuscado e seco, como de muito tempo cortadas, havendo tão pouco que estavam floridas e verdes. As ribeiras também daquela montanha nasciam, como é a do Limo e a da Praia e outras, que todas tinham grandes grotas e espaçosas concavidades por onde corriam, indo pelo meio a água mui funda, ficando-lhes de uma parte e de outra mui altas e íngremes rochas, de diversas árvores naturalmente prantadas. Tudo totalmente atupiu e acravou a dita cinza e algumas das ditas ribeiras secou; e na da Praia, da banda do sul, correu por ela tanta cinza, terra e pedra pomes que, tomando posse do mar além da rocha grande espaço, fez um grande areal e campo por onde agora vai o caminho comum, de maneira que por onde dantes podiam andar navios e as rochas onde dificultosamente andavam cabras pascendo e os cães caçando, podiam andar e correr depois a pé, e a cavalo e em carros se podia caminhar, porque a lugares, nas ditas grotas e concavidades, havia altura de mais de duzentos palmos, com a qual estavam atupidas até o meio e mais, tão iguais e direitas que pareciam umas ruas muito chãs. E as terras lavradias que, cheias de searas chegadas à foice, dentro no dito espaço acertaram ficar, também da mesma maneira foram acravadas e alagadas de cinza e pedra pomes, de altura, nas ladeiras e dependuradas, de três, quatro, cinco e de mais palmos, e, nas mais chãs delas, de altura de uma lança, e nos vales sem medida.
Cortando também a dita frágua em esquadria ao sudoeste da ilha até dar ao mar, em toda aquela parte dali para o oriente até o cabo dela, caiu tanta cinza misturada com pedra pomes, que sendo as mais profundas grotas e ribeiras e íngremes rochas e as maiores asperezas de toda a ilha, tudo na mesma altura atrás dita acravou e subverteu, arrasou e deixou muito chão, sem aparecer em partes paus nem árvores, e em partes muito pouca parte delas.
Acravaram-se também muitos povoados, como foram o lugar de Porto Formoso que mais perto daquele incêndio estava para o nordeste dele, onde com o terramoto caíram algumas casas e, com o peso da cinza e pedra pomes muitas, ficando cobertas e acravadas. No lugar da Maia, com o tremor, caíram muitas casas e com o peso da cinza e pedra pomes quase todas as que ficaram e algumas igrejas, em tanto que parecia que nunca ali estivera povoado, no qual caíram e se alagaram mais casas que em outro algum.
Em todas as outras povoações e aldeias, Fenais da Maia, as duas Achadas, grande e pequena, e S. Pedro, pelo mesmo modo poucas casas ficaram em pé, caindo algumas igrejas.
E, na Achada Grande, estando o povo na igreja com as portas fechadas, quando de noite chovia pedra pomes, dava rijo nelas cuidando todos serem demónios que queriam entrar com eles os esconjurava o vigairo de dentro.
No cabo e topo da ilha, na vila do Nordeste e ao redor dela, caiu mais terra, cinza e pedra pomes, que nas outras partes, pelo que receberam mais dano, e caíram muitas casas. E mais caíram, se não andaram continuamente sobre elas e em cima das igrejas a botá-la fora com pás e enxadas, ficando depois as ruas cheias e atupidas de pedra pomes e cinza, em partes, iguais com os telhados, e para entrarem nas casas e acharem as portas faziam cavas e minas.
E, se não fizeram a dita diligência, todas as casas caíram com o peso e toda a vila assolara.
