Os micaelenses, com coragem procuraram então atenuar a crise provocada por este desastre, fazendo tentativas de novas culturas, como a do chá que vingou, a do tabaco, que facilmente se adaptou, e finalmente, feitas as experiências necessárias, vingou também o ananás, que veio substituir com vantagens nítidas, as exportações da laranja. Sirva-nos de exemplo a força de vontade e iniciativa dos homens de tempera de há um século, que tão grande prestígio souberam dar à nossa Terra, além da lição de espírito associativo... que tanta falta faz actualmente.

Fizeram-se as primeiras estufas e os ananases começaram por ser cultivados em vasos. Dentro das variedades cultivadas, a que melhor produziu e mais facilmente se adaptou, foi a Smooth-Cayenne. Não seria justo omitir, na história do «ananás micaelense», o nome do inteligente industrial, Senhor José Bensaúde, a quem cabe a honra de ter sido o primeiro cultivador de ananases.

A pouco e pouco os micaelenses foram estudando a cultura, fazendo constantes experiências, seguindo inteligentemente o que melhor lhes aconselhava a prática.

A 12 de Novembro de 1864, fazia-se a primeira exportação, com magníficos resultados. O entusiasmo pela cultura cresceu e foram construídas as primeiras estufas, destinadas à cultura do ananás para exportação, ficando assim formado o núcleo, donde irradiaram todas as estufas, que a seguir se foram construindo.

Em Janeiro de 1874, o «Gardener’s Chronicle», diz: «a cultura do ananás na Ilha de S. Miguel tem tomado grande incremento; a última colheita realizou interesses de consideração nos mercados ingleses, sendo a sua qualidade reconhecidamente superior à dos frutos de produção estrangeira».

Em Abril do mesmo ano, o Senhor Ernesto do Canto, sócio da Sociedade Promotora de Agricultura Micaelense, convida numa palestra, os sócios e cultivadores ilustrados, a estudarem a cultura e a comunicarem as suas observações, para serem devidamente comparadas, e se deduzir delas, as regras práticas duma cultura aperfeiçoada, sobretudo no que dizia respeito ao solo, humidade, ar atmosférico, calor e luz.

Esta proposta teve o melhor acolhimento, porque o jornal «O Cultivador» cujo proprietário e redactor era o ilustre Senhor Guilherme Read Cabral, proporcionou a publicação de valiosos artigos sobre ananases, de carácter técnico e estatístico.

Em 15 de Julho seguinte, Manuel Botelho Gusmão, escreve sobre estufas, terra, plantação, tratamento e frutificação sob o título de Guia do Cultivador de Ananases na Ilha de S. Miguel, numa publicação do n.° 19 do mesmo jornal.

Em Setembro, o horticultor belga, Francisco José Gabriel, expõe novas teorias técnicas, sobre a cultura forçada.
Em 1875 estavam construídas estufas para 40.000 ananases, em determinadas regiões de S. Miguel, principalmente na área Sul, pois chegaram à conclusão que na parte Norte, só nos sítios mais soalheiros, o ananás produzia regularmente e na maior parte dos casos, apenas vegetava, onde se conclui que a cultura do ananás, para maior felicidade nossa, constitui um monopólio, de certas regiões da Ilha de S. Miguel.

Relação das estufas para ananases existentes na Ilha de S. Miguel em 1933
Concelho de Ponta Delgada
Freguesia da Matriz 12
Freguesia de S. José 91
Freguesia S. Pedro 312
Arredores
Freguesia de S. Roque 764
Freguesia Fajã de Baixo 910
Freguesia Fajã de Cima 129
Freguesia dos Arrifes 48
Freguesia das Capelas 71
Freguesia de S. Vicente 27
Concelho da Lagoa 158
Concelho de Vila Franca do Campo
Freguesia de S. Miguel 500
Freguesia S. Pedro 90
Freguesia Ponta Garça 120
Concelho da Ribeira Grande 16
TOTAL 3.258

Por esta altura, quando o Senhor Manuel Botelho de Gusmão procedia a experiências sobre o calor artificial, cedido por fornos situados por baixo das próprias estufas, verificou com grande desgosto que uma das abóbadas, mal construída, rachara, deixando passar o fumo para uma estufa. Bendito acaso que tão bons resultados deu: a frutificação, que tão irregularmente se dava, nessa estufa defumada verificou-se ao mesmo tempo em todas as plantas. Estava descoberto o fumo,
A partir desta descoberta, como é óbvio, a cultura do ananás tomou um carácter de tal forma industrial, como nenhuma actualmente possui.
Em 1913, exportavam-se ananases para a Inglaterra, Alemanha e Rússia, principalmente. Nesse ano a exportação foi de 184.100 malotes; 1.463 quartos (meias caixas) e 116 grades, (contendo cada grade 1 ou 2 ananases, excepcionalmente belos, num vaso com a sua planta) com cerca de 2.000.000 de ananases, que produziram a bonita soma de 200.000 libras.
Em 1914-18, deu-se a primeira crise de exportação, por causa da Grande Guerra, normalizando-se tudo anos depois. Em 1925, no «Boletim Agrícola» e Económico da Sociedade Corretora, L.da, é publicado um artigo sobre a actuação do fumo.
Segundo consta, foram os Drs. Lee Kingth, William Cooker e F. Denny que, estudando o assunto, chegaram à conclusão que a acção do fumo era devida à etilena proveniente das combustões incompletas, actuando quando em pequena dose, pela propriedade de acelerar os processos vitais das plantas, entre os quais, a respiração e assimilação. Dessa aceleração de funções, resulta um avanço na floração, na frutificação e até no amadurecimento dos frutos.
Entre as duas Grandes Guerras, a cultura atingiu o auge. Em 1933, faz-se a concentração de venda dos nossos ananases em Londres, Hamburgo e Berlim. A exportação total de 1 de Janeiro de 1920 até 31 de Dezembro de 1933, foi de 1.728.381 caixas.
Rebenta a segunda Guerra Mundial e com ela, os micaelenses atravessaram uma nova crise, mais séria que as outras, pela paralização duma actividade que atingiu toda a gente. Sua Magestade, o rei da fruta, chegou a ser vendido nos ceirões de burro a $50. Muitos cultivadores pobres arruinaram-se por completo, ora vendendo as estufas por uma miséria, ora arrancando os vidros e armação de madeira, para cultivarem ao ar livre outras culturas com restos de terra já exausta. Estufeiros, leiveiros, jornaleiros, carroceiros, pedreiros, carpinteiros, pintores, etc, todos gente que vivia das estufas, atravessaram também a sua crise de desemprego. Os cultivadores médios cultivaram sem renovar a terra, ou renovando muito pouco, sem contudo conservarem o madeirame e as ferragens. Assim se foram perdendo muitas estufas e arruinando muitos cultivadores, porque as exportações eram apenas limitadas ao Continente.