Freguesia de Praia do Norte

População: 231

Actividades económicas: Agro-pecuária, exploração de pedra e areia e pequeno comércio

Festas e Romarias: Divino Espírito Santo (Pentecostes), S. Pedro (29 de Junho) e Nossa Senhora da Penha de França (8 de Setembro)

Património: Igreja matriz, ermida da Fajã e império do Espírito Santo

Outros Locais: Miradouro da Costa Brava, Ribeira das Cabras e Praia da Fajã

Gastronomia: Massa sovada, filhós, inhame com linguiça, cozido de carne de porco salgada e torresmos de vinha de alho

Artesanato: Cestaria, trabalhos em casca de milho, rendas e bordados

Colectividades: União Vulcânico Futebol Clube

Orago: N. Sra. das Dore

 

DESCRITIVO HISTÓRICO

Praia do Norte é uma das povoações mais belas e pitorescas da ilha do Faial. No Verão e na Primavera, as hortênsias e também outras flores enchem de cor os seus campos, os quais, em perspectiva, podem ser admirados a partir de um imponente miradouro, implantado no cume de um morro, junto à baía de Ribeira das Cabras.

O seu clima é temperado e suave, com francas amplitudes térmicas, registando-se as temperaturas mais elevadas, em Agosto, e as mínimas, em Fevereiro.

O seu aglomerado populacional, composto por aproximadamente 231 habitantes, ocupa uma área de 14 km2, a qual integra os seguintes lugares: Fajã, Praia de Baixo e Praia de Cima.

Praia do Norte é uma das povoações mais antigas da ilha do Faial.

O seu solo foi, desde muito cedo, conhecido como bastante fértil em cereais, leguminosas e frutas de todos os géneros. Todavia, em 1672, rebentara um vulcão que cobrira de lava as suas extensas campinas de terra arável.

Na verdade, já em 1671, se vinham sentindo frequentes abalos sísmicos, cuja intensidade ia gradualmente aumentando. Praia do Norte e Capelo eram as povoações em que aqueles mais se acentuavam.

Segundo Américo Costa, no seu “Dicionário Corográfico”, grande parte dos habitantes de ambas as freguesias teria ficado atemorizada com o que estava a suceder. Foram abandonando as suas moradias, e abrigando-se em pequenas barracas. Todavia, “ subitamente, à uma hora da madrugada, ouviu-se um formidável ribombo, seguido imediatamente de violentíssima erupção vulcânica. Dois rios de lava incandescente tomaram respectivamente as direcções do norte e do sul, tendo esta última destruído o que existia no lugar onde se ergue hoje a Ribeira do Cabo. A do norte, depois de breve pausa no lugar de Lameiros,” alcançou a freguesia de Praia do Norte, “convertendo-a, a breve trecho, em disforme montão de pedras e terra calcinadas”.

O casario da povoação ficou completamente destruído e os seus campos tinham ficado verdadeiramente arrasados. No entanto, revela Américo Costa, parece não ter havido desastres “pessoais a lamentar.” Mas tinha sido “tal o pânico produzido pela catástrofe no espírito dos habitantes da Praia do Norte, que em acção de graças por lhe terem sobrevivido, fizeram voto de festejar o Divino Espírito Santo, dando em seu louvor, no dia de Pentecostes, mil esmolas aos pobres, compostas de pão, carne e vinho, voto que se transmitiu de geração em geração”.

Em 1673, a freguesia de Praia do Norte acabou por ser extinta, aparecendo então integrada na freguesia de Capelo, à qual transmitiu o seu orago.

Depois daquela erupção vulcânica, registada em 1672, os seus habitantes, gradualmente, foram revelando empenho em valorizarem as suas terras, as quais plantaram de vinhas, figueiras e outras árvores, vindo a transformar-se Praia do Norte numa fértil horta e num lindo pomar.

A criação de gado, sobretudo bovino, ovino, caprino e suíno, registava-se ainda na povoação, bem como a exploração florestal.

António Lourenço da Silveira Machado refere que esta freguesia, no século XVIII, tinha já 712 habitantes, distribuídos por 180 fogos.

Foram construídas novas casas e foi reedificada a Igreja de Nossa Senhora das Dores, a qual acabou por ser elevada a paroquial, e nela se instituíra novamente a freguesia, que tinha um só pároco, através do seguinte alvará, que textualmente passamos a transcrever:

“Tomando em consideração o que me representaram os moradores do lugar da Praia do Norte da ilha do Faial sobre os gravissimos incommodos que lhe ressulta de pertencerem a freguezia de Santissima Trindade do lugar de Capello, não só pela distância que ficam; mas também pela escabrosidade dos caminhos que os separam d’ella.

E atendendo a’s informações que se me deram da extensão e população actual do referido lugar da Praia do Norte, e bem assim a respeito de todos os fundamentos e circunstancias apresentadas pelos ditos moradores em favor da sua pretensão, hei por bem conformando-me com o parecer do conselheiro procurador geral da cerca, ordenar que sem prejuízo das medidas que hajão de tomar-se quando se proceder à definitiva reforma ecclesiástica da ilha do Fail, seja provisoriamente erecto um curato sufraganeo no lugar de Paria do Norte, constituindo-se a paróquia na capela de Nossa Senhora das Dores, situada no mesmo lugar e arbitrando-se para congrua annual do respectivo cura a quantia de 250$000 reis que sera paga pelo producto dos disimos.

