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A Tinturaria Vegetal em Alguma Ilhas dos Açores


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Cores das Ilhas

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A Amoreira e a Sericultura

 

Carreiro da Costa, 1945

De entre os problemas económicos em equação no arquipélago dos Açores, o da sericicultura é dos que mais tem apaixonado aqueles que, no decorrer dos tempos, vêm...

Agave (Babosa)

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agaveÉ uma planta muito disseminada nos jardins de algumas ilhas. Não sabemos se o  “Agave azul” (e a sua parente “Marginata”, com folhas às riscas...

Alguns Estudos Científicos sobre Agricultura Açoriana

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Departamento de Ciências Agrárias

http://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3

 

A influência da paisagem, dos factores ambientais e taxa de infestação na densidade na...

Depois do segundo terramoto que houve nesta ilha, se viu nela daí por diante uma praga que comummente se chama alforra nas searas e novidades do trigo e nas hortas, que tudo dana e deita a perder onde dá ou cai, da qual há muitas e diversas opiniões e pareceres acerca do que será, ou de que se gerará.
Uns dizem que é rocio do mar que com sua salsugem dana tudo, quanto alcança; outros dizem que vem da terra que ficou escaldada do fogo que se acendeu debaixo dela e a fez tremer e correr ribeiras dele por ela; outros dizem que vem do ar; e outros dizem outras cousas.
Mas, o que a mim me parece, não deve ser rocio do mar, porque também cai em terras e partes onde ele não chega; nem é da terra escaldada, porque em extremada terra, mimosa, rica e fértil, também chega; nem parece ser a causa o ar corrupto, porque os ares são mui delicados e sãos nesta ilha. Mas, cuido que é uma névoa que cai em cordas ou mangas, por algumas partes e não por outras, em um lugar, ora em outro, como vemos, em uma mesma terra dum mesmo sítio de igual qualidade e bondade, estar às vezes a seara ou horta em uma courela danada e perdida, e em outra que não a aparta senão uma extrema, sã e salva. E onde cai esta névoa sobre as folhas do trigo parece ferrugem, e nas das favas ou ervilhas, ou meloeiros, ou pepineiros, hortalice ou ervas, parece goteiras de cor ruiva como de mel e assim é doce como ele; donde alguns cuidaram que era o rocio de que as abelhas fazem o seu mel.
Mas, em pouco espaço se vão logo aparecendo umas malhas cinzentas onde aquelas gotas de rocio ou névoa caíram, e como peçonha que se bebe e fica o corpo ainda vivo, até que vai dar no coração e então acaba de matar; assim, caindo esta alforra nos meloeiros ou no trigo, principalmente nestas duas cousas , logo lhe acham a raiz podre e danada; e o trigo alforrado por ter a raiz como podre com aquela peçonha, assim o arrancam da terra como se fosse estopa e não estivesse apegado nela.
Esta alforra em cousas diversas faz várias cores: no trigo, cor de ferrugem; na hortalice, cor cinzenta; e nas favas, cor ruiva. Parece que, como camaleão, da diversidade das ervas em que cai, vem a variedade das cores que toma; e como o trigo é erva mais robusta e dura, toma nele cor de ferrugem, que é a mesma que traz quando cai, de cor de mel, quase ruiva e doce como mel; donde alguns dizem que delas fazem as abelhas o seu. E, porque a hortalice é mais branda, mimosa e húmida, amassando-se mais com a brandura e humidade, toma nela cor cinzenta, quase branca, e faz cheirar as hortas a maresia, depois que dá e cai nelas, tornando as verdes folhas brancas, com que parecem cobertas de polme e cinza.
