Freguesia de Sete Cidades

População: 850

Actividades económicas: Agricultura, agro-pecuária e comércio

Festas e Romarias: Divino Espírito Santo (Maio), Festa do Padroeiro (2.º domingo de Agosto) e Semana Cultural (Julho)

Património: Igreja matriz, Casa do Eng. Caetano de Andrade, Casa do Canteiro, Casa dos Cães, fontenários e Túnel de Escoamento das Lagoas

Outros Locais: A freguesia em geral

Gastronomia: Inhame

Artesanato: Trabalhos com folha de milho e espadana, bordados, cestaria de vimes, miniaturas em madeira e ferrador

Colectividades: Banda “Lira das Sete Cidades”, Grupo Folclórico “Vale Encantado”, Grupo de Jovens de S. Nicolau e Grupo de Romeiros

Orago: S. Nicolau

 

DESCRITIVO HISTÓRICO


Situa-se esta freguesia na parte oeste da ilha de S. Miguel, nas Cumieiras da Bretanha. Dista cerca de 32 km da sede do concelho de Ponta Delgada e é limitada pelas freguesias da Bretanha, Remédios, Relva, Feteiras, Candelária, Ginetes e Mosteiros. Tal como a freguesia das Furnas, esta povoação localiza-se no interior de uma cratera, estendendo-se pela margem oeste da Lagoa Azul.

Esta cratera é uma espécie de fosso de grande profundidade, de 12 km de circunferência, completamente fechada em toda a volta. No fundo, espraia-se água onde se reflecte o arvoredo que abunda nas vertentes.

Apresenta este vale uma lagoa principal, maior que as restantes, conhecida por Lagoa Azul, e outra, a sul, conhecida por Lagoa Verde, seguindo-se outras lagoas ou caldeiras menores: a de Santiago, a Rasa e a do Alferes. Junto à margem da lagoa maior, destaca-se uma povoação de casas brancas.

O solo, extremamente poroso, permite o escoamento das águas através das fendas do basalto. Todavia, não sendo suficiente este escoamento, foi construído um túnel que garante a estabilidade do nível da água.

Sete Cidades emergiu das entranhas de um vulcão, cujo cone gigantesco a isola do mar e do mundo. Foi em consequência dos grandes cataclismos sísmicos verificados em 1444, que se formou a sua bacia hidrográfica. O nível das águas das lagoas está aproximadamente a 251 metros do nível do mar, sendo de 19 metros, a sua maior profundidade.

O primeiro documento que menciona os Açores como terra já descoberta, foi passado em 1439 pela chancelaria de D. Afonso V, inferindo-se da sua leitura o intuito de mandar povoar as ilhas, para o que já fizera o trabalho preliminar da distribuição dos animais necessários à alimentação do homem, tendo ficado ligado a esta tarefa o nome de Frei Gonçalo Velho, primeiro capitão donatário das ilhas de Santa Maria e S. Miguel.

Todavia, o povoamento de S. Miguel só teve lugar a partir de 1474, isto é, depois de Rui Gonçalves da Câmara ter comprado a capitania da ilha a João Soares de Albergaria, em grande parte devido às dificuldades de comunicação com o Continente e porque os portugueses procediam aos primeiros ensaios de navegação no mar alto.

Assim, com ampla experiência colonizadora adquirida na Madeira, foi ele quem promoveu a vinda de colonos e quem procedeu à divisão e distribuição das terras, para serem arroteadas e cultivadas.

Segundo reza a tradição, os descobridores aportaram a um lugar que se haveria de chamar, mais tarde, Povoação Velha. Continuaram depois até Vila Franca do Campo, para finalmente chegarem a Ponta Delgada.

Inicialmente, esta povoação foi um pequeno povoado de pescadores atraídos pelas suas seguras enseadas. Assim, o povoamento da ilha de S. Miguel processou-se a partir do litoral, sendo, portanto, desabitado, nos primeiros tempos, todo o seu interior. Tal também aconteceu a Sete Cidades.

Posteriormente, e por iniciativa do Dr. José Bettencourt, no sentido de aproveitar as suas propriedades na Caldeira das Sete Cidades, foi estimulada a fixação de trabalhadores no seu interior e encorajada a construção de casas de habitação, facilitando a cedência de terrenos por arrendamento, como também de materiais de construção.

De acordo com o Pe. Lopes da Luz, por volta de 1791, Sete Cidades contava já com seis famílias, apresentando em 1970, 820 habitantes. Pouco tempo após o descobrimento e povoamento da ilha de S. Miguel, era vila somente Vila Franca do Campo, sendo os moradores dos outros locais obrigados a deslocar-se a esta vila. Ora, como em Ponta Delgada residiam homens nobres e poderosos, com grandes fazendas que os capitães da ilha lhes haviam dado, enceta-se um período de rivalidades entre ambas as localidades, descontentes que estavam estes homens, por serem obrigados a ir a Vila Franca.

Assim, após graves atritos entre as duas povoações, Nuno Gonçalves Botelho instituiu o vínculo da Ribeira da Abelheira, em Ponta da Garça, tendo residido primeiro em Vila Franca, e depois em Rosto de Cão. Foi nesta altura que Ponta Delgada se separou de Vila Franca do Campo e o elegeu seu juiz. Deste modo, Ponta Delgada foi vila de 1499 a 1546, sendo elevada a cidade por carta de D. João III, datada de 2 de Abril de 1546.

Por Decreto Lei n.º 40/71, de 18 de Fevereiro do mesmo ano, a povoação de Sete Cidades é elevada à categoria de freguesia, desanexando-se da freguesia de Ginetes, nele constando o seguinte: “(...) Considerando que tanto as freguesias de origem – Ginetes, Mosteiros, Bretanha e Remédios – como aquela que se pretende criar ficarão a dispor de recursos suficientes para ocorrer aos seu encargos (...)”.