Fazendo volta para o ocidente, ao longo do mar do sul, o lugar do Faial e o antigo da Povoação, que do fogo ficava ao sueste receberam menos dano; onde choveu pouca cinza e pedra e somente com os tremores caíram algumas casas de pouca substância. Daí direito ao fogo até à Vila Franca, e nela mesma, e até chegarem além dela ao sobredito passo, que disse primeiro ser alagado, caiu tão pouca cinza que em comparação dos outros lugares se pode ter por nada, porque a maior altura que aí sobre a terra fez, ainda não foi de um palmo. E de pedras caíram mui poucas e, a lugares, nenhumas. O que mais se deve notar para louvar a Deus é que em todos os lugares e povoados sobreditos, nem entre gente não caiu pedra alguma grande que pudesse matar ou ferir. Toda a perda e dano que fez este cinzeiro e pedra pomes, nestas partes, foi nas searas que estavam para se recolher e colmeias que estavam para se crestar; nas terras lavradias e de criações e pastos, nos pomares de diversas frutas, porque tudo cobriu e acravou, sem se aproveitar cousa alguma.
Subverteu e matou também o dito cinzeiro e pedra pomes muitos cavalos e éguas, e outras bestas de serviço, e gado de toda a sorte, bois, vacas, carneiros, ovelhas, cabras e porcos, até os passarinhos, de tal modo que nenhum aparecia, ficando todas aquelas partes desamparadas de seus moradores, que para outras fugiram, e tão sós que era medo e horror andar por elas, onde não se via senão uma soidade estranha, e a saudade de uma grande riqueza que fora e já não era; até ficaram as casas acravadas com quanto dentro tinham, que depois mal acertavam e podiam tirar, atinando os cães com as ovelhas que desacravavam debaixo do cinzeiro, como se viam depois muitas covas nele, no campo onde se chama a Creação, entre os Fenais da Maia e a mesma Maia. Todos finalmente em geral e cada um em particular receberam muita perda, não somente em seus móveis, mas na raiz e propriedades, até ficarem sem vestido e sem remédio, com a cinza mui espessa de quatro, cinco palmos de altura sobre as terras lavradias, misturada com pedra pomes mui miúda e, em algumas partes, pedra, ou sem cinza ou muito pouca, sem alguma esperança de jamais frutificarem, vendo-se muitos feitos pobríssimos, como o pobre Job, se Deus lhe dera e souberam ter também a paciência deste Santo. Bem dizer: um dia teu, outro do teu vizinho. Desta maneira foram os destas partes castigados. Mas os de Vila Franca, como já o haviam sido na sua subversão passada, na era de 22, estando na de 63 mais perto do fogo, tiveram menos dano, porque somente chegou o dano da cinza pela banda de oeste até Água de Alto, sendo arrabalde, menos distância de um quarto de légua, onde subverteu algumas searas, canas, pomares, gado, casas e outras cousas, e essa foi a maior perda que recebeu. Daí por diante não chegou, chegando da banda do norte até a serra mais propínqua, sua vizinha, que está mui perto, sem passar daí para baixo. Da banda de leste, chegou à Povoação Velha, que tenho dito, onde ainda fez pouco dano. E daí avante não passou.
Caiu tanto cinzeiro da parte do norte, nos montes da vila da Ribeira Grande, donde nasceu aquele fogo do incêndio, por onde correu aquela ribeira, que, altos e baixos, todos ficaram rasos. Convém a saber, grotas e o vão da Ribeira Grande e doutros regatos que a ela vão ter, em tanta maneira que a dita ribeira deixou de correr algum mês, ou mês e meio, em o qual tempo faltaram as águas e não havia água que beber, nem os moinhos dela moíam. No cabo deste tempo, que era no verão, no mês de Junho, depois que entrou o Inverno, que choveram algumas águas, com a água que corria, a ribeira , com esta água de represa e com a outra que chovia, se viu por diversos dias sete ou oito vezes correr a água, cinzeiro e pedra pomes, tudo junto a maneira de uma grande onda até chegar ao mar; e então ficava a ribeira como seca, sem correr, e daí por espaço de dez, doze credos, tornava a vir outra onda de água, terra e pedra pomes, tudo misturado, tornando a correr pela mesma maneira, e dava consigo no mar, o que causava encher-se o vão da ribeira, com cada onda de polme que vinha, como com uma capa de círio, que se faz com uma camada de cera sobre outra, de tal modo que se acabou de encher e atupir toda a concavidade da ribeira, o que foi causa que veio a espraiar a água tanto pela vila, que, arruinando alguns alicerces de casas, as derribava, e outras, com a sua fúria e corrente, levava diante de si ao mar. Assim destruiu quase meia vila e levou mais de duzentas casas, as mais delas sobradadas e das melhores que havia, por estarem ao longo da ribeira, onde os mais dos homens folgavam de edificar e morar.