Outros dizem que do muito atremoçar das terras nasceu a alforra, ainda que parece que também vem esta praga da fraqueza das mesmas terras, já muito cansadas, que não podem com tanto quanto os lavradores delas querem tirar, porque todos os anos continuamente as semeiam; e, se as deixassem descansar de uns para outros, ou, ao menos, de um para outro, como as terras de alqueive em Portugal e outras partes, dariam fruto; mas, apertam tanto com elas, que não só uma, mas duas e três novidades lhe querem fazer dar cada ano. E depois ficam para o outro que vem, cansadas e estériles, e de muito fracas sujeitas a bichos e alforra, que por esta causa mais penetra nelas, pelas achar matéria disposta e fraca, sem lhe poderem resistir e suster-se. Mas, se usaram nesta ilha de folhas, como em Alentejo, em que há terra de oito folhas, convém a saber, que não semeiam senão de oito em oito anos. E outra de duas folhas e de três, quatro, cinco, seis e sete, pode ser que não haveria nela alforra, nem outras muitas pragas que há. Mas, sobretudo digo que nenhum remédio humano basta para nos livrar das mãos de Deus, quando nos Ele quere castigar por nossos pecados, senão emendar as vidas e costumes, e chamar de coração por sua misericórdia e bondade. E pode ser que de os senhorios de fora da terra levarem o que ela não vale de renda, ou vem ela mesma a não dar nada, ou vem esta alforra e praga por castigo dos que mal se dizimam, defraudando o que devem ou dando a Deus o pior. Por isso, a um homem desta terra, indo a outra longe dela, lhe perguntou lá outro pela fertilidade desta ilha, e dizendo-lhe ele que tudo eram pragas e que já era estéril, respondeu o de fora: — nessa terra não pagam bem o dízimo, por isso é dessa maneira. Os senhorios que estão nela, pelo que vêem, fazem quitas aos pobres lavradores; mas os de fora não fazem senão mandar a seus feitores tirar pela carta, até trazerem alvarás que arrecadem suas rendas como fazenda de el-Rei, e mandar levar o que a terra não frutifica, nem dá, ficando os lavradores cativos com a carta, não de alforria, senão da alforra, em casa.
O que eu sinto desta alforra daquele tempo do segundo dilúvio para cá, parece que se mudaram os ares com o tempo, como muitas vezes em muitas partes acontece. E cai uma névoa no trigo que o faz como ferrugento, com que, a quem vai andar por entre ele, se enche o fato e calçado de ferrugem. E nas cousas verdes, como é hortalice, meloaes, pepineiros e aboboraes, caindo a mesma névoa, lhe faz nas folhas umas malhas brancas, como se caíram nelas goteiras de água branca de cal, e lhe faz dar um fedor ruim e importuno a quem anda nas hortas ou passa junto delas, danando-se os melões, pepinos e abóboras de tal maneira que não ficam para se poderem comer, de desgostosos, sem sabor. E o mesmo dano faz nas vinhas e em seu fruto.
Esta névoa, nesta terra, comummente lhe chamam todos alforra, assim a que cai no trigo como nas hortas; mas em Portugal se chama ferrugem a que cai no trigo, de cor ferrugente e, ainda que é a mesma névoa, mas branca, a que cai nas hortas, ou também no trigo, lhe chamam mangra, e aqui alforra. A razão por que tenha este nome, não se sabe, senão que me parece ser posto como outros muitos nomes que se põem ad beneplacitum, porque assim o quiseram pôr sem nenhuma razão de etimologia, nem significação alguma. Mas, o nome de Portugal parece fundar-se com razão, porque mangra parece que se diz de manga, como ela cai em mangas de nevoeiros que tomam uma corda, parte ou listra de terra, e outra não. Ou também, porventura, se diz mangra de mancha, porque põe umas manchas e nódoas brancas e cinzentas nas folhas da hortalice e nas cousas sobreditas das hortas ou algumas vezes no trigo.