Acerca da sua elevação a paróquia, pode ler-se o seguinte: “(..) Considerando que o curato de S. Nicolau das Sete Cidades, lugar da paróquia de S. Sebastião dos Ginetes, ilha de S. Miguel (...); Considerando que tem uma igreja (...) considerando que possui cemitério (...) havemos por bem: a) desmembrar o curato de S. Nicolau das Sete Cidades da paróquia de S. Sebastião dos Ginetes e erigi-lo em paróquia com todos os direitos e privilégios e deveres expressos no Código de Direito Canónico, sendo a Igreja de S. Nicolau das Sete Cidades, considerada paroquial (...)”.

Esta Igreja de S. Nicolau, de estilo neogótico, foi construída no século XIX, passando a ser sede de curato e de paróquia, na segunda metade do século XX.

A origem do nome Sete Cidades perde-se nos tempos. O número 7 foi na mitologia, e é-o na religião e na história, um símbolo de virtudes e tradições. Conta-se que este topónimo teria tido a sua origem no número de grotas e ladeiras “que corriam ao cimo da cumieira entre alto e fresco arvoredo, até se encontrarem em um campo chão onde estão as alagoas e se fazem ruas mui largas e chãs na dita praia da areia, sem arvoredo, como cidade rodeada, ou porque o parece naquela concavidade, a quem a vê de cima, da alta encumeada, como outro mundo baixo (...)”.

Segundo a tradição popular, o nome é consequência da existência de sete crateras resultantes de erupções vulcânicas, que deram origem às lagoas Verde, Azul, Rasa, Canário, Santiago e Caldeira Seca e do Alferes.

As mais antigas actividades dos habitantes das Sete Cidades, consistiam na lavagem da roupa e panos para corar, que iam buscar às casas e estabelecimentos comerciais de Ponta Delgada, assim como o fabrico de carvão vegetal, aproveitando a lenha dos matos.

Para o fabrico do carvão, os carvoeiros cortavam a lenha nas encostas que circundavam as lagoas. Depois, procediam à abertura de covas, no fundo das quais colocavam as “acendalhas” (lenha moída e seca), a que deitavam fogo. Com a lenha previamente rachada preenchiam a cova e, após o lume bem ateado, cobriam a lenha com folhagem verde, sobre a qual colocavam uma camada de terra para impedir uma total combustão. Passados dois dias, abriam as covas retirando então o carvão, que vendiam em Ponta Delgada, onde era utilizado para uso doméstico.

Há alguns anos atrás, a população desta localidade também se dedicava à apanha do musgo e das amoras. O primeiro, era recolhido dos baldios e matas, seco no pátio das casas e carregado em vacas ou à cabeça para a cidade.

A excessiva e contínua exploração de leiva para as estufas de ananás, não dando tempo para uma reconstituição da vegetação, tem vindo a tornar os terrenos desta região erosionáveis. Uma outra consequência negativa desta sobre-exploração, traduz-se no decréscimo do gado caprino por falta de alimento e, consequentemente, na diminuição do fabrico de queijo de cabra, especialidade das Sete Cidades.

Actualmente, as actividades que predominam são a agricultura e a pecuária. Porém, a agricultura é apenas um meio de subsistência, sendo a sua produção para consumo interno da comunidade, o mesmo não acontecendo com a pecuária.

Nesta freguesia há uma indústria de panificação havendo, no entanto, muita gente que ainda coze em casa o seu pão de milho e algum pão de trigo.

Integra esta povoação o Cerrado das Freiras, local situado na margem leste da Lagoa Azul, onde outrora habitavam algumas pessoas aqui residentes e que, nos dias de hoje, se transformou num local de veraneio.

Diz a tradição que as freiras do Convento da Esperança, por ocasião do desembarque de tropas francesas no areal do Rosto de Cão, aqui se refugiaram, ficando desde então conhecido este local por Cerrado das Freiras.

Um outro lugar merece especial referência – Vista do Rei. O seu nome deriva do facto de ali terem estado o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia, em 6 de Julho de 1901, aquando da visita efectuada a S. Miguel.

O Cerrado das Freiras e Vista do Rei, são miradouros privilegiados sobre a Lagoa das Sete Cidades.

A origem das diferentes cores das lagoas é explicada por uma lenda, segundo a qual um pastor e uma princesa, vendo o seu amor contrariado, terão chorado, criando os enormes espelhos de água da cor dos seus olhos.

Em torno das lagoas existem encostas cobertas de pastos, árvores e flores, sobressaindo as conteiras de flor amarela, cujas folhas eram aproveitadas para enrolar o queijo feito em S. Migue.

Desde 1980 a Caldeira das Sete Cidades é Área de Paisagem Protegida.

Paredes-meias com as lagoas, situa-se esta freguesia, cujas casas foram construídas pelos próprios moradores. Lado a lado com as habitações, estão as ‘burras de milho’, suportes feitos com madeira onde o milho é colocado a secar, e os ‘garnéis’, depósitos de madeira assentes em pilares de pedra, onde são guardados os cereais e as alfaias agrícolas, longe da água e dos roedores.

A distância do mar e a disposição do relevo que circunda o vale das Sete Cidades, impediram desde sempre um mais amplo contacto desta população com as outras localidades. Assim, a vivência dos habitantes do vale, como que parou no tempo.

Isolados do contacto com o exterior, confrontando-se com condições naturais duras, viu-se esta gente na necessidade de por si própria sobreviver, vencendo as adversidades de um meio pobre e agreste, devido a condicionalismos climáticos e morfológicos.

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