Também aconteceu algumas vezes vir tanta pedra pomes pela dita ribeira, que nalguns lugares estreitos dela ficava por cima de água tão basta e em tanta quantidade que algumas pessoas que queriam, passavam por ali, de uma parte a outra, a pé enxuto, como por cima de uma ponte, ou duro caramelo, sem se afundarem nem molharem. E tanta cinza, terra e pedra pomes correu pela dita ribeira Grande que corta a vila pelo meio, que tomando posse do mar, compridão de mais de dois tiros de besta, fez uma grande praia do dito polme, de maior quantidade que doze moios de terra. E trazendo depois a mesma ribeira com suas enchentes muita lenha, da que com as chuvas se ia desacravando do cinzeiro, que caído estava sobre os matos, se apanhava na vila e na nova praia, onde espraiava, com ganchos, por muitos dias, em um só dos quais se tiraram mais de mil carradas de lenha dela, que servia para madeira de casas e arcas, e outra mais torta para o fogo, afora muita que foi ter ao mar, levando também com ela algumas pessoas com sua fúria, das quais algumas se tiraram e escaparam, e outras morreram, sem nunca mais se saber delas. Com a mesma fúria, levou duas pontes grandes, lavradas de pedra de cantaria, que eram serventia da vila, deixando-a destruída, e seus arrabaldes e Lomba assolados e postos por terra, sem ficar casa em pé que não caísse com o tremor, ou em parte, ou em todo. Pelo que este segundo terramoto pôs a dita vila no estado em que agora está com suas ruínas, parecendo pobre aldeia, que dantes era a mais povoada, rica e lustrosa vila deste Bispado. Não lhe fez também o dito terramoto pouca perda na lenha que lhe arrancou dos matos, dela deitada no mar, e outra acravada neles, pois agora lhe custa mui caro i-la buscar mui longe.
Tanta foi a quantidade e multidão de cinza e pedra pomes que da dita ardente frágua saiu, e tão alto botada que, quando desceu e caiu, não somente alagou e subverteu o que da ilha dito tenho, mas ainda caiu muitas léguas pelo mar, para a banda de leste muito mais, que parecia terra imóvel; porque sobre as suas águas se fez e pôs em bardos e bancos tão grandes e altos que nos espaços e intervalos de mar, que entre uns e outros ficavam, estavam os navegantes abrigados, porque alguns eram de largura mais de légua e outros menos, e de comprido tão grandes que com a vista alcançar se não podiam. O que foi visto e contado por pessoas dignas de crédito e mareantes que em aqueles dias, vindos do Regno, aportaram a esta ilha, afirmando que quando os ditos bardos viam a primeira face de longe, lhes pareciam terra, pela grande altura que assim, sem se moverem sobre o mar, traziam. E quando mais perto chegaram, vendo que eram cardumes e multidão de pedra pomes e terra tinham para si que era a ilha subvertida, pela altura em que estavam e rota e rumo em que vinham, trinta, quarenta, cinquenta léguas dela. Vindo assim por o não poderem escusar, nem lhes parecer que era cousa de tal sorte, envasaram em uma ponta dos ditos bancos, mui pequeno em comparação dos que apareciam, e raso, sem ter altura sobre a água. E vindo o navio com vento fresco e próspero, correndo com grande ligeireza, com todas suas velas estendidas, encalhou de tal maneira que parecia dar totalmente em seco e ficou quase imóvel. E metendo um marinheiro de proa um remo no dito cardume e bardo, sem embargo de ser raso e não ter para cima de água alguma altura, para baixo a tinha tanta, que afirmou meter o remo mais de dez palmos pela cinza abaixo sem chegar a água; o que lhes pôs grande espanto e medo e então tiveram por certeza que não podia ser outra cousa senão a ilha queimada, subvertida e alagada. E, não podendo assim andar nem romper por diante, viraram as velas e por outra parte, com assaz trabalho, fizeram seu caminho, guardando-se sempre dos mais semelhantes perigos e novos baixios, deles tão altos sobre a água que pareciam ilhéus, de altura de doze, quinze palmos, a lugares, de sua compridão e largura.