Antes deste terramoto segundo, não havia esta praga nesta ilha, e se alguma ferrugem se achava no trigo algum ano, quase se não enxergava, nem sentia. Parece que, assim como Deus quis espantar e ameaçar estes povos desta ilha com o espantoso tremor da terra e fogo que dela saiu, assim a quis também castigar com esta praga. E o que de uma escapou, comeu e gastou a outra que depois veio e ficou, que foi esta alforra. A qual parece que quere dizer al fora, que outra cousa era e fora no tempo passado, ou como se dissessem — já que se colheram alguns melões, pepinos e abóboras sãs, antes que ela caísse, e depois de cair tudo dana, todo o al que nas hortas fica fora com ele e deita-se a longe, pois nada vale, nem aproveita. Ou se chama alforra, porque forra os homens de trabalho porque, como ela cai, não procuram de trabalhar nem beneficiar mais as hortas, polas terem por perdidas. E porque todos os anos cai esta alforra, quase todos não querem já semear estas cousas, nem fazer hortas delas, principalmente da banda do norte. E assim esta alforra os forra do trabalho que nisso houveram de ter se a alforra não fora, que parece ser nome mourisco, o qual eu não entendo.
Se me perguntarem porque razão antes do terramoto, ainda que havia alforra, não se sentia dano dela, por ser pouco ou nenhum, e agora depois do segundo terramoto faz tanta perda nas novidades e hortas, responderei com alguns pressupostos que põe o doctíssimo mestre Aleixo Vanhegas, no capítulo vigésimo primo do seu Livro Natural, os quais entendidos, ficara melhor entendida esta questão e que cousa seja alforra.
O primeiro pressuposto que se há-de notar é que os filósofos dividiram o ar em três partes: a mais alta, por estar junto ao fogo, além de seu calor natural, está sempre quente; a mais baixa, que está ao redor da terra e da água, está quente pela reverberação dos raios do sol; a do meio, que nem participa do fogo de riba nem da reverberação de baixo, está fria, não por sua natureza, senão pola frialdade das frias exalações que vão fugindo do calor como de inimigo. Isto assim pressuposto, o fogo espalha, estende e alarga os humores dos corpos que toca, como o vemos no vapor que sobe da água que ferve e no fumo do pau que se queima; assim é certo que, tocando os raios do sol a água e as terras húmidas, as há-de fazer evaporar e fumegar. Parte destes vapores se fica na primeira parte do ar, e parte sobe à segunda; e alguns são tão sotis que penetram até a terceira, que é a suprema. Aos fumos que sobem à terceira parte, chama Aristóteles, no primeiro livro dos Metheuros , exalações; em linguagem, lhe chamamos fumos quentes e secos, a maneira do fumo que sai do tiro de pólvora, ainda que, quando estes fumos topam com nuvens grossas no caminho, não nas podem penetrar e por isso se ficam na meia região do ar.
De todas as impressões que se fazem no ar, a primeira é a névoa, porque é vapor que sobe menos que todos os outros; porque, assim como o sol o alevantou da terra ou da água, achou o ar circunstante frio, mediante o qual se começou a condensar e a encolher-se e a engrossarse e, pelo conseguinte, a fazer-se pesado, pelo qual lhe foi forçado a cair; e, porque este vapor se alevanta por virtude do sol, que excede ao frio, segue-se que nas partes mui frias onde se apouca a força do sol, não ousara alçar cabeça a névoa, porque o grande frio a faz estar queda, que se não bula. Daqui se pode convencer a opinião de João de Sacrobusto , no livro primeiro Da Esfera, que diz que debaixo dos nortes há ordinárias e contínuas névoas. A razão diz o contrário, porque é ali tanto o frio nos seis meses que tem de noite, que não deixará levantar a névoa, como vemos cá, que quando amanhecem os campos gelados não se alevanta névoa, porque a reprime o grande frio. Tampouco diremos que tem névoa de dia, porque como o sol ande seis meses arréo, sem se pôr sobre a terra, que corresponde aos nortes, já que baste ao princípio a levantar vapor da névoa, antes de cinquenta horas a faz subir a riba ou consume, porque, como anda o sol ao redor do horizonte, entra-lhe pelos lados e assim a disgrega , aparta e divide. Esta razão conforma com a que diz Plínio no segundo livro de sua Natural História, no capítulo sexagésimo, desta maneira: — Nebulas nec aestate nec maximo frigore existere — que as névoas não se levantam no estio nem no frio demasiado.
