Freguesia de Calheta de Nesquim

População: 460

Actividades económicas: Agricultura, pecuária, caça ao cachalote, serração de madeiras, oficina mecânica, panificação, pequeno comércio e vinicultura

Festas e Romarias: S. Sebastião (20 de Janeiro), S. Pedro Gonçalves (28 de Janeiro), Nossa Senhora de Fátima (16 de Maio), festa da Filarmónica (2.º domingo de Julho), Divino Espírito Santo (Pentecostes) e Bom Jesus (5/6 de Agosto)

Património: Igreja matriz, património baleeiro, capelas do Espírito Santo e de S. Sebastião, coreto e moinhos

Outros Locais: Porto de pesca, vistas panorâmicas, Canadas, Feteira e zona de veraneio

Gastronomia: Sopas do Espírito Santo, caldo de peixe, inhame com linguiça, bolo seco, rabo de gato e filhós

Artesanato: Trabalhos em madeira, em escamas de peixe, rendas, bordados e produtos em ossos de baleia

Colectividades: Sociedade Filarmónica Lira Fraternal Calhetense, União Desportiva Calhetense e Casa do Povo

Orago: S. Sebastião.

DESCRITIVO HISTÓRICO


Perdida como tantas no coração do Atlân-tico, entre a imensidão do mar, o negro das rochas e a verdura das alturas, encontra-se no meu íntimo a pérola mais bela e brilhante do Pico: a Calheta do Nesquim.

Situada na parte sul da ilha, a cerca de dezoito quilómetros da sede do concelho, a freguesia de Calheta de Nesquim agrupa os lugares de Fetais, Canada da Saúde, Jogo da Bola, Foros, Feteira e Canadas. Confronta a norte com Baldios, a sul com o Oceano, a leste com a freguesia das Ribeiras e a oeste com a freguesia da Piedade.

Junto à costa, perto de um morro bem alto, por volta de 1680, um homem chegado de algures no seu barco, diz para o cão, seu inseparável companheiro: “Salta Nesquim”. Assim ficou aquele lugar baptizado pelo morro do cão (depois morricão). Devido à sua estrutura geográfica, foi denominado Calheta, juntando-lhe o nome do cão Nesquim.

A paróquia de S. Sebastião de Calheta de Nesquim já existe desde 1680, pelo menos, pois sabemos que nesse ano já existia um pequeno templo, não se sabe de que invocação. A actual igreja paroquial, da invocação de S. Sebastião, começou a ser construída em 1852, sob as ruínas de um anterior templo que ali existiu no século XV. A construção demorou, no entanto, oito anos. Foi seu grande impulsionador o Pe. António Silveira de Ávila, que chefiou o rebanho de Calheta de Nesquim durante muito tempo.

Em 1948, foram colocados novos sinos e um relógio no frontispício da igreja. Ao mesmo tempo, foram colocadas novas imagens religiosas, que representavam Santa Filomena e Santa Teresinha. Tudo isto seria possível graças a Lourenço Oliveira, daqui natural e ao tempo emigrante muito bem sucedido nos Estados Unidos da América. O templo tem duas torres sineiras e adro ajardinado virado para o mar. Em 1983, a igreja foi totalmente rebocada, graças ao esforço de Emília Vieira da Silva, Junta de Freguesia, Câmara Municipal e Governo Regional dos Açores. Mais tarde, com a ajuda de José Gonçalves Silva (José do Ernesto), foi colocado um carrilhão para bater as horas no sino.

Freguesia virada para a pesca e agricultura, foi-se desenvolvendo e apenas tinha 61 anos de idade quando sofreu um ataque de argelinos vindo em 4 galés, saqueando tudo por onde passavam. Em vez de chorar a sua sorte, há um arregaçar de mangas, uma vontade de vencer, e desde sempre este povo tem vindo a vencer gardualmente com uma vontade que só é peculiar no homem do Pico, que é honesto, trabalhador, leal, com um coração de manteiga, mas firme como uma rocha.

Em tempos, foi considerada uma das mais desenvolvidas freguesias do concelho de Lajes do Pico. Tinha um porto de despacho, uma frota baleeira e pesqueira invejável, uma fábrica de derreter o cachalote e um comércio próspero e desenvolvido para a época, onde o movimento diário se tornava quase festivo. Era por muitos assim considerada a “Rainha Sul do Pico”.

A caça do cachalote representou uma das mais importantes actividades económicas da freguesia de Calheta do Nesquim. Aqui nasceu, em 1876, a primeira armação de caça ao cachalote. Hoje em dia, os inúmeros objectos relacionados com esta pesca, que ainda existem um pouco por todo o lado, representam a memória de uma actividade que muito contribuiu ao longo dos anos para o sustento das populações.

Introduzida por baleeiros americanos, a caça ao cachalote fazia parte da vida de toda a gente, porque a maior parte das famílias, senão a sua totalidade, tinham alguém ligado ao negócio. O simples grito de “baleia à vista” fazia sair ao mar canoas cheias de homens valentes, cujo sustento dependia desse gigante dos mares. Dele se extraia o óleo e o espermacete, que depois era utilizado no fabrico de perfumes. Os dentes eram distribuídos aos tripulantes da canoa, que nas horas vagas se dedicavam à arte do “scrimshaw”.

Hoje, perdura a saudade de um passado bem recente, que dá a esta gente uma vontade de ultrapassar todas as dificuldades para um futuro digno, onde um homem com mãos calejadas pelo cabo de alvião e o remo delineam notas belas na nossa centenária filarmónica enviando mensagens de esperança numa cultura bem sonante e marcante.

Calheta de Nesquim é uma das pérolas mais preciosas que encastoa o colar do Pico. Ali, a vista salta de lado para lado, tentando uma captação total do feitiço diamante, numa freima de memoriar tanta graça, tanta ternura, tanta fulgurância. E queda-se, apática e ofuscada, no “Terreiro da Preguiça”, a olhar, a reter, como se ali fora o Monte Tambor, como se ali a luz tivesse uma luminosidade mais intensa, numa antecipação beatífica.

Calheta de Nesquim. Local onde se consubstanciou o ideal do belo, que se procura, tantas vezes, baldadamente... E onde se sente o evocar e o repercutir, em ar de mistério, da cantiga simples, da cantiga singela, mas apaixonada.”

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