Um Vicente Anes Bicudo, homem nobre, honrado e discreto, dos principais da vila da Ribeira Grande, contou que vindo então do Reino, cinquenta léguas desta ilha, com tormenta fora dar o navio em um grande bardo de pedra pomes, onde viram um tabuleiro e algumas árvores, por onde julgaram ser a ilha subvertida. E dentro no bardo ficaram em bonança, mas pelo perigo se saíram fora, onde com a tormenta desejavam tornar à bonança do bardo da pedra pomes.
Outras pessoas de crédito, em outro navio que também vinha do Reino, afirmaram que em meia travessa, mais de cento e cinquenta léguas desta ilha, acharam grande cópia da dita cinza e pedras em cardumes, mas não tão bastas nem tão grandes; pelo que não se pode ninguém tanto espantar, pois mais longe da dita ilha, a quarta-feira logo depois do dia de S.
Pedro, vindo outro navio, lhe choveu muita cinza e pedra miúda, e lhe fez muito medo. E a mesma quarta-feira foi a dita cinza tão alta em aquelas monstruosas nuvens que contei, que quando desceu foi muita dela cair em partes de Portugal, na cidade de Coimbra e seus termos e arrabaldes, e muito mais além, na cidade de Braga.
Acharam estes mareantes, uns e outros, no mar muitos bois e outro gado de toda a sorte, muitos mortos, e muitos e grandíssimos paus e árvores inteiras com seus ramos, folhas e raízes, e outras chamuscadas e muitas meias queimadas e torcidas, trinta, quarenta léguas da ilha, pelo que mais afirmaram e tiveram para si ser a ilha perdida; e vinham com grande receio e temor de em algumas relíquias dela se perderem.
Indo desta ilha um mareante para Lisboa, o Bretão, de alcunha, se achou com sua caravela em meia travessa o dito dia de S. Pedro, onde caiu também a dita cinza e choveu sobre eles de tal sorte que lhe deu grande trabalho. E depois os alcançaram as obscuridades que aconteceram no mesmo dia, em que foram em trevas como em obscura noite; e por muitos lós e bordos que faziam nunca se puderam livrar delas até outro dia, que viram a lux ; e até chegarem a Lisboa lhe choveu a dita cinza tanto, que lhe foi necessário às pás deitá-la fora, o que lhe deu grande tribulação e medo, sem poderem determinar a causa. E assim chegaram, levando ainda muita dela, que muitos de terra vinham ver e perguntar, desejando saber cousa tão monstruosa, porque já tinham visto a que lá nos outros lugares havia caído, mas os do navio nenhuma razão lhe souberam dar disso.
Permitiu Deus, por sua grande misericórdia, que todos aqueles atribulados dias ventassem ventos da banda de ponente; pelo que se subverteu e acravou a parte da ilha que disse, porque se ventaram ventos de outra qualquer parte do levante, além de para a outra parte na mesma ilha se fazer outra tanta ou maior destruição, não há dúvida senão que as outras ilhas dos Açores para oeste desta, sem falta houveram de ser alagadas com aquela multidão de pedra e cinza que, para o leste, no mar caiu. Finalmente, alguns julgaram que faria este terramoto, de perda em toda a ilha, mais de duzentos mil cruzados. E outros afirmaram que a trezentos mil cruzados chegaria.