O segundo pressuposto é que o segundo vapor se chama rocio, o qual se alevanta do calor que imprimiu o sol na terra ou na água. Aqueles sutis vapores não puderam cair com a presença do sol, que os tinha na primeira região, em forma do bafo, e ainda passou sobre eles a meia noite até que refrescados com o frescor que começa de meia noite por diante, se congelaram em gotas e por pesados caíram e conservaram-se nas ervas e árvores. Este rocio, quando se condensa e espessa a maneira de neve feita pelourinhos, como confeitos pequenos, é o que se chama maná, que se congela especialmente nos salgueiros. E, se antes que com o vento sul se converta em água, este vapor se regela com o vento norte, se converte em pruína, que é a geada que amanhece nos telhados e campos. Deste rocio que cai no verão e no outono, chamado saliva cerata, fazem as abelhas o mel; e as brisnas que estão no meio da frol, fazem os vasos de cera no favo; de maneira que quando dizemos mel de alecrim ou de queiró, não havemos de entender que o mel se faça desta ou daquela frol, senão porque se envasa nesta ou naquela vasilha, que tal sabor toma qual é a vasilha em que se envasou. E, como no estio se consume o vapor sutil pola grande quentura, e no inverno sobem vapores grossos e descem em chuva, neve ou pedra, e por conseguinte nestes dois tempos, inverno e estio, não cai o rocio de que se possa fazer mel; por isso as abelhas com o instinto natural que tem, a maneira das formigas, a fazer provisão para o tempo da necessidade, fazem os vasos de cera para os encher daquele rocio que trazem em seus bicos, em os quais, sem o meter em seus corpozinhos, se lhes torna mel. E, se guardam aquele rocio nos vasos de cera, não o fazem de caridade para que as creste seu dono, mas fazem-no por seu proveito, para se bastecer daquele rocio no verão, para o estio, e no outono, para o inverno. Com este mesmo rocio se emprenham os peixes de concha, que cai sobre as águas e faz uma teagem branca, e dali a tomam, em alvoreando.
Afora outras impressões que no ar se fazem, como são frescor, nuve, neve, chuva e raio, que deixo de dizer porque não pertencem à alforra, vemos que algumas vezes chove terra, sangue, leite e azeite. E, acerca dos gentios, se tinha esta maneira de chuva por tão contra natura, que Júlio Obsequente, no livro de Prodígios, conta estas maneiras de chuva entre os prodígios e monstros da natureza; sendo na verdade uma cousa tão natural e tão conforme à razão como todas as outras impressões. Porque, assim como as águas das fontes tomam o sabor e cor das terras por onde passam, assim os vapores que sobem em alto tomam a cor das terras donde subiram. Há aí uma terra vermelha, como é a de almagra e de vermelhão; o vapor que desta terra subir, será de cor de sangue. Há aí outra mui branca, o vapor da qual imita ao leite. Há aí outra oleosa que tira à grossura do azeite o vapor da qual imita ao azeite.
Há aí outras exalações que são puramente terrestres, secas e frias, as quais subidas em alto, apertadas com ventos que correm contrários, cairão a maneira de terra. E assim não será contra razão natural chover terra. Também acontece que o ímpeto grande do vento levante cópia de pó em uma parte e levá-lo a outra, e cessando o vento, chovesse aquele pó, como choveu em Braga e em outras partes de Portugal a cinza que desta ilha se alevantou com o fogo. E dizem os que não vêem estas cousas que contra natura chove terra, o qual é tão natural como chover rãs e sapos, que se geram na meia região do ar, assim como de calor e fumo se soem gerar na terra.
Outro pressuposto, diz o mesmo mestre, que algumas vezes caem pedras quando caem os raios; mas estas pedras são mui distintas do raio, porque assim como na terra, pela conjunção do vapor húmido e frio com a exalação quente e seca, se geram pedras e minerais, assim acontece que entre os vapores e exalações suba pó, pela violência do vento, e se faça todo uma massa tão empedernida pola fortaleza do fogo que aquele pó se ajunte a uma parte e caia com o raio, feito uma pasta negra, tão dura como uma pedra. E se este pó é de natureza ferrugínea, cairá uma pasta de ferro, como foi uma de que faz menção Avicena.