O conselheiro João Cardoso da Cunha Araújo ministro e secretário dos negócios ecclesiásticos e de justiça o tenha assim entendido e faça executar.

Paço das Necessidades em o 1º d’outubro de 1839 = Rainha = João Cardoso da Cunha Araújo.”

É, contudo, na data de 1845, que celebra definitivamente a elevação a paróquia de Praia do Norte, na igreja paroquial de Nossa Senhora das Dores.

Esta igreja, no século XVII, era uma antiga ermida, a qual, ao longo dos tempos, sofreu variadas transformações e ampliações, constituindo-se, em finais do século XX, como um templo verdadeiramente moderno. Outrora, no altar dedicado à sua padroeira, encontrava-se também o Santíssimo Sacramento. Tinha também uma capela, sufragânea dedicada a Nossa Senhora de Penha de França, edificada em 1787, por José Nunes da Silveira, no então chamado sítio da Fajão.

O equilíbrio administrativo durante um certo período perdido, parecia ter-se restabelecido. Porém, em meados do século XX, as vinhas da freguesia sofreram um grande flagelo. Mercê de tal situação, que afectou também outras freguesias do concelho da Horta, e ainda de significativas perdas registadas nos laranjais e campos de batata de todo o concelho, Praia do Norte veio a sofrer uma nova orientação económica. Mais do que reorganizar o quadro agrícola do concelho, interessava fomentar o comércio e a exploração náutica. Desenvolvera-se a pesca e a construção de embarcações, e as principais fontes de rendimento do concelho provinham, de forma bastante considerável, do desenvolvimento das actividades comerciais e náuticas.

Todavia, o trabalho no campo, apesar de todas as crises, registadas, sobretudo, com a erupção vulcânica de 1672, parece ter tido sempre uma importância muito especial para as gentes de Praia do Norte.

Américo Costa, revela que outrora, o trajo tradicional feminino era, no seu tempo, ainda usado por muitas mulheres, sobretudo, as de mais idade. Caracterizava-se pelo uso de “saia comprida e muito rodada; blusa larga, abotoada à frente e solta por fora da saia; lenço desatado, caído para as costas; chapéu de palha, de grandes abas e copa pequenina; por cima do lenço; alparcas – uma espécie de sandálias forradas simplesmente por uma sola, que se prende à volta dos artelhos por meio de fitas ou cordões de couro”.

Na verdade, e um pouco à semelhança do que acontecia com as populações de outras freguesias do concelho da Horta, não obstante o gosto por tudo quanto era moderno e significava progresso, havia sempre algo, que aquelas gentes, curiosamente, insistiam em preservar, sobretudo as mulheres. Observe-se, por exemplo, o que nos diz António Lourenço da Silveira Macedo, na sua obra “História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta”, sobre esta particularidade hortense, talvez, efectivamente, mais feminina, do que masculina: “apezar da paixão pelas modas e por tudo o que é moderno, não tem sido possível desaparecer da cidade a antiquíssima e extravagante moda de uns capotes de panno fino azul muito rodados com um enorme capucho entretelado que torna a dona inacessivel às vistas curiosas”.

Praia do Norte, actualmente, para além da actividade agrícola, faz ainda representar no seu quadro de desenvolvimento económico a exploração pecuária, a extracção da pedra e da areia do mar e ainda o pequeno comércio.

O artesanato, contribui também para o incremento económico da freguesia. Produzem-se interessantes trabalhos em vime, casca de milho, sendo ainda de salientar as suas rendas e bordados.

A sua gastronomia, sem dúvida, importante cartão de visita de Praia do Norte, caracteriza-se pelo inhame com linguiça, pelo cozido de carne de porco salgada, pelos torresmos de vinha d’alho, pela massa sovada, pelas filhós e também pela rosquilha.

As suas festas, nomeadamente, a festa do Espírito Santo, são muito famosas e concorridas. Todos os anos, centenas e centenas de pessoas, acorrem a Praia do Norte, vindas de todos os cantos da ilha, para participar num evento, que afinal é de todos. A religião é o pretexto, porque desde há vários séculos, o Espírito Santo é evocado nos Açores, mas, para além da própria religiosidade de um povo, há toda uma componente cultural que já faz parte da própria tradição etnográfica do arquipélago e, neste caso concreto, da ilha do Faial.

O mesmo se poderá dizer da festa de S. Pedro, de Nossa Senhora de Penha de França e de Nossa Senhora das Dores. Realizam--se respectivamente a 29 de Junho, 8 de Setembro e no domingo seguinte ao dia 15 de Setembro. É certo que não têm a mesma tradição das festas do Espírito Santo, mas, são comemoradas desde há vários séculos, por uma população que, apesar de todas as contrariedades que já sofreu, continua com uma fé inabalável naqueles que, desde cedo, escolheu como seus protectores

 

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