Assim é de notar que só onde caiu o cinzeiro e pedra pomes, misturado com enxofre, salitre ou rosalgar ou outros materiais secos, nesta ilha, cai a alforra, ou nas partes propínquas, que é quase em toda a ilha, porque as exalações que o sol, com seu calor, alevanta das tais terras cobertas disto, são secas e quentes e de ruim e venenosa qualidade; e misturadas as tais exalações com o pó do cinzeiro, que o vento alevanta e leva ao ar, torna a cair, feito como rocio e mel viscoso e cinzento ou ferrugento, em algum nevoeiro, sobre as searas e hortas, empeçonhentando-as, com que lhe dana o fruto e rama, o que não faz, nem há tanta alforra, em outras partes desta ilha mais apartadas dos lugares onde caiu o dito cinzeiro e pedra pomes.
Destes pressupostos sobreditos, em que se declara que cousa é névoa e rocio e exalações secas e quentes, se pode coligir o entendimento desta dúvida acima proposta. Verdade é que, dantes do segundo terramoto, havia esta alforra e ferrugem no trigo somente, sem fazer algum dano mais que pegar-se no fato ou calçado de quem andava por entre ele, tornando-o de cor de ferrugem, que eram relíquias fracas dos terramotos antigos que aqui houve. Mas, a que agora cai, em alguma névoa, faz grande dano nas searas e as deita a perder, porque com o segundo terramoto tão fresco se cobriram grande parte das terras desta ilha de cinza e pedra pomes, com algum enxofre, salitre, pedra hume e peçonha ou rosalgar. E, também parece com o tremor ficar toda a ilha abalada com algumas comissuras abertas, pelo que sobem as exalações e fumos da terra ao ar, com algum enxofre e materiais destes peçonhentos, mais secos e prejudiciais e de má qualidade, com algum pó da cinza, que se alevanta com o vento ao mesmo ar, e assim misturados com as névoas que também se alevantaram das exalações corruptas, tornam a cair e, com sua ruim qualidade, fazem dano e empeçonhentam as cousas mais delicadas e mimosas que tocam, como são o trigo e sua folha ou espiga, que está mais verde e mimosa, e as hortas dos melões, pepinos e abóboras e cousas semelhantes, que logo pecam, definham e murcham, e cheirando as hortas mal, como maresia ou peçonha, se perdem. Finalmente, tudo o em que cai a dita alforra ou névoa alforrada o faz estéril e corrompe. Esta é a razão que alcanço saber, porque, depois de cobertas algumas terras com a praga já dita de cinzeiro, pedra pomes e peçonha, com o segundo terramoto cai a alforra, e faz tão grande dano, o que dantes não fazia por a terra não ter sobre si coberta tão fresca e prejudicial, de que saem exalações de tão má qualidade que criam a alforra que deita a perder tudo; e a névoa enxofrada, caindo nas searas ou hortas, aquentando-se com os raios do sol, as assa e cose de tal maneira que se perdem muitas delas, e isto chamam alguns alforra ou causa dela. Tudo pode ser. Mas, concluindo, digo que do sobredito se colige que a principal razão e causa é que o céu, quero dizer, o ar, dá à terra o que dela recebe, porque das exalações que dela a ele se alevantam, conforme a qualidade delas, assim gera e dá o ar ou cometas, ou relâmpagos e trovoadas, ou frescos e saudosos orvalhos, ou névoas misturadas com as exalações corruptas, de má qualidade, que chamam alforra, que faz tanto dano e perda na terra, donde se alevantaram. E, se esta só razão e causa, e cada uma das atrás ditas, por si não abasta para gerar a alforra, algumas delas ou todas juntas, ajudando umas às outras, poderão ser a causa dela. Algumas vezes o suão, como são os nordestes e levantes, ensoam e danam as searas e frutos, não somente nesta ilha, mas também em outras muitas terras. E a cada um destes danos comummente chama o povo alforra.